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quinta-feira, 28 de março de 2019

Cantares de Venezuela - "MONTILLA" (ou: A Morte do "Tigre de Guaitó")


General venezuelano José Rafael Montilla (1859-1907)

Ao estado a que chegou Montilla!
Ao estado a que ele chegou...
Um homem tão valoroso
y a Montilla lo han matado!

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"Montilla" é uma peça musical, de anónimo compositor, pertencente ao rico folclore venezuelano. Surgiu nos princípios do século XX. Muita gente a ouve, a canta e a dança sem fazer a mais pequena ideia de que nos seus versos se contempla a vida e o trágico fim do general venezuelano José Rafael Montilla, também conhecido, pela sua bravura, como "El Tigre de Guaitó".

José Rafael Montilla nasceu em San Miguel, estado de Trujillo (Venezuela) no dia 16 de Setembro de 1859, sendo filho de Custodio Montilla e de Juana Natividad Petaquero. Desde muito novo se distinguiu pela determinação e valentia com que defendia os camponeses oprimidos do seu país, cujas reivindicações apoiava.

Durante as duras batalhas em que participou, do lado dos Liberais, ascendeu a general perante o delírio dos soldados que o acompanhavam. Recolhido a certa altura na povoação de Guaitó (estado de Lara, no noroeste do país), determinou o que considerava uma justa repartição de terras por aqueles que as trabalhavam. Em breve se tornou uma dor de cabeça - e um alvo - para os Conservadores.



Vários presidentes venezuelanos tentaram a sua prisão, mas o "Tigre de Guaitó" mostrou-se indomável. Mudando de táctica, Cipriano Castro ofereceu-lhe importantes cargos públicos. O objectivo consistia em afastá-lo das regiões em conflito, mas Montilla cedo se apercebeu da armadilha e recusou.


Venezuela com os seus estados


A partir dessa altura, intensificou-se o assédio com que procuravam capturá-lo ou, mesmo, eliminá-lo fisicamente. Contra ele marcharam forças poderosas, sobretudo a partir do sul, dos estados de Barinas, Cojedes e Portuguesa. Mas Montilla resistiu e não foi aprisionado. Juan Vicente Gómez ofereceu-lhe garantias para que se entregasse, mas o general, naturalmente desconfiado, tornou a recusar.

Finalmente, no dia 21 de Novembro de 1907, chegou ao seu termo a vida aventurosa de José Rafael Montilla, então com 48 anos de idade. Foi apanhado à traição por um dos seus próprios soldados, quando, à beira de um curso de água, se preparava para matar a sede provocada por uma dura marcha. O soldado, um tal Jacinto Canelones, desferiu-lhe no pescoço, pelas costas, um terrível golpe de machete (espécie de catana) que o decapitou. Uma das versões do episódio refere que o "Tigre de Guaitó" teve ainda oportunidade de disparar sobre o seu assassino, matando-o. Mas é impossível confirmar tal facto.

Entrada do povoado de Guaitó (Venezuela)
Nas horas que se seguiram, milhares de pessoas, em esmagadora maioria camponeses, convergiram para o pequeno povoado de Guaitó a fim de homenagearem o falecido no seu velório. Vieram de Guárico, Trujillo, Portuguesa e outros estados da parte ocidental da Venezuela. Uma enorme procissão de gente humilde acompanhou o féretro do general até ao cemitério. Muitos entoavam canções que enalteciam as proezas do seu defensor, e diz-se que foi nessa altura que nasceu a peça musical "Montilla", canção que viria a conhecer diversas versões.

As três que se apresentam seguidamente são, talvez, as mais conhecidas, contribuindo para a lenda em que se transformou a turbulenta carreira do "Tigre de Guaitó".

A primeira é a de Lilia Vera, famosa cantora e activista venezuelana.
A segunda pertence a Illapu, conhecida banda chilena de folclore andino.
 
A terceira é cantada pela mezzo-soprano Luciana Mancini (descendente de chilenos, nascida na Suécia), magistralmente acompanhada pelo grupo L'Arpeggiata (dirigido pela austríaca Christina Pluhar).

No final, apresenta-se a letra mais divulgada nas várias versões de "Montilla" (a ordem das quadras é por vezes trocada em diferentes interpretações).




Letra:
Vengo a trovar este golpe
que un amigo me mandó
pa' que mañana o pasado
hagan lo mismo con yo.

Ahí viene Montilla a dar la pelea
y viene diciendo, morena: la bala chirrea
El armó su gente con la artillería
y prendió los fuegos, morena, al Ave María.

Al estado en que llegó Montilla,
al estado en que ha llegado.
Un hombre tan valeroso
y a Montilla lo han matado.

Dicen que Montilla viene,
dicen que Montilla va,
yo digo que eso es mentira
porque yo vengo de allá.

El que me dijera negro
yo no me enojo por eso
porque negro tengo el cuero
pero blanco tengo el hueso.

Un veintiuno de noviembre
de mil novecientos siete
muere el general Montilla
asesinado a machete.

sábado, 1 de outubro de 2011

Lisboa, Portugal - Nas encostas do castelo de S. Jorge
















































































































































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A cidade de Lisboa foi conquistada aos Mouros, no ano de 1147, pelo primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques.
Haviam decorrido 436 anos sobre a vitoriosa invasão muçulmana da Península Ibérica comandada pelo berbere Tariq ibn Zyiad, governador de Tânger (ano de 711, desembarque em Gibraltar).
No assalto à cidade, D. Afonso Henriques foi auxiliado por uma armada de cruzados (anglo-normandos, flamengos e alemães), num total de cerca de 13000 homens.
Os sangrentos combates tiveram início em finais de Junho de 1147. A 25 de Outubro, depois de corajosa e desesperada resistência dos muçulmanos, o castelo e a cidade caíam definitivamente nas mãos dos Portugueses.
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As fotos pertencem ao arquivo da Torre, com excepção da última, de autor(a) desconhecido(a).
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sábado, 15 de janeiro de 2011

A Invencível Armada Espanhola (1588)

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Em 1588, Filipe II (1527-1598) era rei de Espanha, de Nápoles, da Sicília e dos Países Baixos. E, também, de Portugal, país que a Espanha dominou no período compreendido entre 1580 e 1640, como consequência do desastre militar lusitano em Alcácer Quibir, Norte de África, em 1578 (ver, neste blogue, 16-Dezembro-2007).

Nesse ano de 1588, Felipe II estava à beira de tornar o seu reino o maior império de que havia memória. Do seu lado tinha um poder absoluto, uma ideologia de pendor universal (o catolicismo militante da época, com propósitos de expansão da fé contra a heresia protestante), um exército e marinha temíveis e aliados poderosos como a Santa Liga e o Papa Sisto V.


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Como pretextos de acção imediata, Filipe II invocava os ataques dos corsários ingleses aos seus navios e portos e o suplício da rainha católica Maria Stuart, da Escócia, que fora mandada executar por sua prima, a rainha Isabel I da Inglaterra (1533-1603).

No caminho expansionista dos Espanhóis atravessava-se precisamente esta Inglaterra de Isabel I, a grande campeã herética contra o mundo católico, que constituía também uma ameaça devido ao desenvolvimento agressivo do seu comércio e aos ataques constantes às possessões ultramarinas da Espanha e de Portugal.

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Grandes forças terrestres, sob o comando do general espanhol Alexandre Farnésio, duque de Parma, preparavam-se nos Países Baixos para invadir a Inglaterra, logo que fosse eliminado o domínio inglês no canal da Mancha.

Para isso, Filipe II encarregou o seu mais famoso almirante, Álvaro de Bazán, marquês de Santa Cruz, de organizar uma armada capaz de derrotar a inglesa. O marquês iniciou os preparativos, mas morreria em Fevereiro de 1588, pelo que o rei de Espanha tratou de nomear novo almirante, desta vez Alonso Pérez de Guzmán, duque de Medina Sidónia.

Em carta ao rei, o duque de Medina Sidónia alertou para a sua completa ignorância das coisas do mar e para a sua inexperiência em assuntos de guerra. Mas o projecto foi avante. E assim se reuniram no rio Tejo, em Lisboa (Portugal), cerca de 200 velas e um exército de 20 000 homens – a mais grandiosa esquadra da Idade Moderna, considerada “invencível” pelo rei espanhol, e que, por tal motivo, ficaria conhecida nas páginas de história pela designação de La Grande y Felicísima Armada, ou Armada Invencible ou, ainda, Armada Española.
Eram portugueses muitos dos navios, tal como uma parte considerável das tripulações.

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No dia 9 de Maio de 1588, a Invencível largou de Belém para a barra, que só conseguiu ultrapassar a 28. A 19 de de Junho arribava à Corunha (Galiza, Norte de Espanha), apresentando-se dispersa, com água aberta nalguns navios, provisões apodrecidas e infestada de doenças.
Novas cartas então dirigidas a Filipe II só tiveram por resposta a ordem de apressar a partida, que se deu a 21 de Julho, chegando a Invencível à costa sudoeste de Inglaterra no dia 29.

Entre as suas instruções minuciosas, Filipe II chamava a atenção para a superioridade dos navios ingleses – mais apefeiçoados em casco e armação e dotados de muito maior velocidade de marcha e de manobra; dispunham ainda de peças de artilharia superiores em número e em alcance de tiro. Por isso, dizia o rei, eles deveriam ser atacados por barlavento e a pequena distância.
Como é que isso se poderia fazer é que ele não explicava.
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De 29 de Julho a 6 de Agosto de 1588, a Armada Invencible seguiu de perto a costa inglesa (ver mapa). Embora revelasse uma precisão de manobra impressionante, para além de elevada disciplina e invulnerabilidade da sua formação em crescente, não conseguiu jamais forçar os Ingleses a uma batalha generalizada, nem, muito menos, obrigá-los ao combate próximo ou a manobras de abordagem.

Os Ingleses, por seu turno, verificando que não conseguiam dispersar a temível formação em crescente, passaram a fustigar de longe com a sua artilharia, quase impunemente, os navios inimigos, obrigando a que estes, nas suas tentativas de resposta, fossem gastando inutilmente a maioria das 123 790 balas de canhão com que tinham sido abastecidos.
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No dia 6 de Agosto, a Invencible, às portas do perigoso mar do Norte, com necessidade inadiável de reabastecimentos, fundeou em frente do porto de Calais. O ânimo das tripulações era péssimo e o optimismo inicial desaparecera por completo.

Nessa mesma noite, os Ingleses lançaram um ataque com navios incendiários, o que fez dispersar a Armada pela primeira vez.
A perseguição que logo se seguiu, e à qual os navios da Invencible mal podiam ripostar, causou as primeiras perdas sensíveis.
No dia 8 de Agosto os navios lograram voltar à formação, mas, apesar dos sacrifícios heróicos de alguns deles para forçarem as abordagens com os inimigos, só restaram como alternativas a fuga ou o aniquilamento total.
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Uma mudança de vento providencial ainda salvou a Invencible dos baixios de Dunquerque.
Medina Sidónia deu então ordem para que os navios regressassem a Espanha, contornando a Escócia e a Irlanda (cf. mapa).

Foi uma viagem de pesadelo, em que a sede, a fome, o esgotamento, as doenças, o mau estado dos navios e violentas tempestades desfalcaram brutalmente a Armada. Mesmo assim, ainda se salvaram alguns navios (há divergências sobre o seu número, havendo autores que apontam para 53 embarcações regressadas a Espanha).

Isabel I de Inglaterra recebe as suas tropas em Tilbury


Convém rectificar algumas lendas e inexactidões formadas desde então, especialmente no tocante à propalada inépcia do duque de Medina Sidónia, que comandou a Invencible. Hoje, já se lhe vai fazendo justiça e não terá sido ele o maior culpado do desastre.

Face às instruções que levava e às circunstâncias com que deparou, poucas decisões suas representam erros incontestáveis.
Mostrou-se modesto, sensato, corajoso, empenhado numa tarefa provavelmente irrealizável com os meios de que dispôs. Erros semelhantes aos seus foram cometidos pelas chefias inglesas, só que estas tiveram por si a vitória.
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Filipe II de Espanha recebe a notícia do desastre de La Invencible Armada
Consumado o desastre espanhol e o triunfo inglês, ambas as partes invocaram, à sua maneira, a intervenção divina.
Os católicos espanhóis lamentaram-se: “Não foram os homens que nos venceram, foi Deus!”.
Os protestantes ingleses, por sua vez, vangloriaram-se: A nossa causa é justa, Deus está connosco!

De qualquer modo, a ambição de Filipe II saldou-se num rude golpe para o seu prestígio, ao passo que a Inglaterra viu aumentar a sua importância como potência marítima, abrindo-se-lhe mares antes vedados e podendo atacar de futuro, com diferentes perspectivas de êxito, os domínios ultramarinos espanhóis e portugueses.

Quanto a Portugal, particularmente, faltando ainda 52 anos para recuperar a sua independência, o que aconteceu constituiu um gravíssimo desaire. Como se disse, muitos dos navios da Invencible eram portugueses, como o eram também centenas de marinheiros e soldados. O País sofreu as consequências de uma catástrofe que não havia provocado.
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Adaptado de:
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Rodrigo Machado – Armada Invencível – Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura – Vol. 2 - Editorial Verbo – Lisboa – Portugal.
Joaquim Veríssimo Serrão – Armada Invencível – Dicionário de História de Portugal – Vol. 1 – Livraria Figueirinhas – Porto – Portugal.
Antonio Ballesteros Beretta – Sintesis de Historia de España – Salvat Editores – Barcelona-Madrid – Espanha – 1952.
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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Batalha de Gettysburg

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A batalha de Gettysburg ocorreu na Pensilvânia, USA, de 1 a 3 de Julho de 1863.
Inseriu-se na mortífera Guerra Civil da Secessão (12 de Abril de 1861 a 28 de Junho de 1865) e travou-se entre os Estados Confederados da América (“Confederação”, a sul) e os Estados Unidos da América (“União”, a norte).
Nesta batalha, as forças da Confederação (exército da Virgínia do Norte) foram comandadas pelo General Robert E. Lee e as da União (exército do Potomac) pelo General George Meade.

Até esta altura, a Confederação somara vitórias retumbantes. Em caso de novo triunfo em Gettysburg, Robert E. Lee esperava avançar para Harrisburg ou, mesmo, para Filadélfia. Com isso estaria em posição de forçar, em condições vantajosas, negociações de paz com o Norte, tornando definitiva a independência dos Estados sulistas.

Cerca de 88.000 homens do lado da União e 75.000 do lado da Confederação empenharam-se numa luta sem quartel durante três dias.
No final, a União saiu triunfante, embora a um preço muito elevado – cerca de 23.000 baixas, entre mortos, feridos e desaparecidos. Os sulistas sofreram cerca de 28.000 perdas.


À esquerda: General George Meade, da União;
à direita: General Robert E. Lee, da Confederação

O desfecho da batalha de Gettysburg pôs termo ao mito da invencibilidade da Confederação, além de interromper a sua progressão para norte. Juntamente com a posterior derrota de Vicksburg, contribuiria para a irreversível viragem da sorte da guerra.
Robert E. Lee render-se-ia ao General Grant nos princípios de Abril de 1865 (em Appomattox), embora o fim oficial da guerra se tivesse verificado um pouco mais tarde (28-Junho-1865).

No final, um país unido até hoje, mas à custa de uma tragédia humana:
360.000 baixas para o Norte (num total de 2.200.000 combatentes);
258.000 baixas para o Sul (1.064.000 combatentes).
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Tema musical da série de TV "Gettysburg"
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sábado, 31 de julho de 2010

Os Primeiros Tempos dos Portugueses em Angola - Amizade, Batalhas e Religião - A Palavra Mágica dos Padres Jesuítas

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Nota Prévia

Os Portugueses começaram a construir cedo, por volta de 1482, os alicerces daquilo que mais tarde seria a sua grande colónia de Angola, na costa sudoeste da África. Nesse tempo, reinando em Portugal D. João II, os navios de Diogo Cão deram com a embocadura do rio Zaire e as tripulações entraram em contacto com os habitantes do reino do Congo (os Bacongos), que os receberam sem o menor sinal de hostilidade. Os Portugueses chegaram pouco depois ao reino do Ndongo, um pouco mais a sul, e movimentaram-se em torno da área litoral onde actualmente se localiza Luanda, a capital. Estavam na terra dos Ambundos. Entretanto, o negócio da escravatura viera já manchar o que começara por ser um encontro pacífico e festivo entre povos diferentes.
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No tempo do capitão-mor Paulo Dias de Novais (neto do navegador português Bartolomeu Dias e fundador da cidade de Luanda) passara cerca de um século sobre a viagem pioneira de Diogo Cão. Os Portugueses deparavam, agora, com a resistência militar do senhor do Ndongo, Ngola Kiluanje.
Nas guerras que se seguiram, contavam com vários trunfos: exércitos treinados, bem armados, e uma ambição insaciável pelos filões de prata que supunham enterrados nas encostas de Cambambe.
E tinham ainda do seu lado aquilo que constituiu, porventura, a mais poderosa ponta-de-lança do seu avanço para o interior do território nesta fase inicial da colonização - contingentes destemidos e determinados de padres jesuítas.
Estamos no ano de 1585…

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“(...) A meio do ano de 1585 o rei Ngola Kiluanje acedeu ao pedido de um súbdito audacioso, Ndala Kitunga, que se lhe ofereceu para conduzir um exército do Ndongo contra as forças do português Novais.
Kitunga era um ambundo cristia­ni­zado que, por razões ignoradas, resolvera desligar-se dos protectores euro­peus. Kiluanje colocou à sua disposição um efectivo numeroso e, além do ar­mamento tradicional, forneceu-lhe pólvora e armas de fogo. Depois lançou-o no encalço do inimigo..
Movendo-se para ocidente, Kitunga esbarrou com o exército português na região da Ilamba, acima do Cuanza. Os Lusitanos, comandados pelo capitão André Ferreira Pereira, contavam perto de centena e meia de sol­dados europeus e dez mil frecheiros negros, arregimentados entre os povos recentemente vencidos.
O combate deu-se a 25 de Agosto, com os contendores envolvidos por espes­sos lençóis de nevoeiro. Em situação de inferioridade numérica, os Portugueses fizeram uso de todos os trunfos. Através da cerração, fustigaram os esquadrões inimigos com disparos de artilharia, arremessaram-lhes cargas de cavalaria avas­saladoras e puseram em campo a violência brutal dos seus veteranos.
Mas guar­davam na manga uma surpresa especial.
Os Ambundos viram de repente brotar da brancura opaca do nevoeiro alguns vultos de pêlo eriçado e fauces espumantes de raiva: eram matilhas de cães bravos, presumivelmente trazidas pelos invasores das ásperas serranias portuguesas para terror dos adversários africanos.

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Embora se entregassem à luta com in­dómita coragem - três vezes se viram desba­ratados, outras tantas tornaram à refrega -, os homens de Ngola Kiluanje sofreram um desaire esmagador.
A mor­tandade atingiu tais proporções que os Portugueses temeram que os seus rela­tos fossem colocados em dúvida no bastião de Luanda. Trataram por isso de recolher uma cruenta prova do seu triunfo: foi assim que ex­pediram para a reta­guarda uma infinidade de vasilhas repletas de narizes dos inimigos tombados em combate.
Segundo os cronistas lusos, desaparecera na bata­lha a fina flor da fidalguia angolana, tendo sucumbido vários parentes e homens de confiança de Ngola Kiluanje.
Quanto ao temerário Ndala Kitunga, pagou cara a ousadia. Caído nas mãos dos Portugueses, foi escrupulosamente confessado e en­comendado a Deus por um religioso, após o que o confiaram ao carrasco a fim de ser deca­pitado e lançado às chamas de uma fogueira para exemplo de quem fica­va.

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Uma vez inauguradas as hostilidades, jamais deixaram os conquistadores de contar com um apoio muito peculiar - o dos padres jesuítas.
Com efeito, es­tes ho­mens perseverantes mantiveram-se sempre por perto de Novais e das suas tropas, tra­tando sem desfalecimentos do seu negócio da cristandade.
Às vezes não hesitavam em embrenhar-se nos perigosos trilhos da guerra, como na altura em que o recrudescimento da resistência ambunda fez afluir a Luanda muitos dos portugueses dispersos pelo mato.
Prevenindo o desastre, o padre Baltasar Barreira desceu apaixonada­mente à liça, exortando os timoratos a pegarem em armas e a cerrarem fileiras ao lado dos seus irmãos cer­cados em Macunde pelos Ambundos.
Mas o padre não se limitou aos sermões.
Metendo-se pelas margens do Cuanza acima, arrastou consigo uma legião de homens galvanizados, armados até aos dentes e providos de abun­dantes mantimentos, levando até aos sitiados um miraculoso balão de oxigénio.
Acolhido com júbilo no reduto ao som de flautas e charamelas, Barreira propiciou com a sua iniciativa uma bem sucedida ofensiva portuguesa.
Anos mais tarde, seria um seu correligionário, o padre Afonso, quem transportaria até ao próprio Paulo de Novais, refugiado na fortaleza de Massangano, um decisivo auxílio de última hora.
O capitão-mor soube mostrar-se reconhecido para com estes preci­osos aliados, tornando-os beneficiários de uma copiosa série de doações em terras e rendimentos. E, também, em filões de prata - reais ou imaginários.
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Dissipada a feroz exaltação das batalhas, e em caso de êxito, os Portugueses revelavam-se geralmente tolerantes para com os vencidos. Isto, como é evidente, desde que estes aceitassem de boa mente a sua lei.
Os jesuí­tas desempenharam um papel crucial no delicado processo de aproximação. Marchavam, imperturbáveis, na peugada dos destacamentos em operações, e penetravam, de crucifixos em pu­nho, nos povoados submetidos. Compareciam logo depois da passagem dos veteranos de Novais, das matilhas enraivecidas, dos cascos esmagadores da cavalaria, do susto dos arcabu­zes e das peças de artilharia.
Com a visita dos padres, os Ambundos adquiriam consciência da outra face do invasor. Recebiam com um misto de reverência e curiosidade su­persticiosa esses homens estranhos, que lhes ofereciam o bálsamo das suas palavras aliciantes, compassivas e corda­tas. Porém, como não tardaram a compreender, a brandura dos religiosos podia desvanecer-se num abrir e fechar de olhos. Bastava que eles pressentissem nas al­deias a presença de feiticei­ros, muito considerados e temidos pelos Ambundos. Nessas ocasiões, possuí­dos de incontrolável excitação, os padres afadigavam-se em devassas minuci­osas, na pista dos ídolos, amuletos e demais utensílios das práticas de magia. Quando descobertos, tais apetrechos acabavam nas chamas de piras gigantes­cas.
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Os jesuítas achavam-se piamente convencidos de que os feiti­ceiros, esses seres reservados e imperscrutáveis, com olhos de verruma, mantinham tenebrosas alianças com o demónio - o Pai das Maldades, como eles diziam. Relatavam achados ar­repian­tes. Um dia tinham dado com uma idosa e encarquilhada criatura apregoa­da­mente capaz de comandar a chuva e a doença com os seus expedientes mági­cos. Embora se tratasse na realidade de um homem, maléficos desígnios ha­viam-no condenado a viver como mulher. Apertado por aqueles tenazes evange­lizadores, o mago cedeu e mudou de condição, acabando rendido às excelên­cias da virilidade.
De outra vez, os jesuítas desvendaram o enigma de uma velha cabra, utilizada pelo seu proprietário, o ladino Manicafanze, em abominá­veis exercícios de bruxaria. A instâncias dos padres, e após inúmeras prédicas e missas de desagravo, o bicho findou sem glória os seus dias satânicos, de­vorado pelo povo num festivo banque­te.

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As artes de sedução dos jesuítas mostravam-se muitas vezes irresistíveis, mesmo quando exibidas diante de homens poderosos que se haviam batido com valentia contra os invasores. Isso ficou demonstrado de modo exemplar no caso do nosso conhecido soba de Songa.
Derrotado pelos Portugueses, este chefe da Quissama tornou-se alvo das desveladas atenções dos padres. O se­nhor de Songa, tal como sucedera nos tempos antigos com inúmeros fidalgos do Congo, deixou-se arrebatar pela oratória transbordante de promessas daqueles sábios interlocutores. Eles pare­ciam deveras empenhados em franquear-lhe a entrada no mundo fascinante e in­tangível de que guardavam o segredo. Para Songa, como para grande parte dos seus conterrâneos, importava sobretudo ascender a esse espaço rico de influências mágicas e de espíritos invencíveis. Ele pressentia a parcialidade dos entes sobre­naturais dos brancos, sempre inclinados a socorrerem as hostes que chegavam do mar para assolarem as mar­gens do Cuanza. Mal o sentiram vacilar à beira da con­versão, os jesuítas aprontaram-lhe, de combinação com as autoridades militares, uma pomposa festa de baptismo. Songa foi conduzido com um séquito imponente até Macunde, onde o capitão-mor Novais, que ele escolhera para padrinho, o re­cebeu com afabilidade, rodeado de muitos dos comandantes da conquista.
O corte­jo, abrilhantado por músicos portugueses, desfilou com majestade até um templo improvisado, revestido de sedas verdes e coberto de ramos de palmei­ra. Para admiração e regozijo dos seus, Songa apresentou-se sumptuosamente enfarpelado à europeia. Trajava roupeta de cetim cinzento, capa de racha, gorra de seda e botas cor-de-laranja. Num gesto de cortesia, o chefe africano selecci­onou para seu nome de baptismo o de Paulo de Novais. Este proferiu um dis­curso emocionado, congra­tulando-se com a conversão. Honrou depois o senhor de Songa com o título de capitão-mor do povo da região e com o privilégio de lhe ser permitido sentar-se em alcatifa diante de qualquer autoridade portuguesa. O soba sentiu-se feliz e recompensado. Nos dias imediatos os padres não tive­ram mãos a medir com a multidão de ambundos que, tocados pelo gesto do seu senhor, acorriam a fazer-se igualmente cristãos.

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Com os progressos da conquista e as consequentes cerimónias religiosas, co­meçaram a acumular-se as aparições nos céus do Ndongo. Esses sinais ex­traordi­nários obtinham a sisuda confirmação de um sem-número de brancos e negros.
Falava-se de cruzes deslumbrantes a emergirem de entre os novelos algodoados das nuvens. Provocava especial assombro a visão de uma mulher de semblante grave, amparada por um ancião de barbas esvoaçantes e alvas. Particularidade perturbadora: o velho comparecia armado de uma fulgurante espada de fogo.
Os ambundos convertidos exultavam. Para seu deleite, no tempo das aparições ocor­riam também chuvadas providenciais, autênticas bên­çãos para as sementeiras. Tanto mais que as terras dos idólatras, ainda arre­dios às palavras macias dos ve­nerandos sacerdotes, jaziam ressequidas, gre­tadas e estéreis.
Apesar destes sucessos, Paulo Dias de Novais acabaria por sucumbir, enclau­surado em Massangano, sob a inclemência do clima e a erosão dos gol­pes da re­sistência ambunda. Sobrecarregado de dívidas, gasto pelas desilu­sões, precoce­mente envelhecido, findou os seus dias neste mundo a 9 de Maio de 1589. Vira desaparecer, engolidos pelo turbilhão dos combates, muitos dos seus companhei­ros de armas, sem que se materializassem os sonhos da prata ou de uma apoteótica entrada em Kabassa.
A crua realidade é que Novais se mostrara incapaz de cumprir uma parcela substancial das obrigações impostas pelo malogrado rei D. Sebastião. Isto conduziu a uma relevante transformação política. De facto, com o desaparecimento do capitão-mor, a carta de doação tornou-se letra morta e a Coroa espanhola (que entretanto se apoderara de Portugal) decidiu enveredar por uma dife­rente alternativa de co­lonização, assumindo directamente a responsabilidade da orientação e do financi­amento da empresa.
Em meados de 1592 chegou a Luanda o primeiro governador designado na época da ocupação espanhola de Portugal. Tratava-se de Francisco de Almeida. Inaugurou uma extensa lista de quase duas centenas de homens que, durante perto de quatro séculos, conduziriam os destinos da colónia com sorte, empe­nho e ta­lento muito diferenciados.
Neste ocaso do século XVI a situação dos Portugueses no território, não sendo brilhante, permitia-lhes a concretização dos objectivos mais imediatos. Detinham uma sólida retaguarda no litoral e guarneciam alguns postos avançados nas terras contíguas ao Cuanza.
Era o bastante para que o siste­ma funcionasse: a mão-de-obra escrava continuava a deslizar dos sertões para os navios ancorados junto à costa.
O Ndongo conservava, entretanto, a sua independência (...)". (*)
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(*) - José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos (pág. 45-48) - Editorial Estampa - Lisboa - Portugal - 1999.