sábado, 29 de fevereiro de 2020

Eça de Queiroz e a Revolta na Índia Portuguesa (1871) - "Se podemos vender a Índia aos Ingleses, vendamos a Índia, por Deus!"

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Portugal aportou à Índia em 1498 (rever aqui). Meia dúzia de anos depois instalou-se na região com um vice-rei expressamente nomeado para o efeito (Francisco de Almeida).

Assim se deu início a uma presença contínua, mas sobressaltada, em diversos territórios costeiros (Goa, Damão, Diu…), aventura que só chegaria ao seu termo, de forma violenta, com a invasão militar promovida pela União Indiana, recém-independente, em Dezembro de 1961.
Durou quase meio milénio esse minúsculo, surpreendente e irrealista "Estado Português da Índia".

Quem não parece ter levado muito a sério essa epopeia no Índico - nem outras deambulações coloniais - foi Eça de Queiroz, o grande escritor português. O artigo que escreveu para "As Farpas" em 1871 (tinha ele 25 anos de idade), e que abaixo se transcreve, constitui disso uma excelente e bem-humorada demonstração...


História Pitoresca da Revolta da Índia
(Setembro – 1871)
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"Andávamos inteiramente esquecidos da Índia!
Uma clara manhã, ela aparece violentamente no meio de nós, envolta num telegrama do sr. Visconde de S. Januário.
Por essa ocasião, muito bom português se admirou que a Índia ainda fosse nossa!
Ela tinha saído, havia muito, das pompas solenes dos artigos de fundo.
Ela quase não aparecia nos orçamentos.
Obscura, velha, arruinada, estéril, dobrada sobre si mesma, comia, nas brumas distantes, o seu arroz!
A sua reaparição surpreendeu!
A notícia de que ela ainda tinha vitalidade bastante para se revoltar – espantou!
A certeza de que ainda ali havia soldados, cidadãos, fortes, interesses e telégrafos – sobressaltou!



Uma vez que a gloriosa Índia ainda existia, era necessário que existisse o correspondente “brio patriótico”: sacudiu-se o velho “brio patriótico” do pó e da caliça – e cada um vestiu o “velho brio patriótico”.
Começou então o movimento.
A Baixa (de Lisboa) teve os seus alvitres.
Os jornais perfilaram de novo, em parada, as frases solenes de perruca e rabicho, que celebram num ritmo dormente o alto amor da pátria.
Meteu-se na mão do sr. infante D. Augusto uma espada – condicional.
A própria Estefânia comoveu-se, venceu os nervos, o chic, a preguiça, e partiu, cheia de mobília e de brio, a salvar o mapa das possessões…
Nós, entretanto, ríamos.


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Oh Santo Deus!, não era cepticismo, não.
Como outros quaisquer, mais que outros quaisquer, nós amamos a terra do nosso berço, a pátria, o velho Portugal, etc.
Mas nós sabemos, meus dignos senhores, que uma revolta na Índia é alguma coisa tão extremamente insignificante, efémera e nula como um meeting civil no reino. (…)

O grosso do exército da Índia é composto de indígenas - mouros, canarins, banianos e gentios.
Estes nomes melodiosos designam castas; e as castas na Índia conservam ainda todo o seu velho e irreconciliável separatismo.
As castas desprezam-se, guerreiam-se, e nunca absolutamente se fundem. Quase não se comunicam.

Se um baniano toca a púcara de barro poroso de um canarim, o canarim espedaça num cunhal a púcara desventurada!
Estas hostilidades, nada as dissipa: nem as promiscuidades inevitáveis da caserna, nem os rigores igualitários da disciplina.
De sorte que o exército, formado destes elementos antipáticos, que se não unem, que se amaldiçoam, e onde apenas há o contacto material dos ombros na fileira - não tem unidade nem coesão.

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Além disto, todas as castas têm hábitos fatais, horas impreteríveis.
Está o soldado gentio de guarda: se chega a hora do seu arroz e não lho trazem - ele pousa tranquilamente a espingarda, cruza as mãos atrás das costas, e vai ao quartel ladrar contra o rancheiro; se chega a hora da ablução, atira a arma para um canto, e corre, aos pulos, a acocorar-se à beira do mar!

E não há severidades, não há castigos, que alterem estes hábitos orientalmente fatais.
A oficialidade deste exército compõe-se pela maior parte de portugueses nascidos na índia – mestiços, castiços ou descendentes.
São os filhos de antigos degredados, de velhos bastardos da fidalguia indiana, de oficiais expedicionários, etc.
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Além destes oficiais nativos, há os oficiais europeus, mandados do continente, os expedicionários.
Estes, por altos motivos que só os grandes homens de Estado - como o Sr. Barros e Cunha - podem saber, têm um soldo maior que os oficiais índios.
Ora os oficiais índios, com um zelo pelas rupias extremamente compreensível, quereriam ter um soldo igual aos oficiais que vão de Portugal.
Por consequência, requerem.
Têm a ingenuidade asiática de requerer!

Mas quando desesperam dos despachos da Pátria, permitem-se, como uma variedade mais ruidosa, uma certa porção de revolta!
Levam alguns batalhões para a rua e soltam o babadé.
O babadé é um ah! ah! ah! prolongado, uivado - cortado pela mão espalmada que bate rapidamente sobre a boca.
Tais são as revoltas da Índia, ó concidadãos timoratos!
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Para conter este elemento indígena e revoltoso, que meios tem o sr. governador-geral?
Diz-se que o sr. governador-geral, para defesa dos grandes interesses portugueses, dispõe da guarda municipal.
Essa guarda foi todo o tempo composta de soldados portugueses, que os índios chamam paquelós.
Os portugueses que vão servir como funcionários são considerados aristocracia, e chamam-se fringuis.
Na Índia, o Sr. Melício seria um fringui!

Esta guarda foi sempre segura, fiel e valente. Somente, hoje, tem a qualidade lamentável das legiões de Varo: - já não existe!
A Pátria distraída esqueceu-se de renovar os paquelós: e a Morte, com um desdém pelas nossas possessões que nunca lhe censuraremos bastante, foi-os levando, e paqueló após paqueló, destruiu na Índia todo o poder lusitano.

Hoje, duas ou três companhias de mouros compõem a guarda fiel: estes pobres mouros arrastam na vadiagem os sapatos rotos, e estimulam o seu entranhado patriotismo com aguardente de banana, bebida alucinadora que leva à caquexia!
O que hoje há, pois, nessa Índia gloriosa e tradicional, para policiar e sustentar o poder português, é um bando de mouros sujos, idiotas, e bêbedos de aguardente!

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Pois bem! Ainda assim uma revolta na Índia não tem seriedade. E o motivo é que os oficiais, que, para terem maior número de rupias no seu soldo, tentaram uma revolta, vêem-se, realizada ela, singularmente embaraçados.
Vêem-se sós.
Em primeiro lugar, os soldados não vão por um impulso próprio.
Divididos em castas, fracos, ignorantes, odiando-se, sem terem interesse comum ou vontade comum - vão unicamente porque os seus oficiais, no primeiro momento, lhes mandaram que fossem.
É mesmo assim - como eles dizem.

Se contra eles, porém, se apontar uma espingarda fiel - como estão ali, não em virtude da revolta sua, mas por obediência à revolta alheia - dispersam.
E, depois, os oficiais revoltados não têm rancho para lhes dar.
O povo conserva-se indiferente, sem adesão, sem simpatia.
Os que possuem alguma rupia, nesses dias enterram-na; os que têm arroz ensacado, escondem-no. Ninguém confia uma para a um oficial revoltado.
Ao segundo dia de desordem, quando chega a hora do rancho, os oficiais só têm a dar aos soldados - palavras de entusiasmo!
Os soldados (nunca podemos compreender por quê) preferem o arroz à retórica; e começam a debandar.



Além disso, no exército índio não há pólvora, nem munições... Quase não há armas!
Por outro lado, à mais pequena insurreição, a disciplina, já famosamente diminuta, desaparece, sem pudor nenhum; e as diversas castas aproveitam os vagares da revolta para se espancarem com fervor.
Acrescente-se que os oficiais da Índia não têm instrução, nem táctica; não são capazes de ordenar uma marcha hábil, de formar um campo entrincheirado, de darem um apoio estratégico à revolta.

Ao fim de dois dias de gritos e de babadé, acham-se nesta situação triunfante: sem ponto de apoio, sem adesões, sem rancho, sem munições, sem dinheiro, sem disciplina.
Se o governador-geral faz sair um bando que, ao som do tambor, propõe a amnistia, cada um solta um ah! de satisfação e de alívio, e volta para o seu quartel!
Ainda tendes medo, patriotas da Arcada?



E não se deve esquecer ainda esta circunstância: o índio das nossas possessões é de uma debilidade gelatinosa. Anémico, miudinho, assustadiço, consumido pelo sol, mal sustentado de arroz, o índio cai de bruços com uma carícia no rosto e morre com uma palmada na espinha. É de uma fraqueza comprometedora.

As pessoas inexperientes e impacientes fazem um prodigioso consumo de índios.
Um empurrão, e o índio tomba - na eternidade.

Não há talvez desembargador algum em Goa que não tenha, com a sua mão grave e jurídica, assassinado um índio!
Dá-se uma pancada leve no ombro do índio - ele cambaleia, suspira, nesse dia come pouco, no outro estende-se ao sol a gemer, começa a beber muita água, e morre.
Depois, o soldado índio, mal ouve o nome de paqueló - treme.
Aí vem o paqueló - foge!
Vê o paqueló - atira-se de bruços, já moribundo.

Há tempos, em Mapuçá, um regimento de 400 praças revoltou-se.
Sai para a rua e vem fazer babadé para defronte da casa do comandante.
O comandante, à janela, em chinelas, tomava café, e entre os goles, vagarosamente sorvidos, exclamava para o regimento insurgido:
Ah! vocês revoltaram-se? Depois para dentro, ao criado: — Mais açúcar!

E continuava:
Bem, eu já vos falo. - (Uma colher! )
- Assim é que estais disciplinados, velhacos? — (Dá cá o cachimbo! ) - Ora deixai estar que os paquelós aí vêm! - (lume!)...

O regimento hesitava.
Nisto aparece, numa pequena elevação, a distância, o tenente Bruno de Magalhães, que vinha, com 20 paquelós, bater os 400 revoltosos.
Os 400 revoltosos, só com ver ao longe os 20 paquelós, debandaram aos gritos.
Nem mesmo se chegou nunca a saber por que se tinham revoltado!
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Porém, ó homens de Estado, podeis dizer-nos:
Mas se a Inglaterra meter lenha para o forno? Uff! A Inglaterra?!
No dia, meus senhores, em que a Inglaterra mandasse um soldado à fronteira da Índia Portuguesa - todo o território índio, mestiços, canarins, descendentes, todas as castas, todas as fraquezas se levantavam num ímpeto.
Povo e tropa na Índia tudo querem - menos o Inglês.

O povo não quer o Inglês - porque no nosso regime ele vive na ociosidade, no desleixo, na sua imundície querida, na sua bem-amada traficância; e se fosse inglês, o cipaio viria obrigá-lo, a golpes de curbach, a ser policiado e a ser trabalhador.
E o soldado índio detesta o Inglês - porque, sob o nosso regime, ele pode subir os postos até major; e sob o regime inglês não subiria nem a cabo!
Aí está a razão por que uma revolta na Índia não tem valor, e por que foram tão supérfluos os vossos fervores patrióticos!
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No entanto, é indispensável que estes sustos acabem!
O País está débil e fraco, e estas comoções matam-no.
Há pouco Macau, agora a Índia!
Que as colónias nos deixem respirar!
Que se revoltem, sim, mas com intervalos, sem acumular.
Que se abra mesmo um registo no Ministério da Marinha. Em Setembro de 71 revoltou-se a Índia? - Pois bem, só em Setembro de 1872 será permitido que Timor se subleve.

A Índia não nos serve senão para nos dar desgostos.
É um pedaço de terra tão escasso que se anda a cavalo num dia.

As pequenas povoações caem em ruína e em imundície; não há nelas movimento, nem iniciativa; a única cultura é o arroz, que exportam a 5 para importar a 8;
a única indústria é fazer olas, que são uns encanastrados de palmeira com que se erguem os pacaris, alpendres coloridos e frescos que sombreiam as janelas;
não existe nenhum comércio;
os tributos esmagam;

dois ou três homens ricos, Jossy e mais dois, que se vêem nos patins, descalços e encruzados, comendo o seu arroz com a mão, têm o dinheiro enterrado, e quando se lhes garante um forte juro, cavam e emprestam;
as escolas são uma ficção grotesca;
as estradas são a espessura do mato;
a higiene é feita pelos cães que lambem as imundícies na rua;
a polícia é feita por cada um com o seu bambu;

uma intriga sórdida e rastejante agita indígenas e europeus;
o deboche tem o ardor do clima;
os soldados embebedam-se com aguardente;
e, no entanto, velhos pardieiros, que se esboroam às mordeduras do sol, esconderijos de corvos, lembram as nossas glórias e alastram o chão de caliça.
Tal é a Índia Portuguesa.
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Noutro número das Farpas lembrámos, a respeito das colónias, este grande melhoramento - vendê-las!
Ocorre-nos outro ainda maior a respeito da Índia - dá-la!
E quanto a glórias nacionais, contentemo-nos com o barítono Lisboa e com o Sr. Arrobas - e é já glória bastante!

A única coisa por que conservamos a Índia, é por ser uma glória do passado.
Oh! meus senhores, também D. João I é uma glória, e nós não nos conservamos abraçados à sua sepultura, soluçando e gemendo.

O passado é belo e heróico - bem: quando o passado pretende antepor-se aos interesses do presente, o passado é caturra!
Seria verdadeiramente impertinente que uma rosa murcha tivesse a pretensão de andar na boutonnière da nossa sobrecasaca;
que uma pomada rançosa do ano passado ousasse querer anediar os nossos cabelos;
e que o esqueleto da mulher amada ainda tentasse dar-nos beijos!


Se podemos vender a Índia aos Ingleses, vendamos a Índia, por Deus!
E quanto às glórias de Diu e de Damão, se elas se querem conservar na História e na pompa da epopeia, quietinhas e caladinhas, terão a nossa consideração.
Mas se, quando se tratar de negociar, elas se interpuserem com recordações importunas, dir-lhes-emos insolências, e desejaríamos dar-lhes coronhadas.
Fora daqui, caturras! voltai para o sepulcro e para o pó das crónicas!

D. João de Castro, hoje, não serve senão para os rapazes de latinidade fazerem temas na província.
Tem paciência, glorioso varão! Sobre as tuas soberbas façanhas, o nosso tempo científico, positivo e racionalista, não tem senão a dizer-te:

«Cumpriste sublimemente, meu velho D. João, os deveres do teu tempo segundo as ideias do teu tempo. Dorme agora quieto o teu grande dormir; e deixa que nós, segundo as ideias do nosso tempo, cumpramos os deveres do nosso tempo!» " (*)

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(*) - Eça de Queiroz - Portugal  (1845-1900)

Fontes do Texto:
a) As Farpas - Setembro de 1871 - Typographia Universal, Rua dos Calafates, 110, Lisboa - Portugal.
b) Uma Campanha Alegre (As Farpas) - Lello & Irmão Editores - Porto - Portugal - 1979.

Imagens: Travel Pictures (Índia)


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica - "Quem Me Dera..."



Quem me dera rasgar o coração com uma navalha,
encerrar-te lá dentro
e voltar a fechar o peito
para que dentro dele
tu estivesses,

para que em mais nenhum
tu habitasses,
até ao dia da ressurreição
e do juízo final.

Assim viverias comigo
enquanto eu existisse

e assim ficarias,
entre as dobras do meu coração,
mesmo depois da minha morte,
rodeada pelas trevas do sepulcro.



Autor: Ibn Hazm, de seu nome completo Abu Muhammad Ali Ibn Hazm.
Nasceu em Córdoba, no ano de 994, e faleceu em Montíjar, em 1064.
Nesse tempo, Portugal ainda não existia como nação independente...

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Parabéns à magnífica Anna Fedorova, que celebra hoje 30 anos! (com Chopin)


Anna Fedorova veio ao mundo a 27 de Fevereiro de 1990 na cidade de Kiev, União Soviética (Ucrânia independente a partir de Agosto de 1991).

Nascida em família de músicos, iniciou-se no piano clássico aos cinco anos de idade, deu o primeiro recital aos seis e concretizou a primeira prestação nacional, com a Orquestra Sinfónica da Ucrânia, aos sete.

Executante virtuosa e segura, dona de um cunho pessoalíssimo e inconfundível, tem dado concertos um pouco por toda a parte, sobretudo na Europa e na América.
São particularmente notáveis, por exemplo, os seus desempenhos no Concerto n.º 2 para Piano e Orquestra de Rachmaninoff, ou no Concerto n.º 1 para Piano e Orquestra de Tchaikovsky.

Homenageamos a aniversariante (muito apreciada aqui pela Torre) escutando-a em duas belas peças de Chopin:

1 - [Valsa op. 64, n.º 2]:

2 - [Estudo op. 25, n.º 11]:
Para aceder
à página oficial de Anna Fedorova,
clique aqui.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Marie Colvin - A correspondente de guerra que tombou no seu posto


Marie Colvin, jornalista e correspondente de guerra, nasceu a 12 de Janeiro de 1956 nos Estados Unidos da América (New York) e faleceu em 22 de Fevereiro de 2012 na cidade de Homs (Síria). Trabalhou, desde 1985 até ao termo dos seus dias, para o jornal britânico The Sunday Times.
Enquanto correspondente de guerra, a vida de Marie Colvin foi um constante sobressalto, em que arriscou com frequência a integridade física e, como ficaria tragicamente demonstrado, a própria vida. Correspondente do seu jornal no Médio Oriente, cobriu também conflitos na Tchetchénia, Serra Leoa, Zimbabwe, Kosovo, Timor Leste e Sri Lanka.

Foi precisamente na guerra civil do Sri Lanka que ela foi atingida com gravidade pelos estilhaços de uma granada, apesar de se ter previamente identificado como jornalista. Em consequência disso, perdeu a visão do olho esquerdo e passou a usar a pala (tapa-olho) com que surge em diversos documentários e fotos (como acima). Tinha então 44 anos de idade.


O fim de Marie chegou no mês de Fevereiro de 2012, quando ela realizava a cobertura do cerco da cidade de Homs, na Síria, pelas forças do governo. Refugiada num prédio com outros (poucos) jornalistas, efectuou a derradeira transmissão na noite do dia 21, sendo seguida na BBC, CNN, Channel 4 e ITN News.

Numa reportagem que não deixou dúvidas a ninguém, descreveu os criminosos bombardeamentos contra pessoas e edifícios civis levados a cabo pelas tropas de Bashar al-Assad. Teve ainda tempo de classificar o conflito como "o pior que havia experimentado durante a sua carreira".

Horas depois, já no dia 22 de Fevereiro, o edifício e as redondezas foram atingidos em cheio pela artilharia síria: o alvo fora provavelmente localizado pelos sinais telefónicos, via satélite, que haviam suportado a transmissão. Marie Colvin morreu no seu posto, juntamente com Rémi Ochlik, um fotógrafo francês. O fotógrafo que a acompanhava nas suas reportagens, Paul Conroy, sobreviveu ao ataque.

Na noite da sua morte, muita gente veio lamentar nas ruas de Homs aquilo que pareceu ser um assassínio premeditado.
O funeral de Marie ocorreu em Oyster Bay, New York, em 12 de Março de 2012.
No mês de Julho de 2016, os advogados da família moveram uma acção judicial contra o governo da Síria, alegando terem provas de que este ordenara directamente o assassínio daquela jornalista tão corajosa como incómoda.


Rosamund Pike no papel de Marie Colvin ("A Private War").


Em 2018, seis anos decorridos sobre aquela trágica noite, Matthew Heineman realizou um interessante filme biográfico sobre a jornalista - A Private War, exibido em Portugal com o título Uma Guerra Pessoal.

O papel de Marie é magistralmente desempenhado pela actriz Rosamund Pike. Paul Conroy, o seu fotógrafo, é representado por Jamie Dornan.

Uma Guerra Pessoal (A Private War)
Trailer oficial (legendado em português):

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Tragédia Brasileira (Manuel Bandeira)

 
Misael, funcionário da Fazenda,
com 63 anos de idade,
conheceu Maria Elvira na Lapa,
- prostituída,
com sífilis,
dermite nos dedos,
uma aliança empenhada
e os dentes em petição de miséria.


Misael tirou Maria Elvira da vida,
instalou-a num sobrado no Estácio,
pagou médico,
dentista,
manicura...
Dava tudo quanto ela queria.


Quando Maria Elvira se apanhou
de boca bonita,
arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo.
Podia dar uma surra,
um tiro,
uma facada.
Não fez nada disso:
mudou de casa.


Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira
arranjava namorado,
Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio,
Rocha, Catete,
Rua General Pedra,
Olaria, Ramos,
Bonsucesso,
Vila Isabel,
Rua Marquês de Sapucaí,
Niterói, Encantado,
Rua Clapp,
outra vez no Estácio,
Todos-os-Santos,
Catumbi,
Lavradio,
Boca do Mato,
Inválidos…

 
Por fim na Rua da Constituição,
onde Misael,
privado de sentidos
e de inteligência,
matou-a com seis tiros,
e a polícia foi encontrá-la
caída
em decúbito dorsal,
vestida de organdi azul.
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Manuel Bandeira - Brasil (1886-1968)

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Aberturas de Grandes Livros - "O Crime do Padre Amaro" (Eça de Queiroz - Portugal)

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"Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia.
O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões. Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica — que o detestava — costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado:
Lá vai a jibóia esmoer. Um dia estoura!

Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe — à hora em que defronte, na casa do doutor Godinho, que fazia anos, se polcava com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral não era estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.

Nunca fora querido das devotas; arrotava no confessionário, e, tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera por isso, logo ao princípio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de lábia!
E quando as beatas, que lhe eram fiéis, lhe iam falar de escrúpulos de visões, José Miguéis escandalizava-as, rosnando:
Ora histórias, santinha! Peça juízo a Deus! Mais miolo na bola!
As exagerações dos jejuns sobretudo irritavam-no:
Coma-lhe e beba-lhe - costumava gritar -, coma-lhe e beba-lhe, criatura!

Era “miguelista” — e os partidos liberais, as suas opiniões, os seus jornais enchiam-no duma cólera irracional:
Cacete ! Cacete ! - exclamava, meneando o seu enorme guarda-sol vermelho.

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Nos últimos anos tomara hábitos sedentários e vivia isolado — com uma criada velha e um cão, o Joli. O seu único amigo era o chantre Valadares, que governava então o bispado, porque o senhor bispo D. Joaquim gemia, havia dois anos, o seu reumatismo, numa quinta do Alto Minho.
O pároco tinha um grande respeito pelo chantre, homem seco, de grande nariz, muito curto de vista, admirador de Ovídio — que falava fazendo sempre boquinhas, e com alusões mitológicas.

O chantre estimava-o. Chamava-lhe Frei Hércules.
— "Hércules" pela força — explicava sorrindo, "Frei" pela gula.
No seu enterro ele mesmo lhe foi aspergir a cova; e, como costumava oferecer-lhe todos os dias rapé da sua caixa de ouro, disse aos outros cónegos, baixinho, ao deixar-lhe cair sobre o caixão, segundo o ritual, o primeiro torrão de terra:
É a última pitada que lhe dou!

Todo o cabido riu muito com esta graça do senhor governador do bispado; o cónego Campos contou-a à noite ao chá em casa do deputado Novais; foi celebrada com risos deleitados, todos exaltaram as virtudes do chantre, e afirmou-se com respeito — que sua excelência tinha muita pilhéria!

Dias depois do enterro apareceu, errando pela Praça, o cão do pároco, o Joli.
A criada entrara com sezões no hospital; a casa fora fechada; o cão, abandonado, gemia a sua fome pelos portais. Era um bicho pequeno, extremamente gordo, — que tinha vagas semelhanças com o pároco.
Com o hábito das batinas, ávido dum dono, apenas via um padre punha-se a segui-lo, ganindo baixo. Mas nenhum queria o infeliz Joli ; enxotavam-no com as ponteiras dos guarda-sóis; o cão, repelido como um pretendente, toda a noite uivava pelas ruas.
Uma manhã apareceu morto ao pé da Misericórdia; a carroça do estrume levou-o e, como ninguém tornou a ver o cão, na Praça, o pároco José Miguéis foi definitivamente esquecido.



Dois meses depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro pároco. Dizia-se que era um homem muito novo, saído apenas do seminário.
O seu nome era Amaro Vieira. Atribuía-se a sua escolha a influências políticas, e o jornal de Leiria, A Voz do Distrito, que estava na oposição, falou com amargura, citando o Gólgota, no favoritismo da corte e na reacção clerical.
Alguns padres tinham-se escandalizado com o artigo; conversou-se sobre isso, acremente, diante do senhor chantre:
- Não, não, lá que há favor, há; e que o homem tem padrinhos, tem - disse o chantre. - A mim quem me escreveu para a confirmação foi o Brito Correia [Brito Correia era então ministro da Justiça]. Até me diz na carta que o pároco é um belo rapagão. De sorte que - acrescentou sorrindo de satisfação - depois de "Frei Hércules" vamos ter "Frei Apolo".

Em Leiria havia só uma pessoa que conhecia o pároco novo: era o cónego Dias, que fora, nos primeiros anos do seminário, seu mestre de Moral. No seu tempo - dizia o cónego - o pároco era um rapaz franzino, acanhado, cheio de espinhas carnais:
- Parece que o estou a ver com a batina muito coçada e cara de quem tem lombrigas!... De resto, bom rapaz. E espertote...
O cónego Dias era muito conhecido em Leiria. Ultimamente engordara, o ventre saliente enchia-lhe a batina; e a sua cabecinha grisalha, as olheiras papudas, o beiço espesso - faziam lembrar velhas anedotas de frades lascivos e glutões.
O tio Patrício, o Antigo, negociante da Praça, muito liberal, e que, quando passava pelos padres, rosnava como um velho cão de fila, dizia às vezes ao vê-lo atravessar a Praça, pesado, ruminando a digestão, encostado ao guarda-chuva: Que maroto! Parece mesmo D. João VI!




O cónego Dias vivia só com uma irmã velha, a snr.ª D. Josefa Dias, e uma criada, que todos conheciam também em Leiria, sempre na rua, entrouxada num xaile tingido de negro, e arrastando pesadamente as suas chinelas de ourelo. O cónego passava por ser rico; trazia ao pé de Leiria propriedades arrendadas, dava jantares com peru, e tinha reputação o seu vinho duque de 1815. Mas o facto saliente da sua vida - o facto comentado e murmurado - era a sua antiga amizade com a snr.ª Augusta Caminha, a quem chamavam a S. Joaneira, por ser natural de S. João da Foz.
A S. Joaneira morava na rua da Misericórdia, e recebia hóspedes. Tinha uma filha, a Ameliazinha, rapariga de vinte e três anos, bonita, forte, muito desejada.

O cónego Dias mostrara um grande contentamento com a nomeação de Amaro Vieira. Na botica do Carlos, na Praça e na sacristia da Sé exaltou os seus bons estudos no seminário, a sua prudência de costumes, a sua obediência. Gabava-lhe mesmo a voz: "um timbre que é um regalo":
- Para um bocado de sentimento nos sermões da Semana Santa está a calhar!
Predizia-lhe com ênfase um destino feliz, uma conezia decerto, talvez a glória dum bispado! E um dia, enfim, mostrou com satisfação ao coadjutor da Sé, criatura servil e calada, uma carta de Lisboa que recebera de Amaro Vieira.
Era uma tarde de Agosto e passeavam ambos para os lados da Ponte Nova. Andava então a construir-se a estrada da Figueira: o velho passadiço de pau sobre a ribeira do Lis tinha sido destruído, já se passava sobre a Ponte Nova, muito gabada, com os seus dois largos arcos de pedra, fortes e atarracados (…).


 (…) Ali, caminhando devagar, falando baixo, o cónego Dias consultava o coadjutor sobre a carta de Amaro Vieira, e sobre uma ideia que ela lhe dera, que lhe parecia de mestre! De mestre!
Amaro pedia-lhe com urgência que lhe arranjasse uma casa de aluguer, barata, bem situada, e se fosse possível, mobilada; falava sobretudo de quartos numa casa de hóspedes respeitável:
Bem vê o meu caro Padre-Mestre - dizia Amaro - que era isto que verdadeiramente me convinha; eu não quero luxos, está claro: um quarto e uma saleta seria o bastante. O que é necessário é que a casa seja respeitável, sossegada, central; que a patroa tenha bom génio e que não peça mundos e fundos; deixo tudo isto à sua prudência e capacidade, e creia que todos estes favores não cairão em terreno ingrato. Sobretudo que a patroa seja pessoa acomodada e de boa língua.

- Ora a minha ideia, amigo Mendes, é esta: metê-lo em casa da S. Joaneira! - resumiu o cónego com grande contentamento. - É rica ideia, hein?
- Soberba ideia! - disse o coadjutor com a sua voz servil.
- Ela tem o quarto de baixo, a saleta pegada e o outro quarto, que pode servir de escritório. Tem boa mobília, boas roupas...
- Ricas roupas - disse o coadjutor com respeito.
O cónego continuou:
- É um belo negócio para a S. Joaneira: dando os quartos, roupa, comida, criada, pode muito bem pedir os seis tostões por dia. E depois sempre tem o pároco de casa.
- Por causa da Ameliazinha é que eu não sei - considerou timidamente o coadjutor - Sim, pode ser reparado. Uma rapariga nova... Diz que o senhor pároco é ainda novo. Vossa senhoria sabe o que são as línguas do mundo…



O cónego tinha parado:
- Ora histórias! Então o padre Joaquim não vive debaixo das mesmas telhas com a afilhada da mãe? E o cónego Pedroso não vive com a cunhada, e uma irmã da cunhada, que é uma rapariga de dezanove anos? Ora essa!
- Eu dizia... - atenuou o coadjutor.
- Não, não vejo mal nenhum. A S. Joaneira aluga os seus quartos, é como se fosse uma hospedaria. Então o secretário-geral não esteve lá uns poucos de meses?
- Mas um eclesiástico... - insinuou o coadjutor.
- Mais garantias, senhor Mendes, mais garantias! - exclamou o cónego.
E parando, com uma atitude confidencial:
- E depois a mim é que me convinha, Mendes! A mim é que me convinha, meu amigo!
Houve um pequeno silêncio. O coadjutor disse, baixando a voz:
- Sim, vossa senhoria faz muito bem à S. Joaneira...
- Faço o que posso, meu caro amigo, faço o que posso - disse o cónego.
E com uma entonação terna, risonhamente paternal:
- Que ela é merecedora, é merecedora…"  (*)






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(*) - O Crime do Padre Amaro - Eça de Queiroz - Portugal (1845-1900)