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sexta-feira, 15 de março de 2019

Suspeitas de crime na morte de D. João VI (de Portugal e Brasil)

Rei D. João VI (Queluz 1767- Lisboa 1826)
Sua Majestade fora a Belém [Lisboa] comer uma merenda. Era nos primeiros dias de Março [de 1826]. Quando voltou a palácio achou-se, à noite, mal – cãibras, sintomas de epilepsia. Vieram médicos: o barão de Alvaiázere e o valido cirurgião Aguiar.
No dia seguinte, o estado do enfermo piorou. E o rei decidiu-se a despir de si o pesado encargo do governo. A 7, a Gazeta publicava o decreto nomeando a regência, presidida pela infanta D. Isabel Maria, cuja bondade merecia as graças particulares do infeliz pai. Esta minha imperial e real determinação, afirmava o decreto do dia 6, regulará também para o caso em que Deus seja servido chamar-me à sua santa glória, enquanto o legítimo herdeiro e sucessor desta coroa não der as suas providências…
Mas quem era esse legítimo herdeiro?
D. Pedro, o brasileiro?
D. Miguel, no seu desterro de Viena?
Não o dizia o rei moribundo, que toda a vida se achara indeciso, e acabava como tinha existido, sem uma afirmação de vontade, entre flatos, na impotência de uma morte oportuna.

D. João VI no Brasil (ano de 1808)

Em Lisboa corriam os boatos mais extravagantes.

O velho imperador sem império, rei de dois mundos já reduzidos ao que ele chamava o seu canapé da Europa, massa humana estendida num leito, era como um valo ou barreira que represava a torrente de ambições e fúrias soltas ou mal contidas em 1820, em 1823, em 1824.

O caos de conflitos dinásticos, religiosos, políticos, que a fome universal acirrara, ia reaparecer à luz do dia — tão depressa o caixão do imperador-rei terminasse a viagem mortuária, do paço ao carneiro de S. Vicente de Fora.

Logo que a notícia da doença se propagou, e, mais ainda, quando apareceu o decreto do dia 6, correu uma opinião forte. D. João VI tinha sido envenenado. A peçonha fora propinada nas laranjas da merenda de Belém; embora o dessem por vivo, era cadáver quando saiu o decreto. Conservavam-no para enganar, para preparar melhor os ânimos. Mas quem era o autor de tamanhos crimes?

A rainha [Carlota Joaquina], diziam os constitucionais de então.

Os constitucionais, diziam os absolutistas apostólicos. Entretanto a rainha era esbulhada da regência, e, se tramara o feito, saía-se duas vezes mal — por isto, e porque à indecisão do decreto responderam o consenso geral e os regentes proclamando rei de Portugal o brasileiro [D. Pedro, primeiro imperador do Brasil].

D. João VI regressa do Brasil a Portugal (Lisboa, ano de 1821)
No dia 10 pela tarde morreu o rei, oficial ou realmente. Houve  sentimento e lágrimas, porque, na sua moleza insípida, era bom; sobretudo porque deixava depois de si um vácuo, uma sombra povoada de medos das inevitáveis catástrofes amontoadas e  iminentes.

Este susto agravava a maledicência geral. Ninguém já punha em dúvida a causa da morte do rei. Os boatos eram positivas certezas — de que o parecer dos médicos depois da autópsia concluiria pelo envenenamento.

Em tudo se achavam provas. Os absolutistas afirmavam cerradamente que o cozinheiro Caetano fora convidado pelos constitucionais, e que, por se recusar, morrera com o veneno destinado para o rei: com efeito, o cozinheiro caíra de repente.

Por outro lado, atribuíam-se confissões graves ao barão de Alvaiázere, que também morrera logo; e o cirurgião Aguiar, sobre quem recaíam as acusações de ter propinado o veneno dos pedreiros-livres, o cirurgião valido que fora brindado com um posto na diplomacia, morria também, assassinado segundo uns, suicida na opinião dos mais — devorado pelos remorsos do crime praticado contra o seu benfeitor!

Muita gente dizia ter lido cartas em que de Lisboa se anunciava a doença, a morte certa do rei, bastantes dias antes da merenda de Belém.

Alegoria às virtudes de D. João VI (quadro de Domingos Sequeira)
Se D. João VI morreu ou não envenenado, nem se sabe, nem importa. O que vale é o facto da opinião geral sobre o caso; e essa opinião acreditava num crime.
Os vómitos e delíquios do imperador-rei, o cortejo dos cadáveres com que o seu corpo era metido no túmulo, faziam de um crime o intróito da história dos longos crimes da sua sucessão.

A tragédia portuguesa começava, e o travo da peçonha acirrava os ânimos prontos para um combate inevitável.

A regência, e todos, tinham reconhecido como rei D. Pedro IV [Pedro I do Brasil]; mas com a certeza de que esse acto era uma pura formalidade, um incidente sem alcance, um preito, apenas, dado à doutrina da hereditariedade e ao direito da primogenitura.

Imperador no Brasil, D. Pedro não podia ser rei em Portugal: havia apenas um ano que se assinara o tratado da separação redigido pelo inglês Stuart, e sabia-se que por coisa alguma a Inglaterra consentiria na reunião dos dois estados [Portugal e Brasil].

D. Pedro teria de abdicar por força; e em quem, se não no infante D. Miguel, seu irmão? (…)
Tudo se faria em boa paz, e os medos gerais provar-se-iam infundados.
Ingénua ilusão!
Para além das questões formais, havia, no fundo, um duelo inevitável. (..) Só [seriam de esperar] o ferro, o fogo, o canhão, o punhal, a miséria, e um cataclismo final que terminasse pela morte de um dos contendores. (*)

(*) - Oliveira Martins - Portugal Contemporâneo - Tomo I - 3.ª edição - Pgs.1-5 - Livraria de António Maria Pereira (Editor) - Rua Augusta, 50-54, Lisboa (Ano de 1895)

[Texto actualizado pela Torre da História Ibérica]

sábado, 9 de março de 2019

Como Eça de Queiroz Via a Marinha Portuguesa ("As Farpas" - Julho de 1871)

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“Mas, meus senhores, antes de tudo, nós não temos Marinha!
Singular coisa! Nós só temos Marinha pelo motivo de termos colónias – e justamente as nossas colónias não prosperam porque não temos Marinha!
Todavia, a nossa Marinha, ausente dos mares, sulca profundamente o orçamento.
Gasta 1 159 000$000.
Que realidade corresponde a esta fantasmagoria das cifras?
Uns poucos de navios defeituosos, velhos, decrépitos, quase inúteis, sem artilharia, sem condições de navegabilidade, com cordame podre e mastreação carunchosa, a história obscura.
É uma Marinha inválida.
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A D. João tem 50 anos, o breu cobre-lhe as cãs: o seu maior desejo seria aposentar-se como barca de banhos.
A Pedro Nunes está em tal estado, que, vendida, dá uma soma que o pudor nos impede de escrever.
O Estado pode comprar um chapéu no Roxo com a Pedro Nunes – mas não pode pedir troco.
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A Mindelo tem um jeito: deita-se. No mar alto, todas as suas tendências, todos os seus esforços são para se deitar.
Os oficiais de Marinha que embarcam neste vaso fazem disposições finais.
A Mindelo é um esquife – a hélice.
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A Napier saiu um dia para uma possessão. Conseguiu lá chegar. Mas, exausta, não quis, não pôde voltar. Pediu-se-lhe, lembrou-se-lhe a honra nacional, citou-se-lhe Camões, o Sr. Melício, todas as nossas glórias. A Napier, insensível, como morta, não se mexeu.
Das 8 corvetas que possuímos são inúteis para combate ou para transporte – todas as 8.
Nem construção para entrar em fogo, nem capacidade para conduzir tropa.
Não têm aplicação.
Há ideia de as alugar como hotéis. A nossa esquadra é uma colecção de jangadas disfarçadas! E este grande povo de navegadores acha-se reduzido a admirar o vapor de Cacilhas!
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Têm um único mérito estes navios perante uma agressão estrangeira: impor-se pelo respeito da idade. Quem ousaria atacar as cãs destes velhos?
Já se quis muitas vezes introduzir nas fileiras destes vasos caducos alguns navios novos, ágeis, robustos. Tentou-se primeiro comprá-los.
Sucedeu o caso da corveta Hawks.
Era esta corveta uma carcaça britânica, que o Almirantado mandava vender pela madeira – como se vende um livro a peso.
Por esse tempo, o Governo português – morgado de província ingénuo e generoso – travou conhecimento com a Hawks, e comprou a Hawks. E quando mais tarde, para glória da monarquia, quis usar dela, a Hawks, com um impudor abjecto, desfez-se-lhe nas mãos!
Estava podre! Nem fingir soube! Tinha custado muitas mil libras.
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Tentou-se então construir em Portugal.
Sabia-se que o Arsenal é uma instituição verdadeiramente informe: nem oficinas, nem instrumentos, nem engenheiros, nem organização, nem direcção. Tentou-se todavia – e fez-se nos estaleiros a Duque da Terceira. Foi meter máquina a Inglaterra. E aí se descobre que a tenra Duque da Terceira, da idade de meses, tinha o fundo podre!
Foi necessário gastar com ela mais cento e tantos contos.
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Nova tentativa. Entra nos estaleiros a Infante D. João. 87 contos de despesa. Vai meter máquina a Inglaterra. Fundo podre! O Arsenal perdia a cabeça! Aquela podridão começava a apresentar-se com um carácter de insistência verdadeiramente antipatriótica!
Os engenheiros em Inglaterra já se não aproximavam dos navios portugueses senão em bicos de pés – e com o lenço no nariz. As construções saídas do Arsenal sucumbiam de podridão fulminante.
A Infante D. João custou em Inglaterra mais cento e tantos contos!
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O Arsenal, humilhado no género navio, começou a tentar a especialidade lancha. Fez uma a vapor. Lança-se ao Tejo, alegria nacional, colchas, foguetes, bandeirolas… E a lancha não anda! Dá-se-lhe toda a força, geme a máquina, range o costado – e a lancha imóvel! Mas de repente faz um movimento…
Alegria inesperada, desilusão imediata! A lancha recuava. Era uma brisa que a repelia.
Em todas as experiências a lancha recuava com extrema condescendência: brisa ou corrente tudo a levava, mas para trás. Para diante, não ia.
O Arsenal tinha feito uma lancha a vapor que só podia avançar puxada a bois.
O País riu durante um mês.
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A nossa glória, inquestionavelmente, é a Estefânia. Parece que poucas nações possuem um vaso de guerra tão bem tapetado! O orgulho daquele navio é rivalizar com os quartos do Hotel Central. É um salão de Verão surto no Tejo.
E no Tejo, realmente, dá-se bem. No mar alto, não! Aí tem tonturas. Não nasceu para aquilo: um navio é um organismo, e como tal pode ter vocações: a vocação da Estefânia era ser gabinete de toilette. É pacata como um conselheiro. É uma fragata do Tribunal de Contas!
Por isso, quando a quiseram levar a Suez, quantos desgostos deu à sua Pátria! Quantas brancas fez à honra nacional!
É verdade que os cabos novos, da Cordoaria Nacional, quebraram como linhas, e ninguém lhes pode contestar que tivessem esse direito.
A marinhagem também não quis subir às vergas (opinião respeitável, porque a noite estava fria).
Alguns aspirantes choraram de entusiasmo pela Pátria.
O capelão quis confessar os navegadores.
O caso foi muito falado nesse tempo. Mais celebrado que a descoberta da Índia. (…)
O facto é que desde então brilha no Tejo, tranquila, reluzente, vaidosa – a Estefânia, corveta mobilada pelos Srs. Gardé e Raul de Carvalho.”


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Eça de Queiroz – Uma Campanha Alegre ( As Farpas - Julho de 1871) - Vol. I - Pág.134-138)
Lello & Irmão Editores – Porto – Portugal – 1979.
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sábado, 5 de janeiro de 2019

MADAME JUNOT E A SUA SAIA DE BALÃO NO PALÁCIO DE QUELUZ

Laure Permon, duquesa de Abrantes, esposa de Junot (1784-1838)

Portugal, 1805.
A rainha D. Maria I, afectada por doença mental, fora substituída havia treze anos nas suas funções pelo filho mais velho, o regente D. João (futuro rei D. João VI). O regente era casado com a espanhola Carlota Joaquina.

Nesse ano, o representante diplomático da França em Portugal era o general Jean-Andoche Junot, que dois anos depois conduziria, a mando de Napoleão Bonaparte, a 1.ª invasão francesa do nosso país. Foi na sequência dessa invasão que a família real portuguesa, encabeçada pelo regente D. João, buscaria refúgio no Brasil (1807-1821).
O general Junot (que seria mais tarde duque de Abrantes) tinha por esposa a sua compatriota Laure Permon.

Bonita, espirituosa, cáustica e extravagante, Laure - a quem Napoleão chamava, com algum afecto, a "petite peste" - dedicou-se à escrita, tendo publicado extensas e interessantes memórias da sua vida e do seu tempo, incluindo do que passou em Portugal.
Um dia, o marido informou-a de que a esposa do regente D. João, Carlota Joaquina, a receberia no Palácio de Queluz.
Segue-se o  relato que a terrível Laure deixou acerca dessa memorável visita.


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"A princesa do Brasil [Carlota Joaquina, mulher do príncipe regente] recebe-me na quarta-feira. Mas tenho de levar saia de balão. Saia de balão no século XIX, Santo Deus!
Recorri a todos os meios para evitar essa exigência idiota. Tudo inútil. É mais fácil o príncipe regente renunciar à coroa de Portugal do que dispensar-me da saia de balão.

No dia marcado, enverguei um vestido de moiré branco bordado a ouro, enfiei a imensa saia armada sobre arcos de arame e aí vou eu, toda emplumada como um cavalo de cortesias, para me meter no coche dourado que me esperava.
Mas aí é que as coisas se complicaram. Confesso que nunca tinha visto ninguém, com saia de balão, entrar num coche. E havia também as plumas. Nem a saia cabia na porta, nem as plumas cabiam no coche.

Parei diante da carruagem, a fingir que estava só a ganhar tempo. Junto de mim estava o meu marido, que é um ignorante em saias de balão, e Monsieur de Rayneval, que não me parece muito entendido em vestuário feminino. Que fazer?

Carlota Joaquina, esposa do regente D. João (1775-1830)

A multidão ia-se adensando, e eu sentia-me com vontade de chorar. Meu marido, decidido como sempre, disse-me: Que diabo! Todas as portas são iguais. Se as outras passam, tu também hás-de passar!
E empurrava-me, mas, por mais força que fizesse, o maldito balão não cabia na porta.
Foi nesse momento que chegou Monsieur de Cherval. É velho e sabe os truques todos. Quando viu a minha aflição, desatou a rir:
- Cada arco da saia tem uma dobradiça com mola. Carregue, que os arcos dobram em dois.
- E as plumas do chapéu?
- O chapéu tira-se. Quando lá chegar volta a pô-lo.

E assim foi.
Ao chegar a Queluz, recebeu-me a condessa de Moscoso, que me ofereceu os seus aposentos para descansar, enquanto esperava. Depois chegou um pajem que me disse, em português, que a princesa me esperava.
Atravessei então uma série de corredores escuros, esconsos e sujos. Eu ia com o coração apertado por ver os meus vestidos e penachos enxovalharem-se na poeira e nas teias de aranha.

Quando finalmente cheguei à sala onde estava a princesa, fiquei tão espantada que perdi toda a timidez. Fiz as três grandes vénias de estilo e recitei o palavreado do costume com todo o à-vontade. De mim para mim, pensava: É possível que esta Casa de Bragança tenha sido gloriosa há séculos. Mas hoje é apenas grotesca.


Palácio de Queluz, nos arredores de Lisboa, Portugal. Aqui nasceu e morreu D. Pedro, o primeiro imperador do Brasil independente

A sala era a que se destina a cerimónias solenes. Dimensões normais, ornamentação só nas caneluras das paredes. Móveis poucos e vulgares. Realmente, móveis para quê?
O soalho estava coberto por um belo tapete oriental e a princesa estava sentada nele. Quando anunciaram o meu nome, como se fosse um pregão, levantou-se.
Ela estava entre oito ou dez mulheres, cada uma das quais me pareceu mais feia do que as outras. Vestiam-se de modo indescritível. Pareciam-me uma visão de pesadelo.

A princesa envergava um vestido de cassa da Índia, com bordados de algodão e ouro, igual às peças que trouxemos de França para fazer cortinas.
O corte era de mau gosto - e o corpo que cobria, de gosto ainda pior.
Carlota Joaquina tinha os cabelos semifrisados e penteados à grega. Adornavam-nos os maiores conjuntos de pérolas e pedras preciosas que eu alguma vez tinha visto. Os braços estavam nus. Eram compridos, achatados, ossudos, cobertos de pelos. Nunca vi braços tão feios.

Dirigiu-se-me num mau francês, o que depois me disseram ser grande distinção, pois só fala em português. Falou da mãe, por quem me não pareceu ter grande ternura, e disse-me que eu era bonita e tinha tipo de portuguesa.
Já a rainha de Espanha me fizera um cumprimento assim, dizendo que tenho tipo de espanhola.
Falou-me também da cunhada, mas como sei que se detestam, não dei saída.

A sessão foi excepcionalmente demorada: passou de meia hora, quando o costume são dez minutos.
Por fim, fez um gesto de despedida amigável. Meia dúzia de mulheres, com saias de vermelho berrante, arrastando grandes caudas de cinzento-azulado bordado a ouro, acompanharam-me até à porta. Tinham estranhos toucados também azuis, com flores vermelhas. Faziam lembrar as catatuas dos bosques da América.
Eu saí, e elas foram de novo sentar-se no chão, à volta da princesa." (*)

(*) Fonte - Albert Savine - Le Portugal il y a cent ans - Souvenirs d'une ambassadrice - Annotés d'après les Documents d'Archives et les Mémoires.
Publicado no ano de 1912 por Société des Éditions Louis-Michaud - Boulevard Saint-Germain, 168, Paris, France.

domingo, 14 de junho de 2015

Elaine Sanceau - A senhora inglesa que se apaixonou pela história dos Portugueses

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Elaine Sanceau nasceu em Craydon (Inglaterra) em 1896 e faleceu em Leça do Balio (Porto, Portugal) a 23 de Dezembro de 1978.
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Tendo feito os seus estudos em Montreux, na Suíça, daí partiu na companhia da família para o Brasil, país onde se manteve até 1931.
Foi aí, em Terras de Vera Cruz, que Elaine Sanceau contactou, pela primeira vez, com a História de Portugal e, muito particularmente, com o período quinhentista que desde logo lhe aguçou o interesse e lhe despertou o espírito de investigação.
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Fixando residência em Portugal - primeiro no Porto e, mais tarde, em Leça do Balio -, logo se lançou na senda da investigação histórica sobre o período que tanto a atraía. 
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Em 1939 saía a lume o seu primeiro grande estudo: Indies Adventures. The Amazing Career of Afonso de Albuquerque, que, na tradução portuguesa, tomou o título de Afonso de Albuquerque - O Sonho da Índia.
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Foi a Livraria Civilização (Porto, Portugal) a editora desta primeira obra da historiógrafa, cuja carreira meritoriamente viria a acompanhar de início a final, abrindo ao público de língua portuguesa o contacto com os estudos da notável investigadora.
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Com O Sonho da Índia, nascia uma escritora que aliava uma extrema dedicação a uma seriedade e honestidade de métodos de trabalho que lhe não permitiam falsear as verdades, nem mesmo para incensar o seu país de escolha: Portugal.
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À incansável pena de Elaine Sanceau ficamos a dever nada menos do que trinta e oito vultosos estudos, dos quais vinte e oito sobre o século dezasseis.
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Todos os livros de Elaine Sanceau foram, primeiramente, redigidos na sua língua materna, mas os seus excelentes conhecimentos de português falado e escrito tornaram-na uma severa crítica das traduções que as suas obras recebiam dos colaboradores portugueses.
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Nunca escreveu uma palavra, ou uma frase, sobre um monarca, um príncipe, um vice-rei, um marinheiro, um mercador, um soldado ou um capitão sem que um prévio e exaustivo trabalho de investigação, de estudo e de análise se realizasse nos arquivos portugueses - especialmente na Torre do Tombo e no Arquivo Histórico Ultramarino - com a ajuda de dedicados paleógrafos que punham o seu saber e conhecimento das letras quinhentistas e seiscentistas ao serviço da escritora.
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Deste notável labor resultaram obras que aliam uma extrema simplicidade de linguagem a um rigor histórico que as tornam fontes de informação da maior confiança.
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Oficialmente reconhecida como um dos expoentes da historiografia portuguesa, Elaine Sanceau viu os seus méritos galardoados com o "Prémio Camões", pela obra Em Demanda do Preste João, publicada em 1944, e com as condecorações das Ordens de Santiago de Espada (1953) e do Infante D. Henrique (1961).
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Foi também eleita como membro do Instituto de Coimbra, da Academia Internacional da Cultura Portuguesa e do Centro de Estudos Ultramarinos.
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Também o Porto lhe patenteou o seu reconhecimento ao conferir-lhe, em 1968, a Medalha de Ouro da Cidade. 
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Cerca de trinta e sete anos passados sobre o falecimento de Elaine Sanceau, a Torre da História Ibérica associa-se a estas homenagens, começando por evocar, no texto acima, o que sobre a grande historiógrafa disseram os seus editores da Livraria Civilização, em Dezembro de 1979 (na abertura da obra Mulheres Portuguesas no Ultramar).
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A homenagem da Torre, extensiva à prestigiosa Livraria Civilização, do Porto, prolonga-se nos breves excertos das obras de Elaine Sanceau que abaixo se podem ler.
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"Situado no extremo do continente europeu, voltado à África, ao sul, e ao vasto espaço ocidental, Portugal era uma estreita plataforma debruçada sobre o Atlântico. Serras cobertas de pinheiros a envolverem vales pedregosos, que, na estação própria, se enchiam das flores douradas do tojo ou roxas das urzes, corriam até às dunas batidas dos ventos, iluminadas pelas cabeças cintilantes dos orvalhos - toda a situação do país o afastava do continente e o empurrava para o mar.

Embalado em tal ambiente, separado do convívio, do lado da fronteira terrestre, por terras selváticas e penedias, não é de estranhar que uma nação se desenvolvesse predestinada para a vida marítima e para chegar até às remotas regiões da Terra.

Era duma raça vigorosa e heterogénea: Fenícios, Celtas e Latinos já haviam fundido o seu sangue antes de Visigodos e Sarracenos terem combatido nestas montanhas, ou os Normandos vagabundos deixarem as suas povoações junto da costa.

De todos esses elementos brotou um povo, de tipo diverso e de temperamento discordante, irrequieto, aventureiro e até, muitas vezes, conflituoso entre si, mas, desde longa data, pronto a fazer frente ao inimigo ou a tomar parte num empreendimento comum.

A sua terra foi uma das primeiras da Europa a completar a unidade interna e as fronteiras permanentes.
Havendo expulsado o último mouro do Algarve, tendo firmado a sua independência com a vitória sobre Castela, os Portugueses estavam preparados e prontos, no fim do século XIV, para iniciarem a sua missão histórica."

Elaine Sanceau - O Caminho da Índia - Livraria Civilização Editora - Porto - Portugal - 1958 - págs. 39-40.
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"D. João II de Portugal não tinha nada de místico contemplativo. Correr atrás de quimeras não era coisa que atraísse esse monarca vivo e maquiavélico. Se enviou emissários para o desconhecido, era porque estava quase certo de que haviam de encontrar coisa substancial ao cabo da viagem.

Os seus exploradores havia tempo que andavam a reunir informes. Os homens que desafiavam os terrores do mar profundo não se deixavam intimidar pela floresta equatorial.
Internaram-se nela e exploraram-na.
Descobriram-se estranhos reinos negros sob aquelas sombras vaporosas, reinos de adoradores de feitiços, mas até nessas profundezas da noite pagã se recolheram indícios de mais alguma coisa para além.

A vinte luas de jornada para o Sol nascente, declaravam os homens encarapinhados de Benim, reinava o grande rei Ogané. Os chefes de Benim encaravam este Ogané com veneração quase religiosa, como um ser muito superior.
Nenhum deles o tinha visto - enviavam-lhe embaixadores quando subiam ao trono, e nada mais. Nem sequer os embaixadores viam Ogané, pois esta augusta personagem estava sempre oculta, por cortinados, aos olhos dos profanos.

Tudo quanto os enviados de Benim viam dele era apenas um pé, patenteado uma vez só, para que eles deliciassem os olhos antes de abalarem.
Nesta mesma feliz ocasião, Ogané entregava aos seus visitantes um elmo luzidio de latão para o seu rei, e uma cruz do mesmo metal para ele trazer ao pescoço.
Sem estas insígnias nenhum rei de Benim podia reinar legitimamente.

Uma viagem de vinte luas para o Oriente queria dizer duzentas e cinquenta léguas mais ou menos, deduziam os Portugueses do que sabiam do progresso indígena através do mato.
D. João II convocou os especialistas e, mandando vir as suas cartas, estudou, com eles, a questão.
O país de Ogané ficava ao sul do Egipto, e Ogané era, certamente, o Preste João!
D. João II resolveu desencantar esta misteriosa e inacessível personagem do seu esplêndido isolamento e trazê-la ao contacto do pequeno reino do Ocidente."

Elaine Sanceau - Em Demanda do Preste João - Livraria Civilização Editora - Porto - Portugal - 1983 - págs. 19-20.
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 (Do achamento do Brasil pelos navios de Pedro Álvares Cabral - Abril de 1500)

"O Sol declinava lá para os lados da floresta distante. Para o sul, levantava-se uma longa cordilheira, negra na escuridão que descia. A noite cobria rapidamente com o seu manto um continente desconhecido e toldava o mar cor de opala, cujas ondas apagavam com seu marulho os ruídos da floresta.

A escuridão estendia-se por milhas sem conta, cobrindo a terra. Das profundezas do mar ondulavam, ora subindo ora descendo, as luzes trémulas de treze navios. Os mastros e as vergas, cujas velas haviam sido colhidas, balouçavam, negros, ocultando o Cruzeiro do Sul. Nos elevados castelos da proa e da popa apinhavam-se os homens, com olhos sôfregos a interrogarem a noite.

(...) Inesperada ou não, era uma terra encantadora que se revelou no outro dia, ao amanhecer, quando os navios desferraram as velas para se aproximarem da costa. Todas de verde brilhante, árvores enormes erguiam seus topes para o azul-ferrete do céu; o mar, também azul-ferrete, desfazia-se em ondas translúcidas sobre a fina areia da praia, e o vento, fresco e rescendente, era como uma carícia.
A Pêro Vaz de Caminha lembrava-lhe a brisa do Verão no seu Entre Douro e Minho.

A armada lançou ferro na foz dum rio que corria por entre as sombras verdes. Os capitães reuniram-se na nau capitaina e discutiram os seus planos com os pilotos.
Não era esta uma reunião de personalidades banais a que presidia Pedro Álvares Cabral.

Os veteranos da África e do Oriente discutiram acerca desta terra ocidental - ilha ou continente, que podia ela ser?
Suspeitavam que continente.
O comandante achou que devia chamar-se Terra da Vera Cruz, e monte Pascoal seria a montanha elevada e arredondada que se via para além da floresta, por ser na semana da Páscoa que ele a avistara.

Então Nicolau Coelho, o irrequieto pioneiro de muitos desembarques em costas desconhecidas, foi mandado num pequeno barco até à foz do rio.
Junto da praia via-se um grupo de homens - bronzeados e de cabelos pretos e corredios, nus como Adão no Paraíso. Brandindo arcos e flechas, corriam para a beira da água, olhando espantados para o barco que conduzia os estranhos homens brancos."

 Elaine Sanceau - Capitães do Brasil - Livraria Civilização Editora - Porto - Portugal - 1975 - págs. 7-10.

domingo, 24 de maio de 2015

A gula dos portugueses, o marquês de Pombal e o abade de Alcobaça

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"Um dia, um colega meu, condiscípulo desde os bancos da Escola Médica e bromatologista distinto, pediu-me que lhe dissesse o que se comeu e como se comeu em Portugal no século XVIII, século que passa, e com razão, por ter sido aquele em que se comeu mais - e pior.
Vou satisfazer o desejo do meu amigo (…).
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Nós somos, evidentemente, um país de intoxicados.
Não erraria muito quem fosse até ao extremo paradoxal de atribuir aos erros e às exuberâncias da cozinha portuguesa todos os desastres políticos que nos têm afligido.
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A nossa planturosa cozinha de artríticos, duma abundância monacal, com leitões e vitelas inteiras nadando em molho dentro de bandejas de prata, tem, pelo menos, graves responsabilidades nas grandes catástrofes nacionais.
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Ainda há-de aparecer um filósofo de bom humor que demonstre, quando finalmente se der valor aos infinitamente pequenos da História, que Tânger e Alcácer-Kibir, por exemplo, foram dois casos vulgares de hiper-intoxicação alimentar.
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O português comeu sempre muito -, com a agravante de ter comido sempre mal (…).
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(…) O marquês de Pombal, mais sóbrio, vendo que no próprio paço se comia desordenadamente, voltou a fazer o que já no século XIII fizera Estêvão Anes, e publicou, em 1765, o regulamento da ucharia e cozinha da casa Real.
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Mas desse regímen de sobriedade, que ele estabeleceu também na sua economia doméstica, resultou pouco depois um episódio curioso, quando o abade de Alcobaça, que oferecera ao marquês um jantar formidável, foi convidado, por seu turno, para jantar na casa da rua Formosa.
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 Já no fim do banquete, para que Sebastião José de Carvalho [marquês de Pombal] mandara preparar uma coberta de princípios de copa, outra de potagens, outra de massas, outra de assados e outra de doces e frutas, com dez pratos diferentes cada uma, o marquês notou com estranheza que o gigantesco abade tinha comido devoradoramente de todos os cinquenta pratos sem beber um só gole de vinho, e fez-lho notar, com a maior cortesia, apontando o Xerez, o Porto, o velho Rheno e o Lacrima Christi que o rodeavam em garrafas de vidro doirado:
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- Vossa Reverência não quis honrar os vinhos da minha frasqueira…
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O abade acabou de mastigar um bocado de lombo, poisou o garfo de prata sobre a toalha de rendas, e, acostumado aos intermináveis jantares do convento, respondeu, com a maior naturalidade do mundo:
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- É que eu, senhor marquês, só começo a beber vinho do meio do jantar em diante…
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Todo o poema da gulodice monástica do século XVIII está nesta ingénua frase do dom abade de Alcobaça.”
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Júlio Dantas, Figuras d’Ontem e d’Hoje
(Como se comia em Portugal no século XVIII),
Livraria Chardron, Porto, Portugal, ano de 1914  (págs. 171-178).
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