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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Justiça cega? Semi-cega? Ou estrábica? (1)


"(…) O que vale a pena ser explicado, e voltarei ao assunto em próxima crónica, é que o perigo maior não é o de ter os eleitos a escrutinar com mais eficácia os operadores de justiça, é ter os operadores de justiça a agirem sem rei nem roque.
Todos somos a favor de mais meios para a investigação, mas os democratas não podem aceitar que a separação de poderes se transforme na existência de um poder que se julga no direito de não ser escrutinado.
Não temos de fazer uma opção entre a politização da justiça e a judicialização da política. Temos de lutar sem hesitações para que não exista nem uma, nem outra.
É mais simples do que parece e não se coaduna com paninhos quentes em relação a magistrados que fazem chantagem com os eleitos do povo." (*)
 (*) Paulo Baldaia – Jornal de Notícias – 18 de Dezembro de 2018

domingo, 15 de janeiro de 2017

O RISO DE MÁRIO SOARES (1924-2017)



 
"Uma vez, era ele Presidente e eu jornalista, encontrámo-nos entre cabinas de um avião, num voo presidencial sobrevoando a Ásia. Como sabia que ele gostava de anedotas, perguntei-lhe se sabia a anedota sobre a sua própria morte.
Respondeu-me que não e eu contei-lha:
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Mário Soares morre e vai ter com São Pedro para pedir para entrar no Paraíso. Depois de consultar o seu computador, São Pedro responde-lhe que nem pensar: "Tu foste um pecador horrível, vais é para o Inferno!"
Mas Soares insiste, justifica os seus pecados, pede clemência. E São Pedro reconsidera: "OK, vou pôr-te à prova: durante dez anos, dia por dia, do acordar ao adormecer, tu vais estar sempre ligado à madre Teresa de Calcutá e sem nenhuma relação com mais quem quer que seja. E, daqui a dez anos, se te portares bem, logo se vê."
Sem nenhuma escapatória, Soares aceita. Mas, assim que arranca, de mão dada com a madre Teresa, vê Cavaco Silva de mão dada com Madonna. E, aí, Soares passa-se, volta atrás e diz a São Pedro: "Está bem que eu fui um grande pecador. Mas o Cavaco foi algum santinho para ter como penitência a Madonna?"
Ao que São Pedro lhe responde: "Calma, Mário, essa é a penitência da Madonna!"
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Nessa noite, nesse avião, algures no céu da Ásia, Mário Soares ia-se engasgando a rir com a anedota que eu lhe contei sobre a sua morte. Estávamos os dois vivos, a Ásia estava lá em baixo e a morte era apenas uma anedota.
Mas não tenho a certeza se agora, voando lá em cima sobre o mundo, ele não estará a desafiar as regras estabelecidas da eternidade."
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Narrado por Miguel Sousa Tavares na "E", Revista do jornal Expresso - Edição 2307, de 14 de Janeiro de 2017, pág. 16 - Número Especial inteiramente dedicado à figura de Mário Soares.
Título do artigo: "O Seu Nome, Liberdade".
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terça-feira, 5 de julho de 2016

Alemanha volta a ser o maior problema da Europa...

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O regresso da "questão alemã"
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Para quem tivesse pensado que as declarações do ministro Schäuble tinham resultado de um erro de tradução, as afirmações do responsável do Mecanismo Europeu de Estabilidade, outro veterano alemão, Klaus Regling, mostram que não houve erros, nem acasos.
Tudo parece indiciar uma manobra concertada do governo alemão contra Portugal.
Numa estratégia indireta, Berlim escolheu Portugal como o elo mais fraco para reafirmar a sua hegemonia, mostrando que, depois do brexit, o cilício do Tratado Orçamental ainda aperta mais fundo.
Como num crime friamente premeditado, sabendo o poder aterrorizador das suas palavras, Schäuble e Regling assobiam para que a matilha dos especuladores de mercado identifique Portugal como uma presa.
A subida dos juros da dívida reflete que o alvo foi claramente identificado.
O objetivo será sancionar Lisboa por défice excessivo.
Se isso acontecer, Berlim arranjará maneira de livrar Madrid, para que o castigo não provoque demasiadas contracorrentes.
Se precisássemos de um sinal da caminhada da União Europeia para o abismo, eu não apresentaria o brexit, mas esta prova de que a Alemanha, desta vez sem rebuço, voltou a ser o maior problema da estabilidade e paz europeias.
Importa não esquecer que a construção da unidade europeia, seja na visão de Churchill (1946) seja na versão Schuman (1950), pretendia, também, eliminar para sempre a pulsão hegemónica da Alemanha.
Infelizmente, com a mesma grosseira falta de respeito pela realidade, a mesma determinação desprovida de esclarecimento, há gente em Berlim preparada para, pela terceira vez num século, semear o caos na Europa. (*)
(*) Viriato Soromenho Marques - Diário de Notícias, Lisboa, Portugal - 3 de Julho de 2016
 
(Título, sublinhados e ilustrações da responsabilidade da Torre da História Ibérica)

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Sem perdão! Epitáfio de um governo-pesadelo.

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O embaixador Francisco Seixas da Costa publicou hoje no seu blogue (duas ou três coisas) um texto notável sobre a devastadora governação a que o povo português pôs finalmente termo nas eleições de 4 de Outubro findo.
Todos os colaboradores da Torre da História Ibérica subscrevem o que abaixo - com a devida vénia - se transcreve.
 
(Ilustrações, destaques e arrumação de texto da responsabilidade da Torre).
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"Não lhes perdoo! 
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Acaba hoje aquela que constitui a mais penosa experiência política a que me foi dado assistir na minha vida adulta em democracia. Salvaguardadas as exceções que sempre existem, quero dizer que nunca me senti tão distante de uma governação como daquela que este país sofreu desde 2011.
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Não duvido que alguns dos governantes que hoje transitam para o passado tentaram fazer o seu melhor ao longo destes cerca de quatro anos e meio.
Em alguns deles detetei mesmo competência técnica e profissional, fidelidade a uma linha de orientação que consideraram ser a melhor para o país que lhes calhou governarem.
Mas há coisas que, na globalidade do governo a que pertenceram, nunca lhes perdoarei.
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Desde logo, a mentira, a descarada mentira com que conquistaram os votos crédulos dos portugueses em 2011, para, poucas semanas depois, virem a pôr em prática uma governação em que viriam a fazer precisamente o contrário daquilo que haviam prometido. As palavras fortes existem para serem usadas e a isso chama-se desonestidade política.
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Depois, a insensibilidade social. Assistimos no governo que agora se vai, sempre com cobertura ao nível mais elevado, a uma obscena política de agravamento das clivagens sociais, destruidora do tecido de solidariedade que faz parte da nossa matriz como país, como que insultando e tratando com desprezo as pessoas idosas e mais frágeis, desenvolvendo uma doutrina que teve o seu expoente na frase de um anormal que jocosamente falou, sem reação de ninguém com responsabilidade, de "peste grisalha".
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Vimos surgir, escudado na cumplicidade objetiva do primeiro-ministro, um discurso "jeuniste" que chegou mesmo a procurar filosofar sobre a legitimidade da quebra da solidariedade inter-geracional.
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Um dia, ouvi da boca de um dos "golden boys" desta governação, a enormidade de assumir que considerava "legítimo que os reformados e pensionistas fossem os mais sacrificados nos cortes, pela fatia que isso representava nas despesas do Estado mas, igualmente, pela circunstância de a sua capacidade reivindicativa e de reação ser muito menor do que os trabalhadores no ativo", o que suscitava menos problemas políticos na execução das medidas.
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Essa personagem foi ao ponto de sugerir a necessidade de medidas que estimulassem, presumo que de forma não constrangente, o regresso dos velhos reformados e pensionistas, residentes nas grandes cidades, "à província de onde tinham saído", onde uma vida mais barata poderia ser mais compatível com a redução dos seus meios de subsistência.
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Fui testemunha de atos de desprezo por interesses económicos geoestratégicos do país, pela assunção, por mera opção ideológica, por sectarismo político nunca antes visto, de um desmantelar do papel do Estado na economia, que chegou a limites quase criminosos.
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Assisti a um governante, que hoje sai do poder feito ministro, dizer um dia, com ar orgulhosamente convicto, perante investidores estrangeiros, que "depois deste processo de privatizações, o Estado não ficará na sua posse com nada que dê lucro".
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Ouvi da boca de outro alto responsável, a propósito do processo de privatizações, que "o encaixe de capital está longe de ser a nossa principal preocupação. O que queremos mostrar com a aceleração desse processo, bem como com o fim das "golden shares" e pela anulação de todos os mecanismos de intervenção e controlo do Estado na economia, é que Portugal passa a ser a sociedade mais liberal da Europa, onde o investimento encontra um terreno sem o menor obstáculo, com a menor regulação possível, ao nível dos países mais "business-friendly" do mundo".

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Assisti a isto e a muito mais.
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Fui testemunha do desprezo profundo com que a nossa Administração Pública foi tratada, pela fabricação artificial da clivagem público-privado, fruto da acaparação da máquina do Estado por um grupo organizado que verdadeiramente o odiava, que o tentou destruir, que arruinou serviços públicos, procurando que o cidadão-utente, ao corporizar o seu mal-estar na entidade Estado, acabasse por se sentir solidário com as próprias políticas que aviltavam a máquina pública.
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No Ministério dos Negócios Estrangeiros, fui testemunha de uma operação de desmantelamento criterioso das estruturas que serviam os cidadãos expatriados e garantiam a capacidade mínima para dar a Portugal meios para sustentar a sua projeção e a possibilidade da máquina diplomática e consular defender os interesses nacionais na ordem externa.
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Assisti ao encerramento cego de estruturas consulares e diplomáticas (e à alegre reversão de algumas destas medidas, quando conveio), à retirada de meios financeiros e humanos um pouco por todo o lado, à delapidação de património adquirido com esforço pelo país durante décadas, cuja alienação se fez com uma irresponsável leveza de decisão.
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Nunca lhes perdoarei o que fizeram a este país ao longo dos últimos anos.
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E, muito em especial, não esquecerei que a atuação dessas pessoas, à frente de um Estado que tinham por jurado inimigo e no seio do qual foram uma assumida "quinta coluna", conseguiu criar em mim, pela primeira vez em mais de quatro décadas de dedicação ao serviço público - em que cultivei um orgulho de ser servidor do Estado, que aprendi com os exemplos do meu avô e do meu pai -, um sentimento de desgostosa dessolidarização com o Estado que lhes coube titular durante este triste quadriénio.
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Por essa razão, neste dia em que, com imensa alegria, os vejo partir, não podia calar este meu sentimento profundo.
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Há dúvidas quanto ao futuro que aí vem?
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Pode haver, mas todas as dúvidas serão sempre mais promissoras que este passado recente que nos fizeram atravessar.
Fosse eu católico e dir-lhes-ia: vão com deus.
Como não sou, deixo-lhes apenas o meu silêncio."
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quinta-feira, 9 de julho de 2015

"Quem é esta gente?"

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"A Europa que eu vi formar-se e abrir as portas a Portugal era dirigida por gente como Willy Brandt, Helmut Schmidt, François Miterrand, Olof Palme, Harold Wilson, James Callaghan, Bettino Craxi, Felipe González, Mário Soares.
Todos eles tinham uma ideia de Europa onde se espelhavam os melhores valores da civilização europeia, como um todo, e na qual se reviam os povos europeus, do norte ao sul, do leste ao oeste.
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Depois veio a Europa dos burocratas sem ideologia, os longos dez anos de Durão Barroso, em que o grande exercício político consistiu em nada decidir e ficar de braços cruzados a ver tudo acontecer:
os progressos feitos pelos outros na ciência, na inovação, na energia, e os retrocessos próprios na integração, na moeda única, numa política diplomática e de defesa comum, no combate ao fundamentalismo islâmico.
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Um longo sono fatal.
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Mas agora há outra gente movida por um sentimento de superioridade em relação aos "PIGS", um desejo de os castigar porque são irresponsáveis, porque têm ilhas ou mar a mais, porque têm sol quando eles têm chuva, porque conseguem rir quando deveriam chorar apenas.
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Nada do que eles propõem para a Grécia tem a menor sustentabilidade económica: é apenas a continuação de uma receita garantida para o desastre e a miséria.
Impede o crescimento, estimula o desemprego, arruína o sector financeiro e empresarial e, no fim, só agravará a dimensão da dívida.
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Há quem acredite numa conspiração oculta da grande finança para expulsar do euro os que só enfraquecem a moeda; há quem pense que se trata antes de uma vendetta histórica da direita sobre décadas de predomínio intelectual e político da esquerda e uma oportunidade imperdível de aplicar a sua agenda em termos irreversíveis.
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Mas provavelmente é tudo menos grandioso do que isso: apenas uma terrível combinação entre ignorância e insensibilidade.
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Fixemos os seus nomes para memória futura: Merkel, Schäuble, Dijsselbloem, Lagarde, Juncker, Rajoy, Passos Coelho e alguns outros personagens menores."
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Miguel Sousa Tavares - Artigo completo em" Expresso" (Lisboa - Portugal), 4-Julho-2015, pág. 12.
(Sublinhados da responsabilidade da Torre)
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domingo, 1 de junho de 2014

Política à Portuguesa (Costa contra Seguro, no ringue - O último combate)

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"Costa saltou contra Seguro.
Se calhar ele pensava que o secretário-geral se encolhia...
Qual quê! António José Seguro subiu para o ringue, saltitando e dando ganchos no ar, com a pose de boxeur que se lhe conhece, queixo firme e discurso claro: "A minha consciência diz-me que eu tenho de continuar a lutar pelos valores e pelos princípios e habituem-se porque isto mudou."

Juro, ele disse isto, ontem. Na mesma frase, "tenho de continuar a lutar pelos valores" e "habituem-se porque isto mudou"!
No boxe chama-se a isso jabs, sucessão de golpes, esquerda-direita...
Em discurso parece contraditório, mas agora António Rocky Seguro quer passar a imagem de durão.

Ele adora desafios impossíveis, já antes queria passar por líder.
O outro quis encostá-lo às cordas do congresso. Com um jogo de pernas notável, o nosso Belarmino do Rato lançou-se para as primárias.
Eu explico o que isso quer dizer em boxe.

Suponhamos que o pugilista receia um KO, porque reconhece que o adversário é mais forte. Então, refugia-se nas cordas, dança, enfim, compra tempo.

Com um passado de ganhar por pouco, Seguro quer agora ganhar muito. Muito tempo.
O outro atrás dele para uma luta leal e ele às voltinhas à espera que o gong o salve.

Vocês vão dizer-me: "Mas ele vai ficar mal visto..."
Não sei. O erro mais visível de Seguro era ter o título de líder e sê-lo pouco.

 Agora, a fugir à luta, ele já ganha coerência. Já é ele.
Na política a coerência é importante." (*).

(*) Ferreira Fernandes, Seguro à espera que o ‘gong’ o salve, in Diário de Notícias, Lisboa, 1-Junho-2014.


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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Política à Portuguesa (Seguro e o Princípio de Peter)



“(…) Seguro cumpriu o princípio da incompetência de Peter: foi o líder de transição que sempre é sacrificado entre lideranças marcantes. E, desse ponto de vista, cumpriu fielmente o papel que lhe foi destinado. Seguro ficará tanto na memória colectiva como Fernando Nogueira, o tal que sucedeu a Cavaco Silva no PSD.
Mas, como postula o princípio de Peter, Seguro não dá mais que isto.
A sua visão para o País tem a consistência de gelatina e a capacidade mediática de um pão seco.
Eu não sei se António Costa vai ser o próximo líder do PS.
Não sendo militante, a decisão não está nas minhas mãos. Mas, francamente, tenho pressa que as entranhas do PS não confundam, como tem sido hábito, deslealdades com divergências, a forma da letra com o espírito da mesma, e os interesses do País com os interesses de meia dúzia com genética de lapa, agarradinhos aos estatutos como tábua de salvação.
Mas se Seguro quiser desmentir quem clama por algo diferente, é simples: marque congresso extraordinário por sua iniciativa e olhe António Costa - e o País - nos olhos.” (*)

(*) Ana Martins, in “Económico”, Lisboa, 30-Maio-2014




domingo, 31 de outubro de 2010

A Dívida é Bela!

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"Portugal teve o terceiro menor crescimento económico do mundo na última década (6,47%), ganhando apenas à Itália (2,43%) e ao Haiti (-2,39%), numa lista de 180 países publicada pelo 'El País' com base em dados do FMI" - aposto que os leitores ficaram tristes com esta notícia.
Mas a notícia tem duas leituras - ganhar à Itália é sempre de festejar..
E é bonito (e surpreendente para muita gente) existirem 180 países.
Como vêem, existe beleza e felicidade no que à primeira vista parecia mais uma notícia cinzenta e desoladora.
E para quê ficar triste, se pode ficar solidário com a desesperada situação do Haiti?

Não adianta, não é? Só têm olhos para o lado negro. Só conseguem ver o número 178, numa lista de 180, a piscar.
Estão muito pessimistas?
Hum... Então, deitem-se no divã - deixem-me só tirar o busto de Freud, se não, ainda se magoam.


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Sabem qual é o nosso problema?
O problema é que andamos deprimidos.
Portugal está numa espécie de depressão pós-parto depois de uma gravidez histérica - um caso muito grave. Tanto sofrimento e enjoo para, afinal, ser só ar. Se o Doutor Egas Moniz fosse vivo sabia o que fazer… que frase deprimente.

Como podem ver, eu também estou em baixo. Estamos todos: os jornalistas, os políticos, os economistas. O povo, em geral, está deprimido e vê as coisas sempre pelo lado negativo.
Na Função Pública há funcionários tão deprimidos que nem têm força para pedir baixa.
É como se um mosquito, careca, com uma pequena barbicha branca, nos tivesse picado e transmitido o vírus da Medinacarreirice.
Uma espécie de mosca tsé-tsé arraçada de piolho.

Estamos presos na nossa depressão e vivemos com medo e ataques de pânico.
Se a notícia é - "Cientista indiano descobre cura do cancro, Parkinson e Alzheimer" - a nossa reacção é - "grande bronca!. Agora é que não vai haver dinheiro que chegue para as pensões".


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Temos que lutar contra isso.
É verdade que os factos são graves e a realidade é madrasta mas, porque não fazer como o Roberto Benigni no filme "A Vida é Bela"?

Todo o País a fingir que os funcionários do Ministério das Finanças são duendes bons que vêm buscar o nosso dinheiro para o transformar em unicórnios, flamingos rosa e bosques de cogumelos.

Negar a realidade, neste caso, não é falta de coragem.
Com tudo o que se passou, e nos foi dito, temos direito (até por uma questão de sobrevivência) a ter a versão benigna da negação do nosso maior drama.


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Temos que olhar para aquela pesada porta castanha (por onde entrava a comissão negociadora do PSD e do Governo), fechada, cerrar os olhos e abri-los para ver sair, com um estrondo de pandeiretas, um dragão de carnaval chinês, com o ministro das Finanças na cabeça e o Doutor Catroga, aos saltos, em último, fazendo agitar a cauda.
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Por que não dar o exemplo e começar, já, na próxima semana, neste jornal?

Experimentem pôr, na primeira página, os dígitos do défice como se fosse para crianças - um défice alegre, com um sete feito por uma simpática girafa e o três como uma divertida centopeia.
Ou um 7,3 todo em flores da Madeira, com uma trepadeira de rosas no lugar da vírgula.
Já não parece um número tão feio.

Vamos a isso?  (*)
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(*) João Quadros – Jornal de Negócios – Lisboa – Portugal – 29-Out-2010.
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sábado, 16 de outubro de 2010

De que estamos à espera?

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"(…) O que está a acontecer no nosso país é elucidativo.
O paradigma está a alterar-se, já se alterou, e os nossos políticos, culturalmente muito enfezados, agem na mesma esquadria de há trinta e quarenta anos.
Quero dizer: obedecem, cegamente, ao que do exterior lhes sussurram, e abdicam de criar um esquema próprio de solução dos problemas nacionais.

Sei que é difícil, mas não impossível.
Berlim manda e Bruxelas é o porta-voz. Porém, alguém tem de bater o pé a essa hegemonia.
Desde Bismarck que o Alemão vem por aí abaixo, com armas na mão.
E houve 1914-18 e 1939-45.
Derrotados e humilhados, serviram de veículo a ressentimentos seus e de outros.
A Alemanha não precisa da bomba nem do campo de concentração para ser a potência dominante na Europa.
Chega-lhe e sobra-lhe a força da economia. (…)
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A Direita e a Extrema-Direita avançam em toda a Europa.
A Europa é uma massa inerte que só existe porque a Alemanha assim o permite. Basta atentar na teimosia abstrusa de Ângela Merkel, no pungente problema grego, para nos apercebermos do carácter unilateral e arbitrário de uma política que somente dá garantias e suporte aos mais fortes.
O renascimento da xenofobia, do racismo e dos movimentos neonazis não acontece por acaso.

A Esquerda abandonou as velhas bandeiras que a qualificavam, e esqueceu as causas que a iluminavam.
Só agora, um pouco em Itália e em França, se discute e debate o torção a que a História foi submetida.
Os novos problemas que emergiram, com o financiamento do capital, o movimento migratório, a fome como endemia, a exclusão (ideológica, cultural, identitária) a que assistimos, um pouco por todo o lado, assemelham-se aos anos que antecederam a queda da República de Weimar. (…)


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Como se pode alterar estas situações, tendo presente que o "mercado", a finança, o capitalismo, enfim, tem nas mãos as rédeas de todos os poderes e de todas as decisões?
Creio que o valor moral do ser humano está dependente das circunstâncias.
Ortega o disse.

Todavia, o ser humano dispõe de força suficiente para alterar as circunstâncias.
Historicamente, os ensinamentos são de molde a alimentar as nossas esperanças e a estimular as nossas desafrontas.
Não podemos mais admitir as humilhações a que diariamente somos submetidos.
Nem aceitar viver nesta mentira constante, nesta falta de escrúpulos e de pudor.

Mais é de mais.
De que estamos à espera?"
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Baptista-Bastos – Jornal de Negócios – Lisboa - Portugal (15-Out-2010)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A Nova Face da Direita Política em Portugal - "Vai Tudo Raso!"

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O projecto de revisão constitucional do PSD não deixa pedra sobre pedra do regime democrático nascido a 25 de Abril.
Em sete revisões, a Constituição já levara fortes machadadas dadas pelas maiorias qualificadas para o efeito.
O PSD quer acabar com o resto.

E não se diga que se trata de limar a Constituição dos resquícios ideológicos de pendor revolucionário.
Ao propor a abolição da justa causa para os despedimentos, o PSD revela o carácter da sua mais recente face, não apenas neoliberal, no sentido europeu ou norte-americano, mas inspirada nas economias asiáticas de ditadura do capital financeiro e de mão-de-obra descartável.

Ao propor a abolição do carácter tendencialmente gratuito da prestação dos cuidados de saúde, o projecto do PSD situa-se na América pré-Obama, da ditadura das companhias de seguros com absoluto menosprezo do direito humano à saúde.

E ao propor a substituição de um governo sem recurso à realização de eleições, o PSD revela a costeleta peruana, com governos cozinhados no churrasco da democracia.

Ou seja: o projecto de revisão da Constituição que o PSD vai apresentar não tem nada original, é tudo mais ou menos plasmado do que de mais tenebroso, explorador e totalitário há no mundo actual.

É um projecto raivoso, revanchista, de ajuste de contas contra o carácter de uma democracia nascida da liquidação de uma ditadura de 48 anos.

A revisão da Constituição da República Portuguesa far-se-á e será ou não aprovada em função de trocas e baldrocas de bastidores entre o proponente PSD e os colaborantes do costume, PS e CDS.

Antes de propor a revisão da Constituição da República, este PSD deveria rever a sua própria constituição, porque a designação social-democrata é neste particular um caso de publicidade enganosa. (*)

(*) - João Paulo Guerra - Vai Tudo Raso - Diário Económico (Lisboa - Portugal- 21 de Julho de 2010

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sábado, 29 de maio de 2010

Lusas Servidões...

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Fomos os "alunos exemplares" de Bruxelas:
aceitámos a destruição do nosso tecido produtivo com a submissão de quem não foi habituado a expor questões e a enumerar perguntas.

Pescas, agricultura, tecelagem, metalurgia, pequenas e médias empresas desapareceram na voragem, em nome da "incorporação" europeia.
A lista de cúmplices desta barbaridade é enorme.
Andam todos por aí.

(...) Os economistas que nos afundaram tratam da vidinha, com desenvolta disposição.
Nenhum é responsável do crime; e passam ao lado da insatisfação e da decepção permanentes, como cães por vinha vindimada.

Impuseram-nos modos de viver, crenças (a mais sinistra das quais: a da magnitude do "mercado"), um outro estilo de existência, e o conceito da irredutibilidade do "sistema."

Tratam-nos como dados estatísticos, porque o carácter relacional do poder estabelece-se entre quem domina e quem é dominado - ou quem não se importa de o ser.
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Baptista-Bastos - A Tendência da Servidão - Diário de Notícias - Lisboa - Portugal (26 de Maio de 2010)
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sábado, 22 de maio de 2010

Crise e Aparências...

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"(...) Temos "benfeitores", sem obra social que se conheça, mas cujas Fundações o Estado ou o Governo cumulam de gentilezas e facilidades.
Temos respeitados "empresários", cuja fortuna começou no desvio de dinheiros europeus e acabou nas offshores do costume, que o poder distingue e apoia.
Temos "produtores" artísticos que só produzem quando subsidiados, que a crítica venera e o público despreza.
Temos "agricultores" que trocaram os tractores por Mercedes topo-de-gama e as culturas tradicionais por regadios de golfe.
Temos uma quantidade de "mestres" e até professores universitários formados em Universidades de vão de escada e agora até um rol de "doutores enfermeiros", reivindicando a equiparação salarial correspondente ao seu estatuto "académico".

E o que tem tudo isto a ver com a crise financeira que vivemos?
Nada ou tudo.
Depende da perspectiva com que olhamos as coisas: um país que se contenta com as aparências, que toma por genuíno o que não passa de oportunismo, que não escrutina o mérito nem questiona socialmente os pantomineiros, está condenado ao fracasso.
Na economia, como no resto.

Tal como na Grécia, o défice público e a dívida acumulada pelo Estado são o resultado directo de anos a fio de cedência a aparências, facilidades, reivindicações demagógicas e apoios não justificados.
Acham que alguém aprendeu a lição?
Não: leiam os blogues ou os comentários dos leitores de jornais - "eles", os sucessivos governos, é que nos desgovernaram; "nós", o bom povo, nada fizemos para merecer esta catástrofe.
É verdade, sim, que eles nos desgovernaram, mas em obediência à vontade do bom povo e porque ceder à demagogia e à facilidade vale muitos votos.

O enfermeiros querem ser doutores?
O Governo cede.
Os professores querem ser todos classificados com "muito bom"?
A oposição aplaude e o Governo rende-se.
O Ministério Público quer ter o sagrado direito de trabalhar sem prazos e os venerandos conselheiros do Supremo querem-no limpar de processos, dificultando a possibilidade de recurso?
O Governo concorda.
Os militares, os polícias, os bombeiros, querem o "legítimo" direito de receber um subsídio de risco por fazerem aquilo para que foram contratados e treinados?
O Governo acha justo.
O dr. Madail quer dez novos estádios para um Europeu de futebol que até o Presidente Sampaio afirmou ser "um desígnio nacional"?
O país festeja - e já se candidata a um Mundial e suspira por uns Jogos Olímpicos.

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(...) A casa está a arder mas há quem ainda não tenha percebido.
Na semana passada, li neste jornal um extraordinário texto em que alguém tentava explicar que essa história do défice é uma invenção dos economistas e que o combate ao défice é um combate contra a economia - a velha tese de que "há mais vida para além do défice", essa fabulosa verdade política que nos trouxe até onde estamos.

Chorem agora Granada caída para os sitiantes:
sem educar, sem seleccionar, sem premiar o mérito, sem denunciar os falsificadores, sem produzir, sem conseguir competir numa economia global, vivendo de subsídios à preguiça e de dívidas acumuladas, que mais vida tínhamos a esperar?" (*)
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(*) - Miguel Sousa Tavares – Uma Vida de Aparências - Expresso – Lisboa – 15 de Maio de 2010
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