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sábado, 22 de fevereiro de 2020

Marie Colvin - A correspondente de guerra que tombou no seu posto


Marie Colvin, jornalista e correspondente de guerra, nasceu a 12 de Janeiro de 1956 nos Estados Unidos da América (New York) e faleceu em 22 de Fevereiro de 2012 na cidade de Homs (Síria). Trabalhou, desde 1985 até ao termo dos seus dias, para o jornal britânico The Sunday Times.
Enquanto correspondente de guerra, a vida de Marie Colvin foi um constante sobressalto, em que arriscou com frequência a integridade física e, como ficaria tragicamente demonstrado, a própria vida. Correspondente do seu jornal no Médio Oriente, cobriu também conflitos na Tchetchénia, Serra Leoa, Zimbabwe, Kosovo, Timor Leste e Sri Lanka.

Foi precisamente na guerra civil do Sri Lanka que ela foi atingida com gravidade pelos estilhaços de uma granada, apesar de se ter previamente identificado como jornalista. Em consequência disso, perdeu a visão do olho esquerdo e passou a usar a pala (tapa-olho) com que surge em diversos documentários e fotos (como acima). Tinha então 44 anos de idade.


O fim de Marie chegou no mês de Fevereiro de 2012, quando ela realizava a cobertura do cerco da cidade de Homs, na Síria, pelas forças do governo. Refugiada num prédio com outros (poucos) jornalistas, efectuou a derradeira transmissão na noite do dia 21, sendo seguida na BBC, CNN, Channel 4 e ITN News.

Numa reportagem que não deixou dúvidas a ninguém, descreveu os criminosos bombardeamentos contra pessoas e edifícios civis levados a cabo pelas tropas de Bashar al-Assad. Teve ainda tempo de classificar o conflito como "o pior que havia experimentado durante a sua carreira".

Horas depois, já no dia 22 de Fevereiro, o edifício e as redondezas foram atingidos em cheio pela artilharia síria: o alvo fora provavelmente localizado pelos sinais telefónicos, via satélite, que haviam suportado a transmissão. Marie Colvin morreu no seu posto, juntamente com Rémi Ochlik, um fotógrafo francês. O fotógrafo que a acompanhava nas suas reportagens, Paul Conroy, sobreviveu ao ataque.

Na noite da sua morte, muita gente veio lamentar nas ruas de Homs aquilo que pareceu ser um assassínio premeditado.
O funeral de Marie ocorreu em Oyster Bay, New York, em 12 de Março de 2012.
No mês de Julho de 2016, os advogados da família moveram uma acção judicial contra o governo da Síria, alegando terem provas de que este ordenara directamente o assassínio daquela jornalista tão corajosa como incómoda.


Rosamund Pike no papel de Marie Colvin ("A Private War").


Em 2018, seis anos decorridos sobre aquela trágica noite, Matthew Heineman realizou um interessante filme biográfico sobre a jornalista - A Private War, exibido em Portugal com o título Uma Guerra Pessoal.

O papel de Marie é magistralmente desempenhado pela actriz Rosamund Pike. Paul Conroy, o seu fotógrafo, é representado por Jamie Dornan.

Uma Guerra Pessoal (A Private War)
Trailer oficial (legendado em português):

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Os que foram... (2)



"Aos poucos, as fotografias tornam-se ilegíveis.
Quem vai identificar estas pessoas, quem se lembrará delas?
Já não reconheço muitos dos que encontro nas molduras ou nos álbuns de família. Ou então conheço-os de uma única imagem, a que está à vista.
Alguns deles pertenceram durante décadas a uma pequena categoria, “os mortos”; mas agora já há muitos mortos, só há pouco tempo me apercebi de que eram tantos. I had not thought death had undone so many (*), escreveu o Eliot.

De alguns familiares ainda vivos quando nasci, não guardei memória alguma ou tenho uma memória vaguíssima (o meu avô paterno, um tio materno com quem estou numa fotografia de que gosto muito); mas de entre aqueles de quem me lembro, que devastação.

Aos poucos, e depois de repente, as minhas recordações antigas são recordações de gente que morreu. Os meus avós. A minha madrinha, irmã do meu avô. A meia-irmã da minha avó. O meu tio (…).


Lembro-me de salas de estar e de jantar cheias destas pessoas, umas no quotidiano, outras nas férias, nas festas, gente das fotografias que conheci muito bem, ou não tão bem, de quem guardo histórias, gestos, expressões, memórias que não ficam, desaparecem eles e elas, depois as histórias, depois aqueles que deles e delas se lembravam.
Porque com o tempo acaba-se a distância de segurança, a ideia tranquilizadora e intolerável de que morrerão duas gerações antes de morrer a nossa.

Do tempo dos avós, já não temos ninguém. Da geração dos pais estão vivas sete pessoas (sete ao todo, dos dois lados, como é possível?). Mas também perdemos três dos meus primos rapazes, pouco mais velhos do que eu. E sabemos que não sabemos o dia nem a hora.

A morte dos outros é mais difícil do que a nossa, porque vivemos a morte deles e não viveremos a nossa. E porque a morte dos outros significa o desmantelamento do nosso passado, a inexistência do nosso passado, do qual deixa de haver prova indiscutível.


Ficam imagens, objectos, detritos, coisas em gavetas que nada dirão aos vindouros. E os nossos mortos fazem-se não apenas pó, mas nevoeiro, figuras extintas, indistintas, irrecuperáveis.

Enquanto isso, talvez por isso, mantemos vivos os vivos, como numa fotografia deste verão que os meus primos me mandaram: as quatro irmãs, uma das quais minha mãe, na casa dos meus avós. A fotografia garante a veracidade da nossa vida através da veracidade da vida delas. É o contrário das fotografias dos mortos, não apenas por estarem as quatro vivas, mas porque, estando vivas, tornam mais sólido e mais imaginariamente eterno o nosso mundo, as nossas memórias, a comunidade que faz de nós irmãos e primos.

Nenhum fotografado sobrevive: nem as pessoas desta fotografia nem nós que a enviámos uns aos outros com uma alegria feroz e assustada; mas é a família que nos faz, mesmo quando nos desfaz. Somos feitos à imagem desta imagem fugaz." (**)

…………………...



(*) Eu não tinha pensado que a morte extinguira tantos.
(**) “À Imagem” – Crónica de Pedro Mexia na E – Revista do jornal Expresso – Edição 2445 – 7-Setembro-2019 – pág. 106 - Lisboa – Portugal.

(Ilustrações da responsabilidade da Torre da História Ibérica)

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Os que foram... (1)



… mas, se ainda forem algo
num mundo oculto e impercebível,
o que são agora?
Onde estão?
O que sobra do que foram?

O que lhes ficou dos risos e das lágrimas,
dos sonhos e das angústias,
das dores e das ilusões,
das cóleras e das paixões,
dos ódios e dos afectos?
O que lhes resta de tudo isso?

Ter-se-ão eles convertido,
por qualquer secreta e cósmica alquimia,
em entes superiores e intangíveis
– sendo por isso, hoje, poderosamente,
muito mais do que aquilo que foram antes?

Vêem?
Ouvem?
Apreendem?
Compreendem?
Reconhecem?
Relembram?
Sentem?
Agem?
Interferem?
Zelam?

Ou terão sofrido apenas,
e para sempre,
a queda no absoluto, irreparável e inglório apagamento?