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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Oração dos Índios Sioux (Estados Unidos da América)


 
Oh, Grande Espírito,
cuja voz eu ouço nos ventos,
e cujo alento doa vida a todo o mundo,
ouve a minha súplica.

Eu sou pequeno e fraco.
Preciso da tua força e da tua sabedoria.
Permite-me andar na beleza
e faz com que os meus olhos
contemplem sempre as cores do pôr-do-sol.

Faz com que as minhas mãos
respeitem as coisas que criaste
e que os meus ouvidos se agucem
para que eu possa ouvir a tua voz.

Faz-me sábio
para que eu possa entender
as coisas que ensinaste aos meus antepassados.
Permite-me aprender as lições que escondeste
em cada pedra e em cada folha.

Eu procuro força,
não para ser maior que os meus irmãos e irmãs,
mas para lutar contra o meu maior inimigo
- eu mesmo.

Faz-me sempre pronto para chegar até ti
com as mãos limpas
e com os olhos firmes.

Para que, quando a minha vida desaparecer
como um pôr-do-sol,
o meu espírito possa ir até ti
sem nenhum traço de vergonha.

 
Pinturas: Howard Terpning

sábado, 7 de dezembro de 2019

O drama dos índios norte-americanos: de Sitting Bull ao massacre de Wounded Knee (4.ª e última parte)

Chefe sioux Big Foot, também conhecido por Spotted Elk
(Retrato póstumo, da autoria de Joseph H. Sharp)

O assassínio de Sitting Bull lançou o pânico entre as comunidades índias da Grande Reserva. Muitas delas puseram-se em movimento, errando de agência em agência para se esquivarem às tropas americanas. Estas movimentavam-se diligentemente pelo território, procurando outros líderes sioux acusados de "fomentar" a Dança dos Fantasmas. Um deles era Big Foot, também conhecido por Spotted Elk.

Quando Sitting Bull foi morto, Big Foot contava cerca de 64 anos de idade. Assim que soube do assassínio, colocou-se à frente do seu povo (120 homens e 230 mulheres e crianças) e marchou, através das terras cobertas de gelo, em direcção à agência de Pine Ridge. Pelo caminho contraiu pneumonia, pelo que teve de ser transportado num carroção. A 28 de Dezembro, nas cercanias de Porcupine Creek, avistaram-se soldados americanos. Big Foot ordenou logo que se içasse uma bandeira branca e, pouco depois, foi abordado pelo major Samuel Whitside, do 7.º Regimento de Cavalaria dos Estados Unidos. O major comunicou a Big Foot - que, alquebrado pela doença, sangrava abundantemente da boca e do nariz - ter recebido ordens para conduzi-lo, com a sua gente, a um acampamento de tropas americanas instalado perto do riacho de Wounded Knee. E assim se fez.

Em Wounded Knee, os índios foram contados e alojados em tendas do Exército, vigiadas por sentinelas prontas a impedir qualquer tentativa de evasão. Num morro próximo, com idêntica finalidade, postaram-se canhões Hotchkiss, capazes de atirar cargas explosivas a mais de 3 quilómetros de distância.
Deu nessa altura entrada no acampamento outra força, também pertencente ao 7.º de Cavalaria, que vinha comandada pelo coronel James W. Forsyth. Este assumiu o comando das operações e informou o major Whitside que tinha sido incumbido de levar Big Foot e o seu povo até ao caminho-de-ferro. Seguiriam então de comboio para uma prisão militar em Omaha.

 
Black Coyote

Na manhã do dia seguinte (29 de Dezembro de 1890), o coronel Forsyth  determinou que os sioux fossem reunidos no campo gelado, cercados por soldados a cavalo e intimados a entregar as armas que possuíssem. Eles obedeceram, empilhando no gelo as suas poucas espingardas. Mas o coronel não ficou satisfeito com tão escassa colheita. As tendas foram então invadidas pelos militares, que arrastaram para fora as trouxas que continham os pertences dos índios. Rasgaram-nas para procurar armas, mas só acharam facas, machados, estacas de tendas e utensílios domésticos.
Sempre descontente, Forsyth mandou que os índios se desfizessem das mantas que os protegiam do frio para serem revistados. Apareceram então - e apenas - duas espingardas. Uma delas era a Winchester nova de Black Coyote. 
Segundo vários testemunhos, Black Coyote era um jovem surdo e perturbado, que, no entanto, quando se viu agarrado e empurrado pelos soldados, não apontou a Winchester a ninguém. Tudo o que fez foi gritar que a espingarda lhe custara muito dinheiro e que, portanto, lhe pertencia. Mas, quando parecia disposto a juntá-la à pilha já formada, alguns soldados tentaram apoderar-se da arma fazendo Black Coyote rodar sobre si próprio. Escutou-se então uma detonação, possivelmente acidental, mas foi o bastante para que a cavalaria desatasse a disparar indiscriminadamente sobre a multidão de prisioneiros.

Desarmados, os índios - homens, mulheres e crianças - tentaram fugir do local para escapar à matança. Todavia, às descargas da cavalaria somaram-se os disparos dos canhões Hotchkiss a partir do morro fronteiro. Alguns dos sioux, no seu desespero, envolveram-se em lutas com os soldados que os perseguiam. Uma das sobreviventes do massacre contaria mais tarde: Tentámos correr, mas eles alvejavam-nos como se fôssemos búfalos. Sei que há alguns brancos bons, mas os soldados deviam ser maus, para disparar contra mulheres e crianças. Índios não fariam isso a crianças brancas.
Outra mulher, uma jovem, testemunharia: Desatei a correr, seguindo os que fugiam. O meu avô e a minha avó, além do meu irmão, foram mortos quando cruzávamos a ravina. Fui atingida em cheio no quadril e no pulso direito. Não pude continuar, pois não conseguia andar. Então, os soldados agarraram-me.

 
Corpos de índios no gelo, após o massacre de Wounded Knee

Quando a loucura homicida terminou, o chefe Big Foot estava morto, e, com ele, quase todo o seu povo.
Havia, apenas, 51 sobreviventes (dos 120 homens, sobraram 4; das 230 mulheres e crianças, salvaram-se 47).
A tropa americana registou 25 mortos e 39 feridos. Segundo os relatórios militares, a maior parte destas vítimas fora atingida pelas próprias balas dos seus camaradas ou pelos estilhaços das descargas dos canhões - aquilo que seria posteriormente designado como "fogo amigo".
De qualquer modo, no entender de um elevado número de americanos, a matança de Wounded Knee, perpetrada pelo 7.º Regimento de Cavalaria (a unidade a que pertencera o falecido George Custer), não foi mais do que uma vingança razoável pelo que tinha acontecido, 14 anos antes, em Little Bighorn

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FIM DA 4.ª e ÚLTIMA PARTE

1.ª Parte - ver aqui
 2.ª Parte - ver aqui
 3.ª Parte - ver aqui 

sábado, 30 de novembro de 2019

O drama dos índios norte-americanos: de Sitting Bull ao massacre de Wounded Knee (3.ª Parte)


Sitting Bull (Tatanka Yotanka - Touro Sentado)

A relutância dos Sioux em se desfazerem das terras atribuídas pelo governo exasperava os agentes incumbidos de convencê-los, os quais utilizavam, por vezes, processos pouco dignos. Foi o que sucedeu com uma comissão liderada por Newton Edmunds: em gritante violação dos tratados, este mandou recolher "assinaturas" de crianças com sete anos de idade (quando só índios adultos, do sexo masculino, poderiam assinar).

A vinda de Sitting Bull para a Grande Reserva (agência de Standing Rock) complicou ainda mais a tarefa dos negociadores brancos. Nalgumas reuniões, ele foi desconsiderado pelos comissários de Washington, vendo-se praticamente impedido de falar. Mas o líder sioux não precisava de grandes discursos para orientar os seus: todos sabiam que ele se opunha à cedência das terras, e o respeito que infundia chegava para que a esmagadora maioria lhe seguisse o exemplo. Mesmo quando se conseguiam algumas assinaturas nas outras agências da Grande Reserva (Pine Ridge, Rosebud, Riacho Crow, Lower Brulé e Rio Cheyenne), o processo emperrava invariavelmente em Standing Rock, onde Sitting Bull habitava. Por isso, e para desespero das autoridades, não se atingia nunca o número mínimo de assinaturas para que as terras pudessem ser alienadas (três quartos da população adulta masculina).

Nos finais da década de 1880, os comissários, frustrados, regressaram a Washington e sugeriram duas coisas aos seus superiores: que se ignorasse o tratado de 1868 e que se ficasse com as terras independentemente do consentimento dos índios.
É sabido que o governo americano se achava já na disposição de adoptar essa conduta. No entanto, para dissimular a violação do acordo, decidiu-se efectuar a última tentativa para dar uma certa aparência de legalidade ao roubo que se preparava. Deste modo, os índios passaram a ser individualmente abordados e pressionados: se não assinassem, aceitando a divisão da reserva e a venda das terras, acabariam por ficar sem estas e não receberiam qualquer compensação. Atemorizados, alguns índios concordaram em assinar. As ameaças intensificaram-se. Por fim, nem o prestígio de Sitting Bull foi suficiente para deter as manobras do terror e os americanos alcançaram o que há tanto tempo ambicionavam.

O historiador Dee Brown sintetizou o desenlace deste processo infame: "Estava tudo acabado. A Grande Reserva Sioux fora dilacerada em pequenas ilhas, em redor das quais correria a torrente da migração branca. Antes de Sitting Bull sair do local, um jornalista perguntou-lhe como é que os índios se sentiam ao perder as suas terras. Índios!, gritou Sitting Bull. Já não há mais índios, só eu!"

Dança dos Fantasmas

Em Outubro de 1890, cerca de um ano depois da divisão e da perda de terras da Grande Reserva, Sitting Bull foi visitado por um sioux da agência de Rio Cheyenne - Urso Saltador -, há pouco regressado de uma peregrinação que o tinha levado, em longuíssima viagem, do Dakota até ao Nevada. Aqui, nas imediações do lago Walker, Urso Saltador travara conhecimento com um índio da tribo dos Paiutes - Wovoka -, fundador de um estranho mas aliciante movimento - a religião da Dança dos Fantasmas. Era dessa experiência que ele vinha dar conta a Sitting Bull.

A Dança dos Fantasmas era uma espécie de repetição de um fenómeno semelhante, ocorrido vinte anos antes, por inspiração de outro índio paiute. Mas Wovoka apresentava novidades de carácter doutrinário e ritualista, atestadas por uma revelação assombrosa: ele anunciava-se como o próprio Jesus Cristo ressuscitado, ou seja, ele era o autêntico Messias. Tal como vinha na Bíblia dos brancos, também Wovoka difundia princípios com que a maioria destes não hesitaria em concordar: Não devem ferir ninguém, nem fazer mal a qualquer pessoa. Não devem lutar. Façam sempre o bem.
Preconizando portanto a não-violência e o amor fraternal, o movimento assentava - para além da espantosa identificação do seu fundador - em óbvia inspiração cristã. O que se exigia dos seguidores era, somente, que cantassem e executassem a Dança dos Fantasmas, tal como a ensinava Wovoka.

Até este ponto, a religião da Dança dos Fantasmas poderia parecer inofensiva aos olhos de qualquer pessoa - mesmo aos dos colonos e soldados que não cessavam de invadir as terras índias. Mas Wovoka acrescentava algo que rapidamente se espalhou muito para além do espaço da sua tribo: era anunciado para os próximos meses - exactamente para a Primavera de 1891 - uma espécie de Juízo Final: a terra seria coberta por um novo solo, e, sob essa camada regeneradora, ficariam soterrados, e para sempre eliminados, todos os brancos.

Quanto aos índios, os que tivessem executado a Dança dos Fantasmas ficariam suspensos no ar, furtando-se assim ao terrível destino dos seus inimigos. Depois desceriam outra vez à terra renovada, onde os esperariam enormes manadas de búfalos, correntezas de água límpida e pradarias verdejantes. E, mais importante do que tudo isso, encontrar-se-iam de novo com os seus antepassados, mortos ou não em combate com os brancos: eles seriam miraculosamente ressuscitados pelo "Messias Wovoka"!

Morte de Sitting Bull

Sitting Bull ouviu com muita atenção o que lhe contou Urso Saltador. Ao princípio ficou céptico, pois não acreditava que índios mortos pudessem regressar à vida. Mas sabia que as profecias de Wovoka corriam há meses entre os sioux da Grande Reserva e que muitos criam nelas. Sabia também que, nalgumas agências, os soldados haviam sido convocados para impedir pela força que os Sioux praticassem a Dança dos Fantasmas.

Catherine (ou Caroline) Weldon, a amiga e conselheira de Sitting Bull, intuiu o perigo que aquele movimento representava para o povo índio e, em particular, para o seu líder. Ela temia que as autoridades norte-americanas pudessem usar a Dança dos Fantasmas como pretexto para novas represálias e, sobretudo, para se desembaraçarem definitivamente do líder sioux. E preveniu-o acerca disso.
Sitting Bull sentiu-se numa situação complicada. Por um lado compreendia o fundamento daqueles receios; mas, por outro,  não desejava colocar-se, como um obstáculo, entre o seu povo e a réstia de esperança criada pelas profecias de Wovoka. Por isso, e indo contra os conselhos de Catherine, não viu inconveniente em que Urso Saltador ensinasse a Dança dos Fantasmas na agência de Standing Rock. Ele pensava que já faltava pouco tempo para se saber onde estava a verdade: bastaria esperar até à Primavera seguinte.

A rápida e trágica evolução dos acontecimentos viria a dar razão a Catherine Weldon. As autoridades, desprezando a base "cristã" da mensagem de Wovoka, viram um perigo potencial naquela agitação, pois a Dança dos Fantasmas era agora executada em toda a Grande Reserva. Então, decidiram actuar com firmeza. Na agência de Standing Rock começaram por expulsar Urso Saltador e, depois, pediram a identificação dos "fomentadores" do movimento. Foi apressadamente redigida uma lista de denúncias e, como seria de esperar, o nome de Sitting Bull sobressaía nela.

A 12 de Dezembro de 1890 foi emitida a ordem de detenção do líder sioux. Pouco antes da aurora do dia 15, cerca de 40 polícias índios cercaram a cabana onde ele dormia, enquanto um esquadrão de cavalaria regular se mantinha de prevenção a alguma distância.
O comandante da força entrou na cabana e deu voz de prisão a Sitting Bull. Ainda mal desperto, o líder dispôs-se a segui-lo. Cá fora, um grupo de sioux opôs-se à prisão do seu chefe e gerou-se confusão. Ouviram-se disparos de armas de fogo. Uma das balas da polícia atingiu Sitting Bull na cabeça e deu-lhe morte imediata. A luta prosseguiu, e só a intervenção da cavalaria americana evitou que a força policial fosse completamente massacrada.
Para os que odiavam os índios, e, em particular, o grande chefe sioux, a derrota de Little Bighorn tinha começado - apenas começado - a ser vingada.


Notícia da morte do líder sioux na imprensa americana


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(Conclui em 7 de Dezembro de 2019 - 4.ª Parte)

1.ª Parte - ver aqui
 2.ª Parte - ver aqui

sábado, 23 de novembro de 2019

O drama dos índios norte-americanos: de Sitting Bull ao massacre de Wounded Knee (2.ª Parte)

Sitting Bull ao lado de William F. Cody ("Buffalo Bill")

Após quatro anos de exílio no Canadá, Sitting Bull, o grande líder sioux, ficou preso em Forte Randall por mais de um ano. Mas, apesar da longa ausência, não tinha sido esquecido - nem pelo seu povo, nem pelos brancos, que o acusavam de ter sido o "matador de Custer". Durante o período de reclusão recebeu a visita dos chefes índios que viviam na Grande Reserva Sioux, entretanto criada pelas autoridades americanas: todos demonstraram júbilo por tornarem a vê-lo, honrando-o e desejando-lhe boa sorte. Muitos aproveitaram para lhe pedir conselhos sobre os problemas que os afectavam na Grande Reserva.
Também a imprensa dos Estados Unidos contribuiu para aumentar exponencialmente a fama do líder: jornalistas deslocavam-se propositadamente a Forte Randall para o entrevistarem, e as suas palavras eram sofregamente devoradas pelos leitores brancos.

Em 1884, já depois da sua admissão em Standing Rock, na Grande Reserva Sioux, o governo americano promoveu uma viagem de Sitting Bull por quinze cidades americanas - talvez uma forma de provar que o formidável inimigo de outrora estava definitivamente vencido e era agora inofensivo. O sucesso das suas apresentações ao público foi tão grande, que William F. Cody, o renomado "Buffalo Bill", o convidou para integrar o seu Show do Oeste Selvagem. Obtida a concordância das autoridades, o chefe sioux juntou-se ao Show  no Verão de 1885 e com ele percorreu os Estados Unidos e o Canadá.
As aparições de Sitting Bull suscitavam um misto de sentimentos - assombro, fascínio e, também, hostilidade, porque o fantasma de Custer pairava teimosamente em seu redor. Por vezes, o chefe era acolhido com vaias e apupos. Todavia, era normalmente aplaudido no termo das exibições, e os espectadores ofereciam-lhe moedas para obterem as suas fotografias assinadas (ele aprendera a desenhar o seu nome - em inglês - com as letras dos brancos).

Cartaz do Show do Oeste Selvagem


As moedas, ao que se conta, ficavam pouco tempo na posse de Sitting Bull. Com efeito, ele pudera testemunhar chocantes desigualdades sociais entre os habitantes das urbes americanas. A ostentação luxuosa de alguns contrastava violentamente com a miséria de muitos, e isso impressionava o líder sioux, acostumado à generosa solidariedade das comunidades índias.
Certo dia, conversando com Annie Oakley, uma das maiores estrelas do Show (exímia atiradora), Sitting Bull confessou-lhe que não conseguia compreender a revoltante indiferença dos brancos para com os seus pobres. E rematou: O homem branco sabe como fazer tudo… mas não sabe como distribuir o que faz.
Por consequência, a maioria das moedas recebidas no Show passava rapidamente das mãos de Sitting Bull para as dos meninos andrajosos e famintos que, atraídos pela sua fama, apareciam a rodeá-lo em todos os locais por onde passava.

No fim da digressão com o Show do Oeste Selvagem, Sitting Bull retornou à agência de Standing Rock, na Grande Reserva, trazendo dois presentes de despedida de Buffalo Bill: um enorme chapéu branco e um cavalo treinado para se sentar e para mover uma das patas quando ouvia disparos de armas de fogo. Mas Buffalo Bill ficara tão agradado com o desempenho do líder sioux, que, dois anos mais tarde, o convidou para acompanhar o Show numa viagem pela Europa. Sitting Bull recusou, dizendo que a sua presença se tornara indispensável em Standing Rock: os brancos - explicou - estavam a tentar reapoderar-se das terras da Grande Reserva que ainda se achavam na posse dos Sioux.

Catherine (ou Caroline) Weldon (1844-1921)

Não obstante os acordos celebrados, as tentativas de recuperação das terras dos índios haviam começado logo depois da constituição das reservas, quando foi descoberto o valor das mesmas. No caso dos Sioux, após o esbulho dos seus territórios do Rio Powder e das Black Hills, o que sobejou foi uma extensão de cerca de 90 000 km2 - área considerável, mas que, segundo os técnicos, era praticamente desprovida de valor.
À medida que reconsideravam o juízo inicial e o que tinha ficado acordado, as autoridades (sempre pressionadas pelos rancheiros, garimpeiros, colonos e companhias de caminhos-de-ferro) procuravam levar os índios a assinar novos papéis - desta vez para se desfazerem das terras em que viviam.

Ainda durante o seu tempo de reclusão em Forte Randall, Sitting Bull fora consultado por vários chefes sobre a venda das terras que lhes era proposta. O líder aconselhara-os sempre a não se desfazerem do que possuíam - e possuíam legalmente. Manteve a atitude e o conselho após dar entrada em Standing Rock, o que, devido ao imenso prestígio de que gozava entre o seu povo, se tornou um sério obstáculo para os agentes encarregados do negócio.

A partir de 1888, o governo intensificou esforços para reassumir a posse das terras. Uma comissão enviada de Washington propôs aos índios a divisão da Grande Reserva em seis reservas menores e a venda de 36 000 km2 (mais de um terço da superfície total) ao preço de 50 centavos de dólar por acre. A ideia era entregar essa vasta área - constituída pelas melhores terras da reserva - aos colonos vindos do Leste do país.
Aconselhados por Sitting Bull, os chefes rejeitaram a oferta e os comissários não conseguiram o número de assinaturas necessário. Uma nova comissão surgiu, oferecendo um dólar e meio por acre. As recusas continuaram, pelo que os comissários passaram a recorrer à intimidação: se os índios continuassem renitentes - disseram -, o governo acabaria por ficar com as terras a troco de nada.

Por altura destes acontecimentos, Sitting Bull recebeu a visita de uma viúva de New York, pintora e filiada na Associação Nacional de Defesa dos Índios. Chamava-se Catherine Weldon (nalgumas fontes é identificada como Caroline Weldon).
Ela viajou até Standing Rock com o pretexto de pintar um retrato do famoso líder sioux, mas, com o tempo, acabou por transformar-se em conselheira e secretária deste, participando activamente na resistência ao roubo das terras. Como seria de esperar, isso valeu-lhe a feroz hostilidade da comunidade branca: foi insultada, caluniada e, até, fisicamente agredida.

Sitting Bull retratado por Catherine Weldon (1890)
(Historic Arkansas Museum - Little Rock - Arkansas)

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Nota: Em 2017, Susanna White realizou um filme sobre o encontro e convivência de Sitting Bull (interpretado por Michael Greyeyes) com Catherine Weldon (Jessica Chastain).
O título da película é Mulher Que Segue à Frente (nome que os Sioux davam a Catherine).
Apesar de algumas imprecisões históricas, trata-se de uma obra interessante, de grande beleza pictórica e excelentes desempenhos dos dois actores mencionados.
Veja o trailer do filme:


Continua em 30 de Novembro de 2019 (3.ª Parte - aqui)

1.ª Parte - ver aqui

sábado, 16 de novembro de 2019

O drama dos índios norte-americanos: de Sitting Bull ao massacre de Wounded Knee (1.ª Parte)

Sitting Bull, chefe dos Sioux Hunkpapa
(n. 1831 - f. 15 Dezembro 1890)

Após a derrota das forças de George Custer em Little Bighorn, no dia 25 de Junho de 1876 (rever aqui), o governo norte-americano levou a cabo violentas retaliações sobre os índios, particularmente Sioux e Cheyennes, as tribos responsáveis por aquele feito memorável.
Numa fase inicial, os actos de vingança não atingiram os guerreiros vitoriosos, porque estes se tinham prudentemente evadido do raio de acção dos soldados americanos. O próprio Sitting Bull, que era o mais carismático  e respeitado dos líderes sioux intervenientes na batalha, acabou por cansar-se das deambulações com que ia iludindo as manobras do inimigo: na Primavera de 1877 resolveu levar o seu povo (cerca de 3000 almas) para a relativa tranquilidade do Canadá - a terra da Avó, ou Mãe Grande (a rainha Vitória de Inglaterra). E por ali ficaria durante perto de quatro anos. 

As represálias dos americanos incidiram principalmente sobre os Sioux e os Cheyennes já confinados em reservas. Essa conduta infame, que manchou de forma indelével a história dos Estados Unidos, ignorou deliberadamente dois factos: em primeiro lugar, os índios das reservas, praticamente indefesos, não haviam participado na batalha; em segundo lugar, os índios "livres" que venceram em Little Bighorn não tinham iniciado a luta: pelo contrário, achavam-se pacificamente acampados com as suas famílias quando as tropas de Custer arremeteram para as exterminar. Portanto, a acção liderada por Sitting Bull e os outros chefes revestira-se, incontestavelmente, de carácter defensivo.

A vingança americana foi cruel. No entanto, sob determinados aspectos, apenas prolongou - acentuando-o - o comportamento-padrão das autoridades: corte de rações alimentares nas reservas, condenando homens, mulheres e crianças a regimes de fome; transferência das pessoas para outras reservas, em áreas distantes, inóspitas e desprovidas de recursos; perseguição implacável dos índios que teimavam em manter-se fora das reservas.
Nalguns casos, grupos desgarrados de índios foram perseguidos e exterminados como coelhos.

Crazy Horse (Cavalo Louco) chefe dos Sioux Oglala
(n. cerca 1840 - f. 5 Setembro 1877)

Tornou-se habitual um procedimento que - é conveniente lembrá-lo - começara muito antes de Little Bighorn: o absoluto desrespeito, por parte do governo, pelos tratados assinados com os índios. Assim, sempre que as terras de determinada reserva se tornavam alvo da cobiça dos garimpeiros, dos colonos recém-chegados, de rancheiros criadores de gado ou das companhias de caminhos-de-ferro, os índios viam reduzir-se drasticamente a área concedida ou eram pura e simplesmente desapossados dela. Isto acontecia não obstante o tratado celebrado em 1868, segundo o qual a cedência de qualquer parcela da reserva teria de ser aprovada, no mínimo, por três quartos dos adultos de sexo masculino das tribos sioux.

Sempre que os índios se mostravam relutantes em ceder terras, os comissários enviados por Washington ameaçavam-nos com a supressão imediata das rações, o confisco de todas as armas e cavalos, e a remoção forçada para lugares desconhecidos e distantes. Foi deste modo que os Sioux perderam os territórios (legalmente seus, de acordo com o tratado) do rio Powder e, também, das Black Hills, as suas montanhas sagradas. No papel, o governo concedera-as aos Sioux para sempre, mas fizera-o numa altura em que as supunha estéreis e sem préstimo. O roubo - é a palavra mais adequada - só teve lugar quando se apurou que o subsolo das montanhas era riquíssimo em filões de ouro.

A traição teve igualmente lugar nesses dias negros, como se viu com o funesto destino de Crazy Horse, um dos chefes vencedores em Little Bighorn. Depois da batalha, Sitting Bull procurara-o durante algum tempo para o convencer a viajar com ele até ao Canadá. Nessa altura, Crazy Horse andava ocupado, com o seu povo, a fugir do Exército americano, e Sitting Bull não conseguiu encontrá-lo. Fustigado por diversas emboscadas dos soldados, o líder oglala viu chegar o Inverno e, com ele, a morte de crianças e velhos consumidos pelo frio e pela fome.

Certo dia, Crazy Horse recebeu um recado do general Crook, que lhe prometia uma reserva no rio Powder se ele se rendesse. Desejoso de pôr termo ao sofrimento dos seus, o sioux concordou em entregar-se. Os soldados conduziram-no ao Forte Robinson, no Nebraska, e ele ia convencido de que Crook o aguardava para uma conversa sobre o seu próximo destino. Era o dia 5 de Setembro de 1877. Quando chegou ao forte, já de noite, disseram-lhe que era muito tarde para falar com o general e encaminharam-no para um edifício. Crazy Horse verificou então que as janelas deste ostentavam barras de ferro e que, por trás delas, jaziam homens acorrentados. O líder oglala tentou retroceder e debateu-se para não entrar naquela jaula. Nesse instante soou uma ordem e logo se adiantou um soldado - William Gentles - que lhe cravou no abdómen a baioneta da sua espingarda.
Crazy Horse morreu nessa mesma noite.

Sitting Bull fotografado no Canadá (1881)

Para o governo de Washington, a presença de um Sitting Bull em liberdade, nas planícies do Canadá, constituía um símbolo de insubmissão triunfante e um perigoso sinal de encorajamento para os índios já detidos em reservas americanas.
Receosas do prestígio do grande líder sioux, as autoridades haviam feito, antes do seu exílio no país vizinho, uma derradeira tentativa para o "segurarem" do seu lado. Para o efeito, promoveram dois encontros do então ainda coronel Nelson Miles (que mais tarde aceitaria a rendição do apache Gerónimo) com Sitting Bull.
Miles, com um duvidoso sentido diplomático, acusou o chefe índio de estar sempre contra os homens brancos. Sitting Bull respondeu que não pretendia mais lutas e lembrou que os Sioux só tinham combatido os soldados de Custer porque estes os atacaram. Frisou que apenas queria paz, a fim de poder caçar búfalos para alimentar e vestir a sua gente. Miles, cumprindo obviamente instruções superiores, comunicou que só haveria paz se todos os Sioux aceitassem viver em reservas. O diálogo findou aí, e Sitting Bull partiu para os territórios da Mãe Grande (rainha Vitória).

O governo norte-americano não abdicou, porém, dos seus intentos. Sabia que, para o Governo canadiano, a presença dos Sioux era tão incómoda como cara, uma vez que tinha de manter um corpo permanente de Polícia Montada a vigiar aqueles índios "estrangeiros". Foi portanto com a concordância dos Canadianos que o Departamento de Guerra americano enviou um representante - o general Alfred Terry -, acompanhado por uma comissão, para negociar com Sitting Bull o retorno aos Estados Unidos.
Num primeiro momento, o líder sioux recusou o encontro com Terry: Não há motivo para falar com esses americanos, disse ele. São todos mentirosos, não se pode acreditar em nada do que dizem. Atendendo à reiterada conduta de Washington, ninguém poderia honestamente contestar estas palavras. Mas os Canadianos intensificaram a pressão e Sitting Bull acabou por comparecer ao encontro com os Americanos.

Sitting Bull e a sua família. 
À frente, ladeando-o: sua mãe e uma filha, com o seu neto ao colo.
Atrás: uma irmã e outra filha.

Alfred Terry principiou por um discurso apaziguador, afirmando que o Pai Grande (o presidente dos Estados Unidos) desejava viver em paz com todos os Sioux. É hora de cessar o derramamento de sangue, salientou. Mas o que ele tinha para dizer ao chefe índio não diferia, no essencial, das propostas anteriormente transmitidas por Nelson Miles.

O governo americano oferecia ao líder sioux o perdão completo, desde que ele entregasse as armas de fogo e os cavalos, além de trazer o seu povo para os Estados Unidos - mais concretamente para a agência dos sioux hunkpapa em Standing Rock, na Grande Reserva Sioux.
Sitting Bull reagiu com aspereza, mostrando-se mais perspicaz do que aqueles companheiros que se tinham deixado iludir pelas promessas dos brancos: Você veio para nos dizer mentiras, mas não as queremos ouvir. Não diga mais nenhuma palavra. Vá-se embora. Vocês expulsaram-me da parte do país que me deram. Agora, vim para ficar aqui com estas pessoas e pretendo continuar por cá.
A reunião terminou pouco depois, sem os resultados esperados pelos americanos. Quando regressou aos Estados Unidos, Terry, frustrado, comunicou ao Departamento de Guerra: A presença deste grande grupo de índios, acirradamente hostil a nós, na vizinhança da fronteira, é uma ameaça constante à paz dos nossos territórios índios.

Se as autoridades canadianas se mostrassem mais compreensivas, Sitting Bull teria provavelmente vivido até ao termo dos seus dias, com o seu povo, nas pradarias de Saskatchewan, entre Alberta e Manitoba. Mas, embora os tivessem deixado ficar ao longo de quase quatro anos, os seus anfitriões jamais lhes deram esperanças de um asilo definitivo. Eles consideravam-nos índios americanos, e não britânicos. Por isso, pressionavam-nos para que voltassem ao ponto de partida, negando-lhes qualquer tipo de auxílio - nem comida, nem roupa, nem abrigos -, o que era muito difícil de superar durante o rigor dos invernos característicos da região. Nesses períodos, a falta de caça impedia não só o acesso à carne como também às peles necessárias para confeccionar agasalhos e coberturas de tendas.

As precárias condições de sobrevivência forçaram muitos índios a transpor de novo a fronteira e a renderem-se às autoridades americanas. O Inverno de 1880 foi particularmente duro para os que ficaram, e grande parte dos cavalos da tribo pereceram com o frio. Isso fez com que o êxodo se tornasse imparável, e até alguns dos homens mais fiéis de Sitting Bull - como Gall Corvo-Rei - deixaram de resistir e dirigiram-se para a Grande Reserva Sioux, nos Estados Unidos.

Finalmente, o próprio líder sioux compreendeu que os seus dias no Canadá haviam chegado ao fim. Com os seguidores que lhe restavam - menos de duzentos - viajou para sul em 19 de Julho de 1881 e foi apresentar a rendição no forte americano de Buford (Dakota), a cujo comandante fez entrega da sua espingarda Winchester.
Sitting Bull confirmou, então, como era justificada a desconfiança que nutria pelos americanos: eles quebraram a promessa de lhe conceder o perdão total e encaminharam-no para o Forte Randall como prisioneiro de guerra.

Continua em 23 de Novembro de 2019 (2.ª Parte - aqui)


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Cântico de guerra dos Sioux:


sábado, 9 de novembro de 2019

Apache! (Episódios da resistência dos povos do sudoeste norte-americano) (5)

 

Nos princípios da década de 1880, após a morte de Victorio, quase todos os Apaches se achavam encurralados em reservas atribuídas pelo governo americano - grandes espaços vigiados por enxames de soldados prontos a reprimir à nascença qualquer esboço de revolta. No entanto, grupos de desesperados logravam por vezes furtar-se à vigilância e regressar à vida anterior, novamente de armas na mão. Alguns relatos insuspeitos, de origem americana, deixariam a nu, com toda a clareza, a explicação dessas fugas: elas resultavam invariavelmente dos abusos sofridos pelos índios.

Certos agentes do governo, conluiados com outros cidadãos sem escrúpulos, procediam, em proveito próprio,  ao desvio e à negociação das rações e demais produtos destinados aos habitantes das reservas. Por outro lado, as terras destas eram amiúde cobiçadas por ambiciosos oportunistas, que procuravam suscitar respostas violentas dos Apaches para que eles fossem expulsos dali.

A demonização dos índios constituía um processo contínuo. Jornais da fronteira propagavam toda a espécie de falsidades sobre eles, atribuindo-lhes violências que não haviam cometido - ou que, no limite, correspondiam a actos de vingança pelos agravos sofridos.
Essas notícias fantasiosas eram acriticamente reproduzidas, sem filtragens ou verificações, pela imprensa dos grandes centros urbanos, muito afastados dos locais dos acontecimentos, o que contribuía para consolidar uma opinião pública generalizadamente hostil aos nativos e tendencialmente concordante com qualquer retaliação exercida contra eles.

Um homem acima de toda a suspeita nesta matéria era o general americano George Crook. Para os Apaches, ele continuava a ser o Lobo Cinzento, que perseguira antigamente Cochise e outros índios, de diferentes tribos (Sioux, Cheyennes). Mas Crook, com o decurso dos anos, fora mudando de opinião acerca daqueles inimigos singulares: passara a encará-los como seres humanos (o que estava longe de ser posição pacífica entre os invasores). E confirmava, agora, o desrespeito e as injustiças de que eles tinham sido vítimas: Os índios não são culpados, escreveu, porque não vêem nenhuma justiça num governo que só os castiga, enquanto permite que o homem branco os roube à vontade.

Crook, que no derradeiro quadrimestre de 1882 assumira  o comando do Departamento do Arizona - e que nessa condição logo se deslocou à reserva de White Mountain -, não vislumbrou ali motivos para alterar as suas ideias. Acreditava que a solução já não residia na guerra, mas no diálogo com os índios. 
Tornando-se embora impopular entre os seus concidadãos, insistia com veemência: Somos culpados de mais, como nação, pela situação actual. Isso quer dizer que devemos mostrar aos Apaches que serão doravante tratados com justiça e protegidos da invasão dos brancos.


Gerónimo (1829-1909)

O general Crook, ao clamar naquelas áridas paragens pelos direitos dos índios, era apenas uma voz no deserto - como fora outrora a de Tom Jeffords, o amigo de Cochise. Mas os Apaches conheciam outras vozes de brancos - a imensa maioria - que exprimiam ideias muito diferentes. Por isso continuavam a desconfiar e, alguns deles, a lutar.
Foi o que se passou com o velho Nana, guerreiro apache de 70 anos - um dos trinta sobreviventes do massacre que acabara com a vida de Victorio, em Tres Castillos -, que conseguira escapar para o México com alguns seguidores.
Após o desastre, Nana não só recusara render-se como recrutou guerrilheiros entre os jovens apaches que vegetavam nas reservas, entregues a quotidianos de tédio e desprovidos de horizontes. No Verão de 1881, transpôs o Rio Grande com a sua gente e, em três ou quatro semanas, travou oito combates, apoderou-se de duas centenas de cavalos e tornou a refugiar-se no México, não obstante a perseguição da Cavalaria dos Estados Unidos.

Os americanos, temendo o recrudescimento da guerra, expediram reforços para o Sudoeste, particularmente para a área de White Mountain. Aqui, algumas figuras já nossas conhecidas - como Naiche e Gerónimo, que se deixara entretanto enclausurar na reserva - alarmaram-se com as manobras de intimidação que a cavalaria inimiga levava a cabo nas imediações. Corriam boatos sobre a iminente prisão de todos os líderes que haviam combatido os brancos.
Uma noite, em finais de Setembro de 1881, Naiche, Juh e Gerónimo - de longe o mais prestigiado - fugiram da reserva acompanhados por 70 guerreiros e refugiaram-se nos seus conhecidos baluartes da Sierra Madre, em território mexicano.

Em Abril de 1882, após meio ano de combates e de assaltos que lhes permitiram equipar-se e armar-se convenientemente, retornaram a White Mountain para fazerem evadir mais guerreiros e as suas famílias. Muitos responderam ao apelo, e o grupo, agora bastante aumentado, tomou o rumo do México. O exército americano procurou embargar-lhes o passo nas proximidades da fronteira, mas uma manobra repentina dos Apaches, tacticamente brilhante, reteve os soldados durante o tempo necessário para que o grosso dos fugitivos entrasse no México. Foi então que sobreveio o  desastre: um regimento mexicano montou uma emboscada à coluna apache, matando a maioria das mulheres e das crianças, que seguiam à frente.

Gerónimo sobreviveu, tal como sobreviveram, entre outros, Naiche, Loco e Chato. Com os guerreiros que restavam, eles correram a unir as suas forças com as de Nana, que continuava muito activo nas operações de guerrilha.
O que se seguiu foi um período de lutas ferozes, com os norte-americanos a enviarem reforços sucessivos, os quais só contribuíam para fazer crescer a intranquilidade entre os índios ainda presentes nas reservas. Isso originava mais evasões e um cortejo de ataques contra os ranchos situados nas rotas de fuga dos índios. E o nome de Gerónimo passou a ressoar por toda a região como símbolo de rebeldia e de terror.

Gerónimo com três dos seus guerreiros. Ele é o mais alto, à direita.

Foi para tentar resolver a situação de caos instalada no Sudoeste que o Exército americano convocou o general George Crook e o enviou para o Arizona, com largos poderes, no mês de Setembro de 1882. O general, depois de se inteirar da situação em White Mountain, reforçou a crença de que o diálogo com os índios era a melhor forma - porventura a única - de fazer regressar a paz ao território. E pensava que, através de medidas concretas e apaziguadoras na reserva, conseguiria fazer regressar a maioria dos fugitivos e chegar à fala com o próprio Gerónimo para o convencer a depor as armas.

Algumas das medidas de Crook provocaram a ira dos seus compatriotas, mas contribuíram indubitavelmente para a restauração de um clima de confiança entre a população índia. Ele começou por expulsar de White Mountain todos os colonos e garimpeiros brancos, que estavam frequentemente na origem dos desentendimentos. Depois exigiu que a Agência Índia cooperasse com ele no tocante à introdução de reformas na reserva.

Os contratos para a obtenção de forragens foram celebrados com os Apaches e não com os antigos fornecedores brancos. O Exército pagaria, com dinheiro, todos os excedentes de milho e verduras que os índios conseguissem produzir nas suas terras. Tal como nos tempos de John Clum, foi restaurada a polícia apache e os casos passaram a ser julgados por tribunais índios. Os agentes e comerciantes foram sujeitos a controlo apertado, impedindo ou dificultando as fraudes habituais, o que teve logo como consequência o aumento das rações. Os índios deixaram de ser obrigados a viver nas imediações de San Carlos ou do Forte Apache, possibilitando-se que se instalassem, com as suas casas e quintas, em qualquer ponto da reserva. O general incitava-os a criar os seus rebanhos e a cultivar campos de milho e feijão. E, tão importante como tudo isso, deixaram de ser vistos soldados no interior da reserva.

O cepticismo inicial dos habitantes de White Mountain foi dando gradualmente lugar a um sentimento de confiança. As notícias ultrapassavam os limites da reserva e chegavam a Sierra Madre, no território mexicano, de onde continuavam a partir os ataques de Gerónimo e dos seus seguidores. Certo dia, o general George Crook entrou no México com uma força expedicionária e, auxiliado por batedores experientes, conseguiu alcançar o refúgio de Gerónimo, a quem propôs o regresso a White Mountain com a gente que lhe restava. Surpreendentemente para muitos, o líder apache gostou de Lobo Cinzento, confiou nas suas palavras e aceitou. Em Fevereiro de 1884 deu entrada na reserva americana, parecendo que o "problema índio" se achava definitivamente ultrapassado no Sudoeste.
Mas não seria bem assim...


O general Crook tornara-se um obstáculo incómodo para os que construíam fortunas fomentando guerras e enganando os índios. Com os seus actos de pacificação, ele prejudicava grandes interesses e não tardou a ser hostilizado pela imprensa, tornando-se alvo de boatos sem fundamento. Ao mesmo tempo que o acusavam de ser demasiado tolerante para com os índios, puseram a correr que ele se rendera a Gerónimo no México e que tivera de fazer um acordo vergonhoso com o inimigo para escapar com vida.
Simultaneamente, os jornais intensificaram a campanha contra Gerónimo, atribuindo-lhe dezenas de atrocidades, alertando para a sua pretensa perigosidade e pedindo que ele fosse enforcado. O líder apache, que ao longo de um ano em White Mountain não dera razões de queixa a Crook, soube desses artigos inflamados e comentou: Quando um homem procura portar-se bem, não deviam pôr histórias dessas nos jornais.
Na altura em que diversas fontes fizeram chegar a Gerónimo que os americanos se preparavam para o prender e, talvez, enforcar, ele pensou de novo em fugir - o que concretizou na noite de 17 de Maio de 1885, levando com ele 34 guerreiros e cerca de uma centena de mulheres e crianças.

O pânico regressou ao Sudoeste, embora a ideia de Gerónimo fosse apenas a de se refugiar com os seus nos recantos familiares da Sierra Madre. Nesses dias, ele procurou desesperadamente furtar-se a qualquer confronto com os brancos. Crook, a quem a imprensa logo exigiu uma campanha sangrenta, compreendeu que tinha de chegar de novo à fala com os Apaches para impedir um massacre. Com efeito, a partir de Washington, os seus superiores impunham-lhe que matasse os fugitivos ou que os forçasse a uma rendição definitiva.
Só em Março de 1886 o general tornou a encontrar-se com Gerónimo, a quem informou de que provavelmente passaria algum tempo preso, na Flórida, antes de voltar a White Mountain. O líder apache disse que não se renderia, a menos que Lobo Cinzento lhe prometesse que o período de prisão não ultrapassaria dois anos, findos os quais os prisioneiros seriam devolvidos à reserva. Crook, atendendo ao que estava em jogo, respondeu que tentaria obter essas condições dos seus superiores. Gerónimo aceitou, então, o retorno a White Mountain.

Desgraçadamente, Washington negou-se a aceitar o princípio de acordo alcançado pelo general. Quando soube disso, Gerónimo voltou a evadir-se, desta vez acompanhado por Naiche e por algumas dezenas de guerreiros. O Departamento de Guerra americano repreendeu Crook e este demitiu-se, sendo substituído por um brigadeiro-general, Nelson Miles, em 12 de Abril de 1886.
Miles colocou-se à testa de uma poderosa força de 5 mil soldados, 500 batedores apaches e milhares de voluntários civis. Do lado mexicano foram disponibilizadas centenas de soldados para ajudarem na caça a Gerónimo e ao seu pequeno grupo.
Descoberto em Skeleton Canyon, Arizona, com Naiche, Gerónimo acabou por se render a Nelson Miles - a sua última rendição - em 3 de Setembro de 1886.
Embora o presidente norte-americano, Grover Cleveland, recomendasse que o derradeiro chefe apache fosse enforcado, prevaleceu um resto de bom senso entre os vencedores - e ele, juntamente com os seus, foi condenado à reclusão na Flórida.

Quando chegaram a Forte Bowie, quatro dias após a rendição, Gerónimo e os guerreiros foram metidos em vagões do caminho-de-ferro para viajarem até ao local de exílio. Nunca mais tornariam a ver a terra natal.
A banda do 4.º Regimento de Cavalaria compareceu para uma espécie de cerimónia de despedida. No momento em que o comboio se pôs em movimento, a banda tocou a velha canção Auld Lang Syne, que pode escutar abaixo:

Auld Lang Syne (principia aos 10 segundos):


FIM DA 5.ª E ÚLTIMA PARTE

1.ª Parte - Ver aqui
2.ª Parte - Ver aqui
3.ª Parte - Ver aqui
4.ª Parte - Ver aqui

Bibliografia:
Principal:
Dee Brown - Bury My Heart at Wounded Knee - An Indian History of the American West - 1970.
Outros:
Albert Britt - Great Indian Chiefs - 1938.

Britton Davis - The Truth About Geronimo - 1951.
John C. Cremony - Life Among the Apaches - 1868.
John G. Bourke - An Apache Campaign in the Sierra Madre - 1958.