Torre da História Ibérica
Pequenas e grandes histórias da História e mensagens mais ou menos amenas sobre vidas, causas, culturas, quotidianos, pensamentos, experiências, mundo...
sábado, 28 de março de 2026
sábado, 21 de março de 2026
"SINNERS", filme vencedor de 4 Óscares do Cinema (edição de 2026)
"Sinners" ("Pecadores") foi um dos filmes mais distinguidos na recente edição dos Óscares do cinema (a 98.ª).
Conquistou quatro prémios, entre eles o de Melhor Actor (Michael B. Jordan) e o da Melhor Banda Sonora.
O filme, dirigido por Ryan Coogler, baseia-se num guião que segue dois irmãos que retornam à sua cidade natal para abrir um bar de música blues, enfrentando um thriller sobrenatural ...
Esta cerimónia, de 2026, ocorreu no Dolby Theatre, de Los Angeles.
Oiça, abaixo, as três peças que seleccionámos da premiada banda sonora.
Pick Poor Robin Clean:
sábado, 14 de março de 2026
No Japão Antigo - Gueixas e ... Outras (Wenceslau de Moraes)
Wenceslau de Moraes, o português que se apaixonou pelo Japão e que conhecemos há tempos (aqui), dedicou, na sua obra Relance da Alma Japonesa, algumas páginas às geisha (gueixas), bem como a uma outra classe de mulheres que não devem ser confundidas com aquelas.
Tenha-se em atenção que Wenceslau escreveu este texto há cerca de um século, retratando a realidade tal como a viveu e sentiu. Do mesmo modo como fez, cerca de vinte anos depois dele, o também português Ferreira de Castro, que passou - ainda que episodicamente - pelo Japão e que aí abordou este mesmo tema das geisha - ver aqui.
O outro grupo de moças - das quais já fiz menção, bem mais abaixo do que as geisha na escala social - procede da mesma origem, da miséria implacável, que leva a todos os desmandos e arrasta as suas vítimas até aos luxuosos casarões das grandes cidades, onde os seus encantos naturais têm procura.
quarta-feira, 11 de março de 2026
quinta-feira, 5 de março de 2026
ANTÓNIO LOBO ANTUNES - Homenagem da Torre a um grande escritor
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1-Setembro-1942 ----- 5-Março-2026 |
"Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes, a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis:
irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos e, sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam.
Parece que ainda estou a
ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba,
responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em
oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da menina Teresinha.
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros:
- O que é que o menino quer, esta gente é assim,
e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse:
e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
Na minha ideia, o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto
mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em
comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de
paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de
odores dulcíssimos a incenso.
Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me.
E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis".



























