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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Consciência do Tempo

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."Há semanas que temos vindo a ser submetidos a um processo de intimidação mental e de asfixia social, que largamente ultrapassa os limites do suportável.
O fantasma é o FMI (Fundo Monetário Internacional), intermitente como todos os fantasmas, a ameaçar-nos de medos maiores do que os medos habituais no viver português.

Vem, não vem, está para vir, não virá.
Esta dialéctica absurda é alimentada pelas nossas fraquezas perante conclusões aparentemente inexoráveis. Estamos nos antípodas do clima de serenidade, necessário a quem não renunciou da faculdade de se refazer para continuar a lutar por um mundo melhor.
Mas a angústia metódica que nos inculcam, com estribilhos assustadores e práticas políticas temíveis, deixa marcas.
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No último Prós e Contras, o sistema que nos conduziu a esta miséria foi colocado em questão.
A falência de um modelo sem piedade e desprovido de outro objectivo que não seja o da acumulação de riqueza atravessou os depoimentos.
Uma filosofia que paralisa e obriga à servidão, oscila entre o terror e a barbárie.
Alguém, piedosamente, tentou dizer da necessidade de "humanizar o capitalismo".

Pode "humanizar-se" um sistema cujas origens se baseiam, exactamente, no seu contrário?
Um pouco por todo o lado, a contestação contra a preeminência do "mercado" sobre a razão dos valores morais atinge aspectos significativos.
Os sinais que a época nos fornece são evidentes.
E a própria Igreja, por natureza prudente e extremamente discreta, começa, aqui e além, a dar mostras da sua inquieta perplexidade.
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Há semanas, a convite do Montepio Geral, desloquei-me ao Porto, a fim de debater, publicamente, com o bispo D. Manuel Clemente o problema da fome e da exclusão social.
Há uma forma degradada de vida que a violência do neoliberalismo transformou em "normalidade".
O bispo defendeu o espírito de entreajuda, tese também advogada por D. Carlos Azevedo, no Prós e Contras.

São paliativos que nada solucionam e apenas evocam um conceito de caridadezinha, amiúde execrável.
A Igreja tem de ser compelida, e até arrastada, pelo movimento das ideias, a encorajar o protesto generalizado e a indignação colectiva.
Não deve quedar-se, através de murmúrios compassivos, pela solidariedade inócua com o sofrimento.

O essencial está em causa. A boa vontade não chega.
É outra expressão do quietismo, a forma mais sórdida de cumplicidade, e outro modo de disciplina férrea, com que as classes dominantes impõem as suas leis e regras.

Reformar o quê?
Quando, na realidade, estamos a falar do demoníaco, contido numa ideologia que introduziu, como modelo de sociedade, a resignação e o aviltamento progressivo da condição humana.

O campo da nossa batalha não é a procura do eterno: é a consciência do nosso tempo."    (*)

(*) - Baptista-Bastos - Diário de Notícias - Lisboa - Portugal (10-Novembro-2010)

sábado, 16 de outubro de 2010

De que estamos à espera?

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"(…) O que está a acontecer no nosso país é elucidativo.
O paradigma está a alterar-se, já se alterou, e os nossos políticos, culturalmente muito enfezados, agem na mesma esquadria de há trinta e quarenta anos.
Quero dizer: obedecem, cegamente, ao que do exterior lhes sussurram, e abdicam de criar um esquema próprio de solução dos problemas nacionais.

Sei que é difícil, mas não impossível.
Berlim manda e Bruxelas é o porta-voz. Porém, alguém tem de bater o pé a essa hegemonia.
Desde Bismarck que o Alemão vem por aí abaixo, com armas na mão.
E houve 1914-18 e 1939-45.
Derrotados e humilhados, serviram de veículo a ressentimentos seus e de outros.
A Alemanha não precisa da bomba nem do campo de concentração para ser a potência dominante na Europa.
Chega-lhe e sobra-lhe a força da economia. (…)
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A Direita e a Extrema-Direita avançam em toda a Europa.
A Europa é uma massa inerte que só existe porque a Alemanha assim o permite. Basta atentar na teimosia abstrusa de Ângela Merkel, no pungente problema grego, para nos apercebermos do carácter unilateral e arbitrário de uma política que somente dá garantias e suporte aos mais fortes.
O renascimento da xenofobia, do racismo e dos movimentos neonazis não acontece por acaso.

A Esquerda abandonou as velhas bandeiras que a qualificavam, e esqueceu as causas que a iluminavam.
Só agora, um pouco em Itália e em França, se discute e debate o torção a que a História foi submetida.
Os novos problemas que emergiram, com o financiamento do capital, o movimento migratório, a fome como endemia, a exclusão (ideológica, cultural, identitária) a que assistimos, um pouco por todo o lado, assemelham-se aos anos que antecederam a queda da República de Weimar. (…)


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Como se pode alterar estas situações, tendo presente que o "mercado", a finança, o capitalismo, enfim, tem nas mãos as rédeas de todos os poderes e de todas as decisões?
Creio que o valor moral do ser humano está dependente das circunstâncias.
Ortega o disse.

Todavia, o ser humano dispõe de força suficiente para alterar as circunstâncias.
Historicamente, os ensinamentos são de molde a alimentar as nossas esperanças e a estimular as nossas desafrontas.
Não podemos mais admitir as humilhações a que diariamente somos submetidos.
Nem aceitar viver nesta mentira constante, nesta falta de escrúpulos e de pudor.

Mais é de mais.
De que estamos à espera?"
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Baptista-Bastos – Jornal de Negócios – Lisboa - Portugal (15-Out-2010)

sábado, 29 de maio de 2010

Lusas Servidões...

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Fomos os "alunos exemplares" de Bruxelas:
aceitámos a destruição do nosso tecido produtivo com a submissão de quem não foi habituado a expor questões e a enumerar perguntas.

Pescas, agricultura, tecelagem, metalurgia, pequenas e médias empresas desapareceram na voragem, em nome da "incorporação" europeia.
A lista de cúmplices desta barbaridade é enorme.
Andam todos por aí.

(...) Os economistas que nos afundaram tratam da vidinha, com desenvolta disposição.
Nenhum é responsável do crime; e passam ao lado da insatisfação e da decepção permanentes, como cães por vinha vindimada.

Impuseram-nos modos de viver, crenças (a mais sinistra das quais: a da magnitude do "mercado"), um outro estilo de existência, e o conceito da irredutibilidade do "sistema."

Tratam-nos como dados estatísticos, porque o carácter relacional do poder estabelece-se entre quem domina e quem é dominado - ou quem não se importa de o ser.
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Baptista-Bastos - A Tendência da Servidão - Diário de Notícias - Lisboa - Portugal (26 de Maio de 2010)
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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Meditação sobre os suicidas da France Telecom


"Que sociedade estamos a construir? Que mundo vem aí?"
As perguntas, tornadas um pungente requisitório, foram, há dias, formuladas por um trabalhador da France Telecom, numa manifestação contra o processo de "reestruturação" da empresa, cujos resultados têm conduzido à barbárie.

Vinte e quatro trabalhadores suicidaram-se, nos últimos dezanove meses, e mais treze foram socorridos quando se preparavam para pôr fim à vida.
Em nome da "competitividade" e em obediência às leis do mercado, um "gestor", Louis-Pierre Wenes, procedeu, a partir de 2005 (ele entrara na empresa em 2002), adjuvado por Didier Lombard, à "modernização" da empresa, o terceiro operador de telemóveis da Europa e o primeiro fornecedor de acesso à Internet.

A brutalidade das decisões não olhou a meios para justificar os fins.
Diz a France Press que
"o plano redundou num controlo cerrado dos funcionários, dos tempos de pausa, uma pressão insuportável por ganhos de produtividade e desumanização nas relações laborais.
Os comunicados dos sindicatos sublinham a incerteza organizada sobre a permanência de cada posto de trabalho, mudanças forçadas de funções, pressões insidiosas para que os trabalhadores se demitissem ou aceitassem despromoções, tentando fazê-los responsabilizar-se por essas novas situações.

"O "mercado", o "neoliberalismo" e a globalização atingiram novos patamares de infâmia.
Em Portugal desconhece-se a estatística de suicídios causados por compulsões semelhantes, e o facto de estarmos à beira dos setecentos mil desempregados deveria preocupar, seriamente, aqueles que nos governam.
A desumanização que se regista no mundo do trabalho explica-se pelo facto de o "homem de organização", quero dizer: o "gestor", não poder permitir-se ter princípios ou escrúpulos: deve, isso sim, ter reflexos.

A degradação da vida empresarial resulta dessa cartografia de horrores que consiste nos objectivos a atingir, nas etapas que se têm de percorrer, e dos lucros que terão de ser rápidos e vultosos.
O "gestor" é muitíssimo bem pago para ser um cão-de-fila.
Um universo sem paixões, gelado, uma mistura de indiferença humana com uma selvajaria abstracta.

"Que sociedade estamos a construir?
Que mundo vem aí?"
As dramáticas perguntas adquirem um novo relevo, quando se sabe que as "soluções" aplicadas pelos tais "gestores" se revelam ineficazes e conduzem as empresas, mais tarde ou mais cedo, à falência.
À falência económica e financeira, porque a falência moral já habita no corpo de quem as dirige.

A "organização", o "grupo", correspondem a esse capitalismo predador, que mantém uma "democracia de superfície", feroz e impositiva, que tem aniquilado sindicatos, partidos progressistas, organizações cristãs recalcitrantes, homens e mulheres, sobrepondo uma cultura que provoca a renúncia de pensar.

O poder económico a sobrepujar o poder político. (…)”

Baptista Bastos - Meditação sobre os suicidas da France Telecom (Jornal de Negócios – Lisboa – Portugal – 9 de Outubro de 2009)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Os novos valores...

"(...) Pensando bem, temos razões para ser infelizes ou, pelo menos, pouco felizes.
Os políticos mentem-nos, manipulam a nossa benevolência, prometem-nos melhorias, cavalgam as nossas mais rústicas e asseadas esperanças.
As instituições seguem-lhes o rasto. Foram, aliás, criadas por eles, ou são filhas dilectas do sistema.
Os peralvilhos que as dirigem, sob designações as mais diversas, são criaturas pouco recomendáveis.
Todos nós sabemos disto, comentamos amargamente a roubalheira que por aí anda, nem sequer nos divertimos quando banqueiros vão para a cadeia ou estão sob a ameaça de lá ir parar.
Desconfiamos, mas não damos um passo para as coisas serem diferentes.
Votamos nos partidos que sustentam esta gente porque esta gente mantém o sistema e não está nada interessada em o alterar.
Aliás, nada de real e de rigoroso poderá ser feito sem se pulverizar as estruturas que vão segurando, como um andaime, esta sociedade. (...)
Vivemos nesse universo obscuro e inquietante da competitividade e dos objectivos a atingir.
Vale tudo, inclusive a própria vida humana.
Dissiparam-se os exemplos que serviam de rota e de escora.
A palavra de honra deixou de comparecer nas relações sociais.
A classe dirigente recusa-se a entender que uma promessa não é só um compromisso - é um crédito de honra. (...)
A honra desapareceu do circuito normal onde as ligações afins se estabeleciam e se solidificavam.
Os contratos eram feitos através desses compromissos morais. Devo dizer que tenho saudades do tempo em que um aperto de mão cimentava alguma coisa.
A honra, a dignidade e as relações como construção dos laços sociais.
Confiava-se. Apenas isto.
Agora, por todo o lado, as novas figuras de autoridade, a classe dirigente e os seus pequenos estipendiados parece terem renunciado a essas práticas.(...)
É o mundo da mentira, da torpeza e do impudor que campeia por aí, a todos os níveis e em todos os sectores da sociedade.

(Baptista-Bastos - Jornal de Negócios - Lisboa - Portugal - 18 de Setembro de 2009)

domingo, 28 de junho de 2009

A Europa - Sempre os mesmos...


"(...) Aliás, "aquela" Europa, desconhecida pela esmagadora maioria dos europeus, está condenada a uma vacuidade.
A fragmentação da União não é, somente, de características ideológicas.
Trata-se de uma acentuada carência de convicções, não prevista pelos chamados "pais fundadores", que fundaram, feitas as contas, um saco de gatos - para não dizer um saco de escorpiões.

Nada sabemos uns dos outros.
Olhamo-nos com desconfiança. E com um misto de inveja e de despeito em relação a países mais desenvolvidos.
Mas a ignorância não é, exclusivamente, portuguesa.
Creio, inclusive, que numerosos dirigentes europeus pouco ou nada conhecem das específicas realidades nacionais.

Pensava-se que o problema dos pobres seria resolvido por uma Europa cheia de solidariedade, de atenções para com os mais débeis, de compaixão por todos os desfavorecidos.
Mentira.
A Europa que aí está favorece os mais ricos, os mais fortes e os mais poderosos, atirando, negligentemente, umas migalhas, e organizando-se para se defender de qualquer pretexto que não seja esse.

A Europa Social é um mito, uma mentira, e uma aldrabice programada, porque as classes mandantes sabiam muito bem o que estavam a fazer.
Foi-nos inculcada a ideia de que seríamos muito felizes, porque seríamos todos iguais.
Nenhuma nação suplantaria as outras.
As decisões seriam irmãmente tomadas, entre sorrisos e reverências amigáveis.
Claro que só a exposição desta ideia mirífica era um absurdo.

A União Europeia, no seu bojo, pretendia, unicamente e talvez exclusivamente, ser uma união económica, comandada pelos países mais desenvolvidos.
Os Estados Unidos nem sequer se perturbaram, eles, em princípio os mais directamente ameaçados por essa hipotética hegemonia. Baralharam, deram as cartas, o sistema ficou na mesma.

Não é bem assim.
Ficou melhor para os mais ricos.
As desigualdades entre as nações não têm sido seriamente discutidas por ser um assunto desinteressante para o eixo económico que, realmente, manda, decide e resolve.

O Parlamento Europeu serve para quê?
É a reprodução dos parlamentos conhecidos.
Há maiorias e minorias. Estas estarão sempre sob o jugo das primeiras." (*)

(*) – Baptista-Bastos – Jornal de Negócios – Lisboa - Portugal - 15 de Maio de 2009.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Os Direitos Espezinhados (Baptista-Bastos)


Almeida Garrett escreveu, um dia, que "as Constituições são feitas para não ser respeitadas."
A afirmação do grande escritor e soldado da Liberdade era a verificação de um facto, não o eco desencantado de quem se deixara vencer pelo desânimo.
Embora o desencanto e o desânimo também dele se hajam apossado.

Lembrei-me da frase e cotejei-a com exemplos: o da nossa magna carta em especial.
A verdade é que nada do que é humano se proclama por decreto.
Lembro-me de que caminhávamos para o socialismo e para uma sociedade sem classes, objectivos abundantemente aplaudidos, à Direita e à Esquerda.
Foi o que se viu.
É o que se vê.

Saint-Just, na Convenção de Paris, afirmou: "A República Francesa proclama que a liberdade é uma ideia nova na Europa. E também que a felicidade é possível entre os homens."
O documento está repleto de boas intenções. E a verdade é que nem tudo se quedou nas intenções. A Revolução arrastou consigo o sopro de que as coisas do mundo poderiam ser alteradas pelas acções dos homens.
Se foram as palavras que incitaram os homens a agir, nem sempre as palavras possuem o poder de remover os imensos obstáculos que se opõem à natureza do que propõem.

Completam-se sessenta anos sobre a Declaração dos Direitos Humanos.
Logo no primeiro artigo, a nobreza da causa está consignada:
"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade."


Porém, as coisas não são bem assim.
A própria nascença de uns e de outros está condicionada pelos privilégios.
Quem nasce na Somália possui os mesmos direitos e as mesmas liberdades de quem nasce, por exemplo, na Alemanha?
E quem nasce pobre, na Alemanha, dispõe das mesmas prerrogativas de quem nasce rico?
E o "espírito de fraternidade" passou a ser comum entre os seres humanos, logo a seguir à publicação da Carta?

Evidentemente, estamos no território das intenções.
E, evidentemente também, nenhuma dessas intenções encontrou concretização. O mundo está melhor, diz-se.
Está melhor para quem?
A banalização do desrespeito pelos direitos do homem atingiu níveis insuspeitados, desde que a Declaração foi tornada pública.

O século XX foi o século das maiores atrocidades, com um desfile de horrores sem paralelo na História.
A II Grande Guerra nunca terminou: prolongou-se por outras, regionais, tribais e religiosas, até hoje ininterruptas.
O latrocínio, o etnocídio, o genocídio prosseguem a parada de infâmias.

A África, mas não só a África, é não apenas o continente do desespero como aquele onde a sangueira corre, perante a total indiferença das potências ocidentais, mais propensas a dar continuidade a políticas de devastação do que a preservar os direitos de uma condição humana cada vez mais desumanizada.
São milhões e milhões de povos africanos submetidos a ditaduras sustentadas pela Europa, com a negligência afrontosa de quem nessa mesma Europa tem a hipocrisia de falar em direitos e liberdades.


Quem se interessa pelas dores alheias?
Pouca gente.
A relação com o outro, já de si pouco sólida, transformou-se numa inqualificável impassibilidade.
Os direitos humanos são os direitos daqueles que se julgam acima de todos os direitos e de todos os deveres.
Com a miséria fazem-se negócios: até o negócio da compaixão e da caridade.
Amontoam-se fortunas com a infelicidade de milhões de seres humanos.

Pol Pot e o horrendo caudal de crimes cometido em nome do comunismo;
as chacinas no Vietname;
os crimes praticados pelas diversas juntas militares em diversos países da América Latina;
o estalinismo e a pretensa justificação do goulag, em nome do combate à contra-revolução e à defesa do socialismo - tudo isto aconteceu depois da edição da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

E a abominação não acabou.
Um pouco, ou largamente, por todo o lado o homem é espoliado da sua própria razão de ser.
Forças poderosíssimas opõem-se a quem luta pelos direitos humanos.
Em certos países, os propugnadores desses direitos eram considerados subversivos e, por vezes, eram encarcerados.
Aconteceu, por exemplo, em Portugal, na época de Salazar.

No artigo 7.º da Carta, lê-se: "Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei."
Sabe-se que não é assim.
Não só em Portugal: em todos os países "civilizados."
Advogados importantes do nosso país, o próprio bastonário da Ordem, Marinho Pinto (que de aqui saúdo), admitem, como axioma, que há justiça para quem tem dinheiro; quem o não tem, que se arranje.

Todos os dias somos confrontados com atropelos às consignas do documento, cujos sessenta anos comemoramos.
Comemoramos, realmente?
E quem comemora?
Aqueles que o praticam?
Mas aqueles que, modesta e discretamente o vão tentando, não recebem o aplauso, rejeitam a glória, o soldo ou a prebenda.

(Baptista-Bastos, jornalista e escritor - Jornal de Negócios, Lisboa, 12 de Dezembro de 2008)
(As marcações do texto, em itálico, são da responsabilidade da Torre)

sábado, 13 de setembro de 2008

Faltam Estado e Paixão a Portugal (Baptista-Bastos)



A prosa narrativa portuguesa é, hoje, uma debilidade em forma de substantivo inócuo, o modo superior de o escritor se não comprometer com coisa alguma, exceptuando o seu imensíssimo umbigo.
A política, tal como é exercida em Portugal, abandonou a ideia de espírito de missão, e tornou-se num generosíssimo meio de se governar a vidinha.
Sinto uma profunda repulsa por esta gente.
Ouvimo-la, vemo-la, assistimo-la e percebemos que está ausente de paixão.
Falha de coragem, gananciosa e sem escrúpulos, diz umas coisas por dizer, removidas quaisquer ideias de progresso, isentas de padrões e de princípios.
Resignámo-nos e acabámos por aceitá-la, sem força nem ânimo para a combater até à sua desaparição.

Aquela coisa desenxabida que foi a Universidade de Verão do PSD tem alguma razão prática de ser, que não um concentrado de narcisistas, cujas "lições" possuem a dimensão de uma melancólica insensatez?
E esta, agora, da "Res Publica", com que o PS pretende suscitar "polémica e refrescar o pensamento"?
Que pensamento?
Não há pensamento político português, se assim me posso exprimir.
A prática política está inteiramente subordinada à economia, e os grandes interesses desenvolveram, potencialmente, uma espécie particular de niilismo cujos resultados, já de si inquietantes, serão, inevitavelmente, e a curto prazo, fatais.

Nem o PS nem o PSD possuem bases teóricas reconhecidas e respeitadas.
Seguem a onda neoliberal, consentindo que a nossa vida não tenha lustro nem alegria nem perspectivas. Digam o que têm dito alguns preopinantes, as diferenças "ideológicas" entre aqueles dois partidos não são separáveis.
E a sua praxis deriva consoante as idiossincrasias pessoais dos seus dirigentes: mais ou menos populistas, mais ou menos retóricos, familiarizaram-se em actuar num espaço associado à "economia de mercado", que converteu o absurdo numa condenação necessária.
O estribilho "Menos Estado, Melhor Estado" entrou nos domínios do religioso.
E a falência dramática do projecto arrastou consigo um rio de desespero, de angústia, de fome, de desemprego e de miséria, ao mesmo tempo que criava o pressuposto de que não havia alternativa.

O começo de uma nova disponibilidade está a recuperar as esperanças.
Os acontecimentos na América Latina surgem como um possível compromisso entre Estado e sociedade, entre Governo e povo. E a disposição, embora ainda ténue, de uma Europa que, esgotada no presente, não descreu totalmente no futuro, pode estimular uma autonomia económica como garantia de uma nova moral.

As leis do "mercado" estão a ser sujeitas a reflexões profundas.
Os perigos advenientes da inexistência de regulação são vários: além de terem concebido uma casta parasitária, que entre si divide benesses e poderes, impeliram as suas próprias estruturas para um beco que só pode encontrar saída numa derrocada de proporções imprevisíveis.

O mundo actual semelha-se ao mito de Sísifo.
Anda de baixo para cima e de cima para baixo, infinitamente sem encontrar o recto caminho, e carregado pelo peso de um rochedo que, mais tarde ou mais cedo, irá rolar pela encosta.
Há muitos anos que não dispomos de dirigentes à altura das mudanças do mundo.
Guiam-se, todos, à Direita e à Esquerda, pela mesma cartilha.
Removeram a ideologia e as convicções do calendário político.

Ao contrário de Sísifo, que recusa, obstinadamente, a derrota, eles submeteram-se às consequências desta união no vazio.
Que valores vão defender os participantes na Res Publica?
Os valores e os princípios que, ao longo dos anos, o PS foi depredando, até os destruir?
Eles aceitaram, sem o mínimo rebuço e sem o menor esforço contrário, a imposição de leis inflexíveis.

A economia, no pior sentido da expressão, impôs o quadro:
 - despedimentos para se obter a "reestruturação" de empresas falidas ou em dificuldades;
- ausência total do Estado nos sectores em que o "privado" pode actuar;
- estímulos materiais e largas benesses aos "gestores" que se não desviem do diktat;
- ... e a filosofia das multinacionais, "deslocando-se" para os países onde a mão-de-obra é mais barata, criou um outro tipo de servos, sendo a escravidão a mesma.

A crise actual do capitalismo (que sempre soube renovar-se e renascer das aparentes cinzas) faz parte do sistema que criou. Não há, ainda, a "unidade perdida" porque o capitalismo reencontra-se permanentemente.
Porém, os mais lúcidos economistas, e os grandes comentadores políticos são unânimes em considerar que, entre separação e comunhão, digamos assim, os problemas vão agravar-se, até níveis inimagináveis.

Fala-se, inclusive, numa crise mais atroz do que a de 1929.
As convulsões sociais aproximam-se.
A hegemonia norte-americana sofre sobressaltos.
E os recentes acontecimentos no Cáucaso, com a Rússia a demonstrar a eficácia das suas armas e as astúcias da sua geopolítica, permite estabelecer a consciência dos perigos que nos rondam. Creio que a reabilitação do Estado, como autoridade e relação social, vai estar na ordem do dia.

(Baptista-Bastos, in Jornal de Negócios, 12 de Setembro de 2008)
(Foto de Pedro David Mendes)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Baptista-Bastos - Onde Está o Lado Certo?

"(...) Vivemos, desde a década de 80, um novo período de sufocação, que se manifesta em vários sectores: desemprego, emigração, esvaziamento ideológico e ausência da política, economia, justiça, cultura, educação.
Há, hoje, dificuldade em escolher o que se julga ser o lado certo onde se deve estar.
E essa dificuldade serve de pretexto para as mais vis renúncias, e de condescendência para com sórdidas traições.

Inculcaram-nos a ideia de que Portugal é inviável e de que somos um povo de madraços.
Como já poucos lêem o que deve ser lido, a afirmação fez fé.
Mas não corresponde à verdade.

Recomendo aos meus dilectos alguns autores antagonistas da absurda tese: Vitorino de Magalhães Godinho, José Mattoso, Luís de Albuquerque, António Borges Coelho e, até, António José Saraiva.
Todos interpelam o País, criticam-no porque o amam, e ensinam-nos que o passado altera-se de todas as vezes que o lemos e interrogamos.
O lado certo está, creio-o bem, quando recusamos a indiferença e não admitimos a resignação."

(Excerto de uma crónica de Baptista-Bastos no "Diário de Notícias", Lisboa, de 21 de Maio de 2008)
(Foto de Alba Luna)

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Portugal - Pátria Mestiça


"Cada vez há mais estrangeiros a pedir a nacionalidade portuguesa.
Brancos, pretos, amarelos, castanhos, entre o loiro e o germânico, entre o glabro e o felpudo, eis uma sublevação de cores e de fácies; um bulício de idiomas que noivam o nosso idioma para exprimir a dor e o riso, a infância e a paixão, a lembrança e o sonho.
Tocaram no batente da casa comum à procura, afinal, do que comum é ao homem: um pouco de felicidade.
E deitam-se no mesmo leito onde, outrora, suevos e visigodos, fenícios e romanos, árabes e celtas procriaram os miscigenados que todos nós somos.

A sintaxe da nossa ascendência possui qualquer coisa de genial.
Não foi, somente, a delimitação do território que construiu uma pátria e moldou uma língua.
Também não foi, apenas, o ferro do montante que marcou uma identidade.
O que definiu o nosso destino foi a argila de um particular nativismo, nascido na cama do amor, no suor dos corpos, na festa do sexo.
Nascemos do prazer.

Saímos portugueses desse almofariz de raças, no entreacto de guerras e de confrontos políticos.
A negação da nossa mestiçagem configurará o assassínio da nossa identidade, e atribui a quem a pratica o estofo de um canalha.
Assim como o ódio exposto, arrogantemente, em placard, demonstra algo de doentio.
Somos uma nação de heterónimos, cheios de coragens e de cobardias, de mares e de corpos, de credos e de superstições.
Um pisar de caminhos antigos puxa-nos as pernas para o imponderável.
Fluxos de muitos sangues fazem pulsar o modo de como aqui estamos.

Há um relatório, "Inter Lusitanos", endereçado a Nero por Políbio Garbus, poeta e procônsul romano, o qual nos retrata como gente estranha, imputando fraqueza de espírito a uma nossa particularidade: a indiferenciação fundamental dos indivíduos.
E adianta: o desdém pelas regras criou nos Lusitanos uma relativa igualdade de raças.
Para um patrício, educado numa sociedade extremamente hierarquizada, este modelo estava desprovido de lógica social, política e filosófica.
As coisas prosseguiram séculos atrás de séculos.

Quando D. Manuel I manda proceder à matança de judeus, num domingo de Pascoela, a 19 de Abril de 1506, liquida a cultura de afectos e de livre partilha dos saberes até então simplificada no reconhecimento da alteridade.
Mas a História não pára o tempo que dentro de si acalenta.
Foi-nos legado um bragal aberto ao mundo, entre intimidades, solidões, angústias e despedidas.
Eis porque precisamos de todos os que nos procuram, porque sempre procurámos todos aqueles de que precisamos."

(Baptista-Bastos - Diário de Notícias - Edição de 17 de Abril de 2007)

sábado, 17 de novembro de 2007

Agressores e Agredidos

 
"A globalização abriu uma excepção cultural que tende a aniquilar o mais nobre dos direitos humanos: o direito ao trabalho.
Um pouco por todo o lado, esse direito é espezinhado ou, simplesmente, não existe.
Criaram-se leis que parecem constituir uma fuga dilatória de qualquer discussão sobre o assunto, como se este permanecesse definitivamente encerrado.
Não será de mais insistir na interiorização do princípio de igualdade, recomendado na Carta dos Direitos Humanos.
O direito ao trabalho concentra, em si mesmo, o conceito de liberdade e de justiça social, numa compreensão das razões do outro que deve tornar-se num compromisso político e ético.

No mesmo dia em que, no Público, Francisco Sarsfield Cabral, abandonando o estilo pungente que o torna no espírito mais mortificado dos "colunistas" portugueses, dava com o sarrafo nos protestatários antiglobalização, - nesse mesmo dia [11. Junho p.p.], no Diário de Notícias, Céu Neves assinava a segunda parte de uma notável reportagem, sobre os "prestígios" do mercado, através de experiência pessoal na Holanda.
E, à noite, no Prós e Contras, da RTP, os depoimentos sobre os escravos do século XXI atingiram níveis de dramática tensão, sobretudo com as corajosas declarações de António Esteves Martins.

Entre a urgência em se combater os novos códigos sociais, impostos por uma ordem económica cuja selvajaria é constantemente omitida, e os que invocam e ratificam o inverso dos princípios - creio não haver hesitação na escolha.
Sarsfield Cabral estabelece confusos paralelismos entre "acesso aos mercados dos países desenvolvidos" e o que entende ser "folclore mediático".
O G8 não estabelece novas relações de civilidade, nem a natureza da sua estrutura é de bonomia. A agressividade está-lhe na índole; o coração gelado é a sua profissão de fé.

Como num contraponto, o impressionante requisitório de Céu Neves fornece-nos amplos motivos de reflexão. Durante duas semanas ela foi operária numa fábrica de tomates.
Ganhou 200 euros e experimentou a brutalidade do trabalho escravo.
Muitos outros portugueses, por essa Europa fora, são submetidos a leis atrozes, reveladoras de um sistema monstruoso, apregoado como "melhorável", embora "inevitável".

Em Portugal as condições de trabalho dos imigrados são semelhantes.
Os novos protagonistas dos grandes desesperos nacionais andam de um para outro lado, em busca do pão e da equidade que lhes negam.
É esta Europa "globalizada" que desejamos - criadora de sociedades a funcionar segundo regras tão implacáveis quanto desumanas?
E como devemos qualificar os seus panegiristas?"

(Baptista-Bastos - Diário de Notícias - 13 de Junho de 2007)