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quinta-feira, 9 de julho de 2015

"Quem é esta gente?"

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"A Europa que eu vi formar-se e abrir as portas a Portugal era dirigida por gente como Willy Brandt, Helmut Schmidt, François Miterrand, Olof Palme, Harold Wilson, James Callaghan, Bettino Craxi, Felipe González, Mário Soares.
Todos eles tinham uma ideia de Europa onde se espelhavam os melhores valores da civilização europeia, como um todo, e na qual se reviam os povos europeus, do norte ao sul, do leste ao oeste.
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Depois veio a Europa dos burocratas sem ideologia, os longos dez anos de Durão Barroso, em que o grande exercício político consistiu em nada decidir e ficar de braços cruzados a ver tudo acontecer:
os progressos feitos pelos outros na ciência, na inovação, na energia, e os retrocessos próprios na integração, na moeda única, numa política diplomática e de defesa comum, no combate ao fundamentalismo islâmico.
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Um longo sono fatal.
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Mas agora há outra gente movida por um sentimento de superioridade em relação aos "PIGS", um desejo de os castigar porque são irresponsáveis, porque têm ilhas ou mar a mais, porque têm sol quando eles têm chuva, porque conseguem rir quando deveriam chorar apenas.
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Nada do que eles propõem para a Grécia tem a menor sustentabilidade económica: é apenas a continuação de uma receita garantida para o desastre e a miséria.
Impede o crescimento, estimula o desemprego, arruína o sector financeiro e empresarial e, no fim, só agravará a dimensão da dívida.
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Há quem acredite numa conspiração oculta da grande finança para expulsar do euro os que só enfraquecem a moeda; há quem pense que se trata antes de uma vendetta histórica da direita sobre décadas de predomínio intelectual e político da esquerda e uma oportunidade imperdível de aplicar a sua agenda em termos irreversíveis.
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Mas provavelmente é tudo menos grandioso do que isso: apenas uma terrível combinação entre ignorância e insensibilidade.
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Fixemos os seus nomes para memória futura: Merkel, Schäuble, Dijsselbloem, Lagarde, Juncker, Rajoy, Passos Coelho e alguns outros personagens menores."
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Miguel Sousa Tavares - Artigo completo em" Expresso" (Lisboa - Portugal), 4-Julho-2015, pág. 12.
(Sublinhados da responsabilidade da Torre)
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domingo, 5 de abril de 2015

Na Páscoa - "Francisco Entre os Lobos"

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" (...) Na última entrevista a Valentina Alazraki, Francisco admite uma certa alergia face à Cúria que o rodeia, a que insiste chamar "corte" (o que, mais uma vez, põe algumas orelhas a arder à sua volta).
Defende que o debate é necessário para que "as coisas saiam. Há sempre pontos de vista diferentes. São legítimos. Mas quero que se digam as coisas de frente, que se tenha a coragem de não calar e de saber dizer não", disse o Papa.
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O perfil dos seus colaboradores está traçado. E a vontade de tornar claras as diferenças de opinião é uma das regras do jogo de Francisco.
Só que "há um momento em que tem de ser ele a decidir", diz um especialista em religião. E, pelo que se viu, não há conciliação possível, um meio termo entre as posições conservadoras ou modernas assumidas no último sínodo.
Francisco terá de escolher um lado, tomar partido, e isso, inevitavelmente, acabará por afastar um dos lados (...).
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O terreno à volta de Francisco está minado.
Marco Politi, outro vaticanista italiano, não faz a coisa por menos e lançou o livro "Francisco Entre os Lobos", em que explica como "está em curso uma batalha muito séria entre o projeto reformista de Francisco e as oposições".
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Os "lobos" estão por todo o lado, são adversários "na Cúria e fora da Cúria", estão "tanto em Roma como fora de Roma".
"Não se manifestam abertamente", diz o jornalista, mas nem por isso têm menos força.
Podem ser conservadores da doutrina, paladinos da tradição.
Mas também forças económicas que não vêem, nem viram, com bons olhos um Papa que não tem problemas em dizer que o atual modelo económico é um pecado mortal, porque o capitalismo "mata mesmo".
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Marco Politi pode estar a exagerar quando assume que "a máfia financeira foi perturbada nos seus tráficos por um pontífice que rema contra o luxo, é coerente e credível".
Por isso, se pudessem, "os mafiosos não hesitariam em pregar-lhe uma rasteira (...). Não sei se a criminalidade organizada está em condições de fazer algo, mas está a pensar sobre o assunto. Pode ser muito perigoso", diz.
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Pode ser uma posição extremada. Ninguém consegue contar as espingardas dos que estão contra o Papa Francisco.
Já dos que o continuam a apoiar há quem garanta estar seguro de que são maioritários.
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Leonardo Boff, teólogo brasileiro, expoente da teoria da libertação, defende com unhas e dentes o atual Papa, porque compreendeu como é "imprescindível abrir a Igreja" sobretudo à realidade do Terceiro Mundo, "onde vivem 72,56% dos católicos.
O Povo estará com Francisco.
A Cúria, nem por isso".
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Rosa Pedroso Lima, in E - A Revista do Expresso, Edição 2214, 3-Abril-2015, pág. 33, Lisboa, Portugal.
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(Destaques da responsabilidade da Torre).
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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Entretanto, apesar do suspiro de alívio...

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"(…) Há um espectro que avassala hoje a União Europeia e a afasta de um futuro de grandeza e prosperidade sustentável.

Um perigo letal que ameaça a segurança dos bens, a integridade física e a saúde mental de mais de 500 milhões de habitantes daquela que, até há pouco, foi a região mais justa e equilibrada do planeta.

Esse espectro não é constituído pelos mercados, nem sequer pelos especuladores, ao contrário do que continuam a repetir os que olham a luz forte do mundo com os óculos escuros da ideologia.

O espectro que poderá matar a Europa é a falta de espírito europeu dos seus dirigentes políticos, cada vez mais preocupados com a sua situação nacional e ignorando que a interdependência criada pela União Europeia é a alma dessa mesma "situação nacional".

Produzimos uma democracia nacional, capturada por partidos venais e alimentada pelo comodismo cívico dos cidadãos, que se transformou numa máquina de eleger gente medíocre para tomar decisões estratégicas.

 Não se pode pedir a pessoas destituídas de visão que sejam atiradores de elite.

Ou a gente que só pensa na sua reeleição, como é o caso de quase todos os líderes sentados hoje em Bruxelas, que tenha um rasgo de grandeza.

A Europa tem futuro.
Ele implicará uma refundação democrática, republicana e federal da União.

Bem gostaríamos de estar enganados, contudo, tudo indica que esse caminho terá de ser percorrido através dos escombros de um vendaval, que sucessivas cimeiras têm ajudado a tornar inevitável." (*))
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(*) Viriato Soromenho-Marques - A Europa tem futuro - Diário de Notícias - Portugal - 20Out2011
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Salário

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Ó que lance extraordinário:
aumentou o meu salário
e o custo de vida, vário,
muito acima do ordinário,
por milagre monetário
deu um salto planetário.

Não entendo o noticiário.
Sou um simples operário,
escravo de ponto e horário,
sou caxias voluntário
de rendimento precário,
nível de vida sumário,
para não dizer primário,
e cerzido vestuário.

Não sou nada perdulário,
muito menos salafrário,
é limpo meu prontuário,
jamais avancei no Erário,
não festejo aniversário
e em meu sufoco diário
de emudecido canário,
navegante solitário,
sob o peso tributário,
me falta vocabulário
para um triste comentário.

Mas que lance extraordinário:
com o aumento de salário,
aumentou o meu calvário!


(Carlos Drummond de Andrade - 1902-1987)

Brasil.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

"Este capitalismo não tem remissão" (ou: por que razão estão cortando seu salário...)

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"(…) Com excepção da China, não há uma única economia nacional relevante que não esteja neste momento dependente das consequências das aventuras criminosas do sector financeiro.
A Islândia é um bom ponto de partida: uma ilha no meio do Atlântico, com uma população igual à da cidade do Porto, uma economia próspera, um sistema social perfeito e solvente.
De repente, desregulado o sistema financeiro, rapidamente a banca islandesa tinha outorgado empréstimos numa quantia equivalente a dez vezes o PIB do país e, entre outras coisas, para financiar jovens tycoons que queriam comprar lojas de luxo em Oxford Street, em Londres.

Quando os empréstimos começaram a não ser pagos, a banca islandesa ficou à beira da falência e o Estado teve de acorrer, mobilizando tudo o que tinha.
A dívida pública disparou, as empresas fecharam por falta de crédito, o desemprego cresceu até aos 12%.
O mesmo cenário na Irlanda (que agora teve de mobilizar os fundos das pensões de reforma dos trabalhadores para tapar os buracos da banca), e o mesmo cenário nos Estados Unidos - e daí para o mundo inteiro.

Para quem não conhece bem a história, recomendo que veja o filme "Inside Job", cuja maior contribuição é mostrar a cara de alguns dos protagonistas da urdidura - e é sempre bom ver a cara dos criminosos: explica muito do que não se consegue explicar.

Resumindo, a história é esta: aproveitando a sua sublime ignorância, Ronald Reagan foi facilmente convencido a desregulamentar o mercado financeiro: se o Estado nada controlasse, explicaram-lhe, a banca funcionaria livremente, haveria crédito abundante e barato para todos e a economia prosperaria.

Clinton não conseguiu ou não quis rever a libertinagem e Bush-filho, esse idiota trágico, ainda aprofundou a ribaldaria e aliviou-a de impostos.
Livres de vigilância, pressionados pelos accionistas em busca de lucros rápidos e aliciados por milionários prémios de gestão, os gestores financeiros americanos entregaram-se alegremente a uma década de irresponsável bebedeira.
O mais à mão que tinham era o crédito imobiliário (tal como cá...), e desataram a financiar compras de casas, emprestando 99% do seu preço a quem não tinha hipótese alguma de as pagar.



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Com isso, fizeram subir exponencialmente o preço das casas, criando a célebre 'bolha imobiliária', e produzindo os chamados 'activos tóxicos', sob a forma de hedge funds e 'produtos derivados' - que começaram a vender aos clientes como investimento garantido e de retorno excepcional.
Para tal, contaram com a conivência das agências de rating (as mesmas que agora especulam contra a nossa dívida soberana, impondo-nos juros de 7% ou mais - a Moody's, a Fitch, a Standard & Poor's).

 Sem nenhum escrúpulo, as agências, que recebiam tanto mais dos bancos quanto mais valorizassem os seus 'activos tóxicos', atribuíram-lhes as cotações máximas, levando os incautos ao engano.
Entretanto, os mesmos bancos que promoviam a venda dos activos tóxicos como produtos seguros perante os seus clientes, resguardavam-se inventando os CDS (credit default swaps), uma espécie de seguro contra a insolvência dos tóxicos.

Ou seja, ganhavam duas vezes, roubando os seus clientes: ganhavam vendendo-lhes lixo e ganhavam apostando na sua falência.
Quando, como era inevitável que acontecesse, os créditos imobiliários começaram a não ser pagos, todo o sistema desmoronou.

Milhões de americanos ficaram sem as casas que tinham começado a pagar. Milhões de aforradores, que tinham acreditado na credibilidade dos 'produtos derivados', ficaram sem as suas poupanças.
Bancos de investimento e de retalho abriram falência e arrastaram as empresas que deles dependiam e estas lançaram no desemprego outros milhões de americanos.
Mas, nessa altura, já os grandes accionistas e os seus gestores na banca estavam a salvo e tinham encaixado biliões de lucros roubados aos clientes e passados para as offshores.



Estranhamente, com excepção de Roubini, nenhum dos gurus da economia tinha imaginado que pudesse implodir um sistema onde os lucros crescentes não correspondiam a riqueza crescente mas apenas a especulação, e que, numa economia global, uma crise desencadeada num dos seus pilares pudesse alastrar ao resto do mundo.

Soube-se depois porquê: porque também a Universidade, a elite dos economistas, estava a soldo do sistema financeiro e pregava o que eles queriam.
A crise do sistema financeiro americano, desencadeada por práticas especulativas e criminosas, alastrou ao mundo e criou cinquenta milhões de desempregados, dezenas de milhares de falências de empresas viáveis, e obrigou os Governos a investirem uma parte inimaginável do dinheiro dos contribuintes e das poupanças dos reformados para salvar o sistema financeiro.

Mas nada de essencial mudou.
Nos Estados Unidos, onde George W. Bush, o campeão do liberalismo, teve de nacionalizar bancos para salvar os ricos com o dinheiro dos pobres, Obama não conseguiu que o Congresso, dominado pelos republicanos, lhe aprovasse legislação para recuperar esse dinheiro roubado aos contribuintes, não conseguiu que lhe permitisse voltar a tributar os grandes lucros financeiros isentados de impostos por Bush e não conseguiu sequer livrar-se de ter como reguladores do sistema financeiro alguns dos grandes criminosos que o fizeram implodir, como os 'sábios' da Goldman Sachs.

E as empresas de rating, as tais que aconselhavam a comprar créditos incobráveis, continuam a aconselhar os mercados a apostarem agora na falência de Portugal e de Espanha e na morte do euro.

Antes de mais nada, esta é uma crise de valores éticos, de valores de vida em sociedade.
E mal vai o mundo se não há uma geração de líderes políticos com capacidade e coragem de fazer frente a este bando de abutres que suga o trabalho, o esforço e os sonhos de tanta gente que é vítima da sua ganância sem limite.

Esse é o combate inadiável, sem o qual nenhum sacrifício do presente faz sentido."   (*)

(*) - Miguel Sousa Tavares - Expresso – Lisboa – Portugal (30-Dezembro-2010)
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sábado, 4 de dezembro de 2010

Outra vez Frau Angela...

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Angela Dorothea Merkel, chanceler da Alemanha
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A Europa já não é o que era.
É o mínimo que se pode dizer da falta de sentido de Estado dos políticos que dirigem os dois principais países da União Europeia.
Um deles, a senhora Merkel, tem dado provas de não perceber nada de economia.
A sua última tirada, de que pode haver mais "bail-outs" na Europa  (...), é lamentável.
É um convite aos mercados para se lançarem sobre Portugal e Espanha (e Itália).
E quando aos mercados lhes cheira a sangue…
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Não é a primeira "gaffe" da senhora Merkel.
A anterior tinha sido o anúncio de que a Europa vai obrigar os investidores a suportarem parte dos "bail-outs".
Uma medida correcta para responsabilizar os investidores, mas anunciada a destempo e sem os detalhes necessários para perceber os contornos da solução.
Antes dessa, tinha a declaração de que a crise financeira era um problema americano…
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Como se vê, o historial de aselhices é longo.
Mas, que diabo, a senhora teve tempo para aprender… e propor soluções estruturais que garantam a sobrevivência do euro e protejam os contribuintes dos Estados sensatos (como a Alemanha): a criação de um Tesouro europeu, com poderes para mandar na política orçamental dos Estados.
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O que leva a perguntar: é só azelhice ou premeditação? (já vimos este filme em 1992, com o Bundesbank…)
Não sabemos.
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O que sabemos é que os interesses de então (...) eram muito menos importantes do que os de agora.
Se o euro acabar (e assim acaba mesmo!) é todo o modelo de desenvolvimento europeu, erguido com esforço ao longo de 53 anos, que fica em causa.
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Definitivamente, já não há estadistas na Europa. (*)

(*) - Camilo Lourenço - A insustentável aselhice da senhora Merkel - Jornal de Negócios - Lisboa, Portugal - 25 de Novembro de 2010.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

"Estou Farto dos Mercados!"

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“Vejo na televisão imagens de rua da Irlanda, da Grécia, da Espanha, e são iguais às de Portugal: as pessoas movem-se de ou para o trabalho, há transportes a funcionar, comércio aberto, crianças a irem para escola, enfim, a vida como habitualmente.
A mim parece-me que estes países e estas pessoas estão vivas, que não estão à beira da morte.
Mas não, é ilusão minha: todos os noticiários nos dizem que sobre esta gente e estes países pesa a mais tenebrosa ameaça destes sinistros tempos económicos que se vivem: os mercados.
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Estou farto dos mercados, estou farto da constante ameaça dos mercados:
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os mercados acordaram bem dispostos mas, depois do almoço, os mercados enervaram-se e subiram-nos outra vez as taxas de juro;
os mercados não gostam disto, os mercados querem aquilo;
os mercados querem um orçamento aprovado, os mercados não acreditam na execução do orçamento que queriam aprovado;
os mercados assustam-se quando o ministro das Finanças fala, os mercados reagem em stresse se o ministro fica calado mais do que dois dias;
os mercados querem que os Estados desçam o défice, diminuindo despesas e aumentando receitas, mas os mercados fogem se a PT pagar um euro que seja de imposto sobre as mais-valias do maior negócio europeu do ano;
os mercados estão preocupados com a quebra do consumo, mas os mercados adoram os aumentos do IVA;
os mercados recomendam cortes salariais, mas os mercados são frontalmente contra os cortes nos salários e prémios dos gestores das grandes empresas, porque isso é uma intromissão estatal que contraria a regra da concorrência... nos mercados.
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Sim, eu sei: à falta de alternativa, estamos na mão dos mercados e não os podemos mandar para onde bem nos apetecia e eles mereciam.
Mas convém não esquecer que foi esta fé nos mercados, como se fosse o boi-ápis, a desregulação e falta de supervisão dos famosos mercados, que mergulharam o mundo inteiro na crise que vivemos, devido ao estoiro do mercado imobiliário especulativo e do mercado financeiro, atulhado do que chamam "activos tóxicos" - que deram biliões a ganhar a muito poucos e triliões a pagar por todos.
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A Irlanda, que hoje os mercados flagelam com juros acima dos 8%, está onde está, não porque a sua economia tenha ido à falência (pelo contrário, e como sucede com Portugal, está em crescimento), mas porque os seus tão acarinhados bancos, maravilha fatal dos mercados e do liberalismo selvagem, rebentaram de ganância e irresponsabilidade e obrigaram o Estado a resgatá-los à custa de um défice de 32%.
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Num mundo justo, os mercados deveriam ser os primeiros a pagar pela falência da Irlanda; no mundo em que vivemos, quem ganha com isso são os mercados outra vez e quem paga são os contribuintes - irlandeses primeiro, europeus depois - e os desempregados da Irlanda.
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Por isso, a srª Merkel disse que seria justo que os mercados (isto é, os investidores na dívida pública irlandesa) participassem também nos custos de resgatar a dívida irlandesa, se isso se vier a revelar inevitável.
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 Mas, no mundo em que vivemos, o que sucedeu é que toda a gente caiu em cima da srª Merkel, porque a sua declaração logo fez subir as taxas de juro junto dos indignados mercados.
Mesmo no Inverno, já nem espirrar se pode, porque os mercados não gostam (…)”  (*)
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(*) - Miguel Sousa Tavares - Estou Farto dos Mercados!
Jornal Expresso - Lisboa - Portugal - 20-Nov-2010
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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Ai, ai, Frau Angela...

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Angela Dorothea Merkel, chanceler da Alemanha
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"Mesmo a economia, que em tese devia ter a sua lógica própria, mais não é do que política feita por outros meios.
Estes últimos meses demonstram como o tão falado "nervosismo" dos mercados é afinal o mais trágico dos argumentos da política - só superável pela guerra -, capaz de vergar e destruir países inteiros.

Os factos falam por si.
Até à senhora Merkel, a Alemanha era o motor de uma Europa pensada como um todo.
Agora, a Alemanha pensa-se como uma parte separada do resto.

A crise atual resulta, em grande medida, do renascimento do nacionalismo na direita alemã.

Ou tiram de lá a senhora depressa ou isto acaba mal para todos." (*)
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(*) - Leonel Moura - Jornal de Negócios - Lisboa - Portugal (19-Nov-2010)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Consciência do Tempo

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."Há semanas que temos vindo a ser submetidos a um processo de intimidação mental e de asfixia social, que largamente ultrapassa os limites do suportável.
O fantasma é o FMI (Fundo Monetário Internacional), intermitente como todos os fantasmas, a ameaçar-nos de medos maiores do que os medos habituais no viver português.

Vem, não vem, está para vir, não virá.
Esta dialéctica absurda é alimentada pelas nossas fraquezas perante conclusões aparentemente inexoráveis. Estamos nos antípodas do clima de serenidade, necessário a quem não renunciou da faculdade de se refazer para continuar a lutar por um mundo melhor.
Mas a angústia metódica que nos inculcam, com estribilhos assustadores e práticas políticas temíveis, deixa marcas.
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No último Prós e Contras, o sistema que nos conduziu a esta miséria foi colocado em questão.
A falência de um modelo sem piedade e desprovido de outro objectivo que não seja o da acumulação de riqueza atravessou os depoimentos.
Uma filosofia que paralisa e obriga à servidão, oscila entre o terror e a barbárie.
Alguém, piedosamente, tentou dizer da necessidade de "humanizar o capitalismo".

Pode "humanizar-se" um sistema cujas origens se baseiam, exactamente, no seu contrário?
Um pouco por todo o lado, a contestação contra a preeminência do "mercado" sobre a razão dos valores morais atinge aspectos significativos.
Os sinais que a época nos fornece são evidentes.
E a própria Igreja, por natureza prudente e extremamente discreta, começa, aqui e além, a dar mostras da sua inquieta perplexidade.
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Há semanas, a convite do Montepio Geral, desloquei-me ao Porto, a fim de debater, publicamente, com o bispo D. Manuel Clemente o problema da fome e da exclusão social.
Há uma forma degradada de vida que a violência do neoliberalismo transformou em "normalidade".
O bispo defendeu o espírito de entreajuda, tese também advogada por D. Carlos Azevedo, no Prós e Contras.

São paliativos que nada solucionam e apenas evocam um conceito de caridadezinha, amiúde execrável.
A Igreja tem de ser compelida, e até arrastada, pelo movimento das ideias, a encorajar o protesto generalizado e a indignação colectiva.
Não deve quedar-se, através de murmúrios compassivos, pela solidariedade inócua com o sofrimento.

O essencial está em causa. A boa vontade não chega.
É outra expressão do quietismo, a forma mais sórdida de cumplicidade, e outro modo de disciplina férrea, com que as classes dominantes impõem as suas leis e regras.

Reformar o quê?
Quando, na realidade, estamos a falar do demoníaco, contido numa ideologia que introduziu, como modelo de sociedade, a resignação e o aviltamento progressivo da condição humana.

O campo da nossa batalha não é a procura do eterno: é a consciência do nosso tempo."    (*)

(*) - Baptista-Bastos - Diário de Notícias - Lisboa - Portugal (10-Novembro-2010)

sábado, 6 de novembro de 2010

O Senhor Imperador em Lisboa

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“Este império chim foi sempre correndo por direitas sucessões de uns reis nos outros, desde aquele tempo até uma certa idade que, segundo parece pela nossa conta, foi no ano do Senhor de mil cento e treze, e então foi esta cidade de Pequim entrada de inimigos, e assolada, e posta por terra vinte e seis vezes. Mas como já neste tempo a gente era muita e os reis muito ricos, dizem que o que então reinava, que tinha por nome Xixipão, a cercou toda em roda da maneira que agora está …” (*).
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Quatrocentos e vinte e sete anos depois de Fernão Mendes Pinto, aventureiro luso no Oriente; vinte e três depois de Bernardo Bertolucci, inspirado realizador; quarenta e três sobre Pu Yi, “o último imperador” – eis que desembarca em Lisboa Hu Jintao, Presidente da República da China.
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Chega, com um séquito de ministros e empresários, num tempo de manifestações anti-eixo Berlim-Paris (cortes obrigatórios de salários, desbaste de pensões, amputação de abonos sociais, condenações à miséria em nome da resolução do sacratíssimo défice dos países pobres da Europa).
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Hu Jintao bate-nos à porta enquanto os doutos catastrofistas da Pátria lusa se acotovelam nas colunas dos jornais ou nos estúdios de TV para debitarem, cada um à vez ou em coros esganiçados, na sua subserviência rasteira perante os impiedosos poderes da alta finança, as suas receitas de terror para um povo cuja verdadeira desgraça foi ter nascido na mesma terra do que eles…
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E falam, e receitam, e falam, e receitam (que se corte ainda mais nos salários, que se entre sem piedade pelas pensões, que se reduzam a cisco os abonos…).
E continuam a falar, a receitar - e a comer desalmadamente das arcas públicas.
Luzidios, prósperos, fartos, principescamente remunerados, comodamente refastelados no conforto obsceno e meramente opinador das suas cátedras de incompetência e de ética ausente.
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Fazem lembrar, no resfolegar satisfeito da sua fama passageira, aqueles “carneiros bem medrados” de que falava o mestre Aquilino Ribeiro.
É por causa de gente como esta, e daquilo que ela representa, que o mundo se purifica de vez em quando em revoluções redentoras - por sua vez impiedosas....
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Chega, entretanto, o senhor imperador - que já não é o Xixipão de Fernão Mendes Pinto, mas o honorável Hu Jintao.
Perguntam uns tantos do povo: será que o senhor nos compra a dívida mais em conta, aliviando-nos da pressão dos nossos credores europeus?
Nos dias que correm, é tudo quanto parece contar...
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É pois o tempo de outras estratégias, de novas amizades, de exóticas alianças.
Mas, com amigos comunitários como os Alemães e os Franceses, quem precisa de inimigos?
Que viva, então, a China?
Que viva, então, o novo imperador – depois de Pu Yi?

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(*) - Fernão Mendes Pinto - Peregrinação
Publicações Europa-América - Lisboa - Portugal
1.º vol., pág. 241.
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domingo, 31 de outubro de 2010

A Dívida é Bela!

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"Portugal teve o terceiro menor crescimento económico do mundo na última década (6,47%), ganhando apenas à Itália (2,43%) e ao Haiti (-2,39%), numa lista de 180 países publicada pelo 'El País' com base em dados do FMI" - aposto que os leitores ficaram tristes com esta notícia.
Mas a notícia tem duas leituras - ganhar à Itália é sempre de festejar..
E é bonito (e surpreendente para muita gente) existirem 180 países.
Como vêem, existe beleza e felicidade no que à primeira vista parecia mais uma notícia cinzenta e desoladora.
E para quê ficar triste, se pode ficar solidário com a desesperada situação do Haiti?

Não adianta, não é? Só têm olhos para o lado negro. Só conseguem ver o número 178, numa lista de 180, a piscar.
Estão muito pessimistas?
Hum... Então, deitem-se no divã - deixem-me só tirar o busto de Freud, se não, ainda se magoam.


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Sabem qual é o nosso problema?
O problema é que andamos deprimidos.
Portugal está numa espécie de depressão pós-parto depois de uma gravidez histérica - um caso muito grave. Tanto sofrimento e enjoo para, afinal, ser só ar. Se o Doutor Egas Moniz fosse vivo sabia o que fazer… que frase deprimente.

Como podem ver, eu também estou em baixo. Estamos todos: os jornalistas, os políticos, os economistas. O povo, em geral, está deprimido e vê as coisas sempre pelo lado negativo.
Na Função Pública há funcionários tão deprimidos que nem têm força para pedir baixa.
É como se um mosquito, careca, com uma pequena barbicha branca, nos tivesse picado e transmitido o vírus da Medinacarreirice.
Uma espécie de mosca tsé-tsé arraçada de piolho.

Estamos presos na nossa depressão e vivemos com medo e ataques de pânico.
Se a notícia é - "Cientista indiano descobre cura do cancro, Parkinson e Alzheimer" - a nossa reacção é - "grande bronca!. Agora é que não vai haver dinheiro que chegue para as pensões".


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Temos que lutar contra isso.
É verdade que os factos são graves e a realidade é madrasta mas, porque não fazer como o Roberto Benigni no filme "A Vida é Bela"?

Todo o País a fingir que os funcionários do Ministério das Finanças são duendes bons que vêm buscar o nosso dinheiro para o transformar em unicórnios, flamingos rosa e bosques de cogumelos.

Negar a realidade, neste caso, não é falta de coragem.
Com tudo o que se passou, e nos foi dito, temos direito (até por uma questão de sobrevivência) a ter a versão benigna da negação do nosso maior drama.


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Temos que olhar para aquela pesada porta castanha (por onde entrava a comissão negociadora do PSD e do Governo), fechada, cerrar os olhos e abri-los para ver sair, com um estrondo de pandeiretas, um dragão de carnaval chinês, com o ministro das Finanças na cabeça e o Doutor Catroga, aos saltos, em último, fazendo agitar a cauda.
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Por que não dar o exemplo e começar, já, na próxima semana, neste jornal?

Experimentem pôr, na primeira página, os dígitos do défice como se fosse para crianças - um défice alegre, com um sete feito por uma simpática girafa e o três como uma divertida centopeia.
Ou um 7,3 todo em flores da Madeira, com uma trepadeira de rosas no lugar da vírgula.
Já não parece um número tão feio.

Vamos a isso?  (*)
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(*) João Quadros – Jornal de Negócios – Lisboa – Portugal – 29-Out-2010.
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