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domingo, 1 de abril de 2018

Ribatejo, Ribatejanos e Campinos


Quadro de Cássio Mello

"(…) Bastará lembrarmo-nos de que o Ribatejo é a região do gado bravo. Daqui o natural e necessário esforço do homem, a que desde pequeno se habitua, para viver entre vacas e touros criados em plena liberdade e bravura, e que é preciso subjugar pelo valor e pela astúcia até submetê-los ao trabalho agrícola.

Julga-se falsamente, no norte do país, que a criação do gado bravo no Ribatejo constitui apenas uma indústria tauromáquica. Não, é um erro: ela representa um alto valor económico, que se obtém à custa de um contínuo e arriscado trabalho.

A propriedade, nas províncias setentrionais do país, está dividida e retalhada: é a quinta, o campo, a bouça ou a horta. Aqui, como no Alentejo, percorrem-se léguas e léguas de terrenos pertencentes a um mesmo proprietário. A propriedade é vasta, imensa, a perder de vista. Proporciona as grandes colheitas e a criação das grandes manadas e rebanhos.

A vida do lavrador ribatejano torna-se, portanto, muito mais trabalhosa e o campino — designando por esta expressão todo o serviçal da lavoura ribatejana — é por via de regra um homem afoito e valente que todos os dias põe em jogo a sua vida com uma indiferença estóica singularmente admirável.

Quadro de Simão da Veiga

Faz-se toureiro, não por gosto de vir exibir a sua perícia tauromáquica no redondel perante a multidão; mas por obrigação e necessidade, no campo, diante das hastes nuas do touro – não só do touro, mas da manada inteira, sem espectadores entusiasmados e sem aplausos ruidosos.

Há, no homem do Ribatejo, o que quer que seja de forte e de simples, de atlético e indiferente, que parece conservar a expressão das idades primitivas, quando a força física e a serenidade de ânimo eram precisas ao homem para lutar com os monstruosos animais pré-historicos. A natureza deu-lhe a bravura calma e a astúcia ingénita necessárias para subjugar as reses bravas, acudindo-lhe com a astúcia quando a valentia não basta.

 Também o dotou com uma certa tendência contemplativa, espécie de identificação, plácida e concentrada, com a vasta paisagem que o rodeia, onde a solidão é profunda e profundo é o silêncio, apenas de quando em quando entrecortado pelo mugido do touro, pelo uivo do lobo, pelo chocalho das manadas e rebanhos.




O perigo que, por via de regra, assusta o homem em qualquer parte, é no Ribatejo o pão nosso de cada dia, um hábito, um costume, em vez de ser, como noutras regiões do país, uma surpresa ou uma eventualidade. Aqui, a natureza, favorecendo, por condições especiais, a criação do gado bravo, pôs harmoniosamente, ao lado dele, o homem forte e sadio, robusto e tranquilo, que tem de viver e lutar quotidianamente com as reses possantes e manhosas. (…)

(…) Esta irrequieta colónia bovina não deixa um momento de paz e descanso aos homens a quem está confiada, e cujo trabalho é incessante, desde a difícil operação da desmama dos bezerros até à amansia do touro.

(…) A luta, no Ribatejo, entre o homem e o touro, quando há necessidade de recorrer a esse extremo, efectua-se frente a frente, toma o carácter de um combate singular, sempre arriscado, porque nós, os Portugueses, picamos o touro por diante, ao contrário dos Espanhóis, que o mandam pela anca.

E, contudo, apesar das contingências desastrosas a que o campino está constantemente sujeito, todas as operações, em que ele é chamado a intervir na vida e na liberdade das manadas, tomam um ar de folia local que sobrepõe a alegria à consciência e temor do perigo." (*)


(*) Alberto Pimentel – A Extremadura Portugueza – 1.ª Parte – O Ribatejo – Lisboa, 1908, pp. 35-36 (ortografia actualizada).

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Jovem Cuvale (Angola)

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Minha conterrânea de Moçâmedes (actual Namibe).
Sul de Angola.
Tribo dos Cuvales, grupo étnico dos Hereros.

sábado, 10 de julho de 2010

Pinturas Efémeras nos Muros Velhos da Cidade...

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domingo, 16 de maio de 2010

Um Grande Feito dos Portugueses - A Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia (1497-1498)

. . Partida de Vasco da Gama para a Índia (Roque Gameiro)
No dia 8 de Julho de 1497, uma armada comandada pelo português Vasco da Gama partiu de Lisboa em busca do caminho marítimo para a Índia. A frota era constituída pela caravela Bérrio, pelas naus S. Rafael e S. Gabriel (esta capitaneada por Vasco da Gama) e, ainda, por um navio de transporte de mantimentos que deveria ser incendiado depois de vazio.
O objectivo consistia em chegar, por mar, a Calecute, na Índia, circundando o Continente Africano pelo cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África.
O rei português, D. Manuel I, teria escolhido esta cidade de Calecute a partir das presumíveis informações que o seu antecessor (D. João II) recebera de Pêro da Covilhã, um explorador lusitano que conseguira chegar por terra a tão longínquas paragens. Pêro da Covilhã não podia ter deixado de verificar que a cidade era um entreposto vital em todo o comércio do Oriente, disseminado por uma complexa rede, com linhas que penetravam no golfo Pérsico e no mar Vermelho, outra que se dirigia para o golfo de Cambaia, e ainda outras duas que se dirigiam para Bengala e para Malaca – sendo esta a mais importante quanto ao abastecimento de mercadorias.
O plano do rei de Portugal consistia em interferir nesta teia de relações comerciais e tomar a sua condução. Vasco da Gama levava cartas do rei português para o soberano de Calecute (o Samorim).
Álvaro Velho, um dos tripulantes portugueses, escreveu um Roteiro da viagem. E registou assim os primeiros momentos da mesma:
Em nome de Deus, ámen.
Na era de 1497 mandou el-rei D. Manuel, o primeiro deste nome em Portugal, a descobrir, quatro navios, os quais iam em busca da especiaria; dos quais navios ia por capitão-mor Vasco da Gama, e dos outros, de um deles, Paulo da Gama, seu irmão, e de outro, Nicolau Coelho.
Partimos de Restelo um sábado, que eram 8 dias do mês de Julho, da dita era de 1497, nosso caminho – que Deus Nosso Senhor deixe acabar em seu serviço.
Ámen..
As rotas da grande viagem de Vasco da Gama (ida e regresso). No lado esquerdo da imagem (a vermelho) está assinalado o extremo oriental do Brasil, que o português Pedro Álvares Cabral descobriria três anos mais tarde.
Numa longa viagem de mais de 10 meses, os navegadores portugueses passariam, ao fim de uma semana, pelas Canárias, vogando a poente da ilha de Lanzarote. Rumaram depois para sul, na direcção de Cabo Verde, tendo ancorado para reabastecimento, no porto de Santa Maria, a 27 de Julho. Levantaram de novo âncora a 3 de Agosto.
Para se internarem no Atlântico Sul, os Portugueses enfrentavam um adversário temível: os fortíssimos ventos de sudeste, que poderiam empurrar a frota para as Antilhas. Para os evitar, descreveram, a partir aproximadamente da latitude da Serra Leoa, uma extensa volta para sudoeste (ver mapa acima), passando ao largo do que seria mais tarde conhecido como o cabo de Santo Agostinho, no Brasil (então ainda por descobrir).
(NOTA: Três anos mais tarde, também numa viagem para a Índia, Pedro Álvares Cabral alongaria esta volta um pouco mais para poente – e assim descobriria o Brasil. Aliás, a presença dessa nova terra parece já pressentida no Roteiro de Álvaro Velho. De facto, a 22 de Agosto de 1497, quando a armada navegava muito ao largo da costa brasileira, ele faz referência a muitas aves, que quando chegou a noite voaram rijamente para su-sudoeste, como aves que iam para terra. A missão dos navegadores de Vasco da Gama era, porém, precisa: descobrir o caminho marítimo para a Índia. Se assim não fosse, o Brasil poderia ter entrado nas cartas marítimas portuguesas e universais com três anos de antecedência)..Após a grande volta que deram para contornarem a perigosa zona de ventos contrários, os navios portugueses avistaram pela primeira vez o Continente Africano às nove horas da manhã do dia 4 de Novembro de 1497, acontecimento que deu lugar a grandes manifestações de regozijo.
Navegando sempre para sul, a armada veio a ancorar, quatro dias mais tarde, na baía de Santa Helena. Com cerca de quatro meses de navegação, esta pausa tornara-se necessária para tomar água e lenha e limpar e recuperar os navios. Estendeu-se até 16 de Novembro, período em que se estabeleceu contacto com as populações negras locais.
Iniciada a viagem ao longo da costa africana, os navegadores avistaram a 18 de Novembro o cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África, mas só o conseguiram dobrar no dia 22, depois de pelo menos uma tentativa frustrada para o fazerem, em virtude de as condições do tempo serem desfavoráveis..A armada chegou a 25 de Novembro à angra de S. Brás, onde ancorou e permaneceu treze dias. Nesta angra desfizemos a nau que levava os mantimentos e os recolhemos aos navios, explica Álvaro Velho no seu Roteiro.
Também aqui se estabeleceu contacto com a população local, a quem as tripulações davam guizos e que lhes pareceu muito sociável, tendo alguns dos negros vindo receber as prendas das mãos do próprio capitão-mor. Vasco da Gama chegou a sair em terra, trocando barretes vermelhos e guizos por pulseiras de marfim, entusiasmando desse modo a população para um contacto pacífico:
Vieram obra de duzentos negros, entre grandes e pequenos, e traziam cerca de doze reses, entre bois e vacas, e quatro ou cinco carneiros; e nós, quando os vimos, fomos logo em terra. E eles começaram logo a tanger quatro ou cinco flautas, e uns tangiam alto e outros baixo, de maneira que concertavam muito bem; e bailavam como negros.
Restava a Vasco da Gama meter água a bordo, erigir um padrão na angra e avançar para o oceano Índico. Assim fez, reiniciando a viagem a 7 de Dezembro. No dia 25 deste mês, avistaram a terra que ainda hoje tem o nome de Natal, em memória da data em que foi descoberta pelos Portugueses.
A 11 de Janeiro de 1498, os navios chegavam ao rio do Cobre (actual Inharrime) e à Terra da Boa Gente, assim baptizada pelos navegadores devido à amabilidade e hospitalidade dos nativos. O contacto foi tão fácil que alguns dos tripulantes chegaram a visitar uma aldeia, onde pernoitaram e de onde saíram carregados de presentes para o capitão-mor (Gama)..Vasco da Gama avistando o cabo da Boa Esperança (Ernesto Condeixa)
Após cinco dias ancorados na barra do Inharrime, provendo-se de água com a desinteressada ajuda da gente local, retomaram a navegação, agora para norte, subido ao longo da costa oriental do Continente Africano.
A Bérrio chegou ao rio dos Bons Sinais (Quelimane) a 23 de Janeiro; a S. Rafael e a S. Gabriel apareceram no dia seguinte.
Pelos pormenores da narrativa de Álvaro Velho, infere-se que tiveram aqui os primeiros contactos com gente islamizada. Durante os trinta e dois dias que a armada aí se deteve não faltaram oportunidades para intentar, com êxito, boas relações de amizade com a população.
Largando de novo a 24 de Fevereiro (1498), a armada foi aportar à ilha de Moçambique no dia 2 de Março. Aqui ocorreu o primeiro encontro directo com a navegação comercial árabe no Índico. De facto, e como se diz na narrativa, estavam aqui, em este lugar, quatro navios deles (de mouros brancos) que traziam ouro, prata, cravo, pimenta, gengibre, e anéis de prata com muitas pérolas, e aljôfar e rubis”.
Vasco da Gama procurou cativar o sultão da ilha de Moçambique com vários presentes, a fim de obter pilotos que o guiassem e levassem até Calecute, na Índia. E dois pilotos chegaram realmente a ficar a bordo das naus, a troco de trinta meticais de ouro e de dois capotes com capuz, que os mouros muito apreciavam. Para ter a certeza de os não perder e de dispor sempre de um refém, o capitão decidiu reter um deles a bordo todas as vezes que o outro fosse a terra. Mas de nada valeu a precaução. A 11 de Março, depois de terem ouvido missa, dois batéis em que seguiam o capitão-mor e Nicolau Coelho foram atacados por vários barcos bem armados. Vasco da Gama prendeu logo o piloto que tinha consigo e respondeu à ameaça com tal prontidão que os atacantes se viram compelidos a buscar refúgio em terra firme.
Vasco da Gama e o Piloto Árabe (José Malhoa)
Escreve Álvaro Velho, no Roteiro, que a boa recepção inicial dos senhores locais se ficou a dever ao facto de então lhes ter parecido que nós éramos turcos ou mouros (…) e que depois que souberam que éramos cristãos, ordenaram de nos tomarem e matarem à traição.
Depois de várias contrariedades, e já com a tripulação cansada e doente (mais de 8 meses de viagem), a armada portuguesa largou de Moçambique no dia 29 de Março de 1498, com um piloto mouro que teria sido instruído pelos seus para enganar Vasco da Gama sempre que lhe fosse possível; e por isso veio a ser açoitado em uma ilha que ele dizia ser terra firme.
Os navegadores chegaram a Mombaça ao cair da tarde de 7 de Abril. Prudentemente, ficaram fora do porto – e foi isso que lhes valeu. Embora as relações com o soberano desta terra aparentassem cordialidade, com trocas de presentes e visitas recíprocas, a verdade é que na cidade tudo estava preparado para aniquilar a armada, o que Gama só conseguiu evitar por ter deixado os navios no exterior do porto.
A armada saiu de Mombaça a 13 de Abril (1498), chegando a Melinde, ainda na costa africana, dois dias mais tarde, no Domingo de Páscoa. Nesta terra, o capitão-mor teve a vida facilitada. O rei local mandou-o saudar por um emissário de categoria, enviando-lhe também, como presentes, seis carneiros, além de amostras de cravo, cominhos, noz-moscada, gengibre e pimenta. Em retribuição foram remetidas para terra diversas ofertas – os inevitáveis guizos, mas também corais, bacias e, até, um chapéu.
Passada uma semana, e não obstante as festas e as manifestações de amizade, o rei ainda não cumprira a promessa de fornecer a Vasco da Gama um piloto experimentado para atravessar o Índico até Calecute. O capitão-mor resolveu forçá-lo ao cumprimento da promessa, retendo a bordo um conselheiro do rei que ali fora visitá-lo, e fazendo saber que só o libertaria em troca de um piloto. Diz Álvaro Velho: El-Rei mandou logo um piloto; e o capitão deixou ir aquele fidalgo que tinha retido no navio. E folgámos muito com o piloto que El-Rei nos mandou..
.Só a 24 de Abril, dez dias depois de terem arribado a Melinde, os três navios largaram para atravessarem finalmente o Índico rumo à Índia. Aproximaram-se da cidade de Calecute pela tarde do dia 20 de Maio de 1498, depois de terem avistado pela primeira vez terra indostânica na manhã desse dia memorável.
Após mais de dez meses de viagem, os Portugueses tinham atingido plenamente o seu alvo, realizando a fantástica proeza de unir, por mar, a Europa à Ásia, descobrindo a rota para a Índia, seu objectivo longamente planeado (a preparação vinha já do tempo de D. João II, soberano ao qual deve ser atribuído o maior mérito desta realização)..
Chegada de Vasco da Gama a Calecute (Roque Gameiro)
Os propósitos últimos dos Portugueses consistiam em intervir e dominar o comércio da área, substituindo-se aos Árabes e aos Turcos, o que acabariam por conseguir ao cabo de muitas dificuldades. No entanto, naquela altura, apenas cumpria a Vasco da Gama tomar contacto directo com a terra e com o rei de Calecute, e negociar com este um acordo comercial, instalando ali uma feitoria portuguesa, se tal fosse possível, a fim de iniciar o comércio das especiarias. Vasco da Gama (Domingos Rebelo)
Vasco da Gama em breve se avistaria com o rei de Calecute, o Samorim (nome que significa Senhor dos Mares). Este decidiu receber o capitão-mor em audiência, com mais treze dos seus companheiros, no dia 28 de Maio de 1498. Álvaro Velho, o autor do Roteiro, fazia parte do séquito de Gama nesta embaixada.
A recepção em terra foi honrosa para o capitão-mor. Deram-lhe um palanquim para a viagem até Calecute e, em Capua, a meio da jornada, entraram num templo que pelo menos alguns dos Portugueses pensaram tratar-se de uma igreja cristã (Álvaro Velho foi um dos que acreditaram nisso, referindo que dentro estava uma imagem pequena (…) que era Nossa Senhora).
João de Sá, estando de joelhos, ao ver a fealdade de algumas das imagens que ornavam a igreja, disse para Vasco da Gama: se isto são diabos, eu cá adoro o Deus verdadeiro, ao que o capitão-mor respondeu com um sorriso.
Vasco da Gama perante o Samorim (Veloso Salgado)
Finalmente, os viajantes chegaram à residência do Samorim. Para se avistarem com ele tiveram de passar quatro portas, sendo na última recebidos por um velho, que abraçou o capitão-mor. Vasco da Gama fez a reverência ao Samorim à maneira da Índia, que Álvaro Velho descreve no Roteiro: “a qual é juntar as mãos e levantá-las para o céu, como costumam os Cristãos levantar a Deus.
Pode-se dizer que a audiência se passou do melhor modo, tendo mesmo o capitão-mor conseguido que o Samorim recebesse directamente a carta de D. Manuel, e não através dos validos que com ele estavam, segundo mandava o costume da terra. No discurso que fez, Vasco da Gama elogiou quanto pôde o reino de Portugal. De acordo com as suas palavras, D. Manuel I, senhor de muita terra, também era muito rico de todas as coisas, mais do que nenhum Rei daquelas partes…”. E foi por aí adiante na descrição, distorcendo por vezes, como é uso da diplomacia, os caminhos da verdade. Fosse como fosse, o Samorim pareceu impressionado com esta fala: desejou boas vindas aos navegadores e prometeu que mandaria com eles uma embaixada a Portugal.
Apesar destes começos promissores, não tardariam as dificuldades neste convívio novo. Algumas terão ficado a dever-se a equívocos de comunicação que os intérpretes não souberam resolver. Mas, na maior parte dos casos, não foi difícil descortinar as intrigas perpetradas pelos comerciantes muçulmanos que haviam dominado até então os negócios da zona. Eles pressentiam, com razão, que estes estranhos homens do ocidente estavam ali para concorrerem com eles e para lhes arrebatarem a parte de leão dos lucros.
Sucederam-se os episódios desagradáveis, alguns até ameaçadores para os recém-chegados. O Samorim, com uma política de sinuosa dissimulação, mostrava-se vulnerável às manobras dos muçulmanos. Contudo, antes de levantar âncoras para a viagem de regresso, Vasco da Gama recebeu uma carta do Samorim, dirigida ao rei de Portugal, que, apesar da sua singeleza, era amável e prometedora. Dizia assim, segundo Álvaro Velho: Vasco da Gama, fidalgo da vossa Casa, veio à minha terra, com o que eu folguei. Em minha terra há muita canela e muito cravo e gengibre e pimenta e muitas pedras preciosas. E o que eu quero da tua é ouro, e prata, e coral, e escarlata.Vasco da Gama
A armada partiu para Portugal no dia 29 de Agosto de 1498, naquilo que seria uma viagem atribulada, com dificuldades na travessia do Índico. A nau S. Rafael, que se julga ter sofrido um rombo, teve de ser destruída em Mombaça. O irmão do capitão-mor, Paulo da Gama, veio a falecer nos Açores.
Assim, só em finais de Agosto ou mesmo já em Setembro de 1499 reentrou Vasco da Gama em Lisboa, mais de um mês depois da chegada da Bérrio, que se adiantara. O rei D. Manuel I recebeu-o e cumulou-o de honrarias e privilégios. E o soberano pôde acrescentar ao seu título de rei de Portugal o de Senhor da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia.
Com efeito, os Portugueses não tardariam a regressar ao Oriente para dominarem, durante décadas, as vias comerciais até então dominadas pelos Muçulmanos. Esta primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, estabelecendo contacto directo com os países orientais, teve, pois, consequências importantíssimas, influindo e alterando profundamente toda a política, comércio e ciência da época. As grandes repúblicas italianas, com Veneza à cabeça, que tinham sido até então o centro do comércio europeu com o Oriente (por terra), de que lhes advinha toda a riqueza e poderio, cedo viram reduzida a sua importância, substituídos pelos Portugueses. Mesmo os grandes banqueiros passaram a instalar-se em Lisboa..
Túmulo de Vasco da Gama (Mosteiro dos Jerónimos - Lisboa - Portugal)
O perigo muçulmano para a Cristandade (com os Turcos, senhores de Constantinopla, ameaçando submergir a Europa) tornou-se menos inquietante com a perda da hegemonia no Índico. O seu poderio ficou abalado. Nunca mais dominariam o comércio da Ásia, que tinham tido quase exclusivamente nas suas mãos. O acesso às terras das especiarias foi-lhes barrado, sendo os seus navios interceptados pelo novo poder.
À foz do rio Tejo, em Lisboa, afluíam todos os anos as mais variadas e valiosas especiarias, vindas da Índia, de Ceilão, das Molucas; e os mais ricos tecidos de Cambaia; e as mais belas porcelanas e sedas da China. A vida e a mentalidade europeias sofreram forte alteração, alargando os seus horizontes, criando novos padrões culturais e novas maneiras de encarar o mundo. O que até então fora privilégio dos ricos passou a ser acessível a outras camadas da população.
Na ciência náutica e na geografia houve um poderoso avanço. Na arquitectura e na pintura criaram-se novos motivos e estilos. Na literatura floresceram os relatos respeitantes a outras terras, a outras gentes, a outros hábitos.
O encontro de culturas diferentes foi o primeiro e grande passo para a unificação da Humanidade. Os homens iriam ficar a conhecer-se melhor, pela troca de ideias, de costumes, de conhecimentos de toda a ordem, alargando a sua até então acanhada visão do mundo, num enorme deslumbramento. Por tudo isto, a viagem de descobrimento do caminho marítimo para a Índia é um acontecimento que, mais do que à história de Portugal, pertence a todos os homens, à história da Humanidade...
Fontes:.
1- Navegadores, Viajantes e Aventureiros Portugueses (1.º vol.) - Luís de Albuquerque - Círculo de Leitores- Lisboa.
2 - Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses (1.º vol.) - Direcção de Luís de Albuquerque - Editorial Caminho - Lisboa.
3 - Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama - Álvaro Velho - Publicações Europa-América- Lisboa.
4 - História do Descobrimento e Conquista da Índia Pelos Portugueses - Fernão Lopes de Castanheda - Lello & Irmão Editores - Porto.
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

sábado, 1 de agosto de 2009

Rafael Bordalo Pinheiro (Portugal -- 1846-1905)

 
Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) revelou-se um espírito brilhante, ímpar de criatividade, que aplicou a uma contínua intervenção crítica à vida portuguesa.
Permanecem de surpreendente actualidade os seus comentários à política, à economia e à sociedade da época nas revistas de caricatura e humor que editou, atitude que não raro reflectiu na cerâmica - que a partir de 1884 logrou revitalizar nas Caldas da Rainha.

Rafael Augusto Prostes Bordalo Pinheiro nasceu na Rua da Fé, em Lisboa, em 21 de Março de 1846, terceiro filho duma extensa prole de doze irmãos, a que pertenceria o célebre retratista Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929). Foram seus pais o pintor romântico Manuel Maria Bordalo Pinheiro e D. Maria Augusta Carvalho Prostes.

Será com a caricatura artística que o génio de Rafael Bordalo Pinheiro deixará uma marca indelével e inconfundível no século XIX português.
O seu lápis traduz, no quotidiano, a perspicaz e oportuna observação da política do País, criando símbolos das realidades nacionais, dos quais o Zé Povinho se ergue como a imagem dum povo explorado e sofredor, mas conformado com a sorte que lhe cabe.



Em 1870, o sucesso obtido por uma caricatura alusiva à peça em cena intitulada O Dente da Baronesa revelara um talento e iria despoletar uma paixão.
Esse ano vê surgir sucessivamente o espirituoso álbum de caricaturas O Calcanhar d’Aquiles, a folha humorística A Berlinda, da qual saem sete números, e O Binóculo, periódico semanal à venda apenas nos teatros, com quatro números publicados.
Deu ainda à estampa o Mapa de Portugal, cujo êxito foi assinalado por vendas superiores a 4000 exemplares, no espaço de um mês.
Data de 1875 a iniciativa da criação do primeiro jornal dedicado à crítica social: A Lanterna Mágica, um projecto que faz a crónica dos factos sociais enquanto tece a crítica às políticas e às instituições.
Neste contexto, nasce a figura do Zé Povinho, tão acertada no seu conteúdo que permanece no imaginário português com uma reforçada carga simbólica.



Surgindo nessa época uma proposta de colaboração em O Mosquito, jornal brasileiro de humor, parte no Verão de 1875 para o Rio de Janeiro, onde viverá quatro anos.
A sua permanência no Brasil fica ainda assinalada pela criação de duas revistas de caricaturas: o Psit!!! (1877) e O Besouro (1878-79).
É a oportunidade para nascerem do seu lápis novas personagens-tipo da sociedade carioca, tais como o Psit!, o Arola ou o Fagundes.
Em Lisboa, publicava-se o Álbum de Caricaturas: Frases e Anexins da Língua Portuguesa (1876), ilustrado com desenhos de Bordalo.

 
Logo após o seu regresso à Pátria, em meados de 1879, dá início à publicação de O António Maria, cujo título alude a António Maria Fontes Pereira de Melo, figura política dominante que presidira ao Ministério.
Até Janeiro de 1885, conjuga-se nas páginas desta revista um combate de ideias que visa os partidos no exercício do poder e as debilitadas instituições da monarquia.
Em simultâneo, vão saindo as folhas do Álbum das Glórias, 42 caricaturas de personalidades e instituições portuguesas, comentadas por literatos contemporâneos.


É por esta época que Rafael Bordalo Pinheiro integra o Grupo do Leão (1881-89), importante formação livre apoiada por Alberto de Oliveira (1861-1922), que reúne artistas, escritores, intelectuais.
De 1885 a 1891 publica os Pontos nos ii, revista com idêntica intenção de defesa das causas portuguesas e de denúncia clara das manobras políticas, em que assumem particular relevo a Questão com a Inglaterra, o Monopólio dos Tabacos, o Ultimatum e a Revolta do Porto de 31 de Janeiro.

Em 1900 surge A Paródia, revista que atesta o desencanto de Rafael Bordalo face à vida política do País.
É nas capas dos primeiros números desta revista que caricatura os variados aspectos da realidade sócio-económica, de forma tão certeira que a sua aplicação continua a ser lembrada com acuidade, como em: A Política: a Grande Porca; A Finança: o Grande Cão; A Economia: a Galinha Choca; ou A Retórica Parlamentar: o Grande Papagaio.
Ele é ainda o pioneiro, nas suas revistas, da banda desenhada portuguesa.

 
A criação da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha - sob a direcção artística de Bordalo- e a sua instalação na vila, em 1884, contribui decisivamente para a revitalização da ancestral cerâmica local, quer pela revolução das formas, quer pela gramática decorativa de raiz francamente naturalista e tantas vezes duma exuberância a desafiar a realidade.
É a oportunidade de passar à argila a caricatura e o humor, criando os bonecos de movimento, como: o Zé Povinho; a Velha Maria; a Ama das Caldas; o Cura; o Sacristão; o Polícia.

 
Aos 58 anos, quando a sua produção artística ainda teria muito a revelar, Rafael Bordalo Pinheiro morre em Lisboa, no dia 23 de Janeiro de 1905.
Espírito criador, grande talento de artista, renovador da cerâmica das Caldas, o caricaturista “pai” do Zé Povinho deixa uma obra que se identifica com o próprio País e o seu povo, não só pelo génio do Artista, mas também pela intervenção do Homem.

(Adaptado de Matilde Tomaz do Couto, in Centro Virtual Camões)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Portugal Velho ou Portugal Novo? (Guerra Junqueiro - 1896)


"(...) Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas.
Um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai.
Um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este, criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)." (*)

(*) - Guerra Junqueiro, “Pátria”, Portugal - 1896.

sábado, 15 de novembro de 2008

Pintores da Península Ibérica (Portugal) - Silva Porto

Guardando o Rebanho









Colheita - Ceifeiras








A Charneca de Belas ao Pôr-do-Sol









A Ceifa








No Areinho - Porto








Pequena Fiandeira Napolitana
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António Carvalho da Silva foi um pintor português (Porto, 1850-1893), que adoptou como apelido o nome da sua cidade natal, ficando conhecido por Silva Porto.

Estudou na Academia Portuense de Belas Artes, estagiou em Paris (1876-1877) e em Itália (1879).
Em 1879 regressou a Portugal. Aureolado de prestígio, foi convidado a ensinar na Academia de Lisboa como mestre de Paisagem.
Em 1880 realiza uma exposição de quadros paisagísticos inundados de luz, tendo D. Fernando adquirido o quadro Charneca de Belas ao Pôr-do-Sol.

Fez parte do chamado Grupo do Leão, juntamente com António Ramalho, João Vaz, José Malhoa, Cesário Verde, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro.

Entre outros galardões, recebeu a medalha de ouro da Exposição Industrial Portuguesa de 1884 e a primeira medalha do Grémio Artístico.

A sua pintura, cheia de luz e de cor, é sobretudo inspirada na Natureza, sendo tido como um dos fundadores do naturalismo em Portugal.

Encontra-se largamente representado no Museu do Chiado (Lisboa) e no Museu Nacional de Soares dos Reis (Porto).
Existe uma rua com o seu nome, na freguesia de Paranhos (Porto) e o Parque Silva Porto na freguesia de Benfica (Lisboa).