Pequenas e grandes histórias da História e mensagens mais ou menos amenas sobre vidas, causas, culturas, quotidianos, pensamentos, experiências, mundo...
Corria o ano de 1972, nos tempos quase finais da guerra colonial portuguesa.
Mário Viegas era aspirante-a-oficial-miliciano quando pela primeira vez lhe pus a vista em cima, na sala de aulas de um quartel de Lisboa. Empoleirado numa das enormes mesas de tampo esverdeado, aquele instrutor militar debitava poemas vibrantes para uma classe de cadetes extasiados.
Era suposto que ele nos transmitisse uns quaisquer segredos vitais sobre logística de guerra, depósitos de víveres, tabelas alimentícias, protecção de transportes em zonas de conflito.
Mas quem teria sido o distraído, ou o ingénuo, que se lembrara de fazer do Mário Viegas um instrutor de guerra? Como seria de prever por quem minimamente o conhecesse, ele jamais se apoquentou com o que pretendiam dele os poderosos senhores dos exércitos...
Mário andava o mais arredio que imaginar se possa de qualquer vestígio de ordem castrense. Assim, nas provas e exames por que era responsável, toda a gente copiava, alegre e impunemente, rumo a classificações de brilho. Mais tarde, nos teatros de operações (operações "a sério"), cada um que se safasse como melhor pudesse…
Ficou-me do Mário Viegas a lembrança da simpatia expansiva, do instinto solidário, da rebeldia visceral, do comentário pronto, solto e corrosivo sobre os ridículos e as injustiças do mundo.
E ficou-me também a recordação (terá ficado em todos nós) da espantosa capacidade de declamação com que, do cimo daquelas grandes mesas esverdeadas, e completamente esquecida a guerra longínqua, nos ofertava poema atrás de poema.
Como sucedeu, certa vez, com esse inesquecível Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, que ele arremessava em altas vozes aos "Dantas" que, na sua opinião, deambulavam por aquele mundo fardado e sombrio.
E que serve, ainda hoje, a todos os "Dantas" que andam nefastamente por aí (por muito injusto que isso possa ser para a memória do homem de algum talento que foi, de facto, o "autêntico" Júlio Dantas da cultura portuguesa).
Chefe sioux Big Foot, também conhecido por Spotted Elk
(Retrato póstumo, da autoria de Joseph H. Sharp)
O assassínio de Sitting Bull lançou o pânico entre as comunidades índias da Grande Reserva. Muitas delas puseram-se em movimento, errando de agência em agência para se esquivarem às tropas americanas. Estas movimentavam-se diligentemente pelo território, procurando outros líderes sioux acusados de "fomentar" a Dança dos Fantasmas. Um deles era Big Foot, também conhecido por Spotted Elk.
Quando Sitting Bull foi morto, Big Foot contava cerca de 64 anos de idade. Assim que soube do assassínio, colocou-se à frente do seu povo (120 homens e 230 mulheres e crianças) e marchou, através das terras cobertas de gelo, em direcção à agência de Pine Ridge. Pelo caminho contraiu pneumonia, pelo que teve de ser transportado num carroção. A 28 de Dezembro, nas cercanias de Porcupine Creek, avistaram-se soldados americanos. Big Foot ordenou logo que se içasse uma bandeira branca e, pouco depois, foi abordado pelo major Samuel Whitside, do 7.º Regimento de Cavalaria dos Estados Unidos. O major comunicou a Big Foot - que, alquebrado pela doença, sangrava abundantemente da boca e do nariz - ter recebido ordens para conduzi-lo, com a sua gente, a um acampamento de tropas americanas instalado perto do riacho de Wounded Knee. E assim se fez.
Em Wounded Knee, os índios foram contados e alojados em tendas do Exército, vigiadas por sentinelas prontas a impedir qualquer tentativa de evasão. Num morro próximo, com idêntica finalidade, postaram-se canhões Hotchkiss, capazes de atirar cargas explosivas a mais de 3 quilómetros de distância.
Deu nessa altura entrada no acampamento outra força, também pertencente ao 7.º de Cavalaria, que vinha comandada pelo coronel James W. Forsyth. Este assumiu o comando das operações e informou o major Whitside que tinha sido incumbido de levar Big Foot e o seu povo até ao caminho-de-ferro. Seguiriam então de comboio para uma prisão militar em Omaha.
Black Coyote
Na manhã do dia seguinte (29 de Dezembro de 1890), o coronel Forsyth determinou que os sioux fossem reunidos no campo gelado, cercados por soldados a cavalo e intimados a entregar as armas que possuíssem. Eles obedeceram, empilhando no gelo as suas poucas espingardas. Mas o coronel não ficou satisfeito com tão escassa colheita. As tendas foram então invadidas pelos militares, que arrastaram para fora as trouxas que continham os pertences dos índios. Rasgaram-nas para procurar armas, mas só acharam facas, machados, estacas de tendas e utensílios domésticos.
Sempre descontente, Forsyth mandou que os índios se desfizessem das mantas que os protegiam do frio para serem revistados. Apareceram então - e apenas - duas espingardas. Uma delas era a Winchester nova de Black Coyote. Segundo vários testemunhos, Black Coyote era um jovem surdo e perturbado, que, no entanto, quando se viu agarrado e empurrado pelos soldados, não apontou a Winchester a ninguém. Tudo o que fez foi gritar que a espingarda lhe custara muito dinheiro e que, portanto, lhe pertencia. Mas, quando parecia disposto a juntá-la à pilha já formada, alguns soldados tentaram apoderar-se da arma fazendo Black Coyote rodar sobre si próprio. Escutou-se então uma detonação, possivelmente acidental, mas foi o bastante para que a cavalaria desatasse a disparar indiscriminadamente sobre a multidão de prisioneiros.
Desarmados, os índios - homens, mulheres e crianças - tentaram fugir do local para escapar à matança. Todavia, às descargas da cavalaria somaram-se os disparos dos canhões Hotchkiss a partir do morro fronteiro. Alguns dos sioux, no seu desespero, envolveram-se em lutas com os soldados que os perseguiam. Uma das sobreviventes do massacre contaria mais tarde: Tentámos correr, mas eles alvejavam-nos como se fôssemos búfalos. Sei que há alguns brancos bons, mas os soldados deviam ser maus, para disparar contra mulheres e crianças. Índios não fariam isso a crianças brancas.
Outra mulher, uma jovem, testemunharia: Desatei a correr, seguindo os que fugiam. O meu avô e a minha avó, além do meu irmão, foram mortos quando cruzávamos a ravina. Fui atingida em cheio no quadril e no pulso direito. Não pude continuar, pois não conseguia andar. Então, os soldados agarraram-me.
Corpos de índios no gelo, após o massacre de Wounded Knee
Quando a loucura homicida terminou, o chefe Big Foot estava morto, e, com ele, quase todo o seu povo.
Havia, apenas, 51 sobreviventes (dos 120 homens, sobraram 4; das 230 mulheres e crianças, salvaram-se 47).
A tropa americana registou 25 mortos e 39 feridos. Segundo os relatórios militares, a maior parte destas vítimas fora atingida pelas próprias balas dos seus camaradas ou pelos estilhaços das descargas dos canhões - aquilo que seria posteriormente designado como "fogo amigo". De qualquer modo, no entender de um elevado número de americanos, a matança de Wounded Knee, perpetrada pelo 7.º Regimento de Cavalaria (a unidade a que pertencera o falecido George Custer), não foi mais do que uma vingança razoável pelo que tinha acontecido, 14 anos antes, em Little Bighorn.
Nos princípios da década de 1880, após a morte de Victorio, quase todos os Apaches se achavam encurralados em reservas atribuídas pelo governo americano - grandes espaços vigiados por enxames de soldados prontos a reprimir à nascença qualquer esboço de revolta. No entanto, grupos de desesperados logravam por vezes furtar-se à vigilância e regressar à vida anterior, novamente de armas na mão. Alguns relatos insuspeitos, de origem americana, deixariam a nu, com toda a clareza, a explicação dessas fugas: elas resultavam invariavelmente dos abusos sofridos pelos índios.
Certos agentes do governo, conluiados com outros cidadãos sem escrúpulos, procediam, em proveito próprio, ao desvio e à negociação das rações e demais produtos destinados aos habitantes das reservas. Por outro lado, as terras destas eram amiúde cobiçadas por ambiciosos oportunistas, que procuravam suscitar respostas violentas dos Apaches para que eles fossem expulsos dali.
A demonização dos índios constituía um processo contínuo. Jornais da fronteira propagavam toda a espécie de falsidades sobre eles, atribuindo-lhes violências que não haviam cometido - ou que, no limite, correspondiam a actos de vingança pelos agravos sofridos.
Essas notícias fantasiosas eram acriticamente reproduzidas, sem filtragens ou verificações, pela imprensa dos grandes centros urbanos, muito afastados dos locais dos acontecimentos, o que contribuía para consolidar uma opinião pública generalizadamente hostil aos nativos e tendencialmente concordante com qualquer retaliação exercida contra eles. Um homem acima de toda a suspeita nesta matéria era o general americano George Crook.Para os Apaches, ele continuava a ser o Lobo Cinzento, que perseguira antigamente Cochise e outros índios, de diferentes tribos (Sioux, Cheyennes). Mas Crook, com o decurso dos anos, fora mudando de opinião acerca daqueles inimigos singulares: passara a encará-los como seres humanos (o que estava longe de ser posição pacífica entre os invasores). E confirmava, agora, o desrespeito e as injustiças de que eles tinham sido vítimas: Os índios não são culpados, escreveu, porque não vêem nenhuma justiça num governo que só os castiga, enquanto permite que o homem branco os roube à vontade.
Crook, que no derradeiro quadrimestre de 1882 assumira o comando do Departamento do Arizona - e que nessa condição logo se deslocou à reserva de White Mountain -, não vislumbrou ali motivos para alterar as suas ideias. Acreditava que a solução já não residia na guerra, mas no diálogo com os índios. Tornando-se embora impopular entre os seus concidadãos, insistia com veemência: Somos culpados de mais, como nação, pela situação actual. Isso quer dizer que devemos mostrar aos Apaches que serão doravante tratados com justiça e protegidos da invasão dos brancos.
Gerónimo (1829-1909)
O general Crook, ao clamar naquelas áridas paragens pelos direitos dos índios, era apenas uma voz no deserto - como fora outrora a de Tom Jeffords, o amigo de Cochise. Mas os Apaches conheciam outras vozes de brancos - a imensa maioria - que exprimiam ideias muito diferentes. Por isso continuavam a desconfiar e, alguns deles, a lutar.
Foi o que se passou com o velho Nana, guerreiro apache de 70 anos - um dos trinta sobreviventes do massacre que acabara com a vida de Victorio, em Tres Castillos -, que conseguira escapar para o México com alguns seguidores.
Após o desastre, Nana não só recusara render-se como recrutou guerrilheiros entre os jovens apaches que vegetavam nas reservas, entregues a quotidianos de tédio e desprovidos de horizontes. No Verão de 1881, transpôs o Rio Grande com a sua gente e, em três ou quatro semanas, travou oito combates, apoderou-se de duas centenas de cavalos e tornou a refugiar-se no México, não obstante a perseguição da Cavalaria dos Estados Unidos.
Os americanos, temendo o recrudescimento da guerra, expediram reforços para o Sudoeste, particularmente para a área de White Mountain. Aqui, algumas figuras já nossas conhecidas - como Naiche e Gerónimo, que se deixara entretanto enclausurar na reserva - alarmaram-se com as manobras de intimidação que a cavalaria inimiga levava a cabo nas imediações. Corriam boatos sobre a iminente prisão de todos os líderes que haviam combatido os brancos.
Uma noite, em finais de Setembro de 1881, Naiche, Juh e Gerónimo - de longe o mais prestigiado - fugiram da reserva acompanhados por 70 guerreiros e refugiaram-se nos seus conhecidos baluartes da Sierra Madre, em território mexicano.
Em Abril de 1882, após meio ano de combates e de assaltos que lhes permitiram equipar-se e armar-se convenientemente, retornaram a White Mountain para fazerem evadir mais guerreiros e as suas famílias. Muitos responderam ao apelo, e o grupo, agora bastante aumentado, tomou o rumo do México. O exército americano procurou embargar-lhes o passo nas proximidades da fronteira, mas uma manobra repentina dos Apaches, tacticamente brilhante, reteve os soldados durante o tempo necessário para que o grosso dos fugitivos entrasse no México. Foi então que sobreveio o desastre: um regimento mexicano montou uma emboscada à coluna apache, matando a maioria das mulheres e das crianças, que seguiam à frente.
Gerónimo sobreviveu, tal como sobreviveram, entre outros, Naiche, Loco e Chato. Com os guerreiros que restavam, eles correram a unir as suas forças com as de Nana, que continuava muito activo nas operações de guerrilha.
O que se seguiu foi um período de lutas ferozes, com os norte-americanos a enviarem reforços sucessivos, os quais só contribuíam para fazer crescer a intranquilidade entre os índios ainda presentes nas reservas. Isso originava mais evasões e um cortejo de ataques contra os ranchos situados nas rotas de fuga dos índios. E o nome de Gerónimo passou a ressoar por toda a região como símbolo de rebeldia e de terror.
Gerónimo com três dos seus guerreiros. Ele é o mais alto, à direita.
Foi para tentar resolver a situação de caos instalada no Sudoeste que o Exército americano convocou o general George Crook e o enviou para o Arizona, com largos poderes, no mês de Setembro de 1882. O general, depois de se inteirar da situação em White Mountain, reforçou a crença de que o diálogo com os índios era a melhor forma - porventura a única - de fazer regressar a paz ao território. E pensava que, através de medidas concretas e apaziguadoras na reserva, conseguiria fazer regressar a maioria dos fugitivos e chegar à fala com o próprio Gerónimo para o convencer a depor as armas. Algumas das medidas de Crook provocaram a ira dos seus compatriotas, mas contribuíram indubitavelmente para a restauração de um clima de confiança entre a população índia. Ele começou por expulsar de White Mountain todos os colonos e garimpeiros brancos, que estavam frequentemente na origem dos desentendimentos. Depois exigiu que a Agência Índia cooperasse com ele no tocante à introdução de reformas na reserva. Os contratos para a obtenção de forragens foram celebrados com os Apaches e não com os antigos fornecedores brancos. O Exército pagaria, com dinheiro, todos os excedentes de milho e verduras que os índios conseguissem produzir nas suas terras. Tal como nos tempos de John Clum, foi restaurada a polícia apache e os casos passaram a ser julgados por tribunais índios. Os agentes e comerciantes foram sujeitos a controlo apertado, impedindo ou dificultando as fraudes habituais, o que teve logo como consequência o aumento das rações. Os índios deixaram de ser obrigados a viver nas imediações de San Carlos ou do Forte Apache, possibilitando-se que se instalassem, com as suas casas e quintas, em qualquer ponto da reserva. O general incitava-os a criar os seus rebanhos e a cultivar campos de milho e feijão. E, tão importante como tudo isso, deixaram de ser vistos soldados no interior da reserva. O cepticismo inicial dos habitantes de White Mountain foi dando gradualmente lugar a um sentimento de confiança. As notícias ultrapassavam os limites da reserva e chegavam a Sierra Madre, no território mexicano, de onde continuavam a partir os ataques de Gerónimo e dos seus seguidores. Certo dia, o general George Crook entrou no México com uma força expedicionária e, auxiliado por batedores experientes, conseguiu alcançar o refúgio de Gerónimo, a quem propôs o regresso a White Mountain com a gente que lhe restava. Surpreendentemente para muitos, o líder apache gostou de Lobo Cinzento, confiou nas suas palavras e aceitou. Em Fevereiro de 1884 deu entrada na reserva americana, parecendo que o "problema índio" se achava definitivamente ultrapassado no Sudoeste. Mas não seria bem assim...
O general Crook tornara-se um obstáculo incómodo para os que construíam fortunas fomentando guerras e enganando os índios. Com os seus actos de pacificação, ele prejudicava grandes interesses e não tardou a ser hostilizado pela imprensa, tornando-se alvo de boatos sem fundamento. Ao mesmo tempo que o acusavam de ser demasiado tolerante para com os índios, puseram a correr que ele se rendera a Gerónimo no México e que tivera de fazer um acordo vergonhoso com o inimigo para escapar com vida.
Simultaneamente, os jornais intensificaram a campanha contra Gerónimo, atribuindo-lhe dezenas de atrocidades, alertando para a sua pretensa perigosidade e pedindo que ele fosse enforcado. O líder apache, que ao longo de um ano em White Mountain não dera razões de queixa a Crook, soube desses artigos inflamados e comentou: Quando um homem procura portar-se bem, não deviam pôr histórias dessas nos jornais.
Na altura em que diversas fontes fizeram chegar a Gerónimo que os americanos se preparavam para o prender e, talvez, enforcar, ele pensou de novo em fugir - o que concretizou na noite de 17 de Maio de 1885, levando com ele 34 guerreiros e cerca de uma centena de mulheres e crianças.
O pânico regressou ao Sudoeste, embora a ideia de Gerónimo fosse apenas a de se refugiar com os seus nos recantos familiares da Sierra Madre. Nesses dias, ele procurou desesperadamente furtar-se a qualquer confronto com os brancos. Crook, a quem a imprensa logo exigiu uma campanha sangrenta, compreendeu que tinha de chegar de novo à fala com os Apaches para impedir um massacre. Com efeito, a partir de Washington, os seus superiores impunham-lhe que matasse os fugitivos ou que os forçasse a uma rendição definitiva.
Só em Março de 1886 o general tornou a encontrar-se com Gerónimo, a quem informou de que provavelmente passaria algum tempo preso, na Flórida, antes de voltar a White Mountain. O líder apache disse que não se renderia, a menos que Lobo Cinzento lhe prometesse que o período de prisão não ultrapassaria dois anos, findos os quais os prisioneiros seriam devolvidos à reserva. Crook, atendendo ao que estava em jogo, respondeu que tentaria obter essas condições dos seus superiores. Gerónimo aceitou, então, o retorno a White Mountain.
Desgraçadamente, Washington negou-se a aceitar o princípio de acordo alcançado pelo general. Quando soube disso, Gerónimo voltou a evadir-se, desta vez acompanhado por Naiche e por algumas dezenas de guerreiros. O Departamento de Guerra americano repreendeu Crook e este demitiu-se, sendo substituído por um brigadeiro-general, Nelson Miles, em 12 de Abril de 1886.
Miles colocou-se à testa de uma poderosa força de 5 mil soldados, 500 batedores apaches e milhares de voluntários civis. Do lado mexicano foram disponibilizadas centenas de soldados para ajudarem na caça a Gerónimo e ao seu pequeno grupo.
Descoberto em Skeleton Canyon, Arizona, com Naiche, Gerónimo acabou por se render a Nelson Miles - a sua última rendição - em 3 de Setembro de 1886.
Embora o presidente norte-americano, Grover Cleveland, recomendasse que o derradeiro chefe apache fosse enforcado, prevaleceu um resto de bom senso entre os vencedores - e ele, juntamente com os seus, foi condenado à reclusão na Flórida.
Quando chegaram a Forte Bowie, quatro dias após a rendição, Gerónimo e os guerreiros foram metidos em vagões do caminho-de-ferro para viajarem até ao local de exílio. Nunca mais tornariam a ver a terra natal.
A banda do 4.º Regimento de Cavalaria compareceu para uma espécie de cerimónia de despedida. No momento em que o comboio se pôs em movimento, a banda tocou a velha canção Auld Lang Syne, que pode escutar abaixo:
Na Primavera de 1875, em resultado das investidas do exército norte-americano, grande parte do povo apache tinha já sido confinado em reservas. Os que recusaram tal destino tinham fugido para o México ou vagueavam ainda pelos seus antigos territórios, onde praticavam assaltos e se confrontavam a espaços com os invasores, militares ou civis. Em Apache Pass, após a morte do grande Cochise, o seu filho mais velho, Taza, ascendera à chefia dos Chiricahuas, mantendo-se Tom Jeffords como responsável pela administração da reserva. Ainda que ambos se esforçassem por manter a orientação de Cochise, que proibira terminantemente os ataques, estes recomeçaram em força, levados a cabo por grupos de índios revoltados com o crescente assédio de garimpeiros, colonos e políticos desejosos de se apoderarem de parcelas da reserva. Como esta ficava próxima da fronteira, esses chiricahuas desgarrados iam e vinham entre o Arizona e o México. (Taza morreria de pneumonia pouco tempo depois, em 1876, passando a chefia para Naiche, o outro filho de Cochise).
…...
Os americanos foram evoluindo na sua política índia. A partir de certa altura optaram por concentrar um número máximo de nativos em enormes reservas regionais, o que implicava a reversão das concessões originais e a transferência para os novos destinos, mesmo que contra vontade, de grandes massas de gente.
A reserva de White Mountain, no Arizona oriental (cuja agência se situava em San Carlos), era, com o seu milhão de hectares, maior do que todas as outras reservas apaches juntas. Transformara-se, por isso, no local de concentração preferido pelas autoridades. O seu agente era John Clum, homem íntegro e de perfil moderado, seguidor da Igreja Reformada Holandesa.
Naiche (1857-1919), filho de Cochise,
acompanhado por sua esposa
Embora não possuísse a experiência e as qualidades de Tom Jeffords (o agente da reserva de Apache Pass, que sabia pensar como um índio), Clum estava a realizar um trabalho notável em White Mountain. Começara por fazer retirar os militares do local. Depois formou uma companhia apache para policiar os territórios da agência e fundou tribunais índios para julgarem os violadores da lei. Ainda que cépticos e desconfiados relativamente aos métodos de Clum, os seus superiores tiveram que reconhecer que ele, ao devolver uma parcela importante do processo decisório aos índios - restituindo-lhes também, dessa forma, algum amor-próprio -, conseguira manter a paz na reserva. Não obstante, impelidas pelo furor concentracionário, as autoridades governamentais logo perfilharam uma via de abusiva dureza para com os Apaches: John Clum recebeu um telegrama do comissário dos Assuntos Índios, ordenando-lhe que fosse à reserva de Apache Pass, afastasse dali o agente Tom Jeffords e transferisse os apaches chiricahuas para White Mountain. A contragosto, Clum obedeceu e foi até Apache Pass. Era ainda no tempo da chefia de Taza, o filho e primeiro sucessor de Cochise. Lembrando-se dos conselhos e do comportamento do pai no final da vida, Taza não levantou obstáculos à transferência para White Mountain. Cerca de metade do seu povo decidiu seguir com ele. A outra metade rejeitou o novo destino, e, por isso, quando o Exército entrou na reserva para obrigar os recalcitrantes a viajar até White Mountain, já não os encontrou. A maioria resolvera atravessar a fronteira, passando-se para o México.
Um dos líderes dos fugitivos era um homem de 46 anos, que em jovem se aliara a Mangas Coloradas e que, após a morte deste, se pusera ao lado de Cochise. O seu nome índio era Goyathlay, mas os brancos conheciam-no como Gerónimo.
No México, Gerónimo e o seu grupo infernizaram a vida de outros velhos inimigos, os Mexicanos, que por vezes se associavam ao Exército americano para perseguirem os Apaches.
Os fugitivos assaltaram ranchos e caravanas isoladas, efectuando ricas presas de gado e cavalos. Na Primavera de 1877, Gerónimo trouxe os animais roubados para o Novo México e vendeu-os a rancheiros americanos, o que lhe possibilitou a compra de armas e provisões. Depois foi refugiar-se nas proximidades da agência governamental de Ojo Caliente (Novo México), onde os apaches eram chefiados por outro chefe prestigiado, Victorio. Justamente nessa altura, John Clum recebeu instruções de Washington para se deslocar a Ojo Caliente e conduzir Victorio e a sua gente (os apaches Warm Springs) para a reserva de White Mountain, no Arizona. Embora relutante, o chefe apache seguiu com os seus até à nova reserva, onde Clum, com a diplomacia do costume, lhe outorgou mais autoridade do que aquela que ele tivera em Ojo Caliente. Mas a parte derradeira do drama de Victorio tinha já começado. As condições em White Mountain, e em particular na agência de San Carlos, foram-se deteriorando com a passagem do tempo. O Exército reforçou ali os seus contingentes, contrariando os processos de auto-governo de Clum. Este protestou, mas não foi atendido. Então, o agente demitiu-se e partiu para Tombstone, no Arizona, onde acabaria por fundar o jornal Epitaph. A ausência de Clum revelou-se um desastre para os apaches de Victorio, pois o agente seguidamente nomeado para San Carlos não tinha nada em comum com ele. Os abastecimentos, de que dependia a sobrevivência dos índios, começaram a sofrer enormes atrasos. Piorando as coisas, o novo agente exigiu que os apaches de White Mountain se deslocassem até à sede da agência para receberem provisões, o que obrigava muitos deles a percorrer mais de seis léguas. Velhos e crianças, incapazes de cobrir tão longas distância, ficavam excluídos das distribuições. Por outro lado, bandos de garimpeiros invadiam os terrenos da reserva índia, instalando-se na parcela nordeste da mesma e recusando-se a sair dali.
Victorio (1825-1880)
Finalmente, a paciência de Victorio chegou ao fim. Na noite de 2 de Setembro de 1877, evadiu-se da reserva com a tribo e fez-se aos trilhos que levavam a Ojo Caliente, a terra natal. Pelo caminho, viram-se obrigados a combater soldados e rancheiros, mas conseguiram chegar ao destino.
Durante cerca de um ano o Exército permitiu que eles morassem ali, tal como antes. Todavia, em finais de 1878 chegaram ordens para que os índios fossem outra vez para San Carlos (White Mountain). Victorio, desesperado, pediu aos militares que deixassem o povo viver onde havia nascido. Quando compreendeu que as ordens eram irreversíveis, gritou que lhes poderiam roubar as mulheres e as crianças, mas que ele e os seus guerreiros não obedeceriam. Em seguida pôs-se em fuga, com cerca de 80 guerreiros, e foi passar um Inverno rigoroso nas montanhas Mimbre.
Em Fevereiro de 1879, o chefe apache achava-se de regresso e disposto à rendição, desde que o Exército restituísse as mulheres e as crianças presas em San Carlos. As autoridades concordaram, mas Victorio não poderia continuar em Ojo Caliente: deveria viajar com a tribo até Tularosa, fixando-se junto dos Apaches Mescaleros Victorio, mais uma vez, cedeu, mas o acordo teve duração efémera: a meio do ano de 1879 foi desenterrada uma antiga acusação de roubo de cavalos e de assassínio contra ele, e os soldados entraram na reserva para o prender. Convencido de que fora marcado para morrer, o chefe apache concluiu que só lhe restava a opção da guerra. Firmemente decidido a nunca mais se deixar aprisionar numa reserva, internou-se no México e começou a recrutar guerrilheiros para uma luta sem tréguas. Em breve contava com duas centenas de guerreiros, entre Chiricahuas e Mescaleros, e com eles assaltou ranchos mexicanos para obter provisões, cavalos e armas. Depois efectuou investidas audaciosas no Novo México e no Texas, matando todos os colonos que conseguiu surpreender, armando emboscadas mortíferas aos que procuravam capturá-lo e desaparecendo logo de seguida para lá da fronteira como se fosse um fantasma. A liquidação de Victorio e da sua gente tornou-se uma prioridade para os seus perseguidores. A luta não dava sinais de abrandamento e o ódio do chefe apache parecia crescer de dia para dia. Torturava e mutilava os inimigos que lhe caíam nas mãos e transformou-se num matador implacável. O seu extremismo chegou a tal ponto, que muitos dos companheiros se assustaram e resolveram abandoná-lo. Finalmente, os exércitos dos Estados Unidos e do México uniram esforços para colocar termo à ameaça. Como resultado de uma vasta manobra conjunta, soldados mexicanos lograram cercar Victorio nos montes Tres Castillos, situados entre Chihuahua e El Paso. Victorio foi abatido, com 77 dos seus guerreiros. Foram aprisionadas 68 mulheres e crianças. Cerca de 30 guerreiros conseguiram escapar-se.
Nos primeiros anos da década de 1870, ainda que a instabilidade persistisse nalgumas regiões do Sudoeste, um número elevado de apaches já havia sido confinado em reservas, por regra muito afastadas dos sítios de fixação tradicionais. Ao fim de décadas de confrontos, o próprio Cochise compreendera que os seus obstinados inimigos eram demasiado poderosos para que os Apaches tivessem qualquer possibilidade de vencê-los. O chefe índio estava agora próximo dos sessenta anos de idade e sentia-se bastante fatigado. Andara algum tempo pelo México com o seu povo, mas, quando soube que o governo local oferecia 300 dólares por cada escalpe apache, decidira regressar aos seus velhos refúgios das Montanhas Dragoon, em território americano. Aí, passou a ser procurado, vivo ou morto, por diversas companhias de soldados do Exército, comandadas pelo general George Crook, a quem os índios chamavam Lobo Cinzento.
Certo dia, em Cañada Alamosa, Cochise aceitou falar do fim das hostilidades com o general Gordon Granger. No longo discurso que fez, garantiu que os Apaches Chiricahuas queriam uma paz boa, sólida e duradoura. Referindo-se aos hábitos livres e à forma de vida apache, acrescentou: O mundo não foi sempre assim. Deus não nos fez como vocês. Nós nascemos como os animais, na erva seca, não em camas como vocês. Por isso fazemos como os animais; saímos à noite, atacamos e saqueamos. Se eu tivesse as coisas que vocês têm, não faria o que faço, pois então não precisaria. Há índios que matam e roubam. Eu não os comando. Se os comandasse, não fariam isso.
O general americano explicou que a paz só seria viável se os apaches aceitassem instalar-se numa reserva. Cochise, em princípio, aceitou, o que equivalia, finalmente, à sua rendição. Mas quando perguntou onde seria a reserva, Gordon informou-o de que o governo tencionava enviá-los para Forte Tularosa, nas montanhas Mogollons[Novo México]. Cochise reagiu mal: Quero viver onde estou [no Arizona].Não quero ir para Tularosa. É muito longe daqui. As moscas dessas montanhas comem os olhos dos cavalos. Os maus espíritos moram ali.
Gordon garantiu que faria o possível para que o governo americano autorizasse os Chiricahuas a viverem em Cañada Alamosa, com as suas correntes de água fria e limpa. O chefe índio prometeu que manteria o seu povo em paz. E assim se despediram.
Cochise foi fiel à sua palavra e viveu pacificamente com o seu povo nos meses seguintes. O general Gordon procurou defender o que prometera, mas o governo não lhe secundou as boas intenções. E um dia chegou a ordem para que todos os Chiricahuas fossem arrebanhados e transferidos de Cañada Alamosa para Forte Tularosa, exactamente o local rejeitado pelo chefe índio. Este não suportou o procedimento dos brancos, que só veio confirmar no seu íntimo aquilo que há muito pensava: eles eram traiçoeiros por natureza e indignos de confiança. Dividiu então o povo em pequenos grupos e mudou-se com eles para as montanhas secas e pedregosas do sudeste do Arizona. Mesmo que Lobo Cinzento (o general George Crook) o perseguisse até ali, estava disposto a resistir-lhe por todos os meios e, se tivesse que morrer, tombaria com honra.
Em Setembro de 1872, Cochise recebeu a visita de TomJeffords, o Barba Vermelha, e de um general, Oliver Otis Howard, também de barba cerrada, ao qual faltava o braço direito.
Tom Jeffords era provavelmente o único branco em quem Cochise e os seus homens confiavam sem reservas. Conheciam-se desde a época em que os Apaches combatiam os Casacos Azuis, depois do incidente de Apache Pass. Nesse tempo, Jeffords estava contratado para levar o correio entre Forte Bowie e Tucson. Mas ele e os seus ajudantes eram frequentemente emboscados pelos índios, o que ameaçava acabar-lhes com o negócio.
Certa ocasião, Jeffords apresentou-se desarmado e sozinho no acampamento de Cochise e disse ao chefe índio que pretendia fazer um acordo pessoal com ele, para poder ganhar a vida transportando o correio. Cochise ficou espantado com o arrojo do interlocutor, mas admirou-lhe a coragem. Nunca vira um branco assim. A verdade é que prometeu a Tom Jeffords que podia carregar o correio à vontade, sem quaisquer problemas, e cumpriu escrupulosamente o seu compromisso. Firmou-se entre os dois, a partir daí, uma forte amizade, e Tom aparecia muitas vezes nos acampamentos de Cochise para conversar e beber com este.
Foi sem dúvida devido à confiança depositada em Tom Jeffords que Cochise aceitou conversar com o general Oliver Howard. Este ambicionava, obviamente, combinar o termo das lutas. Cochise ripostou-lhe que ninguém desejava mais a paz do que ele próprio. Howard sugeriu que os Chiricahuas viveriam muito melhor se aceitassem transferir-se para uma grande reserva, por exemplo, no Rio Grande. Cochise respondeu que preferia a região de Apache Pass e das Montanhas Chiricahua. O general disse que talvez se pudesse considerar tal hipótese.
Oliver Howard permaneceu no acampamento apache durante onze dias, ao longo dos quais se desenvolveram as conversações. O general teve tempo para conhecer melhor o chefe índio, ficando sensibilizado com a sua cortesia, simplicidade e estilo directo. Encantou-se também com as mulheres e as crianças apaches. A conclusão foi feliz: Fui forçado a abandonar o plano inicial, escreveu ele depois, e a dar-lhes, como Cochise sugerira, uma reserva que abrangia parte das Montanhas Chiricahua e do vale adjacente a oeste.
Faltava ainda abordar um ponto: pela lei americana, a nova reserva deveria ter à sua testa um homem branco. Para Cochise, como para os restantes Chiricahuas, não havia que pensar muito para solucionar o problema: Tom Jeffords era o único branco em quem confiavam plenamente. Tom resistiu à ideia, afirmando não ter experiência para um cargo desse tipo. Mas Cochise insistiu, repetidamente, com ele. Por fim, Tom Jeffords acedeu ao pedido do amigo e os Apaches concordaram em transferir-se.
Na Primavera de 1874, Cochise começou a sentir-se doente e o seu estado geral era de grande debilidade. Tom Jeffords foi a Forte Bowie buscar um médico do Exército, que não conseguiu diagnosticar ao certo de que padecia o chefe apache, mas que lhe deu alguns remédios. Cochise não melhorou e passou a sentir dores intensas.
Jeffords dispôs-se a ir de novo a Forte Bowie, e Cochise perguntou-lhe: Acha que me verá vivo quando voltar?
Jeffords usou da franqueza habitual entre os dois amigos: Não, não acho.
Cochise, resignado, disse: Penso que morrerei amanhã, por volta das dez horas da manhã. Acha que nos tornaremos a ver?
Jeffords: Não sei. O que acha?
Cochise: Não sei, não está claro no meu espírito. Mas talvez nos vejamos, sim, nalgum outro lugar.
Cochise faleceu em 8 de Junho de 1874, antes que o seu amigo Tom Jeffords regressasse de Forte Bowie.