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terça-feira, 2 de abril de 2019

Poema da Malta das Naus (António Gedeão)



Lancei ao mar um madeiro
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
Pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.
 
Dormi  no dorso das vagas
pasmei na orla das praias
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.
Chamusquei o pelo hirsuto
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.

 
Com a mão direita benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vilas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

António Gedeão - Portugal (Lisboa, 1906-1997)

terça-feira, 26 de março de 2019

Poema do Coração (António Gedeão)


Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".


Mas o meu coração é como o dos compêndios
Tem duas válvulas (a tricúspide e a mitral)
e os seus compartimentos
(duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue a circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.


Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados
e uma lâmina baça e agreste,
que endurece a luz nos olhos
em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

António Gedeão - Portugal (Lisboa, 1906-1997)

sexta-feira, 15 de março de 2019

Suspeitas de crime na morte de D. João VI (de Portugal e Brasil)

Rei D. João VI (Queluz 1767- Lisboa 1826)
Sua Majestade fora a Belém [Lisboa] comer uma merenda. Era nos primeiros dias de Março [de 1826]. Quando voltou a palácio achou-se, à noite, mal – cãibras, sintomas de epilepsia. Vieram médicos: o barão de Alvaiázere e o valido cirurgião Aguiar.
No dia seguinte, o estado do enfermo piorou. E o rei decidiu-se a despir de si o pesado encargo do governo. A 7, a Gazeta publicava o decreto nomeando a regência, presidida pela infanta D. Isabel Maria, cuja bondade merecia as graças particulares do infeliz pai. Esta minha imperial e real determinação, afirmava o decreto do dia 6, regulará também para o caso em que Deus seja servido chamar-me à sua santa glória, enquanto o legítimo herdeiro e sucessor desta coroa não der as suas providências…
Mas quem era esse legítimo herdeiro?
D. Pedro, o brasileiro?
D. Miguel, no seu desterro de Viena?
Não o dizia o rei moribundo, que toda a vida se achara indeciso, e acabava como tinha existido, sem uma afirmação de vontade, entre flatos, na impotência de uma morte oportuna.

D. João VI no Brasil (ano de 1808)

Em Lisboa corriam os boatos mais extravagantes.

O velho imperador sem império, rei de dois mundos já reduzidos ao que ele chamava o seu canapé da Europa, massa humana estendida num leito, era como um valo ou barreira que represava a torrente de ambições e fúrias soltas ou mal contidas em 1820, em 1823, em 1824.

O caos de conflitos dinásticos, religiosos, políticos, que a fome universal acirrara, ia reaparecer à luz do dia — tão depressa o caixão do imperador-rei terminasse a viagem mortuária, do paço ao carneiro de S. Vicente de Fora.

Logo que a notícia da doença se propagou, e, mais ainda, quando apareceu o decreto do dia 6, correu uma opinião forte. D. João VI tinha sido envenenado. A peçonha fora propinada nas laranjas da merenda de Belém; embora o dessem por vivo, era cadáver quando saiu o decreto. Conservavam-no para enganar, para preparar melhor os ânimos. Mas quem era o autor de tamanhos crimes?

A rainha [Carlota Joaquina], diziam os constitucionais de então.

Os constitucionais, diziam os absolutistas apostólicos. Entretanto a rainha era esbulhada da regência, e, se tramara o feito, saía-se duas vezes mal — por isto, e porque à indecisão do decreto responderam o consenso geral e os regentes proclamando rei de Portugal o brasileiro [D. Pedro, primeiro imperador do Brasil].

D. João VI regressa do Brasil a Portugal (Lisboa, ano de 1821)
No dia 10 pela tarde morreu o rei, oficial ou realmente. Houve  sentimento e lágrimas, porque, na sua moleza insípida, era bom; sobretudo porque deixava depois de si um vácuo, uma sombra povoada de medos das inevitáveis catástrofes amontoadas e  iminentes.

Este susto agravava a maledicência geral. Ninguém já punha em dúvida a causa da morte do rei. Os boatos eram positivas certezas — de que o parecer dos médicos depois da autópsia concluiria pelo envenenamento.

Em tudo se achavam provas. Os absolutistas afirmavam cerradamente que o cozinheiro Caetano fora convidado pelos constitucionais, e que, por se recusar, morrera com o veneno destinado para o rei: com efeito, o cozinheiro caíra de repente.

Por outro lado, atribuíam-se confissões graves ao barão de Alvaiázere, que também morrera logo; e o cirurgião Aguiar, sobre quem recaíam as acusações de ter propinado o veneno dos pedreiros-livres, o cirurgião valido que fora brindado com um posto na diplomacia, morria também, assassinado segundo uns, suicida na opinião dos mais — devorado pelos remorsos do crime praticado contra o seu benfeitor!

Muita gente dizia ter lido cartas em que de Lisboa se anunciava a doença, a morte certa do rei, bastantes dias antes da merenda de Belém.

Alegoria às virtudes de D. João VI (quadro de Domingos Sequeira)
Se D. João VI morreu ou não envenenado, nem se sabe, nem importa. O que vale é o facto da opinião geral sobre o caso; e essa opinião acreditava num crime.
Os vómitos e delíquios do imperador-rei, o cortejo dos cadáveres com que o seu corpo era metido no túmulo, faziam de um crime o intróito da história dos longos crimes da sua sucessão.

A tragédia portuguesa começava, e o travo da peçonha acirrava os ânimos prontos para um combate inevitável.

A regência, e todos, tinham reconhecido como rei D. Pedro IV [Pedro I do Brasil]; mas com a certeza de que esse acto era uma pura formalidade, um incidente sem alcance, um preito, apenas, dado à doutrina da hereditariedade e ao direito da primogenitura.

Imperador no Brasil, D. Pedro não podia ser rei em Portugal: havia apenas um ano que se assinara o tratado da separação redigido pelo inglês Stuart, e sabia-se que por coisa alguma a Inglaterra consentiria na reunião dos dois estados [Portugal e Brasil].

D. Pedro teria de abdicar por força; e em quem, se não no infante D. Miguel, seu irmão? (…)
Tudo se faria em boa paz, e os medos gerais provar-se-iam infundados.
Ingénua ilusão!
Para além das questões formais, havia, no fundo, um duelo inevitável. (..) Só [seriam de esperar] o ferro, o fogo, o canhão, o punhal, a miséria, e um cataclismo final que terminasse pela morte de um dos contendores. (*)

(*) - Oliveira Martins - Portugal Contemporâneo - Tomo I - 3.ª edição - Pgs.1-5 - Livraria de António Maria Pereira (Editor) - Rua Augusta, 50-54, Lisboa (Ano de 1895)

[Texto actualizado pela Torre da História Ibérica]

sábado, 9 de março de 2019

Como Eça de Queiroz Via a Marinha Portuguesa ("As Farpas" - Julho de 1871)

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“Mas, meus senhores, antes de tudo, nós não temos Marinha!
Singular coisa! Nós só temos Marinha pelo motivo de termos colónias – e justamente as nossas colónias não prosperam porque não temos Marinha!
Todavia, a nossa Marinha, ausente dos mares, sulca profundamente o orçamento.
Gasta 1 159 000$000.
Que realidade corresponde a esta fantasmagoria das cifras?
Uns poucos de navios defeituosos, velhos, decrépitos, quase inúteis, sem artilharia, sem condições de navegabilidade, com cordame podre e mastreação carunchosa, a história obscura.
É uma Marinha inválida.
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A D. João tem 50 anos, o breu cobre-lhe as cãs: o seu maior desejo seria aposentar-se como barca de banhos.
A Pedro Nunes está em tal estado, que, vendida, dá uma soma que o pudor nos impede de escrever.
O Estado pode comprar um chapéu no Roxo com a Pedro Nunes – mas não pode pedir troco.
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A Mindelo tem um jeito: deita-se. No mar alto, todas as suas tendências, todos os seus esforços são para se deitar.
Os oficiais de Marinha que embarcam neste vaso fazem disposições finais.
A Mindelo é um esquife – a hélice.
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A Napier saiu um dia para uma possessão. Conseguiu lá chegar. Mas, exausta, não quis, não pôde voltar. Pediu-se-lhe, lembrou-se-lhe a honra nacional, citou-se-lhe Camões, o Sr. Melício, todas as nossas glórias. A Napier, insensível, como morta, não se mexeu.
Das 8 corvetas que possuímos são inúteis para combate ou para transporte – todas as 8.
Nem construção para entrar em fogo, nem capacidade para conduzir tropa.
Não têm aplicação.
Há ideia de as alugar como hotéis. A nossa esquadra é uma colecção de jangadas disfarçadas! E este grande povo de navegadores acha-se reduzido a admirar o vapor de Cacilhas!
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Têm um único mérito estes navios perante uma agressão estrangeira: impor-se pelo respeito da idade. Quem ousaria atacar as cãs destes velhos?
Já se quis muitas vezes introduzir nas fileiras destes vasos caducos alguns navios novos, ágeis, robustos. Tentou-se primeiro comprá-los.
Sucedeu o caso da corveta Hawks.
Era esta corveta uma carcaça britânica, que o Almirantado mandava vender pela madeira – como se vende um livro a peso.
Por esse tempo, o Governo português – morgado de província ingénuo e generoso – travou conhecimento com a Hawks, e comprou a Hawks. E quando mais tarde, para glória da monarquia, quis usar dela, a Hawks, com um impudor abjecto, desfez-se-lhe nas mãos!
Estava podre! Nem fingir soube! Tinha custado muitas mil libras.
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Tentou-se então construir em Portugal.
Sabia-se que o Arsenal é uma instituição verdadeiramente informe: nem oficinas, nem instrumentos, nem engenheiros, nem organização, nem direcção. Tentou-se todavia – e fez-se nos estaleiros a Duque da Terceira. Foi meter máquina a Inglaterra. E aí se descobre que a tenra Duque da Terceira, da idade de meses, tinha o fundo podre!
Foi necessário gastar com ela mais cento e tantos contos.
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Nova tentativa. Entra nos estaleiros a Infante D. João. 87 contos de despesa. Vai meter máquina a Inglaterra. Fundo podre! O Arsenal perdia a cabeça! Aquela podridão começava a apresentar-se com um carácter de insistência verdadeiramente antipatriótica!
Os engenheiros em Inglaterra já se não aproximavam dos navios portugueses senão em bicos de pés – e com o lenço no nariz. As construções saídas do Arsenal sucumbiam de podridão fulminante.
A Infante D. João custou em Inglaterra mais cento e tantos contos!
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O Arsenal, humilhado no género navio, começou a tentar a especialidade lancha. Fez uma a vapor. Lança-se ao Tejo, alegria nacional, colchas, foguetes, bandeirolas… E a lancha não anda! Dá-se-lhe toda a força, geme a máquina, range o costado – e a lancha imóvel! Mas de repente faz um movimento…
Alegria inesperada, desilusão imediata! A lancha recuava. Era uma brisa que a repelia.
Em todas as experiências a lancha recuava com extrema condescendência: brisa ou corrente tudo a levava, mas para trás. Para diante, não ia.
O Arsenal tinha feito uma lancha a vapor que só podia avançar puxada a bois.
O País riu durante um mês.
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A nossa glória, inquestionavelmente, é a Estefânia. Parece que poucas nações possuem um vaso de guerra tão bem tapetado! O orgulho daquele navio é rivalizar com os quartos do Hotel Central. É um salão de Verão surto no Tejo.
E no Tejo, realmente, dá-se bem. No mar alto, não! Aí tem tonturas. Não nasceu para aquilo: um navio é um organismo, e como tal pode ter vocações: a vocação da Estefânia era ser gabinete de toilette. É pacata como um conselheiro. É uma fragata do Tribunal de Contas!
Por isso, quando a quiseram levar a Suez, quantos desgostos deu à sua Pátria! Quantas brancas fez à honra nacional!
É verdade que os cabos novos, da Cordoaria Nacional, quebraram como linhas, e ninguém lhes pode contestar que tivessem esse direito.
A marinhagem também não quis subir às vergas (opinião respeitável, porque a noite estava fria).
Alguns aspirantes choraram de entusiasmo pela Pátria.
O capelão quis confessar os navegadores.
O caso foi muito falado nesse tempo. Mais celebrado que a descoberta da Índia. (…)
O facto é que desde então brilha no Tejo, tranquila, reluzente, vaidosa – a Estefânia, corveta mobilada pelos Srs. Gardé e Raul de Carvalho.”


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Eça de Queiroz – Uma Campanha Alegre ( As Farpas - Julho de 1871) - Vol. I - Pág.134-138)
Lello & Irmão Editores – Porto – Portugal – 1979.
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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Pizarro e a Conquista Espanhola do Peru (4.ª e última parte)


(Extraído da obra de William H. Prescott  History of the Conquest of Peru, With a Preliminar View of the Civilization of the Incas - New York - 1843)
(Tradução e adaptação da Torre da História Ibérica)

Continuação de:

1.ª parte (06-Fevereiro-2019);
2.ª parte (14-Fevereiro-2019);
3.ª parte (21-Fevereiro-2019)

"Pizarro não deu inicialmente ouvidos às terríveis sugestões acerca da sorte do Inca, ou, pelo menos, assim o aparentou, mostrando uma visível repugnância em sacrificar o prisioneiro. Havia muito poucos que o acompanhassem em semelhante atitude, e entre eles contava-se Hernando de Soto, que considerava injusto um tal desenlace, por não estar provado o crime de Atahualpa.
Neste estado de coisas, o chefe espanhol decidiu enviar um pequeno destacamento a Guamachucho, para reconhecer o país e averiguar o que havia de verdade nos rumores da insurreição.
Após a partida do destacamento a agitação entre os soldados cresceu de tal forma que Pizarro, não conseguindo resistir à pressão, consentiu que se preparasse o julgamento de Atahualpa. Era decerto decoroso e mais seguro emprestar ao assunto uma aparência de isenção. Organizou-se um tribunal a que presidiram como juízes os dois capitães, Pizarro e Almagro. Nomeou-se um fiscal e concedeu-se um defensor ao prisioneiro.


Eram doze as acusações formuladas contra o Inca. As mais importantes eram a de que havia usurpado a coroa e assassinado o seu irmão Huascar; além disso, havia dissipado as rendas públicas desde a conquista do país pelos espanhóis, dotando com elas os seus parentes e favoritos; acusavam-no também dos crimes de idolatria e de adultério, vivendo publicamente casado com muitas mulheres; apontavam-lhe, por último, que tinha tratado de sublevar os seus vassalos contra os espanhóis.
Estas acusações, muitas das quais se referiam aos costumes do país ou às relações pessoais do Inca – sobre que os invasores espanhóis não possuíam qualquer jurisdição -, eram absurdas. A única a ter alguma importância, se fosse verdadeira, era a última, mas a sua debilidade era tamanha que os julgadores se viram na necessidade de acrescentar-lhe as outras. O artifício indicia que estava já decidida a morte do Inca.

Foram ouvidos alguns testemunhos índios, e as suas declarações, quando passaram pelo crivo da interpretação de Felipillo (um natural da terra que odiava Atahualpa), sofreram graves deturpações, ao sabor dos interesses dos invasores. Rapidamente se concluiu a audição das testemunhas, a que se seguiu uma discussão acalorada acerca das vantagens e das desvantagens que resultariam da morte do Inca.
A questão era de mera conveniência. Por fim declararam-no culpado, não sabemos se de todos os crimes que lhe eram atribuídos, e foi condenado a ser queimado vivo na grande praça de Caxamalca; a sentença deveria executar-se naquela mesma noite, sem sequer se esperar o regresso do destacamento enviado a Guamachucho, cujas informações poderiam confirmar ou desmentir os rumores relativos à insurreição dos índios.
Como fosse julgada necessária a aprovação do padre Valverde, apresentou-se-lhe uma cópia da sentença para que a assinasse, o que ele fez sem vacilações, declarando que, em sua opinião, o Inca merecia em qualquer caso a morte.



Houve, sem embargo, alguns presentes no tribunal que manifestaram a sua discordância acerca destas acções arbitrárias, considerando-as como uma enorme ingratidão para com os favores recebidos do Inca, o qual só tinha sofrido agravos em troca. Declararam que os testemunhos acusatórios eram insuficientes para uma condenação daquelas, e negaram que o tribunal reunisse autoridade para sentenciar um príncipe soberano no centro dos seus próprios domínios. Havendo necessidade de um julgamento, sustentavam eles, o prisioneiro deveria ser embarcado para Espanha e julgado ante o Imperador, único ser que possuía o direito de decidir a sua sorte.
Porém, a grande maioria dos presentes, que era de dez contra um, respondeu a estas objecções afirmando que estava convencida do crime de Atahualpa, e que tomava sobre si a responsabilidade do acto. A disputa subiu de tom a ponto de quase se ter verificado uma violenta ruptura. Mas, por fim, convencidos de que a resistência seria inútil, os opositores remeteram-se ao silêncio, limitando-se a elaborar um protesto escrito contra os procedimentos em curso, que deveriam deixar uma mancha indelével sobre os que neles tomassem parte.

Quando Atahualpa, o Inca, recebeu a notícia da sentença, manifestou grande desgosto e angústia, pois, apesar de nos últimos tempos desconfiar de que o pudessem condenar à morte, havia mantido um fio de esperança quanto à atitude dos captores. Por um instante a certeza do seu trágico destino debilitou-lhe o ânimo e fê-lo exclamar, de lágrimas nos olhos: Que fiz eu, que fizeram os meus filhos para merecer tal sorte? E, sobretudo, que fizemos para merecê-la das tuas mãos – acrescentou, dirigindo-se a Pizarro – quando tu não achaste mais do que amizade e afecto no meu povo, quando reparti contigo os meus tesouros, quando de mim não recebeste senão benefícios? Depois, em tom dramático, suplicou que lhe perdoassem a vida, prometendo dar todas as garantias que se lhe exigissem para segurança de todos os espanhóis que compunham o exército e oferecendo o dobro do resgate que já havia pago se lhe dessem tempo para reuni-lo.
Uma testemunha ocular assegura que Pizarro se manifestou visivelmente afectado ao separar-se do Inca, a cujos rogos não podia aceder porque isso significaria opor-se à vontade do exército e à sua própria convicção de que a desaparição do Inca era indispensável à pacificação do país.
Atahualpa, vendo que não conseguia dissuadir o conquistador, recobrou a sua habitual serenidade e desde aquele momento submeteu-se ao seu destino com a atitude e o valor de um guerreiro índio.

Publicou-se a sentença do Inca, ao som das trombetas, na grande praça de Caxamalca. E, duas horas depois de o sol se pôr, os soldados reuniram-se ali, empunhando tochas, para presenciarem a execução.
Era o dia 29 de Agosto de 1533. Atahualpa saiu a pé, preso por cadeias de ferro, em direcção ao local do suplício. O padre Vicente de Valverde seguia a seu lado procurando consolá-lo e realizando uma derradeira tentativa de que ele desistisse das suas crenças supersticiosas e abraçasse a religião dos vencedores; tudo porque pretendia salvar a alma da sua vítima no Além, ele que tão espontaneamente o havia condenado a tão terrível expiação neste mundo terreno.




Durante a prisão de Atahualpa o padre Valverde havia-lhe exposto repetidas vezes as doutrinas do cristianismo, e o monarca índio, escutando-o embora com paciência, não se mostrara nunca disposto a renunciar às crenças dos seus antepassados. Agora, contudo, na hora solene e terrível da execução, o padre dominicano jogou o último lance. Com Atahualpa já amarrado para o suplício, tendo ao redor as tochas que haviam de incendiar a sua pira funerária, Valverde, erguendo a cruz, rogou-lhe que se convertesse e que se deixasse baptizar: se o fizesse, a horrorosa sentença da fogueira seria comutada na pena mais suave do garrote.

O desditoso monarca perguntou se era mesmo verdade o que se lhe dizia, e, tendo obtido a confirmação de Pizarro, consentiu em abjurar da sua religião e em receber o baptismo. A cerimónia foi levada a cabo pelo padre Valverde e o neófito recebeu o nome de Juan de Atahualpa, em honra de S. João Baptista, em cujo dia se verificou aquele sucesso.
Atahualpa manifestou desejo de que os seus restos fossem trasladados para Quito, sua terra natal, para que fossem conservados com os dos seus antepassados por linha materna. Depois, volvendo-se para Pizarro, pediu-lhe como último favor que tivesse compaixão dos seus jovens filhos e os acolhesse à sua protecção e amparo.
Depois, recuperando a serenidade habitual, que por instantes o havia abandonado, submeteu-se tranquilamente à sua sorte, enquanto os espanhóis que o rodeavam entoavam o credo pela salvação da sua alma.
Assim pereceu o último dos Incas – como se se tratasse de um vulgar malfeitor.

O corpo do Inca permaneceu no local da execução durante toda a noite. Na manhã seguinte levaram-no para a igreja de S. Francisco, erigida pelos conquistadores, onde se celebraram as exéquias com grande solenidade.
Pizarro e os principais cavaleiros assistiram de luto, e as tropas escutaram com devota atenção o ofício de defuntos celebrado pelo padre Valverde. A cerimónia foi interrompida por gritos e choros vindos das portas do templo, que se abriram repentinamente, dando entrada a um numeroso grupo de índias – esposas e irmãs do falecido. Invadindo a grande nave, cercaram o corpo dizendo que não era aquele o modo correcto de celebrar os funerais de um Inca, e declarando-se dispostas a sacrificar-se sobre a sua tumba para o acompanharem no país dos espíritos.
Os circunstantes, ofendidos com tal procedimento, informaram as invasoras de que Atahualpa havia morrido cristão e de que o seu novo Deus aborrecia tais sacrifícios. Depois intimaram-nas a que saíssem da igreja, e muitas delas, ao retirarem-se, suicidaram-se na esperança de acompanhar o seu amado senhor nas brilhantes mansões do Sol.


Os restos de Atahualpa, não obstante a súplica que havia feito, foram depositados no cemitério de S. Francisco. Mas correu mais tarde que os índios, mal os espanhóis saíram de Caxamalca, o trasladaram em segredo para Quito.
Os colonos que posteriormente ali se estabeleceram supunham que tinham sido enterradas com o Inca algumas riquezas.
Efectuaram escavações – mas não acharam nem o corpo nem tesouros."

(FIM DA 4.ª E ÚLTIMA PARTE)