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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Simone Veil e o campo de concentração de Auschwitz...



"Fui a Auschwitz pela primeira vez a 27 de Janeiro de 1994, 49 anos depois da libertação do campo.
Entre os numerosos membros de parlamentos nacionais, governos e Parlamento Europeu que participaram na viagem, encontrava-se Simone Veil, à época ministra de Estado de França. Era a primeira vez que esta  sobrevivente de Auschwitz-Birkenau voltava ao local para onde fora deportada pelos nazis a 13 de Abril de 1944.
Simone Jacob - era este o seu apelido de solteira - chegou a Auschwitz com 16 anos, acompanhada pela mãe Yvonne e pela irmã Madeleine. A família fora apanhada pela Gestapo em Nice e levada para o campo de Drancy, perto de Paris, um dos três maiores campos da Europa de reagrupamento de prisioneiros, antes de serem deportados pelos nazis.

O pai e o irmão, Jean, foram enviados para o Forte IX, em Kaunas, na Lituânia, de onde nunca regressaram, e Simone, a mãe e a irmã para Auschwitz-Birkenau, onde chegaram a 15 de Abril à noite.
Seguindo o conselho de um prisioneiro, na selecção inicial, Simone afirmou ter 18 anos, de forma a evitar, ou pelo menos adiar, as câmaras de gás. O número da matrícula tatuado no seu braço foi 78651, e o trabalho a que foi forçada consistia em descarregar pedras de camiões, cavar trincheiras e aplanar o solo.


A jovem Simone Veil (em solteira Simone Jacob)

Meses mais tarde, perante a aproximação do Exército soviético, os alemães obrigam os prisioneiros a abandonar Auschwitz, levando-os, no que ficou conhecido como Marchas da Morte, até ao campo de Bergen-Belsen, na Alemanha. A sobrelotação deste campo, a falta de higiene e de cuidados médicos provocam uma terrível epidemia de tifo, que contamina a mãe e a irmã de Simone: a primeira morre a 15 de Março de 1945, e a irmã salva-se por um triz devido à chegada das tropas britânicas a 15 de Abril de 1945.
Simone sobrevive e chega a França, a 23 de Maio, com a irmã Madeleine. A ela junta-se a outra irmã, Denise, que entrara aos 19 anos na Resistência, tendo sido deportada para o campo de Ravensbrück.
São as únicas sobreviventes de uma família que antes da guerra tinha seis pessoas.



Nessa manhã gélida de 27 de Janeiro de 1994, Simone Veil regressava pela primeira vez ao campo onde enterrara a adolescência. O seu rosto fechado não revelava emoção nem tristeza. Pressionada pelos jornalistas, manteve-se em silêncio a maior parte do dia. Mas ao final da tarde, numa cerimónia solene e muito emotiva junto do Memorial Internacional de Auschwitz-Birkenau, a tensão daquela jornada acabou por explodir, após as palavras do bispo polaco dissertando sobre os holocaustos que aconteciam pelo mundo fora.

Era quase noite, o frio era intenso e estávamos perto dos antigos crematórios e câmaras de gás. Simone Veil não se conteve: Holocaustos? Como pode falar de "holocaustos", no abstracto e no plural, neste dia e neste local, onde foram assassinadas mais de um milhão de pessoas, entre as quais centenas de milhares de crianças?
Não me lembro da resposta, se a houve. Mas ao longo destes 26 anos, e apesar de ter voltado várias vezes a Auschwitz e visitado muitos outros campos de concentração e extermínio, nunca me esqueci daquela tarde no maior e mais sinistro cemitério do mundo, em que a ministra de Estado despiu o manto oficial e falou por todos aqueles que nunca conheceram uma sepultura.




Auschwitz é considerado o símbolo máximo do Holocausto e da política genocida de Hitler. Sobretudo a partir de 1942, torna-se epicentro dos crimes do nazismo, um local único onde se conjuga o mais vasto campo de deportação do universo concentracionário nazi e o maior centro de extermínio da história do III Reich. Por tudo isso, tornou-se sinónimo do mal absoluto.
Foi aí que teve lugar a primeira experiência de assassínio em massa, numa câmara de gás, em Setembro de 1941, com prisioneiros de guerra soviéticos; foi aí que judeus e ciganos serviram de cobaias às diabólicas experiências levadas a cabo por médicos e enfermeiros nazis; foi aí que mais de um milhão de seres humanos de 15 países europeus foram gaseados, e que mais de 200 mil homens, mulheres e crianças morreram de fome, frio e doença, exaustão e brutalidade, ou simplesmente solidão e desesperança absoluta...

Com mais de um milhão de mortos, Auschwitz simboliza numa só palavra e num só espaço toda a criminalidade do regime nazi. E também, mais do que qualquer outro, é o fruto monstruoso do ódio mortal de Hitler contra o seu principal alvo de sempre: o povo judeu.
Outros campos, como Treblinka ou Sobibor, partilharam com Birkenau a imensa e inédita capacidade destrutiva. Mas de todo o universo concentracionário nazi, é decerto Auschwitz que melhor espelha a política racial do Estado de Hitler e Himmler e onde o processo - concentração, extorsão, trabalho escravo e extermínio - foi de longe o mais "perfeito".



Ao longo da sua história, a Humanidade conheceu guerras e massacres atrozes. Mas o Holocausto surge numa sociedade moderna, culta e sofisticada, num mundo em que era suposto a barbárie ter sido ultrapassada. Ora não só isso não aconteceu, como foram os próprios instrumentos da modernidade que permitiram a catástrofe com a dimensão e as características que assumiu.
É, pois, à luz desse contexto histórico e civilizacional que tem de ser feita a reflexão sobre o Holocausto. Julgado à luz do contexto da Europa do século XX e da sua cultura, o que o genocídio nazi nos revela é que vivemos num mundo que contém em si a possibilidade de 'Auschwitz'. A história nunca se repete da mesma maneira, porque o contexto que a determina é irrepetível. Mas a barbárie nazi aconteceu não num parêntesis histórico, mas como virtualidade da nossa civilização.

Na verdade, ignoramos a principal "lição" de Auschwitz: a de como podem ser destrutivas as guerras nas nossas sociedades evoluídas do ponto de vista científico, tecnológico e industrial.
O Holocausto - escreve Geneviève Decrop - demonstrou de forma inédita que os maiores massacres não são concebidos no campo de batalha, mas nos bastidores das administrações públicas e privadas, ou, como Kafka terá dito, que os grilhões da Humanidade torturada são em papel de ministério.


A história do Holocausto, como a de outros acontecimentos históricos, nunca é definitiva. Escrita no presente, altera constantemente a abordagem do passado. Mas, apesar de todos os trágicos acontecimentos destes últimos 75 anos, o Holocausto continua a ser inédito na história humana.
Se nos quisermos compreender como pessoas e europeus, o conhecimento desse momento negro do século XX é indispensável.
Como referiu Imre Kertész no discurso de atribuição do Prémio Nobel, em 2002:

O problema de Auschwitz não é saber se devemos manter a sua memória ou metê-la numa gaveta da História. O verdadeiro problema de Auschwitz é a sua própria existência, e, mesmo com a melhor vontade do mundo, ou com a pior, nada podemos fazer para mudar isso." (*)
 
 
A Lista de Schindler
(Tema musical)

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(*) - Artigo de Esther Mucznik no jornal Expresso (Lisboa, Portugal) de 1 de Fevereiro de 2020, pág.3.
Título: Auschwitz, um passado que não passa.
Nota: Esther Mucznik é a fundadora e presidente da Associação Memória e Ensino do Holocausto - Memoshoá.

(Ilustrações da responsabilidade da Torre da História Ibérica)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Auschwitz - 75 anos após a libertação...

A sinistra entrada do campo da morte
 
Cumprem-se hoje 75 anos sobre a entrada do Exército da União Soviética no infame campo de concentração e extermínio de Auschwitz, erigido e dirigido pelas autoridades nazis na Polónia. Com a consequente libertação dos poucos sobreviventes, o mundo tomava conhecimento directo, irrefutavelmente documentado, do horror genocida perpetrado por "aquela" Alemanha - acerca do qual há muito corriam rumores nos países que combatiam Hitler e seus cúmplices.
 
Principais vítimas, ainda que não exclusivas, os Judeus, como David Olère, que viveu tempo suficiente para nos deixar, em traços crus e inesquecíveis, um testemunho arrepiante.
Apesar de tudo, há ainda quem negue o que se passou, ou, pior do que isso, se congratule com a infâmia e se reveja no crime. Esses não merecem perdão e devem ser combatidos implacavelmente, tal como o foram os outros - seus ídolos e inspiradores. 
A data de 27 de Janeiro de 1945 é assinalada em Auschwitz-Birkenau por 200 sobreviventes, registando-se a presença de chefes de estado e embaixadores de (quase) todo o mundo.
Para que aqueles que insistem em permanecer do lado do Bem e da Coragem jamais esqueçam o crime e contribuam, por todos os meios ao seu alcance, para que ele não possa repetir-se nunca mais...
 
 
Soldados russos, que participaram na libertação do campo, convivem com sobreviventes.
 
 
 
 
Crianças recém-libertadas no campo de Auschwitz.
 
 Outras memórias e testemunhos:
 
 


terça-feira, 17 de setembro de 2019

A Velha Contrabandista (Stanislaw Ponte Preta - Brasil)



Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia ela passava pela fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás.
O pessoal da Alfândega - tudo malandro velho - começou a desconfiar da velhinha.
Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da Alfândega mandou ela parar. A velhinha parou e então o fiscal perguntou assim pra ela:
- Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia, com esse saco aí atrás. Que diabo a senhora leva nesse saco?
A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e mais outros, que ela adquirira no odontólogo, e respondeu:
- É areia!
Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco. A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco e dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em frente. Ela montou na lambreta e foi embora, com o saco de areia atrás.

Mas o fiscal continuava desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com areia e no outro com muamba dentro daquele maldito saco.
No dia seguinte, quando ela passou na lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou parar outra vez. Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo.
Durante um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia.
Diz que foi aí que o fiscal se chateou:
- Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com 40 anos de serviço. Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.
- Mas no saco só tem areia! - insistiu a velhinha. E já ia tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:
- Eu prometo à senhora que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai me dizer: qual é o contrabando que a senhora está passando por aqui todos os dias?
- O senhor promete que não "espalha"? - quis saber a velhinha.
- Juro - respondeu o fiscal.
- É lambreta - esclareceu a velhinha.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Os "Diários Secretos" de Hitler

À direita: capa da revista Stern, de 25 de Abril de 1983,
com a manchete explosiva: "Descobertos os Diários de Hitler"

Gerd Heidemann, nascido em 1931, foi um repórter da revista alemã Stern, para a qual trabalhou durante mais de 30 anos. Uma das suas ocupações favoritas consistia no estudo afincado do regime nazi, que dominou a Alemanha de 1933 a 1945.
Na década de 1970, Heidemann vendeu uma casa que possuía em Hamburgo e, com o dinheiro recebido, adquiriu um iate, o Carin II, outrora pertencente a Hermann Göering, poderoso número 2 de Adolf Hitler.

Por essa altura conheceu Edda, a filha de Göering, e com ela iniciou uma relação sentimental que duraria cinco anos. O casal organizou no Carin II alguns eventos sociais, aos quais compareciam, entre outras figuras, algumas testemunhas oculares de importantes episódios do III Reich. Os generais da SS Karl Wolff e Wilhelm Mohnke, por exemplo, estiveram entre os convidados. Mohnke, recorde-se, participou na derradeira defesa de Berlim, tendo comandado a resistência nas imediações do "bunker" de Hitler quando o Exército Russo já apertava o cerco final.

Gerd Heidemann com o seu iate "Carin II"

Foi através de um dos antigos oficiais nazis que Heidemann conheceu, nos começos de 1981, Konrad Kujau, nascido em 1938, exótica personagem que ganhava a vida vendendo recordações do III Reich numa loja de Estugarda.
Um dia, Kujau contou ao repórter da Stern uma estranha e surpreendente história. Um seu irmão, oficial do Exército da Alemanha Oriental, tivera acesso aos diários manuscritos de Adolfo Hitler e conseguira fazê-los passar para a Alemanha Ocidental. Agora, pretendia vendê-los por bom preço, tendo Kujau como intermediário.

Konrad Kujau e um dos 62 volumes

Nunca antes se ouvira falar de tais diários. Mas Kujau forneceu uma explicação. Nos derradeiros dias de Abril de 1945, pouco antes do suicídio do ditador alemão (ocorrido a 30 desse mês), os diários tinham sido apressadamente metidos, com outros pertences pessoais do chanceler, num dos últimos aviões que conseguiram sair da capital germânica. O objectivo era fazê-los chegar a Berchtesgaden, nos Alpes Bávaros - onde Hitler mandara edificar o seu refúgio particular -, colocando-os aí a bom recato.

As coisas, todavia, não correram como havia sido planeado. O avião acabou por despenhar-se nas proximidades de Dresden, tendo sobrevivido apenas um dos passageiros. Acorrera então um agricultor local, que conseguiu salvar parte da carga, incluindo os diários de Hitler - nada mais nada menos do que 62 volumes encadernados em couro artificial preto.
Esta preciosidade tinha ficado escondida durante anos, até chegar às mãos do actual proprietário - o irmão de Kujau.

Gerd Heidemann exibe também um dos volumes dos diários

Gerd Heidemann tomou como boa a história do seu interlocutor. E não mais descansou até conseguir convencer os seus patrões da Stern de que valia a pena um considerável esforço financeiro para obterem e publicarem os ambicionados diários.
Foi assim que 9,3 milhões de marcos mudaram repentinamente de mãos. Depois, no dia 25 de Abril de 1983, a capa da Stern surgiu com uma manchete explosiva: tinham sido finalmente descobertos os diários secretos do ditador alemão!

No interior da publicação, mais de 40 páginas de extractos constituíam o prato forte de um artigo em que se anunciavam, para os próximos 18 meses, mais 27 publicações sobre o mesmo tema.
A revista não tinha dúvidas de que, face ao caudal e à natureza da informação assim alcançada, a biografia do ditador nazi teria de ser forçosamente reescrita. Com isso, a história da Alemanha nazi adquiriria novos e inesperados contornos.

Hugh Trevor-Roper (esquerda) e Gerhard Weinberg (direita)

Na conferência de imprensa efectuada nesse dia na sede da revista, em Hamburgo, Gerd Heidemann pôde ufanar-se do seu feito. E Peter Koch, o editor-chefe, dissertou largamente sobre o triunfo da Stern. Revelou, entre outros pormenores, que, sem que alguém suspeitasse, Adolf Hitler tinha escrito diligentemente os seus diários à mão, desde 1932 até umas poucas semanas antes do suicídio no "bunker".

Em matéria de tal melindre, a Stern procurou acautelar-se com algumas opiniões de peso. E obteve-as da parte de Hugh Trevor-Roper, historiador britânico, e de Gerhard Weinberg, americano da Universidade da Carolina do Norte. Após uma consulta breve dos volumes em causa, ambos afirmaram que os consideravam genuínos.

As cautelas eram mais do que justificadas, face ao interesse que o assunto logo despertou por toda a parte, designadamente entre alguns prestigiados representantes da imprensa mundial. Por exemplo, o Sunday Times, de Londres, pagou o equivalente a 400 000 dólares pelos direitos de publicação na Grã-Bretanha e na Commonwealth. A Paris Match, de França, e a Panorama, de Itália, dispuseram-se a publicar os diários. A americana Newsweek apresentou um artigo extenso sobre a matéria, embora tenha hesitado em adquirir os direitos de publicação. Entre outras razões, porque achava indispensável uma autenticação mais segura dos volumes em causa.

Algumas das folhas apresentadas

As dúvidas sobre a autenticidade dos diários tinham sido suscitadas logo no momento da sua apresentação. O controverso historiador David Irving fez uma pergunta embaraçosa, querendo saber se fora efectuada uma análise química da tinta dos documentos para tentar datá-la. Na verdade, não fora.

Para desconforto da Stern, começaram a acumular-se as dúvidas. Como é que Hitler conseguira ocultar de todos os seus próximos, ao longo de 13 anos, que andava a escrever um diário? Por outro lado, sabia-se que ele não gostava de escrever, optando por ditar os seus textos a dactilógrafas. Nas raras ocasiões em que escrevia, utilizava preferentemente o lápis. Acresce que, a partir de certa altura, padecia de violentas tremuras nas mãos, o que o teria com certeza impedido de produzir manuscritos tão cuidados.

Perante o coro crescente de dúvidas e desconfianças, Trevor-Roper e Gerhard Weinberg começaram a vacilar nas suas opiniões. O primeiro chegou a dizer que o melhor era considerar que os documentos eram forjados "até prova em contrário". Weinberg, por seu turno, sugeriu à Stern que recorresse a grafólogos e que permitisse aos historiadores um exame integral dos 62 volumes dos diários.

O escândalo começou a ganhar enormes proporções. Um grafólogo americano, contratado pela Newsweek, analisou em Nova Iorque dois dos volumes e concluiu estar-se perante falsificações - ainda por cima "más falsificações". Na Alemanha, exames técnicos rigorosos provaram que o papel e a tinta dos diários, a cola das encadernações, as capas de couro artificial e as fitas vermelhas com selos de lacre de alguns volumes datavam inequivocamente de um período posterior à 2.ª Guerra Mundial.
Foi mesmo possível demonstrar que o autor da falsificação seguira fielmente, nos seus textos, uma obra de Max Domarus - Hitler: Discursos e Proclamações, 1932-1945. Até os erros de Domarus se achavam transpostos para os famosos diários.

Já não restava qualquer dúvida: a Stern caíra numa burla fantástica e o seu prestígio ficaria abalado durante décadas. Os seus empregados, indignados com o caso, fizeram uma greve de zelo. Peter Koch pediu a demissão. Gerd Heidemann acabou despedido. E Henri Nannen, editor, proclamou: "temos razão para nos envergonharmos".



Kujau com a famosa capa da Stern. À direita, os livros de Max Domarus que lhe serviram de guião para os diários.

As investigações posteriores conduziram rapidamente ao laborioso falsificador - o exótico Konrad Kujau. Ele confessou tudo, procurando - e conseguindo - implicar Gerd Heidemann no golpe. O repórter defendeu-se dizendo que tinha sido ludibriado, mas a verdade é que se havia locupletado, a título de comissão, com um milhão e meio de marcos (do total de 9,3 milhões pagos pela Stern).
Em 1985, após um mediático julgamento que se arrastou por dois anos, foram ambos considerados culpados de fraude. Kujau foi condenado a quatro anos e seis meses de prisão. Heidemann sofreu uma pena um pouco superior (mais dois meses de prisão).

Quando recuperou a liberdade, Kujau dedicou-se ao que melhor sabia fazer: falsificações. Mas, desta vez, procurou não infringir a lei. Passou a reproduzir e a vender quadros de pintores famosos, como Van Gogh, Rembrandt e Monet, entre outros. Assinava cada um dos quadros de duas maneiras: com a sua firma pessoal e com a do artista original. A sua obra  tornou-se tão famosa que - ironia suprema - começaram a surgir no mercado "falsificações das suas próprias falsificações".
Faleceu no ano de 2000.
Quanto a Gerd Heidemann, continuou incansavelmente a reafirmar a sua inocência.


Recentemente  (15 de Setembro de 2018) a Stern organizou uma exposição, na sua sede em Hamburgo, com sete dos 62 falsos diários de Hitler. Foram igualmente mostrados alguns objectos relacionados com o escândalo, como o ferro de engomar que Kujau utilizou para "envelhecer" o papel.
O chefe de redacção da revista, Christian Krug, afirmou: "estamos a expor a nossa maior ferida". O vice-chefe, Thomas Ammann, disse que o caso dos diários hitlerianos foi "a mãe de todas as fake news".

Alguns diários, anteriormente doados pela Stern a museus e instituições científicas, já tinham sido expostos ao público. Mas esta foi a primeira vez em que a própria revista o fez. Krug adiantou que os exemplares ainda na posse da Stern serão doravante expostos em eventos especiais.



terça-feira, 7 de maio de 2019

Luiz Gonzaga Canta Lampião, o Rei do Cangaço Brasileiro


Eu não sei porque cheguei
Mas sei tudo quanto fiz
Maltratei, fui maltratado
Não fui bom, não fui feliz
Não fiz tudo quanto falam
Não sou o que o povo diz...

Pode relembrar aqui a vida aventurosa e trágica de Lampião: O Rei do Cangaço

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NOTA SOBRE LUIZ GONZAGA, COMPOSITOR E CANTOR

Luiz Gonzaga do Nascimento veio ao mundo no dia 13 de Dezembro de 1912, numa casa de barro batido na Fazenda Caiçara, povoado de Araripe, a 12 quilómetros da área urbana do município de Exu, extremo noroeste do estado de Pernambuco.

Conhecido como o Rei do Baião, é considerado uma das mais completas, importantes e criativas figuras da música popular brasileira.

Faleceu em 2 de Agosto de 1989 no Hospital Santa Joana, na capital pernambucana.
O seu corpo foi velado na Assembleia Legislativa de Pernambuco, em Recife, sendo posteriormente sepultado no seu município natal.

Estátua de bronze de Luiz Gonzaga, em Campina Grande, Brasil.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

MALAK AL-SHEHRI NO REINO DA ESTUPIDEZ (FACINOROSA)...





Malak al-Shehri publicou uma fotografia em que surge com um vestido colorido, um casaco e óculos de sol. Ia beber café com um amigo. Tudo isto lhe valeu valentes críticas nas redes sociais. Devido ao seu comportamento, foram apresentadas queixas à polícia religiosa. Agora, foi detida.

Malak al-Shehri tem cerca de 20 anos e vive na capital da Arábia Saudita. Numa manhã saiu de casa para tomar o pequeno-almoço e tirou uma fotografia, que publicou no Twitter. “Decidi sair sem abaya [traje completo de cor escura], vesti uma saia com um casaco elegante”, lia-se na descrição da imagem. Depois, foi ter com um amigo para “beber café e fumar um cigarro”. Estes comportamentos foram motivo de queixas à polícia religiosa. Agora, Malak al-Shehri foi detida.
Publicou nas redes sociais algo que está contra as leis”, justificou o porta-voz da polícia de Riade, Fawaz al Miman, citado pelo jornal espanhol “El Mundo”. Segundo as autoridades, além da roupa em causa está ainda o facto de Malak al-Shehri “falar abertamente sobre relações proibidas com homens que não pertencem à sua família”, acrescenta o britânico “The Guardian”.

Foi a 28 de novembro que Malak al-Shehri publicou a imagem. Muitos revoltaram-se, outros saíram em sua defesa. A jovem, acabou mesmo por apagar o tweet e, consequentemente, a sua conta no Twitter.
Na Arábia Saudita, existem regras bastante restritas quanto à forma de uma mulher se apresentar nos locais públicos. A condução e o convívio com homens que não são seus familiares estão proibidos.
Segundo o “The Guardian”, milhares de sauditas assinaram uma petição que exige o fim da lei que prevê que uma mulher esteja sempre sob a guarda de um homem. Habitualmente, quando são mais novas estão à guarda do pai ou dos irmãos e quando casam passam a ser da responsabilidade do marido. (*)
 
(*) Jornal Expresso (Diário - online) - 12-Dezembro-2016.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

VISITA RECENTE AO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE RAVENSBRÜCK, NO NORTE DA ALEMANHA (Conclusão da postagem anterior, de 2 de Fevereiro de 2016)

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Mozart - Requiem - Lacrimosa - Vídeo de Rosa Nera
(Clique no play)

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CHEGADA DAS MULHERES A RAVENSBRÜCK
 
"(...) Antes de todos os autocarros pararem ouviram-se gritos, berros, estalar de chicotes e os latidos de cães. Recebeu-nos um chorrilho de ordens e de insultos quando começámos a sair dos autocarros. Apareceram hostes de mulheres por entre as árvores - guardas de saia, blusa e boné, com chicotes nas mãos, algumas com cães a ganirem e a precipitarem-se para os autocarros.
 
Ao descerem dos autocarros, várias mulheres desmaiaram e as que se debruçavam para as ajudarem eram derrubadas por terra pelos cães ou chicoteadas. Não o sabiam ainda, mas uma das regras do campo de concentração era que ajudar outra prisioneira constituía uma infração. Cadela, cabra suja, põe-te de pé. Cadela preguiçosa.
Uma outra regra era que as prisioneiras tinham sempre de formar filas de cinco. Achtung, Achtung. Filas de cinco. Mãos ao lado do corpo.
 
As ordens ecoavam por entre as árvores enquanto as prisioneiras que ficavam para trás eram pontapeadas por botas militares. Petrificadas com o terror, de olhos pregados no solo arenoso, as mulheres faziam os possíveis por não darem nas vistas. Evitavam o olhar umas das outras. Algumas gemiam. Mais um estalar de chicotes e fez-se silêncio total.
A rotina bem ensaiada da SS cumprira o seu objetivo - causar o máximo de terror no momento da chegada. Quem tivesse pensado em oferecer resistência, a partir daquele momento ficaria submissa (...)" (Nota 1)
 
 
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AS SOBREVIVENTES
 
"Muitas mulheres desatavam a chorar durante a nossa conversa. Havia muitas vezes risos. Ninguém mostrou azedume. Mas - parece-me - muitas também não perdoaram; sem dúvida, ninguém esqueceu.
Num fim de semana em memória das vítimas, encontrei-me de novo com Wanda Wojtasik. Entrevistara pela primeira vez Wanda, uma das Kaninchen polacas mais jovens, no seu apartamento em Cracóvia.
Agora, ela estava a atirar rosas para o lago em Ravensbrück. Disse-me que um dos médicos da SS, Fritz Fischer, a contactara recentemente a pedir-lhe o seu perdão. Eu disse-lhe que não havia nada que eu pudesse perdoar-lhe. Ele teria de pedir perdão a Deus." (Nota 2)
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(NOTA 1) Sarah Helm, Se Isto É Uma Mulher, Editorial Presença, Lisboa, Portugal, pág. 43.
(NOTA 2) Idem, pág. 676.
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