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terça-feira, 25 de setembro de 2018
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
domingo, 25 de setembro de 2016
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Novo livro sobre Angola - "Namibe, Terra da Felicidade"
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| Na capa: a misteriosa welwitschia mirabilis, só encontrável no deserto do Namibe |
Deu recentemente entrada na Torre uma nova e imperdível publicação sobre Angola, mais especificamente uma monografia de 215 páginas dedicada à província do Namibe (ex-distrito de Moçâmedes, no tempo português), território que preenche o sudoeste do país.
A obra, patrocinada pelo Governo Provincial do Namibe e empenhadamente apoiada pelo governador Rui Falcão, foi editada pela Chá de Caxinde (Luanda). Contém ao longo dos textos, em excelente papel, numerosíssimas e belas ilustrações, algumas de grande raridade.
Segundo informa a UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa), este trabalho corporiza a primeira monografia sobre uma província da Angola independente, ficando, também por isso, a constituir um marco histórico.
Foi lançada, pelas autoridades governamentais, na cidade capital do Namibe.
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| Dama mucubal regalando-se com o seu cachimbo (foto Rurukina) |
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Namibe, Terra da Felicidade teve a coordenação de Miguel Anacoreta Correia e Maria Eleutéria Ornelas, e integrou o contributo de diversos investigadores e especialistas das temáticas abordadas, alguns deles nascidos no Namibe.
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| A capital Namibe (ex-Moçâmedes), anos 60 |
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Com um Prefácio do governador do Namibe, Rui Falcão, e uma Introdução de Miguel Anacoreta Correia, o trabalho divide-se em 4 partes:
1.ª PARTE - MEIO FÍSICO, RECURSOS NATURAIS, POPULAÇÃO
2.ª PARTE - HISTÓRIA - DAS ORIGENS À INDEPENDÊNCIA
3.ª PARTE - NAMIBE: UM OLHAR NO PRESENTE
4.ª PARTE - UM OLHAR PARA O FUTURO
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| As vaidosas himbas são rainhas de elegância e de beleza (foto Dror Yalon) |
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Os textos de Namibe, Terra da Felicidade tiveram as seguintes autorias (com as respectivas págs. entre parêntesis):
1.ª PARTE
Fauna e Flora (25-26) - Prof. Augusto Manuel Correia
Grupos Humanos no Namibe (43-48) - Dr. Ildeberto Madeira
Mbali, Quimbares. Kimbar. Tyimbari (48-49) - Dr. Ildeberto Madeira
2.ª PARTE
Das Origens à Independência (53-102) - Dr. José Bento Duarte
Da Independência à Actualidade (103-104) - Gen. H. Dolbeth e Costa
3.ª PARTE
Urbanismo (121-133) - Arq.º Vasco Morais Soares
O Namibe nas Letras (162-168) - Dr. Manuel Rodrigues Vaz
Centro de Estudos do Deserto (168-170) - Dr. Samuel Aço
Agricultura e Pecuária (174-178) - Prof. Augusto Manuel Correia
4.ª PARTE
Agricultura e Pecuária (188-192) - Prof. Augusto Manuel Correia
(Os textos não referenciados foram elaborados pela equipa de coordenação)
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| O maravilhoso deserto do Namibe |
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Como se diz na Introdução, Namibe, Terra da Felicidade "pode ser particularmente útil aos estudantes dos ensinos secundários e superior e seus professores, para funcionários públicos com responsabilidades de enquadramento e, também, para responsáveis por organizações da sociedade civil da Província; e ainda para todos aqueles que, por esta ou por aquela razão, têm interesse em melhor conhecer o Namibe, nomeadamente empresários ou candidatos a investidores, ou, apenas, turistas ou amigos de viajar pela leitura".
São abundantes os pontos de interesse deste magnífico trabalho, desde o pequeno ao grande facto, da pequena à grande História... Apenas a título de exemplo, ficam apontamentos que nos permitem distinguir o que há muito é confundido (o deserto do Namibe não é o deserto do Kalahari); a província do Namibe (parte integrante de Angola) nada tem a ver com a Namíbia (país independente confinante com o sul de Angola), embora ambas partilhem o imenso deserto do Namibe.
É defendida a sugestiva e consistente tese de que as cavernas e furnas do Namibe terão sido, com outros lugares de África, um dos berços da Humanidade; há ainda as invasões dos povos hereros (mucubais, himbas, etc.) que aqui acharam os primitivos habitantes (cuissis, kuepes); os navegadores portugueses do século XV, com a tese de que a desgraça política de Diogo Cão, o herói português, terá nascido defronte das terras do Namibe; as produções literárias de um surpreendentemente vasto leque de autores nascidos no território; as semelhanças urbanísticas da capital com as urbes portuguesas do Algarve; a arte inesperada e impressiva dos Mbali; os dramas e as glórias das primeiras colonizações e da luta pela independência; e muitos, muitos outros elementos de interesse desta terra fascinante entre as mais fascinantes...
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| O belo sorriso de um povo bom e inesquecível (foto Malanjino) |
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Segundo informações que recolhemos, os milhares de exemplares de Namibe, Terra da Felicidade destinaram-se essencialmente a Angola.
Em Portugal, os poucos exemplares restantes podem ser ainda encomendados aos balcões da FNAC.
Para entregas mais rápidas (prazo de 1 dia) é recomendado o contacto online com o distribuidor oficial português, Perfil Criativo, bastando escrever no motor de busca: Perfil Criativo. Loja. Namibe.
Se preferir o contacto por correio electrónico, use info@perfilcriativo.net
Preço de venda ao público: € 20.
Boa e proveitosa leitura!
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Combate do Pembe, Sul de Angola - Foi há 108 anos...
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Pode relembrar aqui:
Na imagem, capa do n.º 367 do "Mundo de Aventuras", publicado em 23 de Agosto de 1956 pela Agência Portuguesa de Revistas (Lisboa).
Com desenhos de Carlos Alberto Santos e o título O Combate do Pembe, este semanário de banda desenhada publicou, a partir do referido número, uma emocionante evocação do desastre militar português no Sul de Angola.
Para aquele autor, a figura central do drama foi a de João Roby (cf. capa acima).
Foi há 108 anos...
domingo, 22 de julho de 2012
"Rumo às Terras do Fim do Mundo" - Uma Aventura em Angola
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No quadro do protocolo há anos existente entre o Governo da Província do Kwanza-Sul (Angola) e a Câmara Municipal de Almada (Portugal), teve lugar, de 9 a 22 de Junho de 2012, o 6.º Raid Kwanza-Sul, que levou algumas dezenas de participantes angolanos e portugueses a percorrerem, em caravana automóvel, as províncias do Cunene e do Cuando-Cubango (as chamadas “Terras do Fim do Mundo”, no canto sudeste do País).
Nos cinco raids anteriores tinham já sido percorridas as outras 16 províncias. Trata-se de uma iniciativa que, muito para além das componentes lúdica e turística, tem como objectivo a aproximação e o aprofundamento de laços entre dois povos, o angolano e o português, que continuarão para sempre irmãos, apesar das – por vezes infelizes – vicissitudes políticas.
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À semelhança do que sucedeu nos três últimos raids, a organização fez agora editar um livro (“Rumo às Terras do Fim do Mundo” – ver capa na 1.ª foto) relacionado com o itinerário da caravana.
Nesta magnífica publicação de 184 páginas, com belíssimas e por vezes surpreendentes ilustrações, um grupo de autores convidados dá a conhecer, em artigos específicos, a história, a geografia, a cultura e os mais relevantes aspectos das regiões percorridas.
A edição é da PANGEIA (Lisboa) e a coordenação geral da obra pertenceu a Miguel Anacoreta Correia. A operacionalização mais directa, com um competente e sugestivo tratamento da informação, coube a Eleutéria Ornelas.
É um livro de leitura altamente recomendada, sobretudo para aqueles que se interessam pela História de Angola e de Portugal. (Preço: € 20).
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Segue uma visita guiada pelos 15 artigos da obra:
1 – De Luanda ao Bié – Autora: Eleutéria Ornelas (Descreve-se a parte inicial do percurso, entre a capital, Luanda, e o Bié, no coração de Angola. Abundantes referências à realidade actual e à história das regiões percorridas).
2 – Bié. O centro de Angola e centro das bacias hidrográficas – Autor: Ilídio do Amaral (A terra, a flora, os rios e a história do referido coração de Angola).
3 – O Cuando-Cubango. Como se ligou a Angola - Autores: Nuno Costa e Jorge Maceirinha (A forma como Portugal conseguiu, não obstante a poderosa e perigosa concorrência das grandes potências europeias, juntar ao território angolano a imensa região do sudeste que dá hoje corpo à província do Cuando-Cubango).
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4 – O caminho-de-ferro de Moçâmedes – Autor: Dolbeth e Costa (Epopeia da construção da difícil ferrovia que liga Moçâmedes - actual Namibe - ao interior - Lubango, Menongue… -, no Sudoeste de Angola).
5 – Menongue – Autor: João Loureiro (Como e por que razão nasceu Menongue, a antiga Serpa Pinto, de riquíssima e movimentada história).
6 – As batalhas do Cuito-Cuanavale – Autor: Jaime Nogueira Pinto (Descrição dos mortíferos combates da guerra civil angolana na região atravessada, com participação de forças locais – MPLA e UNITA – e estrangeiras – Cuba e África do Sul).
7 – Os Khoisan – Autor: Reinaldo Ribeiro, com adaptação de Manuel Vaz para este livro (Vida de um povo de fantásticos sobreviventes caçadores-recolectores, que se espalha pelo Sul de Angola, Namíbia, Botswana e áreas adjacentes).
8 – A travessia de Serpa Pinto – Autor: Manuel Vaz (Descrição da travessia que o mítico explorador português realizou, no século XIX, entre Angola e a África do Sul).
9 – A questão do Barotze – Autor: Francisco Gaspar (Mais uma árdua disputa de Portugal, no século XIX, para aumentar a sueste o território angolano, numa região que compreende hoje uma província da Zâmbia, Barotseland).
10 – Fronteira Leste - Raia d’África – Autor: José Carvalheira (Sobre a definição das fronteiras angolanas a leste, com mil e uma peripécias históricas e a acção relevante de Gago Coutinho, entre outros).
11 – Organização Social dos Cuanhamas – Autor: J. Lino da Silva (já falecido), com adaptação de José Bento Duarte para este livro (Sobre o habitat, a organização e a vida do povo Cuanhama, antigamente a mais poderosa tribo do grupo étnico dos Ambós).
12 – Mandume – Autor: José Bento Duarte (Vida e morte de Mandume, último rei independente dos Cuanhamas, no Sul de Angola, que o general português Pereira de Eça teve de enfrentar em terríveis combates no ano de 1915. Acabaria morto pelos Sul-Africanos em 1917 e é hoje um herói venerado pelo povo angolano).
13 – Área Transfronteiriça Okavango-Zambeze – Autora: Amélia Cazalma (Minuciosa descrição de um importante projecto sócio-económico, actualmente em curso, que integra cinco países da região – Angola, Botswana, Namíbia, Zâmbia e Zimbabwe).
14 – Raids 1, 2, 3, 4, 5, 6 – Autor: Manuel Larangeira (Análise da importância deste e dos cinco raids anteriores para o turismo de Angola).
15 – A Finalizar – Autor: Miguel Anacoreta Correia (O coordenador do livro faz o encerramento do mesmo – e sintetiza: “estamos a contribuir para o amor a Angola, porque só se ama o que se conhece”)
Nota Final – A obra abre com as mensagens do Governador da Província do Kwanza-Sul (Serafim Maria do Prado) e da Presidente da Câmara Municipal de Almada (Maria Emília Neto de Sousa).
É enriquecida por alguns poemas, da autoria de:
Carlos Aniceto Vieira Dias ( poema Muxima);
Luandino Vieira (Estrada);
Namibiano Ferreira (Saudação Matinal).
domingo, 25 de setembro de 2011
Pembe, Angola - Foi há 107 anos...
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quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Naquele tempo... (Imagens - muito - antigas de Angola)
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Portugal em Angola: de 1482 a 1975.
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Fonte: IICT - Instituto de Investigação Científica Tropical - Lisboa - Portugal
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sábado, 25 de setembro de 2010
sábado, 28 de agosto de 2010
A Fundação de Moçâmedes (Namibe), no Sul de Angola, por uma Colónia Vinda do Brasil (Ano de 1849)
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.Nota Prévia
No longo e difícil processo de consolidação territorial da sua colónia de Angola, os Portugueses enfrentavam, a meio do século XIX, o desafio de cobiçosas potências estrangeiras, desejosas de os substituírem naquelas paragens.
É certo que a presença lusitana em Angola datava de 1482, ano em que os navios de Diogo Cão chegaram à embocadura do rio Zaire e se estabeleceram relações, ao princípio amistosas, com o povo Bacongo.
Contudo, mais de três séculos depois, a ocupação do território, com a respectiva delimitação de fronteiras, estava ainda muito longe daquilo que veio a ser já no século XX (mapa acima).
Os Portugueses tinham nesta altura duas grandes preocupações: a ocupação da costa sul, para baixo de Benguela, e a subsequente penetração para o interior, praticamente dominado pelas tribos africanas (no Sul, e de ocidente para leste, essas tribos pertenciam sobretudo aos grupos Herero, Nhaneca-Humbe e Ambós).
Os Portugueses tinham nesta altura duas grandes preocupações: a ocupação da costa sul, para baixo de Benguela, e a subsequente penetração para o interior, praticamente dominado pelas tribos africanas (no Sul, e de ocidente para leste, essas tribos pertenciam sobretudo aos grupos Herero, Nhaneca-Humbe e Ambós).
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Baía de Moçâmedes (Namibe)
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A zona de Moçâmedes, posteriormente baptizada de Namibe, era vital para os Portugueses.
Com efeito, não se poderia pensar em progredir para leste, com ideias de ocupação do território, sem possuir à retaguarda, junto ao mar, uma posição solidamente estabelecida.
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A preocupação começara umas décadas antes, com o envio de várias expedições de exploração e reconhecimento às paragens meridionais.
As mais famosas foram as que ordenou o governador de Angola, barão de Moçâmedes, em 1785 (uma por mar e duas por terra).
Mais tarde, em 1839, veio uma corveta comandada pelo capitão-tenente Pedro Alexandrino da Cunha, que estabeleceu contacto com os povos da zona (Cuvales, do grupo Herero).
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Foi decidida a instalação de uma colónia em Moçâmedes, encravada entre as águas da baía e o deserto. Chegaram alguns comerciantes, oriundos sobretudo de Benguela e de Luanda. Nasceram feitorias na praia. E, em 1840, decidiu-se a construção da fortaleza de S. Fernando.
O impulso não tardou contudo a afrouxar, sobretudo devido à escassez de europeus. Parecia fora de dúvida que, sem uma qualquer reviravolta, dificilmente poderiam os Portugueses sonhar com a transformação da baía na estratégica rampa de lançamento para o interior.
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Welwitschia Mirabilis, unicamente existente no deserto do Namibe
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Foi então que, de Pernambuco, no Brasil, chegou uma petição às autoridades lusitanas.
Algumas dezenas de Portugueses, queixando-se de problemas de convívio com grupos de nativistas brasileiros (ocorridos posteriormente à independência daquela antiga colónia portuguesa, datada de 1822), solicitavam que fosse providenciada a sua retirada para qualquer ponto do império português.
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Agarrando-se ao apelo desses candidatos a colonos verdadeiramente tombados dos céus, o Governo ofereceu-lhes o embarque para a longínqua baía angolana, onde, amparados pelas autoridades, deveriam fundar uma colónia agrícola.
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Assim que os peticionários manifestaram o seu assentimento, Lisboa agiu com determinação e desusada celeridade, despachando para águas brasileiras o brigue de guerra Douro.
No dia 23 de Maio de 1849 o navio saiu do Recife de Pernambuco rumo às costas de África, escoltando a barca Tentativa Feliz.
Seguiam a bordo, nessa primeira leva, cento e setenta e quatro refugiados.
Os Portugueses estavam prestes a apresentar-se em força às portas dos desertos meridionais de Angola.
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Os Colonos Vindos do Brasil
"(...) Em Lisboa, nas sessões do Parlamento de 12 e 14 de Junho de 1849, discute-se finalmente a proposta que autoriza o Governo a fundar uma colónia agrícola em Moçâmedes, no Sudoeste de Angola, e a transferir para lá os refugiados do Brasil.
Quando estes vogam já pelo Atlântico há cerca de três semanas, a Oposição resolve bater-se com afinco contra o projecto. Regateia até à exaustão a verba de dezoito contos de réis metálicos consagrada ao empreendimento. Um deputado salta com o Alentejo para o debate e proclama que todo aquele esforço seria muito mais bem empregado nas planícies agrestes do Sul português, onde, ainda por cima, há carência de braços para o trabalho.
O ministro abespinha-se e replica que a entidade menos própria para influir sobre quaisquer cidadãos para irem para esta ou aquela região é o Governo. Quanto às intenções dos portugueses de Pernambuco, fica de uma vez por todas a saber-se que eles não desejam retornar à Pátria para se meterem a colonizar o Alentejo. Provavelmente não fazem finca-pé quanto à ida para Moçâmedes: mas o que sem dúvida pretendem é virar costas ao Brasil e passar-se para África.
A proposta acaba aprovada por maioria de votos.
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A muitas centenas de milhas destas discussões inflamadas, a barca Tentativa Feliz, escoltada pelo brigue de guerra e pejada de gente que mal pode mexer-se no tombadilho atravancado de bagagens, continua a sua carreira para Angola. Empurradas por ventanias contrárias ou tolhidas pela brusca calmaria de verdadeiros mares de leite, as embarcações começam a atrasar-se.
Para agravar as coisas, declara-se entre os passageiros um surto de varíola. Cinquenta e seis pessoas são atingidas pela doença e jazem desfiguradas pelas pústulas. O médico do brigue anda numa roda-viva entre os dois barcos. Auxiliam-no o patrão da barca, um barbeiro e o chefe da colónia de emigrantes. Mas a epidemia cedo oferece à escuridão dos abismos atlânticos os corpos de oito vítimas - três adultos e cinco crianças.
No auge do infortúnio, de olhos perdidos na espuma deslizante das vagas ou em remotos horizontes de esperança, os emigrantes entoam os seus vibrantes hinos de fé. Depositam apesar de tudo uma confiança inquebrantável na sua estrela. E, também, em Bernardino Castro, o chefe carismático que os trouxe até ali.
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Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, um beirão de Nogueira do Cravo, povoação vizinha de Oliveira do Hospital, vai nos quarenta anos à data da viagem.
É um homem moreno e seco, de sulcos vincados no rosto ossudo e grave. Possui cabelos escuros e lisos, que contrastam com a fina barba de colar, precocemente embranquecida, que lhe escorre de orelha a orelha por baixo do queixo. A sisudez da fisionomia atenua-se com o fulgor de uns olhos miúdos e insinuantes.
Este emigrante de marcada personalidade tem vivido uma existência rocambolesca. Aos vinte anos é aluno de leis em Coimbra, mas passa fugazmente pelos bancos universitários. Seduzido pela causa do rei Miguel, integra como tenente de caçadores um contingente de voluntários e mergulha a fundo nas lutas em que liberais e absolutistas se chacinam mutuamente.
Após a capitulação de Miguel, Bernardino compromete-se num plano que visa devolver o trono ao soberano exilado. Descoberta a conspiração, furta-se por uma unha negra à captura e esgueira-se das montanhas da Beira para Lisboa.
Em 1839, desfeitas as ilusões, asila-se no Brasil, em Recife de Pernambuco, onde ganha a vida como professor de um colégio. Dado às letras, publica um romance - Nossa Senhora de Guararapes - e uma arrojada História Geral, em seis volumes, que remexe os dias da Humanidade desde as enevoadas narrativas do Antigo Testamento até à história recente de Portugal e do Brasil.
É pela sua pena que o Governo português toma conhecimento das violências perpetradas no Brasil contra os cidadãos lusos. É ele o autor da petição por essa altura dirigida a Lisboa. É ainda Bernardino quem lança entre os compatriotas de Pernambuco a entusiástica campanha da aventura africana.
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A viagem prolonga-se há mais de dois meses e não se vislumbram indícios do litoral de África.
Os emigrantes suspeitam de que se tenha deixado de contar com eles no porto de destino. Bernardino Castro conferencia com o comandante do brigue e pede-lhe que siga na dianteira a fim de prevenir o desembarque. O Douro distancia-se da Tentativa Feliz na noite de 26 de Julho.
Os refugiados rompem agora as trevas, silenciosos e cismadores, embalados pelo marulhar das vagas contra o costado da barca. Quando nasce o dia, não há sinais do Douro nem de terra. Tornam então a elevar-se os cânticos religiosos por sobre as reverberações metálicas do oceano.
A 4 de Agosto, mortificados por setenta e quatro dias de navegação, os passageiros têm enfim à vista, coados pelo véu pardacento de um dia de cacimbo, os desertos fulvos das costas de Moçâmedes. Quando se internam na baía, onde paira a silhueta familiar do Douro, enxergam, com um recolhimento angustiado, as fugidias pinceladas de vegetação da foz do rio Bero, a monotonia dos areais sem fim, o recorte severo da fortaleza de S. Fernando. Sobressaindo na desolação, erguem-se os seus novos lares - meia dúzia de choupanas de pau-a-pique e alguns barracões de paredes de madeira e coberturas de palha.
O desânimo dos emigrantes face ao despojamento daqueles lugares encontra algum consolo no calor da recepção que lhes é dispensada. Com efeito, pressentindo na sua chegada o novo alento de que carecem para sobreviver, os poucos europeus da baía submergem-nos numa onda de júbilo.
Quando, a 5 de Agosto de 1849, os passageiros da barca tomam lugar nos batéis e iniciam o desembarque, o brigue salva alegremente com as suas bocas de fogo, no que é imitado pela artilharia da fortaleza logo que eles saltam em terra. Silvam foguetes no espaço, trespassando a cortina de cacimbo e estralejando, longínquos e amortecidos, por sobre a quietude do deserto. Na praia há abraços, risos e promessas. Soam vivas aos recém-chegados, às autoridades, à rainha Maria Segunda e a Portugal.
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Alojados nos barracões que constituiriam a sua morada provisória, e mantendo com os cuvales das vizinhanças relações de uma cordialidade distante, os colonos esquadrinharam meticulosamente os subúrbios da povoação. Procuravam os terrenos mais aptos para as culturas. Informados das inundações periódicas do Bero, exteriorizaram algum optimismo sobre as possibilidades da região.
A 16 de Agosto Bernardino Castro viajou por mar até Luanda, onde se avistou com o governador-geral e conheceu Sérgio de Sousa, o primeiro governador nomeado para Moçâmedes. Com este volveu ao Sul em 12 de Outubro. No dia seguinte, Sousa tomou posse do cargo. Durante as comemorações nocturnas, as águas serenas da baía faiscaram sob o clarão dos archotes, que luziam feericamente nos esconsos desalinhados da povoação.
A 14 de Outubro elegeu-se o Conselho Colonial de Moçâmedes, órgão consultivo do Governo, onde Bernardino Castro ganhou, naturalmente, assento. Repartiram-se de imediato os campos marginais do rio e tiveram começo as lides agrícolas.
A pena de Bernardino esboça um cenário de bucólica azáfama nesses primeiros dias de efectiva ocupação do Sul de Angola pelos Portugueses:
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É um bulício, Moçâmedes; uns edificam casas na povoação que escolheram para habitar; outros nas faldas da serra dos Cavaleiros, no sítio chamado dos Namorados, e que dista uma légua; outros arroteiam terras nas Hortas; outros, no sítio da Olaria, a légua e meia de distância, mas com embarque próximo, onde se vai fazer tijolo e telha; outros, na várzea da União, duas léguas longe daqui; outros, enfim, no vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos; lá se vê um carro carregado de caibros; há ali pretos conduzindo junco e tábuas; acolá, as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos; noutra parte se quebra pedra, que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente (...) .
É um bulício, Moçâmedes; uns edificam casas na povoação que escolheram para habitar; outros nas faldas da serra dos Cavaleiros, no sítio chamado dos Namorados, e que dista uma légua; outros arroteiam terras nas Hortas; outros, no sítio da Olaria, a légua e meia de distância, mas com embarque próximo, onde se vai fazer tijolo e telha; outros, na várzea da União, duas léguas longe daqui; outros, enfim, no vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos; lá se vê um carro carregado de caibros; há ali pretos conduzindo junco e tábuas; acolá, as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos; noutra parte se quebra pedra, que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente (...) .

Igreja de Santo Adrião, Moçâmedes (Namibe), de construção posterior à época aqui referida
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Católicos devotados, os colonos somente a 1 de Novembro de 1849 viveram o conforto espiritual da sua primeira missa em Moçâmedes.
Como não houvesse ainda pároco na povoação, recorreu-se aos préstimos do padre Matias Rebelo, de Benguela, que se achava de passagem pela baía a bordo da corveta Oito de Julho.
Instalou-se um altar portátil numa dependência inacabada da fortaleza e a corveta forneceu uma profusão de pavilhões de cores vivas, que alegraram as paredes despidas.
Às dez da manhã, a banda do navio abriu a marcha de um concorrido cortejo que, galgando o morro, se encaminhou com vagar solene para o templo provisório. Incorporavam-se na procissão os marinheiros e a oficialidade da Oito de Julho, a guarnição da fortaleza, as autoridades, os colonos e muitos dos escravos e libertos trazidos para a baía.
A missa contou com a presença de convidados especiais - alguns cuvales do Giraul que estavam de visita a Moçâmedes.
Nesse dia histórico, associados àquela multidão de brancos possuídos de pia excitação, os Cuvales testemunharam, curiosos e circunspectos, os estranhos ritos litúrgicos dos seus novos vizinhos. Deleitaram-se sobretudo com as melodiosas intervenções da banda, que sublinhavam a espaços as falas indecifráveis do celebrante.
Terão provavelmente sofrido um susto na altura da elevação da hóstia, quando, sem aviso, as peças da fortaleza estrondearam numa descarga súbita, enquanto os foguetes assobiavam ruidosamente pelos céus da baía. Mas sentiam-se fascinados. E a impressão que lhes causaram aqueles cerimoniais permaneceria para sempre guardada nas suas memórias.
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Não obstante as grandes esperanças iniciais, foram calamitosos os primeiros anos dos colonos de Moçâmedes. Eles não tardaram a experimentar na carne e no espírito a dolorosa dimensão da terra, plena de sortilégios e oportunidades, mas simultaneamente pródiga em amargas surpresas.
O triénio de 1850 a 1852 foi um período de calores sufocantes e águas escassas. O leito do rio Bero - o Nilo de Moçâmedes, como lhe chamava Bernardino Castro - tornou-se numa língua de areias crestadas, as margens revestidas por uma crosta acastanhada de lodo velho e seco.
Os homens vagueavam abatidos por ali acima, até muitas léguas da foz. Dos céus, patrulhados por ruidosas esquadrilhas de corvos, não se despegava um sinal de chuva. Os colonos remediavam-se com as cacimbas escavadas nas proximidades do rio ou nos quintais das residências.
As primeiras águas, empurradas do planalto, desapareceram com celeridade no chão martirizado. A colónia vacilava. Bernardino não media esforços para revigorar os ânimos, apelando à fé e à resistência num estilo de ressonâncias bíblicas: Só será salvo o que perseverar até ao fim!
Cobertos de andrajos e com os víveres esgotados, os colonos sobreviviam graças à caridade dos seus compatriotas de Benguela e Luanda. Foi num quadro destes que a povoação viu apesar de tudo ampliada a sua população branca: a 26 de Novembro de 1850 desembarcaram na baía mais cento e sete colonos oriundos de Pernambuco. Outros núcleos, mais reduzidos, se lhes seguiram, provenientes do Rio de Janeiro e da Baía. Cerca de três centenas de refugiados procuravam agora dar corpo ao projecto português no Sul de Angola.
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As águas, abundantes, chegaram de um dia para o outro, escoadas das distantes cadeias montanhosas. Juntamente com o húmus providencial vieram na correnteza algumas exóticas novidades - carcaças de elefantes, búfalos, antílopes e outros animais, arrebatados ao sertão pela violência das enxurradas.
Apareceram três zebras a rebolar nas águas tumultuosas, recuperando-se uma delas, a única que mostrava sinais de vida.
Uma serpente descomunal emergiu bruscamente dos cachões de espuma amarelada como um demónio do rio e infiltrou-se, coleante e agressiva, na várzea dos Cavaleiros, a três léguas da foz, onde Bernardino demarcara os seus terrenos. Quando o bicho investiu contra os bois espavoridos das manadas, colonos e serviçais viveram instantes de sobressalto e emoção antes que conseguissem pôr cobro à ameaça.
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Das águas brotou igualmente a ressurreição de Moçâmedes.
Isso deveu-se em parte ao sucesso das fazendas ribeirinhas, onde se espraiavam a perder de vista os campos de cana-de-açúcar, algodão, tabaco, vinhas e árvores de fruto.
Progrediu também a indústria do charque, carne salgada e seca pelos sistemas uruguaio e brasileiro.
Alguns moradores meteram-se esperançosamente aos caminhos do mar e retornaram com os barcos a transbordar. Os quintais cobriram‑se de estrados de caniço, onde o peixe secava exalando um cheiro acre.
A baía passou a ser procurada por embarcações ávidas de géneros frescos, predominando os baleeiros norte-americanos que devassavam os refúgios dos cetáceos entre a costa angolana e a ilha de Santa Helena. Moçâmedes prosperava e, em 1855, seria elevada à categoria de vila (...)" (*)
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(*) - José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa - Portugal (1999)
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