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domingo, 7 de março de 2010

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (séc. XI) - "Itimad"

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Invisível a meus olhos,
trago-te sempre no coração.
Envio-te um adeus feito de paixão
e lágrimas de pena com insónia.

Inventaste como possuir-me,
e eu, o indomável, submisso vou ficando!
Meu desejo é estar contigo sempre,
oxalá se realize tal vontade!

Assegura-me que o juramento que nos une
nunca a distância o fará quebrar.
Doce é o nome que é o teu
e que deixo escrito no poema: Itimad.

Al-Mutamid - Nasceu em Beja (Portugal) no ano de 1040.
Faleceu em Marrocos em 1095.
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (12) - (Al-Mutamid - séc. XI) - "Coração Inquieto"

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Meu coração inquieto não se dá repouso
e o amor por ti não posso disfarçá-lo.
Lágrimas me caem: gotas de aguaceiro
sobre um corpo minguado, amarelento.
E, no entanto, estás perto, minha amada;
que seria de mim se tu te fosses?
Buscaram as desgraças atingir-me
com os teus olhos profundos de gazela.

Pelas estrelas cintilantes no escuro céu!
Pela própria lua refulgente!
Foi-se-me do jardim o meu orvalho
levado pelo perfume ligeiro do narciso.

Sabes, meu amor, estou pálido, cansado,
causa dó o meu estado - e tu tão indiferente!...
E ainda perguntas se estou doente
ou se me atacou o fogo do desejo!...

Senhora minha - alguém já te fez reparo -,
que injustiça a tua para quem te quer bem!
E ainda perguntaste: "sofres de desejo,
não aguentas a tua impaciência?"
Do meu querer duvidas, como és injusta:
notam-no os presentes e os que se ausentaram.

Allah!, deste imenso amor fiquei enfermo.
Como todas as paixões são fracas a seu lado!
Ele transformou o meu pobre corpo.
Quero a tua presença e não a alcanço.
Pede a Allah perdão por seres injusta,
pois todo o injusto deve pedir perdão!

(Al-Mutamid - Nascido em Beja, 1040 - f. em Marrocos em 1095)
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sábado, 30 de agosto de 2008

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (XI) - (Al-Mutamid) - A Videira


Ao passar junto da vide
ela arrebatou-me o manto,
e logo lhe perguntei:
porque me detestas tanto?

Eis que ela me respondeu:
porque é que passas, ó rei,
sem me dares a saudação?
Não basta beberes-me o sangue
que te aquece o coração?

domingo, 18 de maio de 2008

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (X) - (Al-Mutamid)

 
A Amada

Ó minha eleita sem par
de entre toda a humanidade:
estrela! lua a brilhar!
haste erguida e escorreita
gazelita no olhar.

Da flor tu és o alento
és a brisa perfumada,
minha dona, meu sustento,
e grilheta bem-amada.

Cego ficaria e surdo
para que fosses resgatada,
chama-me que logo acudo.

Diz: quando será curada
a ardência do meu coração
com o fresco toque dos dentes
que na tua boca estão?

(Al-Mutamid - n. Beja em 1040; f. Marrocos em 1095)

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (IX) - (Al-Mutamid) - Separação


Só eu sei quanto me dói a separação!
Na minha nostalgia fico desterrado
à míngua de encontrar consolação.

À pena, no papel, escrever não é possível
sem que a lágrima desenhe, caindo teimosa,
linhas de amor na página aberta.

Se o meu grande orgulho não obstasse,
iria ver-te à noite: orvalho apaixonado
de visita às pétalas da rosa.

(Al-Mutamid)

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (VIII) - (Al Mutamid) - Amor Rebelde


Sua beleza fez-se juíza do meu coração,
mas nem por isso foi justa na sua decisão:
morro por ela apesar da sua injusta rebeldia,
meu Deus! não a julgues pela sua tirania!

sábado, 12 de abril de 2008

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (VII) - (Al Mutamid) - Alma Prisioneira

Sinto-me triste com a tua ausência
e ébrio por ti com o vinho da paixão.
Anseiam meu sangue e meu coração
querendo beijar-te e abraçar-te.

Não me queixo!
Para quê ocultares-te?
Juraram minhas pálpebras não se fecharem
até que o nosso reencontro se consume.

Vem, amor, confia e não temas:
bem sabes que a minha alma em fogo
é prisioneira das tuas algemas.

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Al Mutamid, poeta do "Al Andaluz" (parte da Península Ibérica ocupada pelos Árabes), nasceu em Beja em 1040 (sul de Portugal) e morreu em Marrocos, em 1095.
Considerado um dos maiores poetas muçulmanos.
Foi rei de Sevilha, depois de ter sido califa de Silves.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (VI) - (Ibn Hazm de Córdoba -2) - Ela


Quando a encontro
Agrada-me a conversa,
E sobe até mim
Um delicioso olor de âmbar.
Se ela fala,
Não atendo aos que estão ao meu lado
E escuto apenas as suas palavras
Agradáveis e graciosas.


Ainda que estivesse
Com o Príncipe dos Crentes,
não me afastaria da minha amada
em atenção a ele.
Se me vejo forçado
A partir do seu lado,
Não paro de olhar para trás
E caminho como uma criatura ferida.

Mesmo que o meu corpo se distancie,
Os meus olhos quedam presos a ela,
Como os do náufrago
perdido nas ondas,
contemplando a beira-mar.
Quando penso que estou longe dela,
Sinto que me afogo
como se respirasse
a poeira requeimada de sol.

Se me dizem que é possível
Subir ao céu,
Eu digo que sim
E que sei
onde está a escada.

(Ibn Hazm de Córdoba) (994-1064)
(El Collar de la Paloma)

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (V) - (Ibn Hazm de Córdoba) - O Amor


Consagro-te um amor puro e sem mácula:
no meu íntimo está profundamente gravado e escrito o teu afecto.
Se no meu espírito houvesse mais alguma coisa além de ti,
arrancá-la-ia com as minhas próprias mãos.
Não quero de ti outra coisa senão o amor;
para além disso não peço nada.
Se o tiver,
a Terra inteira e a Humanidade
Serão para mim como montes de pó,
e os habitantes do país, insectos.

O meu amor por ti,
que é eterno por sua própria essência,
chegou ao apogeu,
e não pode nem minguar nem crescer.
Não tem mais causa nem motivo
do que a vontade de amar.
Quando uma coisa tem a sua causa em si mesma,
ela goza de uma existência
que não se extingue jamais.

Quando me vou do teu lado
sou como um prisioneiro a quem levam ao suplício.
Ao voltar para ti, corro como a Lua Cheia
quando atravessa os confins do céu.
Ao partir de ti,
faço-o com a morosidade
com que se movem as estrelas distantes.

(Ibn Hazm, de seu nome completo Abu Muhammad Ali Ibn Hazm.
Nasceu em Córdoba, no ano de 994, e faleceu em Montíjar, em 1064.
Foi autor do famoso "El Collar de la Paloma", de onde se extraem os versos acima).

domingo, 23 de dezembro de 2007

Poemas de Omar Kháyyám (Pérsia) - 1040 - 1125


I
Um pouco de pão,
um pouco de água fresca,
a sombra de uma árvore
e os teus olhos!
Nenhum sultão
é mais feliz do que eu...
Nenhum mendigo
é mais triste....

II
Deixemo-nos de palavras vãs.
Levanta-te e dá-me um pouco de vinho.
Esta noite a tua boca
é a mais bela rosa do mundo
e basta para todos os meus desejos.
Dá-me vinho.
Que ele seja corado como as tuas faces,
e o meu remorso
será leve como as tuas tranças.

III
A brisa da Primavera renova as rosas
e, na sombra azul do jardim,
acaricia o rosto da minha amada.
A despeito da ventura que já gozei,
sou tão feliz hoje
que não me lembro de ontem:
esqueço o passado...
É tão imperioso o prazer deste momento...

IV
Porquê tanta suavidade,
tanta ternura,
no começo do nosso amor?
Porquê tantos carinhos,
tantas delícias, depois?
E... porquê, hoje,
o teu único prazer
é dilacerar o meu coração?
Porquê?

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Omar Ibn Ibrahim El Kháyyám nasceu em Nichapour, Pérsia, no ano de 1040 da era cristã.
Kháyyám significa em persa "fabricante de tendas", e o poeta adoptou esse nome em memória do ofício que exercia seu pai.

Além de poeta, Omar Kháyyám foi grande matemático e astrónomo. Dos seus livros de ciência chegaram até nós o Tratado de algumas dificuldades das definições de Euclides e as Demonstrações dos problemas de álgebra.

Director do observatório de Merv, fez, em 1074, a reforma do calendário muçulmano.
Omar Kháyyám morreu na mesma cidade do seu berço aos 85 anos de idade.
(Foto de J. C.)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (IV) - Apelo


Ó Dona dos Corações,
em ti talvez
Esteja a causa do tormento do cantor.
Ainda uma vez
Diz adeus a quem te quer,
E que, sem ti,
por nada sente amor.
É que, se por acaso,
longe surges na lembrança
Por ti choro pranto de criança.

(Ibn Habib, que viveu na Silves almorávida - séc. XI)

(Foto de P. Costa)

domingo, 21 de outubro de 2007

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (III) - Quem Me Dera...


Quem me dera rasgar o coração com uma navalha,
encerrar-te lá dentro
e voltar a fechar o peito
para que dentro dele
tu estivesses,
para que em mais nenhum
tu habitasses,
até ao dia da ressurreição
e do juízo final.
Assim viverias comigo
enquanto eu existisse
e assim ficarias,
entre as dobras do meu coração,
mesmo depois da minha morte,
rodeada pelas trevas do sepulcro.


(Ibn Hazm) (séc. XI)
(Foto de A. Viana d'Almeida)

terça-feira, 10 de julho de 2007

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica




Um poema de Ibne Sare, do antigo Al-Andaluz.
Nascido em Santarém, faleceu em 1123, quando Portugal independente ainda não havia surgido.

LARANJEIRA

São as laranjas brasas que mostram sobre os ramos
as suas cores vivas,
ou rostos que assomam
entre as verdes cortinas dos palanquins?

São os ramos que se balouçam,
ou formas delicadas
por cujo amor sofro o que sofro?

Vejo a laranjeira que nos mostra os seus frutos:
parecem lágrimas coloridas de vermelho
pelos tormentos do amor.

Estão congeladas, mas, se fundissem,
seriam vinho.
Mãos mágicas moldaram a terra para as formar.

São como bolas de cornalina em ramos de topázio,
e na mão do zéfiro há martelos para as golpear.

Umas vezes beijamos os frutos
outras cheiramos o seu olor,
e assim são alternadamente
rosto de donzelas ou pomos de perfume.


(António Borges Coelho - "Portugal na Espanha Árabe" - Vol. 1, pág. 242 - Edit. Caminho)

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (I)






Os muçulmanos que ocuparam a Península Ibérica a partir da invasão do ano de 711 (até cair Granada, em 1492) deixaram-nos, para além de outras lembranças de uma civilização requintada, alguns tesouros de poesia extraordinariamente sensitiva e elaborada.
Um exemplo, da autoria do poeta Ibne Arraia:

O Repuxo

Que belo o repuxo!
Apedreja o céu com estrelas cadentes
que saltam como ágeis acrobatas!

Serpentes de água caem em borbotões
que correm até à taça como víboras amedrontadas.

E, habituada a escorrer furtivamente sob a terra,
não corre a água lesta ao ver um espaço aberto?

Ao repousar depois satisfeita com a nova casa
sorri orgulhosa mostrando os dentes de bolhas.

E então, quando o sorriso descobre a deliciosa dentadura,
inclinam-se a beijá-la os enamorados ramos.