quinta-feira, 5 de março de 2026

ANTÓNIO LOBO ANTUNES - Homenagem da Torre a um grande escritor



1-Setembro-1942 ----- 5-Março-2026


Uma crónica de António Lobo Antunes:

"OS POBREZINHOS":




"Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes, a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis:

irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos e, sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam.

Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:

- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da menina Teresinha.






O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente».

No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre.

Os pobres surgiam das suas barracas, alvoroçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.





Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres dinheiro, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto (Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro) de forma  deletéria e irresponsável.

O pobre da minha tia Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma da mão recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico:
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho,

o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros:
- O que é que o menino quer, esta gente é assim,

e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.





Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno.

O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse:

- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar,

e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.


Na minha ideia, o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.


Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me.

E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis".


(António Lobo Antunes)




sábado, 28 de fevereiro de 2026

JOSÉ MALHOA, grande pintor do Portugal antigo (1855-1933)

 

À Beira-Mar (Praia das Maçãs)







Suite Alentejana n.º 1
(Luís de Freitas Branco)









A Procissão (As Promessas)











O Fado











Clara











O Barbeiro da Aldeia












A Camponesa










Os Bêbedos (Festejando o S. Martinho)











Cócegas













O Aguadeiro













Embrançar Cebolas













A Carta












Espantando os Pardais da Seara














Milho ao Sol













As Padeiras (Mercado em Figueiró dos Vinhos)












Varanda Florida












O Latoeiro















A Corar a Roupa











O Emigrante












Varanda dos Rouxinóis
























Estátua de José Malhoa
junto ao museu com o seu nome
(Caldas da Rainha)





Casa de José Malhoa (o "Casulo")
em Figueiró dos Vinhos, no Centro de Portugal


Malhoa, de seu nome completo José Vital Branco Malhoa, nasceu em 1855, nas Caldas da Rainha, numa família de agricultores.
Faleceu em Figueiró dos Vinhos no ano de 1933. 

Considerado o mais português dos pintores, Malhoa retrata nos seus quadros o país rural e real, os costumes e as tradições das gentes simples do povo, tal qual as via e sentia.
Este apego à terra, que pinta em paisagens transbordantes de luz e cor, é também a celebração das suas origens humildes de filho de lavradores.

Cedo evidenciou qualidades artísticas; e assim, muito novo, foi até Lisboa para aprender o ofício de entalhador na Escola de Belas-Artes. Contudo, por indicação do artista Leandro de Sousa Braga, o irmão inscreveu-o na Real Academia de Belas-Artes em Outubro de 1867.
Aqui prosseguiu estudos durante 8 anos, obtendo as melhores classificações.

Na Academia, foi aluno, entre outros, de Miguel Ângelo Lupi, de José Simões de Almeida e do mestre romântico Tomás da Anunciação, que o iniciou na pintura de paisagem – a grande paixão da sua vida.

Ainda estudante, passava as tardes a desenhar os arredores de Lisboa, sobretudo a Tapada da Ajuda e Campolide. Assim que acabou o curso concorreu a pensionista do Estado no intuito de ir estudar no estrangeiro. Mas não foi admitido (só realizaria a primeira viagem a Paris em 1906).
Decidiu então empregar-se na loja de confecções do irmão, onde ficaria três anos.

É desta época a obra Seara Invadida (1881), que envia a uma exposição em Madrid, onde obtém o melhor acolhimento. Entusiasmado, Malhoa deixou a loja do irmão e consagrou-se inteiramente ao ofício de pintor.

Ainda antes de 1885 chegam as primeiras encomendas artísticas: um tecto para o Real Conservatório (A Fama Coroando Euterpe) e outro para o Supremo Tribunal de Justiça (A Lei) são alguns exemplos.

Nesse ano, o pintor Silva Porto regressa a Lisboa, vindo de França. À sua volta, na Cervejaria do Leão, em Lisboa, reúne-se um grupo de artistas dos quais Malhoa faz parte. Esta tertúlia, o Grupo do Leão, que discutia temas relativos à prática artística, influenciou decisivamente a opção de Malhoa pela pintura de ar livre. O Paul da Outra Banda, pintado ainda em 1885, é desta um bom exemplo.

Pouco tempo depois, adquire casa de Verão em Figueiró dos Vinhos, no centro de Portugal. Aqui descobriu os temas populares que sempre o encantarão ao longo da vida.

Procissões, cenas campestres, camponesas saudáveis e garridas, animais que pastam, pontuam uma pintura que se vai dedicar a transmitir uma imagem do Portugal sentimental e bucólico que outros tratarão na literatura.

Trata-se de pintura naturalista; mas de um naturalismo sem maniqueísmo nem luta de classes, mais próximo de A Cidade e as Serras que de O Germinal – mais próximo do Portugal atrasado desse tempo que da Inglaterra ou da França já industrializadas.

Diogo de Macedo, historiador que se debruçou sobre a sua obra, chama-lhe um «historiador da vida rústica de Portugal».

(Fonte: Luísa Soares de Oliveira, in ArtLink)


sábado, 21 de fevereiro de 2026

Música Portuguesa - ANA MOURA ("Desfado") (Com uma entrevista do grande JÔ SOARES)

 


Desfado:


Desfado (ao vivo):


Quer o destino que eu não creia no destino

E o meu fado é nem ter fado nenhum Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido Senti-lo como ninguém, mas não ter sentido algum Ai que tristeza, esta minha alegria Ai que alegria, esta tão grande tristeza Esperar que um dia eu não espere mais um dia Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente Ai que saudade Que eu tenho de ter saudade Saudades de ter alguém Que aqui está e não existe Sentir-me triste Só por me sentir tão bem E alegre sentir-me bem Só por eu andar tão triste Ai se eu pudesse não cantar "ai se eu pudesse" E lamentasse não ter mais nenhum lamento Talvez ouvisse no silêncio que fizesse Uma voz que fosse minha cantar alguém cá dentro Ai que desgraça esta sorte que me assiste Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada Na incerteza que nada mais certo existe Além da grande incerteza de não estar certa de nada

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Jô Soares entrevista Ana Moura

(No Brasil - Ano de 2011)

Saiba mais sobre Ana Moura aqui