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terça-feira, 10 de março de 2015

Novo Livro - "História da Expansão e do Império Português"

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Obra da autoria de João Paulo Oliveira e Costa (que coordenou), José Damião Rodrigues e Pedro Aires Oliveira.
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Editora: A Esfera dos Livros - Lisboa
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Um livro essencial para perceber o império português, que se estendeu por quase seis séculos, desde a conquista de Ceuta, em 1415, até 1999, ano em que Macau deixou de estar sob administração portuguesa.

Da apresentação:

A Expansão portuguesa confunde-se com a própria História de Portugal.
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Situado na periferia da Europa, Portugal encontrou no mar um espaço favorável para traçar a sua configuração definitiva e para se projectar pelo Mundo, procurando no exterior o que lhe faltava em território peninsular.
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Nos primeiros séculos da expansão, Portugal rasgou o horizonte dos europeus e uniu outros povos a um destino comum, gerando novos negócios, criando novas paisagens, possibilitando a circulação de gentes, objectos, animais, plantas, conhecimentos e ideias, dando início à globalização.
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Ao longo dos séculos, o império alterou-se: se, num primeiro momento, dominou uma perspectiva de imperialismo marítimo, posteriormente o império português tornou-se predominantemente territorial.
Já no último terço do século XX, o fim da soberania portuguesa em África decorreu em circunstâncias dramáticas, num processo de descolonização  que deixou marcas profundas na política e na sociedade portuguesas.
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Os autores traçam um retrato rigoroso e exaustivo deste período, interpretando o correspondente processo histórico à escala mundial.
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Entre outros temas, analisam o comércio, a conquista, a missionação e os povos ultramarinos, com a suas civilizações e as suas organizações políticas, sociais e económicas, a que os Portugueses tiveram que se adaptar.
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LEITURA MUITO RECOMENDADA PELA TORRE
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terça-feira, 25 de setembro de 2012

Combate do Pembe, Sul de Angola - Foi há 108 anos...

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Pode relembrar aqui:

Na imagem, capa do n.º 367 do "Mundo de Aventuras", publicado em 23 de Agosto de 1956 pela Agência Portuguesa de Revistas (Lisboa).

Com desenhos de Carlos Alberto Santos e o título O Combate do Pembe, este semanário de banda desenhada publicou, a partir do referido número, uma emocionante evocação do desastre militar português no Sul de Angola.
Para aquele autor, a figura central do drama foi a de João Roby (cf. capa acima).
Foi há 108 anos...

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Enfermidades e morte do imperador D. Pedro I, do Brasil (rei D. Pedro IV de Portugal)

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D. Pedro I do Brasil - D. Pedro IV de Portugal
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Nasceu no palácio de Queluz, próximo de Lisboa, Portugal, em 12 de Outubro de 1798.

Faleceu no mesmo palácio, e no mesmo compartimento em que nascera, a 24 de Setembro de 1834.
Filho de D. João VI e de D. Carlota Joaquina, reis de Portugal.

D. Pedro foi o primeiro imperador e também o primeiro chefe de Estado do Brasil (de 1822 a 1831).
Foi também, por alguns dias, o 28.º rei de Portugal, tendo abdicado da coroa lusitana em favor de sua filha D. Maria da Glória, que por isso se tornaria na rainha D. Maria II de Portugal.

À frente das tropas liberais combateu o seu irmão D. Miguel, que se proclamara rei absolutista de Portugal (guerra civil de 1832-1834): chamam-lhe por isso, na terra portuguesa, o Rei-Soldado.
Ficou conhecido, nas duas pátrias irmãs, por Libertador: libertou o Brasil do domínio colonial português; e libertou Portugal do governo absolutista de D. Miguel.

Doou o seu coração à cidade do Porto, em Portugal (conservado num formoso relicário da Igreja da Lapa). Com essa excepção, os seus restos mortais ficaram repousando por largos anos no Panteão de S. Vicente de Fora (Lisboa).

Em 1972, na comemoração do 150.º aniversário da independência, o seu corpo foi transladado para o Brasil, a pedido do respectivo Governo, repousando no Monumento do Ipiranga, em São Paulo.
O coração de D. Pedro continua todavia na igreja da Lapa, na cidade do Porto: o túmulo em que ele se guarda ostenta de um dos lados a bandeira de Portugal; no outro, a bandeira do Brasil.
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Os dias da independência do Brasil
Embora não tenha sido desta doença que viria a falecer, D. Pedro começou a sofrer de ataques epilépticos desde rapaz. O primeiro ataque registado verificou-se em público, quando seu pai, D. João VI, refugiado com a corte portuguesa no Brasil, dava beija-mão no Rio de Janeiro por ocasião do seu aniversário natalício.

Referem-se pelo menos mais dois acessos do chamado “grande mal”: quando D. João VI expulsou do Rio a bailarina Noemi, amante do filho; e quando D. Pedro assistiu ao desembarque no Rio de sua segunda mulher, D. Amélia de Leuchtemberg.
Esta doença explica o feitio impulsivo e autoritário do imperador, bem como alguns condenáveis excessos de linguagem e de atitudes que muitas vezes o comprometeram, apesar do seu fundo de natural bondade.

Terminada a guerra civil em Portugal (1832-1834), em que D. Pedro, no comando dos liberais, recuperou o trono português ao irmão D. Miguel, concedeu-se amnistia aos absolutistas vencidos, protegeu-se o embarque para o exílio de D. Miguel e concedeu-se-lhe uma pensão anual de 60 contos.
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Estátua de D. Pedro na cidade do Porto (Portugal)
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D. Pedro já se achava com a saúde gravemente comprometida naquela hora de vitória, apesar de não ter chegado ainda aos 36 anos.
Enquanto Príncipe Real, e mesmo já depois de ser Imperador do Brasil, ele tivera uma vida dissoluta, sendo provável que tantos abusos e exageros, resultantes também de uma educação defeituosa, se encarregassem de lhe ir minando os pulmões.
Esclareça-se todavia que, no tempo em que foi Imperador do Brasil (até 1831), não há notícias respeitantes a séria falta de saúde (além dos ataques epilépticos). Isto não significa que não fosse já portador da doença, dada a forma insidiosa com que costuma instalar-se a tuberculose pulmonar.

Em plena guerra civil, durante o cerco do Porto, não transpirou qualquer informação acerca da doença de D. Pedro. No entanto, é natural que ele, já enfermo, se sentisse muito pior com todos aqueles trabalhos e canseiras, em correrias constantes, de dia e de noite, com frio e com calor, à chuva e ao vento, numa azáfama melindrosa e sem fim.
É também possível que a sua falta de saúde permanecesse escondida para não provocar o desânimo nas suas hostes e o fortalecimento moral do exército absolutista de seu irmão, D. Miguel.
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Proclamação da independência do Brasil
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Em Junho de 1834, depois da rendição de D. Miguel, poucas pessoas sabiam da gravidade do mal do Rei-Soldado. Mas o seu estado era já desesperado, pois os excessos cometidos durante o cerco do Porto transformaram a sua tuberculose, insidiosa e crónica, numa tuberculose galopante.

Num espectáculo ocorrido no Teatro de S. Carlos (Lisboa), aonde conseguiu deslocar-se, viu-se surpreendido por um coro de insultos de numerosos energúmenos, que exigiam vingança sobre os vencidos absolutistas.
Eram os “valentes” que não tinham exposto o peito às balas; eram os acomodatícios, que se tinham amoldado a todas as situações; eram aqueles que nunca antes se tinham atrevido a expor a sua maneira de pensar.
D. Pedro, sempre corajoso, apenas lhes disse: “Fora, canalha!”.
Mas o vexame sofrido repercutiu-se certamente no seu gravíssimo estado de saúde.
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D. Pedro compõe o Hino da Independência do Brasil
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O mal agravava-se dia a dia, a dispneia abafava o doente, os suores gelavam-lhe o corpo, as hemoptises eram frequentes, os ataques de tosse constantes e duradouros, a fraqueza cada vez maior. Mas D. Pedro, ainda que abatido e macilento, estava em pleno uso das suas faculdades mentais, pelo que não descurava a defesa da Carta Constitucional portuguesa, nem a defesa dos direitos de sua filha, D. Maria da Glória (futura rainha D. Maria II, de Portugal).

O enfermo instalou-se no palácio de Queluz, no mesmo quarto onde nascera, porque era ali que desejava despedir-se da vida.

Em 17 de Setembro pediu os confortos da religião e assinou o testamento, legando o seu coração à cidade do Porto e recomendando à generosidade da nação portuguesa a sorte de sua mulher, D. Amélia de Leuchtemberg, e a da filha de ambas (também Amélia e igualmente falecida de tuberculose aos 20 anos de idade).
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Praça de D. Pedro IV, em Lisboa (Portugal)
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No dia 19, sentindo D. Pedro a proximidade da morte, pediu que lhe trouxessem ao leito de moribundo um soldado do seu predilecto Batalhão de Caçadores 5, e, abraçando-o, disse-lhe: “Transmite aos teus camaradas este abraço, em sinal da justa saudade que me acompanha neste momento, e do apreço em que sempre tive os seus relevantes serviços”.

Depois, entregando-se à devoção religiosa, viveria ainda cinco dias, vindo a falecer no dia 24 de Setembro de 1834, nos braços de sua segunda mulher, D. Amélia, e da filha de ambas.

Erigiram-se, em sua homenagem, diversas estátuas no Brasil e em Portugal.


Fonte (com adaptações): Causas de Morte dos Reis Portugueses – J. T. Montalvão Machado – Lisboa – Portugal – 1974 (págs. 186-196).
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domingo, 19 de dezembro de 2010

Afonso de Albuquerque - 2.º Governador Português da Índia (1509-1515)

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Afonso de Albuquerque foi filho de Gonçalo de Gomide, senhor de Vila Verde, e de D. Leonor de Albuquerque. Terá nascido entre 1453 e 1462. Faleceu em 1515.

Moço fidalgo do rei D. Afonso V (1432-1481), serviu em Arzila (Norte de África) e na guarda pessoal do rei D. João II (1455-1495), de quem foi estribeiro-mor.

O rei D. Manuel (1469-1521) enviou-o à Índia em 1503, com o primo Francisco de Albuquerque, cada um comandando três naus, e levando ordens de combater Calecut, fazer fortaleza em Cochim e estabelecer relações comerciais com Coulão, incumbência plenamente realizada.

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De regresso a Portugal em 1504, Albuquerque foi bem recebido pelo rei, e terá sido então que expôs ao soberano um vastíssimo plano imperial, visando a conquista de posições estratégicas no Índico, desde as portas de Bab-el-Mandebe até ao estreito de Malaca, vedando à navegação muçulmana a saída das especiarias pelo mar Vermelho.
Isto transformaria o Índico num verdadeiro mar reservado de Portugal.

Concordando com este programa, o rei mandou que Albuquerque regressasse ao Oriente em 1506, na armada de Tristão da Cunha.
Levava com ele um documento secreto que o nomeava governador da Índia em sucessão do vice-rei Francisco de Almeida que então ocupava o cargo (e cujo mandato findaria em 1508).

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Neste intervalo de tempo, Albuquerque ficaria como capitão-mor do mar da Arábia, patrulhando as costas e apoderando-se das posições que julgasse convenientes.
Com forças diminutas, naus mal equipadas e tripulações doentes, Afonso de Albuquerque conseguiu vitórias espantosas, tomando os principais portos do Omão e conquistando a riquíssima cidade de Ormuz, que fez tributária de Portugal.

A desobediência de alguns capitães indisciplinados e a oposição do vice-rei obrigaram Albuquerque a deixar a fortaleza em construção, dirigindo-se à Índia, onde D. Francisco de Almeida não só se recusou a entregar-lhe o governo, como o perseguiu e prendeu.
A chegada do marechal Fernando Coutinho, em 1509, pôs termo à insólita situação. O vice-rei Almeida teve de partir, deixando os poderes a Albuquerque.

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Finalmente com as mãos livres, o novo governador principiou a série de triunfos ininterruptos, apesar da crónica escassez de recursos dos Portugueses na área.
Em 1510, chamado pelos naturais da bela cidade de Goa, oprimidos pelo jugo do turco Idalcão, Albuquerque apoderou-se da praça, que foi temporariamente abandonada devido à esmagadora maioria das forças turcas. Seria recuperada a 25 de Novembro do mesmo ano, após renhidos combates.

Afonso de Albuquerque tratou desde logo de firmar o domínio português sobre bases de justiça e de consideração pelos nativos, ao mesmo tempo que procurava criar uma raça luso-indiana, casando os seus homens com mulheres da terra.

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Restos da porta de Malaca, mandada construir por Afonso de Albuquerque
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Em 1511 Afonso de Albuquerque parte com a armada para Malaca, de onde lhe chegavam apelos de portugueses aprisionados.
Não conseguindo entender-se com o sultão para a libertação dos mesmos, assaltou e conquistou a riquíssima cidade, defendida por 20.000 homens e elefantes de combate. Depois de construir uma fortaleza em Malaca, largou para a Índia transportando um rico despojo, o qual se perdeu no naufrágio da nau capitania.
De regresso em 1512, achou Goa cercada pelos Turcos, mas libertou-a através de uma audaciosa manobra marítima e terrestre, tomando ao inimigo a fortaleza de Benastarim.

Em 1513 levou a armada até ao mar Vermelho, tentando de passagem um assalto aos fortíssimos muros de Ádem, que se malogrou por se terem quebrado as escadas. Prosseguindo a rota, entrou pelas portas de Bab-el-Mandebe, sendo o primeiro comandante europeu a navegar no mar Vermelho, que descreve num interessante relatório.
Passou o ano seguinte na Índia, em trabalhos administrativos e diplomáticos, tendo concluído pazes com Calecute.

Em 1515 dirige-se a Ormuz, a fim de acabar a construção da fortaleza abandonada em 1508. Desta vez não houve quem ousasse resistir ao conquistador, que tomou o reizinho, que vivia amedrontado por ministros ambiciosos, sob a protecção de Portugal.
As chaves do Índico estavam, pois, na posse dos Portugueses.

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Monumento a Afonso de Albuquerque, diante do Palácio da Presidência da República - Lisboa- Portugal
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Entretanto, no remoto Portugal, caluniadores invejosos conseguiram malquistar o rei com o governador que tão bem o servira, persuadindo-o a substituir Afonso de Albuquerque pelo seu inimigo Lopo Soares. Quando, em Novembro de 1515, Afonso de Albuquerque, doente e exausto por nove anos de trabalhos em climas insalubres, partiu de Ormuz para a Índia, soube, por uma nau que passava, da chegada do seu rival, acompanhado dos seus piores inimigos.

Proferiu então a célebre frase: Mal com os homens por amor de el-rei, mal com el-rei por amor dos homens.
À beira da morte, ditou uma carta para o rei D. Manuel, lembrando-lhe os serviços prestados e recomendando-lhe o seu filho natural, Brás. Acabou por morrer à vista da sua Goa bem amada, cujo povo o chorou em altas lamentações.

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Poucas vezes tem aparecido na história génio de maior envergadura do que Afonso de Albuquerque.
Foi ao mesmo tempo marinheiro, soldado, estadista, administrador e diplomata, colocando sempre as suas faculdades ao serviço de um único fim – exaltar o seu rei e a sua pátria.
Acrescente-se a isto um sugestivo poder de expressão nas admiráveis cartas que dirigia ao rei, as quais nos permitem acompanhar quase dia a dia a sua acção.

Trata-se de documentos únicos, escritos sem qualquer preocupação literária, em português simples e saboroso, uma linguagem forte e viva, que prende e impõe, dando-nos a impressão de contacto directo com a sua grande personalidade.
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Adaptado de um artigo de Elaine Sanceau na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura
(Editorial Verbo - Lisboa - Portugal).
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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Naquele tempo... (Imagens - muito - antigas de Angola)

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Portugal em Angola: de 1482 a 1975.
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Fonte: IICT - Instituto de Investigação Científica Tropical - Lisboa - Portugal
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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Você, Brasil (Jorge Barbosa - Cabo Verde)

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Mindelo - Cabo Verde
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Eu gosto de Você, Brasil,
porque Você é parecido com a minha terra.
Eu bem sei que você é um mundão
e que a minha terra são
dez ilhas perdidas no Atlântico,
sem nenhuma importância no mapa.

Eu já ouvi falar de suas cidades:
a maravilha do Rio de Janeiro,
São Paulo dinâmico,
Pernambuco,
Bahia de Todos-os-Santos.
Ao passo que as daqui
não passam de três pequenas cidades.

Eu sei tudo isso perfeitamente bem,
mas Você é parecido com a minha terra.

É o seu povo que se parece com o meu,
que todos eles vieram de escravos
com cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros.
É o seu falar português
que se parece com o nosso falar,
ambos cheios de um sotaque vagaroso,
de sílabas pisadas na ponta da língua,
de alongamentos timbrados nos lábios
e de expressões terníssimas
e desconcertantes.

É a alma da nossa gente humilde que reflecte
a alma da sua gente humilde,
ambas cristãs e supersticiosas,
sentindo ainda saudades antigas
dos sertões africanos,
compreendendo uma poesia natural,
que ninguém lhes disse,
e sabendo uma filosofia sem erudição,
que ninguém lhes ensinou.

O gosto dos seus sambas, Brasil,
das suas batucadas,
dos seus cateretês,
das suas toadas de negros,
caiu também no gosto da gente de cá,
que os canta
e dança
e sente,
com o mesmo entusiasmo
e com o mesmo desalinho também...
As nossas mornas,
as nossas polcas,
os nossos cantares,
fazem lembrar as suas músicas,
com igual simplicidade
e igual emoção.

Você, Brasil,
é parecido com a minha terra,
as secas do Ceará
são as nossas estiagens,
com a mesma intensidade de dramas e renúncias.
Mas há uma diferença no entanto:
é que os seus retirantes
têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,
ao passo que aqui
nem chega a haver os que fogem
porque seria para se afogarem no mar...

Nós também temos a nossa cachaça,
o grog de cana
que é bebida rija.
Temos também os nossos tocadores de violão
e sem eles não haveria bailes de jeito.
Conhecem na perfeição todos os tons
e causam sucesso nas serenatas,
feitas de propósito para despertar as moças
que ficam na cama a dormir
nas noites de lua cheia.
Temos também o nosso café da ilha do Fogo
que é pena ser pouco,
mas — Você não fica zangado? —
é melhor do que o seu.

Eu gosto de Você, Brasil.
Você é parecido com a minha terra.

O que é - é que lá tudo é à grande
e tudo aqui é em ponto mais pequeno...
Eu desejava fazer-lhe uma visita
mas isso é coisa impossível.
Queria ver de perto as coisas espantosas
que todos nos contam de Você,
assistir aos sambas nos morros,
estar nessas cidadezinhas do interior
que Ribeiro Couto descobriu num dia de muita ternura,
queria deixar-me arrastar na onda da Praça Onze
na terça-feira de Carnaval.

Eu gostava de ver de perto o luar do sertão,
de apertar a cintura de uma cabocla — Você deixa? —
e rolar com ela um maxixe requebrado.
Eu gostava enfim de o conhecer de mais perto
e você veria como sou um bom camarada.
Havia então de botar uma fala
ao poeta Manuel Bandeira
de fazer uma consulta ao Dr. Jorge de Lima
para ver como é que a poesia receitava
este meu fígado tropical bastante cansado.

Havia de falar como Você
Com um i no si
— “si faz favor”—
de trocar sempre os pronomes
para antes dos verbos
— “mi dá um cigarro?”.

Mas tudo isso são coisas impossíveis
— Você sabe? -
impossíveis.


Salvador da Bahia - Brasil

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Jorge Vera-Cruz Barbosa nasceu em 1902 na Ilha de Santiago, Cabo Verde, antiga colónia portuguesa, independente a partir de 1975.
Faleceu na Cova da Piedade, Portugal, em 1971.
Foi funcionário público e um dos membros mais importantes do movimento Claridade.
Publicou:
Arquipélago. São Vicente: Cabo Verde, 1936.
Ambiente. Praia: Cabo Verde, 1941.
Caderno de um Ilhéu. Lisboa: 1956.