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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Jovem Cuvale (Angola)

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Minha conterrânea de Moçâmedes (actual Namibe).
Sul de Angola.
Tribo dos Cuvales, grupo étnico dos Hereros.

sábado, 28 de agosto de 2010

A Fundação de Moçâmedes (Namibe), no Sul de Angola, por uma Colónia Vinda do Brasil (Ano de 1849)

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Mapa de Angola. Moçâmedes corresponde ao actual Namibe (área assinalada)
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Nota Prévia

No longo e difícil processo de consolidação territorial da sua colónia de Angola, os Portugueses enfrentavam, a meio do século XIX, o desafio de cobiçosas potências estrangeiras, desejosas de os substituírem naquelas paragens.


É certo que a presença lusitana em Angola datava de 1482, ano em que os navios de Diogo Cão chegaram à embocadura do rio Zaire e se estabeleceram relações, ao princípio amistosas, com o povo Bacongo.

Contudo, mais de três séculos depois, a ocupação do território, com a respectiva delimitação de fronteiras, estava ainda muito longe daquilo que veio a ser já no século XX (mapa acima).
Os Portugueses tinham nesta altura duas grandes preocupações: a ocupação da costa sul, para baixo de Benguela, e a subsequente penetração para o interior, praticamente dominado pelas tribos africanas (no Sul, e de ocidente para leste, essas tribos pertenciam sobretudo aos grupos Herero, Nhaneca-Humbe e Ambós).
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Baía de Moçâmedes (Namibe)
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A zona de Moçâmedes, posteriormente baptizada de Namibe, era vital para os Portugueses.
Com efeito, não se poderia pensar em progredir para leste, com ideias de ocupação do território, sem possuir à retaguarda, junto ao mar, uma posição solidamente estabelecida.
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A preocupação começara umas décadas antes, com o envio de várias expedições de exploração e reconhecimento às paragens meridionais.
As mais famosas foram as que ordenou o governador de Angola, barão de Moçâmedes, em 1785 (uma por mar e duas por terra).
Mais tarde, em 1839, veio uma corveta comandada pelo capitão-tenente Pedro Alexandrino da Cunha, que estabeleceu contacto com os povos da zona (Cuvales, do grupo Herero).
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Foi decidida a instalação de uma colónia em Moçâmedes, encravada entre as águas da baía e o deserto. Chegaram alguns comerciantes, oriundos sobretudo de Benguela e de Luanda. Nasceram feitorias na praia. E, em 1840, decidiu-se a construção da fortaleza de S. Fernando.
O impulso não tardou contudo a afrouxar, sobretudo devido à escassez de europeus. Parecia fora de dúvida que, sem uma qualquer reviravolta, dificilmente poderiam os Portugueses sonhar com a transformação da baía na estratégica rampa de lançamento para o interior.
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Welwitschia Mirabilis, unicamente existente no deserto do Namibe
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Foi então que, de Pernambuco, no Brasil, chegou uma petição às autoridades lusitanas.
Algumas dezenas de Portugueses, queixando-se de problemas de convívio com grupos de nativistas brasileiros (ocorridos posteriormente à independência daquela antiga colónia portuguesa, datada de 1822), solicitavam que fosse providenciada a sua retirada para qualquer ponto do império português.
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Agarrando-se ao apelo desses candidatos a colonos verdadeiramente tombados dos céus, o Governo ofereceu-lhes o embarque para a longínqua baía angolana, onde, amparados pelas autoridades, deveriam fundar uma colónia agrícola.
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Assim que os peticionários manifestaram o seu assentimento, Lisboa agiu com de­termina­ção e desusada celeridade, despachando para águas brasileiras o brigue de guerra Douro.
No dia 23 de Maio de 1849 o navio saiu do Recife de Pernambuco rumo às costas de África, escoltando a barca Tentativa Feliz.
Seguiam a bordo, nessa primeira leva, cento e setenta e quatro refugiados.
Os Portugueses estavam prestes a apresentar-se em força às portas dos desertos meridionais de Angola.
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Os Colonos Vindos do Brasil

"(...) Em Lisboa, nas sessões do Parlamento de 12 e 14 de Junho de 1849, discute-se finalmente a proposta que autoriza o Governo a fundar uma colónia agrícola em Moçâmedes, no Sudoeste de Angola, e a transferir para lá os refugiados do Brasil.
Quando estes vogam já pelo Atlântico há cerca de três semanas, a Oposição resol­ve bater-se com afinco contra o projecto. Regateia até à exaustão a verba de dezoi­to contos de réis metálicos consagrada ao empreendimen­to. Um deputado salta com o Alentejo para o debate e proclama que todo aquele esforço seria muito mais bem empregado nas planícies agrestes do Sul português, onde, ainda por cima, há ca­rência de braços para o trabalho.

O ministro abespinha-se e replica que a entidade menos própria para influir sobre quaisquer cidadãos para irem para esta ou aquela região é o Governo. Quanto às intenções dos portugueses de Pernambuco, fica de uma vez por todas a saber-se que eles não desejam retornar à Pátria para se meterem a colonizar o Alentejo. Provavelmente não fa­zem finca-pé quanto à ida para Moçâmedes: mas o que sem dúvida pretendem é virar costas ao Brasil e pas­sar-se para África.
A proposta acaba aprovada por maioria de votos.

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A muitas centenas de milhas destas discussões inflamadas, a barca Tentativa Feliz, escoltada pelo brigue de guerra e pejada de gente que mal pode mexer-se no tombadilho atravancado de bagagens, continua a sua carreira para Angola. Empurradas por ventanias contrárias ou tolhidas pela brusca calmaria de verdadei­ros mares de leite, as embarcações começam a atrasar-se.

Para agravar as coisas, declara-se entre os passageiros um surto de varíola. Cinquenta e seis pes­soas são atingidas pela doença e jazem desfiguradas pelas pústulas. O médico do brigue anda numa roda-viva entre os dois barcos. Auxiliam-no o patrão da barca, um bar­beiro e o chefe da colónia de emigrantes. Mas a epidemia cedo ofe­rece à escuridão dos abismos atlânticos os corpos de oito vítimas - três adultos e cinco crianças.

No auge do infortúnio, de olhos perdidos na espuma deslizante das vagas ou em remo­tos horizontes de esperança, os emigrantes entoam os seus vi­bran­tes hinos de fé. Depositam apesar de tudo uma confiança inquebran­tável na sua estrela. E, também, em Bernardino Castro, o chefe carismático que os trouxe até ali.


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Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, um beirão de Nogueira do Cravo, povoação vizinha de Oliveira do Hospital, vai nos quarenta anos à data da viagem.
É um homem moreno e seco, de sulcos vincados no rosto ossudo e grave. Possui cabelos escuros e lisos, que contrastam com a fina barba de colar, precoce­mente embranquecida, que lhe escorre de orelha a orelha por baixo do queixo. A sisudez da fisionomia atenua-se com o fulgor de uns olhos miúdos e insinuantes.

Este emigrante de marcada personalidade tem vivido uma existência rocambo­lesca. Aos vinte anos é aluno de leis em Coimbra, mas passa fugazmente pelos bancos universitários. Seduzido pela causa do rei Miguel, integra como tenente de caçado­res um contingente de voluntários e mergulha a fundo nas lutas em que libe­rais e absolutistas se chacinam mutuamente.
Após a capitulação de Miguel, Bernardino compromete-se num plano que visa devolver o trono ao soberano exi­lado. Descoberta a conspiração, furta-se por uma unha negra à captura e esgueira-se das montanhas da Beira para Lisboa.

Em 1839, desfeitas as ilusões, asila-se no Brasil, em Recife de Pernambuco, onde ganha a vida como professor de um colé­gio. Dado às letras, publica um romance - Nossa Senhora de Guararapes - e uma arrojada História Geral, em seis volumes, que remexe os dias da Humanidade desde as enevoadas narrativas do Antigo Testamento até à história re­cente de Portugal e do Brasil.

É pela sua pena que o Governo português toma co­nhecimento das violências perpetradas no Brasil contra os cidadãos lusos. É ele o autor da pe­tição por essa altura dirigida a Lisboa. É ainda Bernardino quem lança entre os compatriotas de Pernambuco a entusiástica campanha da aventura africana.
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A viagem prolonga-se há mais de dois meses e não se vislumbram indícios do litoral de África.
Os emigrantes suspeitam de que se tenha deixado de contar com eles no porto de destino. Bernardino Castro conferencia com o coman­dante do bri­gue e pede-lhe que siga na dianteira a fim de prevenir o desembarque. O Douro distancia-se da Tentativa Feliz na noite de 26 de Julho.

Os refugiados rompem agora as trevas, silenciosos e cismadores, embalados pelo marulhar das vagas contra o costado da barca. Quando nasce o dia, não há sinais do Douro nem de terra. Tornam então a elevar-se os cânticos religiosos por sobre as reverbera­ções metálicas do oceano.

A 4 de Agosto, mortificados por setenta e quatro dias de na­vegação, os passageiros têm enfim à vista, coados pelo véu pardacento de um dia de cacimbo, os desertos fulvos das costas de Moçâmedes. Quando se internam na baía, onde paira a silhueta familiar do Douro, enxergam, com um re­colhimento an­gustiado, as fugidias pinceladas de vegetação da foz do rio Bero, a mo­notonia dos areais sem fim, o recorte severo da fortaleza de S. Fernando. Sobressaindo na de­solação, erguem-se os seus novos lares - meia dúzia de choupanas de pau-a-pique e alguns barracões de paredes de madeira e coberturas de palha.

O desânimo dos emigrantes face ao despojamento daqueles lugares encontra al­gum consolo no calor da recepção que lhes é dispensada. Com efeito, pressen­tindo na sua chegada o novo alento de que carecem para sobreviver, os pou­cos europeus da baía submergem-nos numa onda de júbilo.

Quando, a 5 de Agosto de 1849, os passageiros da barca tomam lugar nos batéis e iniciam o de­sembarque, o brigue salva alegremente com as suas bocas de fogo, no que é imi­tado pela artilharia da fortaleza logo que eles saltam em terra. Silvam foguetes no espa­ço, trespassando a cortina de cacimbo e estralejando, longínquos e amorteci­dos, por sobre a quietude do deserto. Na praia há abraços, risos e promessas. Soam vi­vas aos recém-chega­dos, às autoridades, à rainha Maria Segunda e a Portugal.
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Alojados nos barracões que constituiriam a sua morada provisória, e mantendo com os cuvales das vizinhanças relações de uma cordialidade distante, os colonos esquadrinharam meticulosamente os subúrbios da povoação. Procuravam os terre­nos mais aptos para as culturas. Informados das inundações periódi­cas do Bero, exteriorizaram algum optimismo sobre as possibilidades da região.

A 16 de Agosto Bernardino Castro viajou por mar até Luanda, onde se avistou com o go­vernador-geral e conheceu Sérgio de Sousa, o primeiro governador nomeado para Moçâmedes. Com este volveu ao Sul em 12 de Outubro. No dia seguinte, Sousa tomou posse do cargo. Durante as comemorações nocturnas, as águas serenas da baía faiscaram sob o clarão dos archotes, que luziam feericamente nos esconsos desalinhados da povoação.

A 14 de Outubro elegeu-se o Conselho Colonial de Moçâmedes, órgão consultivo do Governo, onde Bernardino Castro ganhou, natu­ralmente, assento. Repartiram-se de imediato os campos marginais do rio e tive­ram começo as lides agrícolas.
A pena de Bernardino esboça um cenário de bucólica azáfama nesses primeiros dias de efectiva ocupação do Sul de Angola pelos Portugueses:
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É um bulício, Moçâmedes; uns edificam casas na povoação que escolhe­ram para habitar; outros nas faldas da serra dos Cavaleiros, no sítio chama­do dos Namorados, e que dista uma légua; outros arroteiam terras nas Hortas; outros, no sítio da Olaria, a légua e meia de distância, mas com em­barque próximo, onde se vai fazer tijolo e telha; outros, na várzea da União, duas léguas longe daqui; outros, enfim, no vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos; lá se vê um carro carregado de caibros; há ali pretos conduzindo junco e tábuas; acolá, as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos; noutra parte se quebra pedra, que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente (...) .


Igreja de Santo Adrião, Moçâmedes (Namibe), de construção posterior à época aqui referida
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Católicos devotados, os colonos somente a 1 de Novembro de 1849 viveram o conforto espiritual da sua primeira missa em Moçâmedes.
Como não houvesse ain­da pároco na povoação, recorreu-se aos préstimos do padre Matias Rebelo, de Benguela, que se achava de passagem pela baía a bordo da corveta Oito de Julho.
Instalou-se um altar portátil numa dependência inacabada da fortaleza e a corveta forneceu uma profusão de pavilhões de cores vivas, que alegraram as paredes despidas.

Às dez da manhã, a banda do navio abriu a marcha de um concorrido cortejo que, galgando o morro, se encaminhou com vagar solene para o templo provisório. Incorporavam-se na procissão os marinheiros e a oficia­lidade da Oito de Julho, a guarnição da fortaleza, as autoridades, os colonos e muitos dos escra­vos e libertos trazidos para a baía.

A missa contou com a presença de convidados especiais - alguns cuvales do Giraul que estavam de visita a Moçâmedes.
Nesse dia histórico, associados àquela multidão de brancos possuídos de pia excitação, os Cuvales testemunharam, curiosos e circunspectos, os estranhos ritos litúrgicos dos seus novos vizinhos. Deleitaram-se sobretudo com as melodio­sas intervenções da banda, que sublinhavam a espaços as falas indecifráveis do celebrante.

Terão prova­velmente sofrido um susto na altura da elevação da hóstia, quando, sem aviso, as peças da fortaleza estrondearam numa descarga súbita, en­quanto os foguetes as­so­biavam ruidosamente pelos céus da baía. Mas sentiam-se fascinados. E a impres­são que lhes causaram aqueles cerimoniais permaneceria para sempre guardada nas suas memórias.

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Fazenda dos Cavaleiros, de Bernardino de Abreu e Castro
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Não obstante as grandes esperanças iniciais, foram calamitosos os primeiros anos dos colonos de Moçâmedes. Eles não tardaram a experimentar na carne e no espírito a dolorosa dimensão da terra, plena de sortilégios e oportunidades, mas simultaneamente pródiga em amargas surpresas.

O triénio de 1850 a 1852 foi um período de calores sufocantes e águas escassas. O leito do rio Bero - o Nilo de Moçâmedes, como lhe chamava Bernardino Castro - tornou-se numa língua de arei­as crestadas, as margens revestidas por uma crosta acastanhada de lodo velho e seco.
Os homens vagueavam abatidos por ali acima, até muitas léguas da foz. Dos céus, patrulhados por ruidosas esquadrilhas de corvos, não se despegava um sinal de chuva. Os colonos remediavam-se com as cacimbas escavadas nas proximida­des do rio ou nos quintais das residências.

As primeiras águas, empurradas do pla­nalto, desapareceram com celeridade no chão martirizado. A colónia vacilava. Bernardino não media esforços para revigorar os ânimos, apelando à fé e à resis­tência num estilo de ressonâncias bíblicas: Só será salvo o que perseve­rar até ao fim!

Cobertos de andrajos e com os víveres esgotados, os colonos so­breviviam graças à caridade dos seus compatriotas de Benguela e Luanda. Foi num quadro destes que a povoação viu apesar de tudo ampliada a sua população branca: a 26 de Novembro de 1850 desembarcaram na baía mais cento e sete colonos oriundos de Pernambuco. Outros núcleos, mais reduzidos, se lhes seguiram, pro­venientes do Rio de Janeiro e da Baía. Cerca de três centenas de refugiados procu­ravam agora dar corpo ao projecto português no Sul de Angola.
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Rio Bero
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As águas, abundantes, chegaram de um dia para o outro, escoadas das distantes cadeias montanhosas. Juntamente com o húmus providencial vieram na correnteza algumas exóticas novidades - carcaças de elefantes, búfalos, antílo­pes e outros animais, arrebatados ao sertão pela violência das enxurradas.

Apareceram três ze­bras a rebolar nas águas tumultuosas, recupe­rando-se uma delas, a única que mos­trava sinais de vida.
Uma ser­pente descomunal emergiu bruscamente dos cachões de espuma amarelada como um demónio do rio e infiltrou-se, coleante e agressiva, na várzea dos Cavaleiros, a três léguas da foz, onde Bernardino de­marcara os seus terrenos. Quando o bicho investiu contra os bois espavoridos das manadas, colonos e serviçais viveram ins­tantes de sobressalto e emoção antes que conseguissem pôr cobro à ameaça.
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Das águas brotou igualmente a ressurreição de Moçâmedes.
Isso deveu-se em parte ao sucesso das fazendas ribeirinhas, onde se espraiavam a perder de vista os campos de cana-de-açúcar, algodão, tabaco, vinhas e árvores de fruto.
Progrediu também a indústria do charque, carne salgada e seca pelos sistemas uru­guaio e brasileiro.

Alguns moradores meteram-se esperançosamente aos caminhos do mar e retornaram com os barcos a transbordar. Os quintais cobriram‑se de estrados de caniço, onde o peixe secava exalando um cheiro acre.
A baía passou a ser procu­rada por embarcações ávidas de géneros frescos, predominando os baleeiros norte-americanos que devassavam os refúgios dos cetáceos entre a costa angolana e a ilha de Santa Helena. Moçâmedes prospe­rava e, em 1855, seria elevada à catego­ria de vila (...)" (*)
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(*) - José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa - Portugal (1999)

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sábado, 3 de maio de 2008

Memória - Fantásticas "Garratts"! - As Antigas Viagens de Comboio de Moçâmedes a Sá da Bandeira (Sul de Angola)

 
"Garratt" - mítica locomotiva das grandes distâncias africanas!
Lembro com nitidez o instante da minha infância em que vi uma pela primeira vez - semelhante à que aqui vos deixo. Parada e poderosa nos carris de uma estação ferroviária do Sul de Angola, luzindo com um brilho baço de limpeza recente, soprando da chaminé baixa fumos negros e espessos, esguichando dos flancos um vapor esbranquiçado e impaciente - "fschhhhh..." . A pedir viagens, apeadeiros, descobertas - "fschhhhh...".
Fiquei mudo e extático, esmagado na minha pequenez pela presença imóvel mas fremente do monstro. Sentia-me ao mesmo tempo intimidado e encantado pela novidade, acostumado que estava às maquinazinhas quase de brinquedo que haviam percorrido, até então, os carris de bitola estreita entretanto substituídos por outros mais largos para poderem acolher os gigantes de ferro recém-chegados.

Aconteceu na cidadezinha de Moçâmedes (província do Namibe, Angola), urbe tranquila e doirada, de arvoredos dispersos pelas ruas direitas, traçadas, a régua e esquadro, entre os areais do deserto e uma baía de águas azuis e translúcidas.
 
De um lado da cidade ficava o deserto amplo, povoado de animais furtivos e de uma multidão de "Welwitschia Mirabilis", plantas rastejantes que sempre me fizeram evocar legiões de caranguejos vegetais a fugirem, açodados, da presença perigosa dos intrusos.
Para Gastão Sousa Dias (1), sempre com o justo verbo, a "welwitschia" é " a planta filha do deserto, que, na sua forma e contextura estranhas, parece querer significar toda a aridez, todas as torturas da sede , todo o horror da adaptação a um meio hostil".

 
Do outro lado, apertando o casario e o deserto num abraço de frescuras atlânticas, a espaçosa baía com o moderno porto de mar, onde acostavam paquetes imponentes das Companhias de Navegação portuguesas (a Colonial e a Nacional). O Uíge, o Infante Dom Henrique, o Moçambique, o Pátria, o Império, o Angola, tantos outros...
De vez em quando atracavam vapores estrangeiros ou vasos de guerra de canhões sossegados e recolhidos, pois ali não havia, nem chegou a haver, nesses tempos lusitanos, qualquer novidade bélica.

A tripulação de um navio japonês que por ali passou um dia deixou como lembrança à estação de rádio local (Rádio Clube de Moçâmedes - RCM) um disco de música romântica do seu país, de 45 r. p. m. E, meses a fio, soaram na baía e nos areais vizinhos, por cima das "welwitschias" e das casuarinas, as estrofes doridas e exóticas de um cançonetista nipónico destroçado por terríveis males de amor. Entre a população comovida ninguém percebeu jamais de que sofria o japonês. Suspeitavam, apenas - pelo tom melado, pelas fracturas de voz, pelas bruscas interjeições... E, suspeitando, todos gostavam de o ouvir. O RCM. fazia-lhes a vontade. Até que o disco fatalmente se riscou e o infeliz apaixonado se calou de vez.

 
Este era o edifício da estação ferroviária de Moçâmedes (aqui no seu estado actual).
Naquele tempo ele resplandecia ao sol do mar e do deserto, no seu ocre imaculado, marginado de faixas arroxeadas. As portas centrais, de topos arredondados, davam acesso às bilheteiras e à gare. Defronte da estação começava a "Avenida" (onde terminavam os muros do velho campo de futebol, entretanto desaparecido).
A "Avenida" era um espaço extenso, que cortava a cidade de norte a sul, com os seus canteiros de flores multicoloridas, tanques de água, buganvílias e palmeiras.

Aqui passeavam, nas tardes de domingo, com sedutores vagares, ranchinhos perfumados de jovens meninas, cruzando olhares fugidios com os pretendentes, em cenas discretas que as correspondentes famílias (a mãe, o pai, os avós, os manos mais velhos) patrulhavam a conveniente distância.
Das arvorezinhas baixas da "Avenida" pendiam instalações sonoras, de cujos altifalantes escorriam os êxitos musicais da época - de Amália Rodrigues, de Tristão da Silva, de Alberto Ribeiro, de Maria Clara.

Ouvia-se a Casa Portuguesa, o Nem às Paredes Confesso, a Canção do Cigano, a Fonte das Sete Bicas. E soavam ainda tangos plangentes e requebrados, trazendo aos crepúsculos sul-angolanos uma inusitada e muito romântica sugestão argentina. Foi nesses primeiros anos que tomei conhecimento, sem saber a quem pertencia, daquela voz castigada e roufenha a chorar por "mi Buenos Aires querido". Só muito depois soube tratar-se do desditoso Carlos Gardel. Que assim embalou, a milhares de quilómetros, e muitos anos depois de se despedir da vida, o começo de muitos e tórridos amores moçamedenses.

Era por aqui que ficava, então, a estação ferroviária da cidade. E foi por detrás desta vetusta fachada que me encontrei, na minha infância, e nos termos acima descritos, com a minha primeira "Garratt".

 
As "Garrats" apareciam na parte de trás da estação para movimentarem comboios extensos - de passageiros, de mercadorias ou mistos - entre Moçâmedes e Sá da Bandeira (Lubango). Não tardei a descobrir que as guardavam em enormes oficinas próximas da estação. Sentava-me num muro que dava para as instalações ferroviárias e desse poiso privilegiado vigiava durante horas as manobras, as idas e as vindas daqueles monstros de linhas elegantes.



As locomotivas ficavam a aquecer, acumulando vapores e energias, durante as horas que antecediam as grandes viagens pelas planuras e montanhas do Sul de Angola.



Os homens punham-nas em ordem, recuperavam-lhes mazelas de estiradas anteriores, limpavam-nas, acarinhavam-nas.
Elas possuíam três corpos distintos, o que as tornava extraordinariamente manobráveis nas apertadas passagens das serranias africanas. O maquinista seguia no corpo do meio. No da retaguarda recolhia-se o combustível (lenha, carvão). No da frente, fruto das fornalhas incandescentes, acumulava-se a tremenda pressão do vapor que as fazia poderosas e imparáveis.


 
Chegado o grande momento abandonavam o refúgio para irem "formar comboio". Resfolegando - fschhhhh... - alinhavam diante da estação com as carruagens e os vagões. Sempre resfolegando - fschhhhh... - aprontavam-se para o primeiro avanço depois de recolherem tripulações e passageiros. Despedidas derradeiras. E o último aviso-chamada da "Garratt", o apito imperativo e forte, que soaria amiúde durante as centenas de quilómetros da viagem.



De súbito, com ruídos sincopados e fortes, a máquina punha-se em movimento. Tchan-tchan-tchan... - Tchan-tchan-tchan... - Tchan-tchan-tchan...
Cilindros, êmbolos, pistões, bielas, eixos das rodas, tudo trabalhando em perfeita sincronia numa nuvem rumorosa de vapor branco, emprestando vida e movimento àquele corpo imenso de metal escuro. A princípio lentamente, com uma espécie de preguiça mecânica, logo depois com outro balanço, a seguir preparando-se para as grandes velocidades do caminho. Fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi... - fu-ca-tchi... Lubango, aqui vamos nós.


 
Na despedida de Moçâmedes, a "Garratt" tinha de transpor a ponte do rio Bero, nas "Hortas", um oásis de verdes intensos abençoado pelas cheias periódicas do rio.

"Nestas paragens os rios mantêm-se secos na maior parte do tempo. Porém (...), dá-se nos primeiros meses do ano uma ex­traordinária metamorfose, quando os ventos empurram até ao planalto as gordas nuvens fuliginosas das chuvas torrenciais. As águas despenham-se então para oeste ao longo das vertentes da Chela, alagam as depressões das terras baixas e origi­nam enxurradas tumultuosas ao correr das nervuras fluviais que procuram o oceano. No fim das chuvas subsiste durante algum tempo a correnteza mansa, pouco rumo­rosa, de vários rios, que deslizam através do deserto por leitos de areia macia, or­lados, aqui e ali, por canaviais e arbustos rejuvenescidos (...).

As águas não tardam a sumir-se, engolidas pelo solo poroso e ávido. Em inúmeros locais, porém, conservam-se vastos lençóis de águas subterrâneas, que se podem alcançar com es­cavações su­perficiais. Formam-se também depósitos abundantes de detritos or­gânicos, arrasta­dos pelas cheias. São adubos preciosos, que favorecem o verdejar repentino de plantas nutritivas, excelentes para o gado e para a multidão de herbí­voros selva­gens que por ali se movimentam." (2)


"A vinda periódica das águas explica a persistência da vida nesses lugares toca­dos por uma espécie de irreali­dade magnética, feita de dias luminosos e chamejan­tes que, na época própria, se submergem em mantos vaporosos de cacimbo impe­netrável.
Este é um mundo impregnado de aromas intensos e envolventes, despren­didos de um misto de madei­ras secas, lodos antigos, maresias penetrantes, capins calcinados e fumosidades longínquas transportadas nas abas do vento desde povo­ados escondidos. Terá sido em parte aquele magnetismo, aliado à possibilidade da vida, o poderoso instiga­dor da atracção que levou os invasores hereros, primeiro, e os conquistadores portugueses, mais tarde, a tenazes acções de fixação nesses er­mos de sol e sede." (2)



Primeiras paragens: o Saco (onde mais tarde se construiria um porto gigantesco para escoamento do minério de Cassinga) e o Giraul. Forcejando, forcejando, a máquina galga depois milha sobre milha, na paisagem escalvada.
E apita, apita, no seu aceleradíssimo e imparável fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi...
E apita de novo. Que som este!
Quem alguma vez ouviu o chamamento de uma "Garratt" jamais o poderá esquecer. É um silvo simultaneamente rouco, estridente e lancinante. É um grito de coisa viva e pensante, não de máquina inerte e bruta. Tanto pode soar a queixume como a brado de triunfo, tanto é apelo como despedida, tanto traduz alegria como raiva.
A voz vibrante de uma "Garratt" é um dos sons mais inebriantes e comoventes que se podem escutar.



Já se vêem as penedias vizinhas da Raposeira, que anunciam as do Caraculo.
"O terreno tem a violência bárbara dum inferno escalvado. A marginar a linha, pedregulhos sobre pedregulhos parecem construções ciclópicas executadas por mãos ciclópicas. De vez em quando surgem grandes morros pelados, de pedra lisa, duma fealdade nua e parda - semelhando, nas suas formas estranhas, bossas de camelos ou dorsos de tartarugas." (3)

 
Agora procuram-se as terras do Luso, do Cuto, do Munhino.
Numa carruagem ouve-se um acordeão de estudantes (será o Nelson, de Moçâmedes?), soam as sentenças solenes do Carlos, "O Mosca", estalam gargalhadas desprendidas e jovens. Fala-se com súbita gravidade da presença numerosa de leões na zona, sobretudo no Cuto, que é o quilómetro 101.
Por sobre tudo isto, o fu-ca-tchi ... fu-ca-tchi da "Garratt", o odor intenso da sua fumarada, a magia da nossa África (4).



"Horas e horas o comboio arfa pelo deserto despido; as paragens, não tendo particularidade que as caracterize, são conhecidas pela numeração quilométrica; e o som do êmbolo, matraqueando rudemente, é o único ruído que acorda o silêncio morno e abafado do areal infinito." (1)

 
Rios secos, águas ocultas, vida fervilhando em redor...
Fu-ca-tchi... - Fu-ca-tchi...- Fu-ca-tchi... (4)

"Errando pelo interior desértico ou semidesértico, meteram por cami­nhos que iam subindo devagar ao longo de ravinas, planuras e montes cónicos iso­lados." (2)

 Aqui e ali, vidas fugidias de guelengues, espantados pelo silvo da "Garratt", confundidos com o seu bafo escuro...


Já se deixou para trás o Munhengo, logo depois Assunção, vieram a seguir as Gargantas (a Grande e a Pequena). A "Garratt" progride em grande velocidade, acerca-se da sua maior adversária antes de chegar ao destino.

 
"Agora o terreno agita-se um pouco. Pequenas ondulações sucedem-se. E à nossa frente, lá ao longe, elevam-se os degraus da serra da Chela, negros e verticais, singularmente recortados no céu (...) Entre eles destaca-se o Morro Maluco (Cha-Malundo), cuja conformação é realmente caprichosa, recurvado como uma garra." (1) (4)

 
É agora, só mais um esforço! Sopra a "Garratt" afanosa, silva, matraqueia, devora espaços - desejosa do maior dos combates...

 
E, de repente, ao quilómetro 186, a barreira esmagadora da Serra da Chela, o grande obstáculo que separa a "Garratt" de Sá da Bandeira (Lubango)!
Aos pés da montanha imponente, o casario raso, colorido e ameno da bela Vila Arriaga (Bibala).

Lá no cimo, como um rasgão trágico, o corte mítico da Tundavala.
"De súbito, depararam com as escarpas da Chela, cujas cristas rompem os céus a mais de dois mil e trezentos me­tros de altitude. A partir do cume, esta regi­ão, planáltica, baixa aos poucos para leste até formar a bacia do Cunene, o lendário rio que, descrevendo uma curva des­comunal, abraça todo o Sudoeste an­golano até ao mar. Foi junto ao sopé desses im­ponentes paredões que os pastores detiveram o passo num primeiro momento." (2) (4)
Foi aqui também que a "Garratt" se deteve, a ganhar forças e balanço.
Daqui a uns minutos, será a última batalha da minha máquina indomável.


(1) Gastão Sousa Dias - África Portentosa - Seara Nova - Lisboa - 1928.
(2) José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Editorial Estampa - Lisboa - 1999
(3) José Maria d'Eça de Queiroz - Seara dos Tempos - Edição do autor - Sem data
(4) Esta foto, como algumas mais desta viagem (sobretudo as da Bibala e da Chela), são de Okawa Ryuko, que já temos citado e voltamos a recomendar vivamente. Blogue: Angola: Huíla Namibe Kunene Luanda.