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sábado, 31 de agosto de 2019

Hernán Cortés e os Astecas - A conquista do México pelos Espanhóis - 6.ª Parte


Continuação de:

27-Julho-2019 - 1.ª parte (ver aqui)
03-Agosto-2019 - 2.ª parte (ver aqui)
10-Agosto-2019 - 3.ª parte (ver aqui)
17-Agosto-2019 - 4.ª parte (ver aqui)
24-Agosto-2019 - 5.ª parte (ver aqui)
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Numa espécie de farsa trágica, Moctezuma foi acolhido nos aquartelamentos espanhóis com os maiores sinais de respeito. Deixaram-no escolher aposentos a seu gosto e rodear-se dos luxos habituais. Continuou acompanhado pelas suas mulheres e pelos servidores domésticos. A mesa era-lhe servida com a pompa e a abundância do costume. Nos dias seguintes, pôde continuar a receber os súbditos e a dar audiências como se estivesse no seu palácio.
Os invasores, por sua vez, persistiam nas demonstrações de respeito: ninguém, incluindo o comandante, se acercava dele sem destapar a cabeça e sem lhe prestar as honras devidas. Da mesma forma, ninguém se sentava na sua presença sem que ele autorizasse.

Estas demonstrações de acatamento não podiam esconder, todavia, o facto essencial: Moctezuma não era mais do que um refém dos Espanhóis. Provavam-no as extraordinárias medidas de segurança com que o rodeavam: diante do aquartelamento havia sempre, dia e noite, uma guarda de dezenas de homens, tal como sucedia nas imediações dos seus aposentos. E provou-o, também, a terrível sorte do governador Cuauhpopoca e dos quinze nobres que o acompanhavam, chegados finalmente a Tenochtitlán. Julgados num processo sumaríssimo conduzido por Cortés, foram todos condenados a morrer na fogueira, sentença logo executada na praça fronteira ao aquartelamento. Moctezuma, como é evidente, nada pôde fazer.

Cortés sentiu-se suficientemente forte para exigir de Moctezuma o reconhecimento da soberania do rei de Espanha. O imperador, como que vivendo um pesadelo, acabou por aceder, diante dos seus nobres, a mais esta imposição. Tal como concordou em pagar tributo àquele desconhecido e misterioso monarca que vivia do outro lado dos mares. Por sua parte, entregou sem demora o tesouro que fora do seu pai. E os seus arrecadadores de impostos espalharam-se pelo império a recolher ouro e prata para os invasores. 
Como remate deste longo processo de extorsão e humilhações, os Espanhóis obtiveram autorização do imperador - ainda que relutante - para instalar um altar cristão no grande templo onde os Astecas continuavam a adorar os "ídolos malditos".

Subitamente, um novo e distante acontecimento veio captar a atenção e as preocupações de Cortés. Com efeito, chegou-lhe a notícia de que, no litoral, próximo de Veracruz, desembarcara Pánfilo de Narváez, enviado pelo governador de Cuba - com 19 navios e um exército de quase mil homens - para o submeter à sua autoridade.
O comandante não perdeu tempo. Deixando um dos subordinados, Pedro de Alvarado (futuro conquistador da Guatemala), à testa da guarnição em Tenochtitlán, partiu para a costa com uma centena de homens. Quando localizou as forças de Narváez, em Cempoala, resolveu agir de surpresa e atacou-as durante a noite, sob chuva torrencial. A vitória foi total. Narváez, que perdeu um dos olhos no combate, acabou aprisionado. Cortés conseguiu depois uma coisa muito importante: à custa de promessas de ouro, a maior parte das tropas de Narváez passou para o seu lado.

Na altura em que se preparava para regressar a Tenochtitlán, o comandante recebeu a notícia de que os Astecas tinham montado cerco à guarnição chefiada por Pedro de Alvarado. Apressando a viagem, deu entrada na capital no dia 24 de Junho de 1520 e chegou ao seu quartel sem deparar com qualquer resistência.


Cortés foi então informado de que, na sua ausência, as tropas de Pedro de Alvarado tinham levado a cabo o horroroso massacre de seis centenas de nobres astecas enquanto eles se entregavam, no templo, a cerimónias rituais em honra dos seus deuses. Alvarado explicou ao comandante que receara um levantamento dos índios e que resolvera antecipar-se. Mas a sua versão foi posta em dúvida até hoje. Primeiro, porque a cerimónia asteca fora precedida de um pedido de autorização a que ele próprio anuíra; segundo, porque as vítimas se achavam desarmadas e indefesas; terceiro, porque o que se seguiu ao massacre não passou de um assalto, em que as vítimas foram despojadas das suas jóias pela soldadesca espanhola.
Cortés reagiu com aspereza às justificações de Alvarado. Disse-lhe que procedera mal e que não fora digno da confiança que nele depositara - em síntese, que ele se havia conduzido como um louco. Contudo, e embora lhe tivesse voltado as costas na ocasião, não se pôde dar ao luxo de dispensar os serviços de um oficial daquela têmpera. 

Fosse como fosse, aquele dia - em que pereceu a fina flor da nobreza asteca - marcou uma importante viragem nas relações entre a população da cidade e os invasores. O ódio, longamente sustido por um medo supersticioso, soltou-se de vez: o ambiente da cidade tornou-se hostil para com os brancos e deixou de lhes ser fornecida alimentação. Foi até concretizado um primeiro, ainda que mal sucedido, ataque ao quartel. Quando Cortés reentrou na cidade, a situação mantinha-se tensa e não se adivinhava nada de bom para os Espanhóis. Ouviam-se ao longe, pela primeira vez, ameaçadores gritos de guerra. Grupos de populares empenhavam-se em destruir as pontes levadiças dos passadiços por forma a impedir a eventual fuga dos agressores.
O comandante sentiu que a situação se tornaria em breve insustentável, não tanto sob o ponto de vista militar - o quartel-general estava rodeado por um muro de pedra eriçado de canhões e arcabuzes - mas por razões de abastecimento: ele tinha agora que alimentar diariamente mais de mil soldados, bem como milhares de aliados tlaxcaltecas, e não via forma de o fazer.

Na madrugada seguinte, soou o alerta: aproximava-se uma enorme multidão ululante, encabeçada por aquele que os Astecas - na ausência de Moctezuma - pareciam ter escolhido como novo chefe: Cuitlahuac, irmão do imperador, desde sempre partidário da guerra contra os estrangeiros. Cortés, quando viu o inimigo a distância conveniente, deu ordem de fogo, lançando a confusão e o pânico nas linhas avançadas dos atacantes. Mas logo surgiram novas ondas de guerreiros, passando por cima de mortos e feridos, gritando e disparando setas incendiárias. Ao mesmo tempo, postadas nos telhados fronteiros, mulheres e crianças faziam tombar sobre os invasores uma chuva de pedras. A luta prolongou-se por todo o dia, mas o quartel espanhol logrou aguentar-se. Cortés, protegido por intenso fogo de artilharia, realizou uma surtida com a cavalaria e com centenas de guerreiros tlaxcaltecas, mas a oposição asteca foi tão feroz que ele teve que retroceder para o quartel após sofrer algumas baixas mortais.
O comandante, que até então menosprezara a capacidade militar daquele povo, compreendeu que tentar uma evasão de Tenochtitlán em tais condições constituiria um suicídio. Ele próprio recebera na refrega desse dia uma grave ferida na mão. Resolveu, por isso, pedir ajuda àquele que mais razões teria para recusá-la - o imperador Moctezuma.


O comandante, auxiliado pelo padre Olmedo, solicitou então ao soberano asteca que intercedesse junto do povo para que este permitisse aos Espanhóis uma saída pacífica da capital. Moctezuma respondeu com tristeza que o povo já não acreditava nele e muito menos nas promessas dos brancos. É impossível que possais sair daqui com vida, rematou. Cortés insistiu no pedido, e de tal maneira o fez que o imperador, exausto, concordou em dirigir-se ao povo.

Quando Moctezuma surgiu no topo do palácio, com as suas vestes e insígnias imperiais, fez-se um silêncio sepulcral entre a multidão que cercava o edifício. Alguns arrojaram-se ao solo em sinal de respeito. O imperador, em termos extremamente afectuosos, procurou falar ao coração dos que o ouviam. A sua intenção, segundo crêem muitos historiadores, residia sobretudo em poupar as vidas dos seus súbditos - e não as dos Espanhóis. Por isso, numa suprema tentativa de apaziguamento, insistiu na versão de que não se achava cativo, mas que, pelo contrário, poderia abandonar aquele quartel quando lhe aprouvesse. Os brancos - prosseguiu - eram seus hóspedes e estavam agora na disposição de se irem embora. Era portanto necessário que o povo lhes desimpedisse a passagem e os deixasse partir em paz. Concluiu dizendo que todos deviam depor as armas e voltar às suas casas: logo que os hóspedes partissem, tudo voltaria a ser como dantes em Tenochtitlán.

As palavras de Moctezuma produziram uma reacção contrária à desejada. Após um surdo murmúrio de mau agouro, ergueu-se da multidão uma ensurdecedora vozearia de protesto, e tudo o que restava da submissão e da reverência devidas ao imperador se desfez naquele instante. Ele tinha razão: ninguém confiava já nas suas palavras e todos o consideravam, como amigo dos Espanhóis, um traidor do seu povo. A escolta espanhola, iludida pelo silêncio, aparentemente respeitoso, com que o discurso do soberano fora escutado, nada pôde fazer para o proteger do dilúvio de setas e pedradas que caíram sobre ele. Moctezuma sofreu vários ferimentos graves e tombou por terra, inanimado.
Como que aterrados pelo sacrilégio que acabavam de cometer, os sitiadores do quartel soltaram um imenso grito de espanto e deitaram a correr em todas as direcções. Em pouco tempo, da multidão que enchia a praça não ficou um só homem ou mulher.

Moctezuma fora entretanto transportado para os seus aposentos. Quando recuperou os sentidos, mergulhou num mutismo absoluto. Rejeitou os tratamentos que os Espanhóis lhe queriam ministrar e também recusou alimentar-se. Consciente do ponto de degradação a que chegara aos olhos do seu próprio povo, só ambicionava despedir-se da vida. Os Espanhóis, vendo que o seu estado se agravava nos dias seguintes, insistiram para que se convertesse à religião cristã. O imperador quebrou o silêncio para dizer ao padre Olmedo, que o acompanhava junto do leito empunhando um crucifixo, que jamais abandonaria a religião dos seus avós. Moribundo, voltou a falar para rogar a Cortés que protegesse os seus filhos. Expirou, em fins de Junho de 1520, nos braços de alguns nobres astecas que se lhe tinham mantido fiéis até ao derradeiro instante.

Continua em 7-Setembro-2019  (7.ª Parte - Conclusão)

sábado, 24 de agosto de 2019

Hernán Cortés e os Astecas - A conquista do México pelos Espanhóis - 5.ª Parte

Continuação de:
27-Julho-2019 - 1.ª parte (ver aqui)
03-Agosto-2019 - 2.ª parte (ver aqui)
10-Agosto-2019 - 3.ª parte (ver aqui)
17-Agosto-2019 - 4.ª parte (ver aqui)
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As notícias sobre o avanço implacável de Cortés abateram-se sobre a cidade de Tenochtitlán (México) como avisos de desgraça. Segundo relatos espanhóis, o imperador Moctezuma ter-se-á debatido até ao último instante com uma dúvida terrível acerca da verdadeira identidade do estranho visitante. Seria este um homem comum, a quem os seus exércitos talvez pudessem fazer frente? Ou tratar-se-ia, antes, de um enviado do deus Quetzalcoatl - que, nessa condição, não deveria ser hostilizado?
A angústia de Moctezuma, chefe político e religioso dos Astecas, era perfeitamente justificada. Ele sabia como tinham vindo a acumular-se, nos últimos tempos, os mais funestos presságios para o império. Por exemplo: uma enorme e resplandecente língua de fogo iluminara os céus havia dez anos; o pináculo de um templo do deus Huitzilopochtli pegara fogo sem razão aparente; caíra um raio sobre o templo do deus Xiuhtecutli  sem que as condições meteorológicas o justificassem; tinha-se revolvido em ondas enormes o lago da cidade e nos ares ecoara o lamento de uma mulher que anunciava a queda do império; surgiam repentinamente do nada figuras monstruosas que se desvaneciam diante de Moctezuma.

Os Astecas achavam-se realmente confusos e a sua divisão era evidente. Para uns, os invasores eram deuses, sendo inevitável que dirigentes e povo se lhes submetessem. Outros, porventura em minoria, acreditavam que se tratava de homens como quaisquer outros e que urgia combatê-los para os expulsar dali. No meio disto, Moctezuma, o valente guerreiro de outrora, esmagado pelos factos e pelas convicções religiosas, mostrava-se hesitante, pusilânime e incapaz de decidir.

Na dúvida, e visando esconjurar o perigo iminente, a cidade mergulhou numa vaga de preces e de sacrifícios rituais. Mas tudo foi inútil. No dia 8 de Novembro de 1519, transpostas as imponentes montanhas vulcânicas de Popocatepetl e de Ixtlaziuatl, os Espanhóis, acompanhados pelos seus aliados tlaxcaltecas, tiveram enfim diante dos olhos a fascinante - e inesperada - visão de Tenochtitlán, capital do império dos Astecas. O espectáculo foi de tal modo surpreendente e arrebatador que eles se convenceram de que estavam diante de uma civilização não só muito adiantada - mas, sobretudo, detentora de grandes riquezas.

Cortés imobilizou o exército a meio de um dos passadiços que, atravessando o lago, davam acesso à cidade, e foi aí que ficou à espera de Moctezuma. Na urbe, entretanto, parecia ter sido finalmente tomada uma decisão. Milhares de astecas apinhavam-se no caminho, enquanto outros se movimentavam em canoas pelo lago para virem ver de perto os visitantes. Surgiu pouco depois um extenso cortejo de nobres magnificamente ataviados - exibiam vistosos mantos de plumas, argolas de ouro no nariz e colares e pulseiras de turquesa. Quando chegaram perto dos Espanhóis pousaram no chão um sumptuoso palanquim com franjas de prata. Depois cobriram o solo com ricas tapeçarias bordadas e foi por elas que Moctezuma caminhou e se aproximou do comandante espanhol.



Os recém-chegados tinham finalmente diante de si o esquivo e poderoso imperador dos Astecas. Nas suas crónicas, descreveram-no assim: O grande Moctezuma contava cerca de quarenta anos, tinha boa estatura, era bem proporcionado, magro, da cor e do tom natural nos Índios. Não usava cabelo comprido, mas apenas tapando as orelhas. A barba, negra e pouco abundante, apresentava-se bem cuidada. O rosto era um tanto comprido mas alegre, e revelava, na sua aparência e comportamento, afabilidade e, quando necessário, gravidade.

Cortés, seguindo o costume espanhol, avançou para abraçar o soberano, mas foi barrado por dois cortesãos: Moctezuma era demasiado sagrado para poder ser tocado. O soberano deu as boas-vindas aos Espanhóis, num discurso que Dona Marina traduziu. Trocaram-se presentes. Cortés ofereceu a Moctezuma um colar de pérolas e de contas de vidro, recebendo em troca dois colares de conchas de caracol com oito camarões de ouro cada um. Os camarões de ouro eram símbolos sagrados do deus Quetzalcoatl. Os recém-chegados foram depois alojados no luxuoso palácio que fora do pai do imperador (já falecido), sendo-lhes servida uma copiosa refeição. Moctezuma regressou ao seu palácio de mármore e alabastro, e, como era costume, jantou sozinho.

Nos dias seguintes os Espanhóis puderam visitar Tenochtitlán, uma vasta metrópole cercada de água e que um labirinto de canais atravessava em todas as direcções. Ficaram maravilhados com as casas caiadas, os jardins em socalcos, os templos imponentes, os edifícios públicos monumentais, as vastos mercados repletos de gente.
Cortés foi por fim conduzido, juntamente com os seus companheiros, ao templo principal, uma enorme estrutura em forma de pirâmide. No cimo da íngreme escadaria, o comandante tinha à sua espera o próprio Moctezuma, o qual lhe tomou a mão e o convidou a admirar a grande cidade e as numerosas povoações edificadas em torno do lago.

Cortés apreciou a vista fabulosa. Mas ficou muito mal impressionado com os "ídolos malditos" que se viam no local e com as cerimónias religiosas que tinham lugar no topo do templo. Numa sala, viam-se braseiros com incenso de copal onde ardiam os corações de três índios imolados naquele mesmo dia. As paredes e o chão da sala estavam enegrecidos por sangue seco e todo o local exalava um cheiro nauseabundo. Cortés, o mais amavelmente que pôde, disse ao imperador que não compreendia como um homem sensato como ele podia acreditar naquelas coisas maléficas. Os sacerdotes astecas que acompanhavam a visita deram sinais de hostilidade. Moctezuma, diplomaticamente, disse a Cortés que, se soubesse que ele iria insultar os seus deuses, não lhos teria mostrado. O comandante, reprimindo os seus sentimentos, respondeu com alguma secura: Se realmente assim é, perdoai-me. E desceu a escadaria.


Os Espanhóis não poderiam ter desejado entrada mais facilitada na capital asteca nem acolhimento mais amistoso por parte do imperador. Mas este acolhimento, que se foi prolongando no tempo, começou a colocar Cortés numa situação difícil. Com efeito, ele tinha-se apresentado como um visitante pacífico, sem demonstrar o menor sinal de ambições de qualquer tipo, se se descontar o desejo de converter os anfitriões à sua religião (uma obsessão de que os invasores jamais se conseguiriam libertar). A sua atitude, obviamente, estava longe de ser sincera - o comandante era um conquistador, não um turista… -, mas ele necessitava de se comportar assim para poder fixar-se no coração do império asteca sem resistência militar.

Nesta altura, Moctezuma já devia ter perdido as ilusões de que se encontrava diante de deuses ou de quaisquer enviados destes. Mas entendeu rapidamente que poucas hipóteses teria de os enfrentar num eventual cenário de guerra. Não fora por acaso que Cortés mandara saudar, com disparos de artilharia, a boa recepção que tivera: tratou-se, acima de tudo, de uma assustadora demonstração de poder. Moctezuma captou a mensagem e, visando apenas a sobrevivência, resolveu entrar naquele jogo de ficção. Procurou, assim, neutralizar os recém-chegados com uma chuva de amabilidades e de presentes: eles eram atendidos e tratados diariamente como se fossem reis e todos os desejos lhes eram satisfeitos.

Cortés sentiu que aquela situação de paz podre não favorecia os seus interesses. Agora que se instalara em Tenochtitlán, só pensava em arranjar um pretexto para romper com os anfitriões e alcançar enfim o seu inconfessado objectivo: substituir a organização e as autoridades astecas pelas espanholas, ou, por outras palavras, liquidar o império asteca para o converter numa simples província do império espanhol. Principiou assim um hábil jogo de enganos entre o conquistador e a sua futura vítima, ou, se se quiser, uma espécie de jogo do gato e do rato.
Cortés procurava incessantemente o seu pretexto; Moctezuma fazia tudo para não lho oferecer. Convencera-se definitivamente de que, se a situação desembocasse num confronto bélico, a independência asteca estaria perdida sem remédio. Para além da superioridade militar dos estrangeiros, ele sabia que o império assentava em grande parte na opressão dos povos tributários, que não hesitariam em aliar-se aos invasores para combater os senhores de Tenochtitlán. Deste modo, o imperador intensificou as gentilezas para com os visitantes: continuava a cobri-los de presentes, levava-os a visitar os seus maravilhosos jardins suspensos e exibia-lhes as suas magníficas colecções de animais selvagens e aves exóticas. 



À medida que o tempo passava, crescia a apreensão dos Espanhóis: a seus olhos, Tenochtitlán estava a transformar-se numa prisão, ainda que dourada. Eles temiam que as cortesias dessem repentinamente lugar à hostilidade e que os Astecas resolvessem esmagá-los com a força do seu número. Cortés arquitectou então um golpe audacioso, baseando-se num episódio ocorrido, há algum tempo, no litoral onde edificara Veracruz. O comandante soubera do sucedido em Cholula, ainda antes de entrar em Tenochtitlán, mas guardara consigo a informação até a poder utilizar em altura mais oportuna. Após madura reflexão, concluiu que a ocasião havia chegado.
Acontecera que os Cempoaltecas, seguindo o conselho dos invasores, se tinham recusado a pagar os impostos exigidos pelos cobradores astecas. Quando estes, chefiados por Cuauhpopoca, um governador de província, quiseram recorrer à força para impor a lei imperial, o comandante que Cortés deixara à frente de Veracruz, Juan Escalante (ver 4.ª Parte), saiu com a guarnição da colónia em socorro dos seus aliados. Na luta que se travou, os Espanhóis acabaram por ficar donos do campo, mas perderam sete ou oito homens. O próprio Juan Escalante, ferido no combate, morreria dias depois.

Cortés, finalmente decidido a precipitar os acontecimentos e a reforçar a sua posição em Tenochtitlán, deslocou-se então, acompanhado pelos intérpretes, por cinco dos seus oficiais e por alguns soldados, até ao palácio de Moctezuma. Nas avenidas contíguas ao palácio imperial, destacamentos espanhóis garantiam a segurança da operação.
O imperador recebeu os estrangeiros com a amabilidade habitual. Persistindo no seu jogo de sedução, mandou distribuir por eles uma generosa oferta de ouro e jóias. Dispôs-se mesmo a presentear Cortés com uma das suas filhas - honra que o comandante recusou, com refinada hipocrisia, alegando que já era casado em Cuba e que a sua religião lhe proibia ter várias mulheres.

A conversa prosseguiu com amenidade, até que Cortés deixou cair a máscara e falou a Moctezuma das ocorrências de Veracruz, responsabilizando-o por elas. O imperador negou a acusação. Cortés respondeu que, assim sendo, o mal só poderia ser reparado com o castigo do governador Cuauhpopoca e dos seus cúmplices. Moctezuma concordou em chamá-los a Tenochtitlán para se apurarem as culpas, mas Cortés comunicou-lhe que, enquanto o assunto não estivesse encerrado, o imperador deveria transferir-se para o quartel dos Espanhóis. Moctezuma, pálido como um cadáver, começou por rejeitar o "convite". Cortés insistiu. Ao fim de duas horas de conversa, e quando os oficiais espanhóis já davam sinais de impaciência, ele concordou em acompanhar os invasores. Nas avenidas, enquanto se encaminhava para a nova residência, o imperador deu a entender aos súbditos que se deslocava de livre vontade.
Embora ninguém o dissesse em voz alta, todos se achavam compenetrados de que Moctezuma, o grande imperador dos Astecas, não passava já de um prisioneiro - e de um refém - nas mãos dos Espanhóis.

Continua em 31-Agosto-2019 (6.ª Parte - ver aqui)

sábado, 10 de agosto de 2019

Hernán Cortés e os Astecas - A conquista do México pelos Espanhóis - 3.ª Parte


Continuação de:
27-Julho-2019 - 1.ª parte (ver aqui)
03-Agosto-2019 - 2.ª parte (ver aqui)

Rumando ao Yucatán a partir de 18 de Fevereiro de 1519,  a frota de Cortés foi favorecida por um tempo bonançoso nos primeiros dias de viagem. O comandante tinha ordenado que os navios seguissem atrás dele e próximos uns dos outros. Durante a noite, uma luz colocada à popa da sua embarcação garantia que os navios não perdessem o rumo e que pudessem vogar na ondulação escura como uma matilha disciplinada.
O tempo mudou, todavia, subitamente, e os Espanhóis viram-se no meio de uma das tempestades tão frequentes na zona durante aquela altura do ano. Sacudidos por vagas alterosas, os navios progrediam semi-desgovernados e, perdendo de vista a luz do comando, em breve se dispersaram. Vários sofreram estragos consideráveis e quase todos se afastaram da rota que deviam seguir. Um após outro, contudo, conseguiram chegar a uma ilha habitada, Cozumel, que fica diante - e muito próxima - da costa oriental da península de Yucatán.

O navio de Cortés, que se atrasara para auxiliar uma das naves em pior estado, foi o último a chegar a Cozumel. E o comandante foi logo surpreendido por más notícias: um dos seus capitães, Pedro de Alvarado, aproveitara o avanço para invadir os templos da ilha e saquear os ornamentos que aí achou. O seu procedimento fora de tal ordem que a população, constituída por índios maias, se tinha refugiado em massa no interior da ilha, mantendo prudente distância em relação aos recém-chegados.

Cortés ficou furioso, pois aquela conduta contrariava a política de diplomacia que tencionava adoptar enquanto pudesse. Censurou asperamente o oficial prevaricador diante de todo o exército, após o que fez vir à sua presença dois homens aprisionados por Alvarado. Recorrendo a um tradutor índio - Melchorejo, que já acompanhara a expedição de Grijalva -, explicou-lhes que o objectivo da expedição era pacífico e que não queria fazer mal ao povo. Enchendo-os de presentes, pediu-lhes que informassem os fugitivos de que poderiam regressar sem receio de serem molestados.
A iniciativa do comandante surtiu efeito. Tranquilizados, os índios logo volveram aos seus lares e iniciaram relações amistosas com os europeus. Estes presentearam-nos com facas e quinquilharias variadas, ao que eles corresponderam com a oferta de vistosos adornos de ouro.


Apesar da atitude conciliadora com que ultrapassou o incidente provocado por Alvarado, Cortés não esquecera que um dos primeiros objectivos da Coroa espanhola naquelas terras era a conversão dos habitantes à fé cristã. Era por isso que expedições como aquela podiam ser encaradas como autênticas cruzadas. Os Espanhóis estavam convencidos de que a sua religião era a única verdadeira e de que os índios "pagãos" só teriam a ganhar se abandonassem para sempre os seus hábitos de idolatria. A recompensa deles, segundo os invasores, seria a salvação das suas almas, que de outro modo ficariam condenadas às penas eternas. Para alcançarem a conversão dos índios, todos os meios se consideravam legítimos: tanto valia a persuasão como o emprego da força. Ou seja: o que as palavras não conseguissem catequizar seria catequizado pela espada. 

Era assim que se pensava na época, e Cortés não constituía excepção. Tal como os seus subordinados, ele escandalizava-se com os hábitos religiosos do povo de Cozumel, ainda que não fossem ali muito frequentes os sacrifícios humanos. Por isso, começou por recorrer aos bons ofícios de dois clérigos que trouxera consigo, Juan Diáz e Bartolomé de Olmedo. Os homens da igreja procuraram convencer os índios de quão abomináveis eram as suas crenças e de como era pura e salvífica a religião que lhes queriam dar em troca. Depois pediram-lhes que os deixassem destruir os ídolos que guardavam nos templos: para os padres, como para os restantes expedicionários, aquelas imagens não passavam de genuínos retratos de Satanás.

É duvidoso que o intérprete Melchorejo tenha logrado transmitir, com um mínimo de fidelidade, ideias tão complexas e abstractas como as que Olmedo e Diáz queriam fazer chegar às gentes de Cozumel. Mas houve uma coisa que estas perceberam perfeitamente: os estrangeiros tencionavam privá-los dos seus deuses. Reagindo com horror ao que consideravam uma intolerável profanação, explicaram que aqueles eram os poderosos deuses que lhes enviavam a luz, a bonança, as tempestades, o sustento - tudo o que lhes permitia viver. E preveniram que, se lhes fosse infligido qualquer ultraje, eles, os deuses, fariam tombar raios fulminantes sobre os responsáveis.

Cortés, que se tinha abstido de intervir até então, concluiu que as palavras, por mais piedosas que fossem, não bastariam. E, embora não tenha feito uso da brutalidade que posteriormente se verificaria, resolveu o caso à sua maneira. Pensando que a melhor solução seria uma demonstração prática irrefutável, ordenou aos soldados que derrubassem dos pedestais as imagens veneradas e que as fizessem rebolar pelos degraus do templo abaixo. Em seu lugar mandou erguer um altar - onde foi colocada uma imagem da Virgem e outra de Jesus Cristo - e logo ali se celebrou a primeira missa. Como os índios estarrecidos puderam constatar, dos seus deuses, agora espalhados pelos terrenos circundantes, não vieram nem raios nem outra qualquer manifestação de vingança. Segundo as crónicas espanholas, alguns deles não tardaram a abraçar a religião cristã. Mas fica por saber se o fizeram pelo medo que lhes infundia aquela gente tão estranha, ou por estarem finalmente convencidos da total impotência dos velhos deuses. Afinal, estes nem sequer tinham sido capazes de defender os seus próprios lugares de culto.

A rota de Cortés (linhas vermelhas).
Desde Santiago, na ilha de Cuba (à direita), passando por Cozumel e contornando a península de Yucatán até fundar Vila Rica de Vera Cruz, no litoral mexicano (à esquerda).
Cortés levantou ferro da ilha de Cozumel no dia 4 de Março de 1519. Mas, antes disso, aconteceu algo de grande importância para a expedição: vindo das costas de Yucatán numa canoa, um grupo de índios trouxe-lhe um náufrago espanhol de anterior navegação. O homem, chamado Gerónimo de Aguilar, vivia entre os seus salvadores há cerca de oito anos. Cortés percebeu rapidamente a utilidade do recém-chegado: ele falava, com grande à-vontade, o idioma maia, que se utilizava na região a que iam ter acesso, pelo que poderia ajudar a resolver as insuficiências de Melchorejo enquanto único tradutor. Por essa razão, o comandante incorporou-o gostosamente na expedição.

Os navios começaram a bordejar o litoral do Yucatán. Acercando-se tanto quanto possível da costa, dobraram o cabo Catoche, atravessaram a todo o pano a vasta baía de Campeche e, pouco depois, chegavam à desembocadura do rio Tabasco (a que os Espanhóis chamariam rio Grijalva, em homenagem ao comandante da expedição anterior).
Ainda que o seu objectivo principal fosse alcançar o coração do império asteca, Cortés pretendia explorar aquela região e apurar o que pudesse sobre as suas riquezas. Por isso resolveu subir a correnteza do Tabasco (Grijalva) para atingir a grande cidade que se sabia existir nas suas margens. Os depósitos de areia no fundo do rio impediam, porém, a navegação da frota, pelo que Cortés embarcou em canoas com uma parte das forças. A progressão era lenta e penosa, pois as águas estavam cobertas de plantas aquáticas, cujas raízes, entrelaçadas, formavam uma rede quase impenetrável.
Nas margens surgiram entretanto guerreiros índios fazendo gestos ameaçadores. Cortés redobrou de precauções. Num lugar mais aberto, onde se concentravam muitos índios, recorreu ao intérprete para lhes pedir que o deixassem ir a terra. Mas eles brandiram as armas e ripostaram com gestos que expressavam cólera e desprezo. Cortés concluiu finalmente que ia ter que lutar. Retirou para uma pequena ilhota e ali passou a noite.


No dia seguinte, o comandante deu início àquilo que seria a sua primeira operação militar no território. Ainda que não contasse com a totalidade do exército, dispunha de bestas e de armas de fogo que, aliadas à enorme superioridade táctica, resolveram as coisas a seu favor. Desbaratados, os índios bateram em retirada e os Espanhóis entraram sem resistência na cidade de Tabasco, entretanto abandonada pelos habitantes. Cortés tomou posse da urbe em nome dos reis de Espanha.
Os índios preparavam, contudo, nova investida, agora associados aos habitantes dos povoados vizinhos. O seu número era, aparentemente, esmagador. Mas Cortés recebera entretanto reforços - em meios e homens. Nos navios da frota ficaram apenas os que, por qualquer razão, se achavam impossibilitados de combater. Foram trazidas para Tabasco sete peças de artilharia e uma outra novidade para se estrear na guerra: os cavalos embarcados em Cuba. Entorpecidos pela longa inacção, readquiriram em poucas horas de exercício as suas forças e agilidade.

Em vez de se deixar cercar em Tabasco, Cortés optou pela iniciativa do ataque. No dia 25 de Março de 1519, as tropas espanholas marcharam mais de uma légua, por vezes através de terrenos pantanosos, até se encontrarem com o grosso do exército inimigo. A luta foi intensa, mas o fogo da artilharia e dos arcabuzes varria as fileiras índias.
Subitamente, a cavalaria espanhola soltou o grito de guerra "Santiago e S. Pedro" e irrompeu no campo de batalha, com o metal dos elmos, das lanças e das espadas a reflectir sinistramente a luz do sol. Para os Tabasquenhos, esse foi o golpe final. Surpreendidos pela aparição daquelas criaturas monstruosas - eles pensavam que cavalo e cavaleiro formavam um único ser -, fugiram tomados de pânico, em muitos casos largando as armas e deixando de opor resistência.
Cortés, satisfeito com o triunfo, não cuidou de perseguir os vencidos. O sítio da batalha foi depois assento de uma povoação que se chamou Vila de Santa Maria da Vitória e que chegou a ser capital de província.

O comandante mandou libertar os prisioneiros que havia feito, incluindo alguns chefes, e fez espalhar a notícia de que os habitantes da terra nada teriam a temer da sua parte se deixassem de o hostilizar e lhe prometessem obediência. Caso contrário, seriam todos passados a fio de espada.
Os Tabasquenhos já não tinham alento para resistir. Acorrendo ao chamamento de Cortés, acercaram-se dele e, tal como ocorrera em Cozumel, foi possível iniciar contactos mais ou menos cordiais entre espanhóis e índios. Tiveram também começo umas tímidas relações comerciais, que contribuíram para o estabelecimento de um clima de confiança entre as duas partes.
Cortés foi obsequiado com diversos presentes pelos seus ex-inimigos. Alguns eram de ouro puro, e, quando o comandante pretendia saber de onde provinha o metal, os índios apontavam para o interior do território e respondiam: "México".
Entre as ofertas dos Tabasquenhos contavam-se vinte jovens escravas. Uma delas assumiria em breve um papel relevantíssimo na conquista espanhola do território.

Continua em 17 de Agosto de 2019 - 4.ª parte (ver aqui)

sábado, 3 de agosto de 2019

Hernán Cortés e os Astecas - A conquista do México pelos Espanhóis - 2.ª Parte

Hernán Cortés, nascido em Medellín, Espanha, em 1485

Continuação de 27-Julho-2019 (1.ª parte - Ver aqui)

Hernán Cortés, o homem que em breve corporizaria os terrores e a desgraça dos Astecas, vivia há anos em Cuba - a ilha do mar do Caribe que, estendida à entrada do golfo do México, entre a Florida e a península do Yucatán, parecia apontar ameaçadoramente, com a sua extremidade ocidental, para as terras longínquas de Moctezuma.

Em Espanha, Cortés iniciara estudos de leis na Universidade de Salamanca, mas não tardou a desistir deles. Dois anos depois trabalhava como escrivão da corte em Valladolid, mas logo concluiu que também não nascera para aquele tipo de existência sedentária. Em 1504 resolveu embarcar para vida mais aventurosa, nas então chamadas Índias Ocidentais, e acabou por fixar-se em Cuba, governada, ao tempo, por Diego Velásquez. Conseguiu, como funcionário do governo, reunir um conjunto considerável de bens, mas estava ainda longe da fortuna que ambicionava.

Por essa altura, os Espanhóis já deitavam olhares cobiçosos para oeste de Cuba. Nos últimos anos, as costas do golfo do México tinham sido bordejadas pelos seus navios e Diego Velásquez, o governador da ilha, achou as informações obtidas suficientemente auspiciosas para mandar expedições à península de Yucatán.
Em 1517 partiu a primeira expedição, comandada por Francisco Hernández de Córdoba, que alcançou fracos resultados. Em 1518 seguiu outra, chefiada por Juan de Grijalva. Ambas tiveram de enfrentar, nalguns locais, a resistência armada dos habitantes. Noutros pontos, todavia, sobretudo no caso de Grijalva, a recepção tinha sido amistosa, sendo mesmo possível reunir, a troco de bugigangas, algumas jóias primorosamente trabalhadas.

Grijalva regressou a Cuba com as jóias e com duas notícias de sinal diferente. Primeira: ele encontrara inesperadamente uns índios que se lhe haviam anunciado como emissários de um misterioso imperador, Moctezuma, que habitava muito para o interior do território. Além das jóias gentilmente ofertadas aos expedicionários, o imperador prometia-lhes amizade.
A segunda notícia era mais inquietante. Num dos ilhéus que exploraram, dentro de uma construção repleta de ídolos, os Espanhóis tinham deparado com uma cena horrorosa - cinco cadáveres de índios, recentemente sacrificados, naquilo que parecia corresponder a um qualquer ritual religioso.


Grijalva achara que correria riscos excessivos se se tivesse fixado num dos locais explorados. O governador Diego Velásquez pensava exactamente ao contrário e repreendeu-o por não ter tentado. Ao mesmo tempo, começou a congeminar o envio de outra expedição, desta vez conduzida por alguém mais expedito. Assim pensando, fixou-se na figura de Hernán Cortés, que, para além de ter colaborado na conquista de Cuba, servira durante algum tempo como seu secretário.

Os objectivos do governador eram múltiplos, mas rodavam todos em torno de um eixo fundamental: o de se criarem condições para a futura ocupação daquelas terras. A expedição deveria encetar relações comerciais com os habitantes; procuraria lançar bases para a sua conversão à fé cristã; instilaria neles o respeito pela grandeza e poderio do rei de Espanha; sobretudo, devia reconhecer a costa em pormenor, sondando as suas entradas e baías com vista a futuras navegações; devia informar-se sobre os produtos da terra, sobre as características dos diferentes povos, sobre as suas instituições e o seu grau de civilização; e devia elaborar acerca de tudo um relatório minucioso, a enviar oportunamente para Espanha, acompanhado de amostras dos produtos passíveis de comercialização. (Nota)

Cortés, convocado para o efeito, agarrou a oportunidade como se fosse a última da sua vida. Empenhou-se a fundo na organização da expedição e gastou nisso praticamente todos os bens que fora acumulando na ilha. A dado passo teve que recorrer a empréstimos, incorrendo numa dívida elevadíssima. Semelhante entusiasmo, associado à sua personalidade autoritária e às ideias próprias que professava - ele orgulhava-se de pensar pela própria cabeça -, começaram a suscitar as desconfianças do governador Velásquez, que se recordou então das fricções que tinham acontecido entre os dois no passado. As intrigas de alguns fizeram o resto. Assim, já convencido de que Cortés poderia transformar-se, em caso de êxito, num rival temível, o governador resolveu retirar-lhe o comando da expedição. Mais do que isso, pensou em metê-lo na prisão.


Cortés, prevenido a tempo, decidiu antecipar-se. No dia 18 de Novembro de 1518 levantou âncora do porto de Santiago de Cuba e fez-se à aventura da sua vida. Durante alguns meses rondou as costas da ilha, detendo-se sucessivamente em Trinidad e La Habana para completar os recursos humanos e materiais de que necessitava.
Diego Velásquez, numa derradeira tentativa de o neutralizar, expediu ordens para que o prendessem durante essas paragens, informando que o destituíra do comando da expedição. Mas não achou ninguém com disposição ou coragem para cumprir tais ordens: o rebelde era já suficientemente poderoso para dissuadir qualquer iniciativa do género.
Quando enfim se achou pronto para partir à conquista do império de Moctezuma, o comandante dispunha de 11 navios, de mais de seis centenas de homens capazes de combater (entre soldados e marinheiros), de 200 carregadores índios e de uns poucos auxiliares negros. O seu poder de fogo era considerável: além das armas individuais, como os arcabuzes, contava com dez peças grandes de artilharia e quatro peças ligeiras (falconetes), tudo servido por municiamento abundante. Seguiam ainda na frota dúzia e meia de cavalos, animais desconhecidos dos Astecas. 

Antes do embarque que os levaria ao Yucatán, Cortés dirigiu uma alocução motivadora aos seus homens. Ele era o tipo de líder que combinava sabiamente as manifestações de afecto e a severidade disciplinadora como suporte do seu carisma natural, o que lhe garantia um ascendente sem sobressaltos sobre os que o seguiam. Por isso o ouviram com credulidade e respeito quando ele lhes prometeu que os conduziria à glória, a mais sublime recompensa a que pode aspirar um homem.
Acreditaram igualmente que Deus - que nunca tinha abandonado os Espanhóis nos seus combates com os infiéis - os salvaria em qualquer provação, ainda que se vissem rodeados por uma nuvem de inimigos. Mas Cortés conhecia profundamente os seus ouvintes, pelo que acrescentou: se alguns ambicionam algo mais do que a fama, a riqueza, sejam-me fiéis como eu vos serei fiel; e prometo que vos farei donos de mais ouro do que aquele que qualquer europeu possa ter visto nos seus sonhos mais ambiciosos.

Esta oratória, assente no zelo religioso e na cobiça, produziu o efeito pretendido. Os expedicionários irromperam em aclamações delirantes e todos se mostravam impacientes por partir. Cortés, satisfeitíssimo com aquele entusiasmo, colocou a frota sob a protecção de S. Pedro e mandou celebrar uma missa.
No dia 18 de Fevereiro de 1519, os navios levantaram ferro e rumaram finalmente à península do Yucatán. 
..................

Entretanto, em Cuba, Diego Velásquez fervia de raiva. Mas, não se dando por vencido, começou logo a planear mais uma expedição, cujo comando confiaria a Pánfilo de Narváez. A ideia consistia em perseguir Cortés para, quando fosse oportuno, o meter na ordem de uma vez por todas.

(Continua em 10 de Agosto de 2019 - 3.ª Parte - ver aqui)

(Nota) - Itálico transcrito de: William H. Prescott, History of the Conquest of México, 1843, vol. 1

sábado, 27 de julho de 2019

Hernán Cortés e os Astecas - A conquista do México pelos Espanhóis - 1.ª Parte

Ao fundo: reconstituição de Tenochtitlán (actual cidade do México)


A origem dos Astecas perde-se na noite dos tempos. Mas acredita-se que chegaram ao vale do México, com outros grupos nómadas, por volta do século XIII.
As suas qualidades guerreiras fizeram com que, nos primeiros tempos, servissem como mercenários dos povos já fixados na região.

Em 1325 fundaram a sua capital, Tenochtitlán, no local onde se acha hoje a cidade do México. A urbe, magnífica, deixaria os Espanhóis maravilhados, quando eles apareceram para desferir o golpe fatal. Esse golpe, perpetrado por Hernán Cortés, antecedeu, em cerca de década e meia, aquele que o também espanhol Pizarro vibraria noutra grande civilização, a dos Incas (recordar aqui).

Tenochtitlán assentava numa ilha, a meio de um lago que seria posteriormente aterrado. O tráfego aquático era muito intenso, pelo que as estradas que ligavam a cidade às margens do lago se interrompiam em vários pontos por aberturas que deixavam passar as canoas. Para ultrapassar o vazio destas aberturas utilizavam-se pontes de tábuas que se podiam retirar sempre que necessário (por exemplo, em caso de ataque inimigo).

Cerca de 1430, Tenochtitlán entrou numa coligação militar com as vizinhas cidades de Texcoco e Tlacopán. A coligação conseguiu, após combates impiedosos, acabar com o poder dos Tepanecas, hegemónicos na região até essa altura.
Tenochtitlán foi aumentando o seu poder na Tripla Aliança, até que se tornou a potência dominante e, submetendo os povos da região, se tornou um império poderoso - o império Asteca.

A expansão asteca conduziu rapidamente à conquista dos lugares produtores de alimentos - o vale de Toluca, a oeste, e a costa do golfo do México, a leste -, bem como de todas as regiões da Mesoamérica Ocidental. Povos como os Tarascos, os Mixtecos, os Huastecos e muitos outros tiveram de ceder perante a força dos Astecas.
Só se registou uma excepção: a dos Tlaxcaltecas (habitantes da região de Tlaxcala), que resistiram ao ataque, mantiveram a sua independência e viriam a desempenhar um papel importante na altura em que os Espanhóis irromperam no território.

Reconstituição do centro de Tenochtitlán (cidade do México)

A expansão territorial dos Astecas modificou profundamente a sua organização social e política. Com os abastecimentos garantidos a partir das regiões conquistadas, o tecido social modificou a sua antiga base agrícola e converteu-se numa complexa rede de funcionários - guerreiros, sacerdotes, cobradores de impostos, artesãos e mercadores. À cabeça estava o imperador, simultaneamente chefe de exército e sumo-sacerdote. 

Um elemento essencial da coesão social asteca era a religião. Ao princípio, esteve sobretudo centrada na adoração dos astros: o Sol era a divindade que dava vida ao universo e que havia criado os seres humanos. Mais tarde, essa religião evoluiu para um complicado sistema politeísta, em que o primeiro lugar - de acordo com a índole belicista do povo - era ocupado por Huitzilopochtli, o sanguinário deus da guerra.

O terrível culto de Huitzilopochtli dominava a vida de Tenochtitlán. A ele se dedicara a grande pirâmide erguida no centro da cidade (ver acima), onde se celebravam os ritos em sua honra.
A parte fundamental desses ritos consistia em sacrifícios humanos, que os Astecas criam indispensáveis para que os deuses lhes conservassem as forças e pudessem manter vivo o universo.
Havia várias formas de imolar as vítimas. A mais comum consistia em abrir-lhes o peito, ainda em vida, para lhes extrair o coração, que era acto contínuo oferecido à estátua do deus.
O povo participava no ritual comendo pedaços de carne da vítima, dando-se prioridade aos sacerdotes e aos nobres presentes. 




Esta forma de culto dos Astecas chegou a atingir proporções monstruosas. Se, no começo da expansão imperial, praticamente só se sacrificavam os prisioneiros feitos nas batalhas, a partir de certa altura já se partia para a guerra com o único fito de capturar mais e mais vítimas para os deuses - especialmente para o insaciável Huitzilopochtli.

Os crânios das vítimas amontoavam-se aos lados do templo. Mais tarde, os invasores espanhóis chegariam a contar 136 000. Algumas fontes referem que só na consagração inaugural do templo se imolaram 20 000 seres humanos.

Entre muitos outros deuses, Tlaloc, deus da água, era objecto de especial veneração. Também em honra deste, como de muitos outros, se realizavam sacrifícios de morte. O costume estendeu-se aos deuses protectores das demais populações do império. À semelhança do que sucedia na capital, Tenochtitlán, os templos onde a mortandade tinha lugar eram sempre edificados em forma de pirâmide.

Um outro deus a que os Astecas atribuíam grande importância era Quetzalcoatl, a Serpente Emplumada, divindade herdada dos Toltecas. Segundo um velho mito asteca, Quetzalcoatl fora há muito expulso da terra por um deus rival, mas prometera voltar, vindo do mar oriental, sob a aparência de uma criatura barbuda e de pele clara - e provavelmente com o propósito de se vingar.

No ano de 1519 começaram a chegar notícias preocupantes a Moctezuma Xocoyo, o imperador asteca. Vindos dos pontos mais longínquos do território, correios especiais informavam que a profecia de Quetzalcoatl parecia em vias de ser confirmada.
Com efeito, homens estranhos, brancos e barbudos, tinham acabado de desembarcar nas praias do império. Não era a primeira vez que tal ocorria nos últimos anos. No entanto, os estrangeiros pouco se haviam demorado nessas primeiras visitas: tinham sido devolvidos ao mar à custa de ofertas generosas ou de escaramuças com as populações costeiras.
Agora, o caso parecia ser diferente, pois os intrusos davam sinais claros de pretenderem avançar para o interior do império. Viria Quetzalcoatl com eles?


Continua em 3 de Agosto de 2019 (2.ª parte - ver aqui)