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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O SONO DO ALUNO


O professor disserta sobre ponto difícil do programa.
Um aluno dorme,
Cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudi-lo?
Vai repreendê-lo?
Não.
O professor baixa a voz,
Com medo de acordá-lo.

(Carlos Drummond de Andrade - Brasil)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

MANEIRA DE AMAR


O jardineiro conversava com as flores, e elas se habituaram ao diálogo.
Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava um gerânio.
O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos de natureza.
Em vão o jardineiro tentava captar-lhe as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e de renovar-lhe a terra, na devida ocasião.
O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho.
Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude.
A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem.
"Você o tratava mal, agora está arrependido?" 
"Não, respondeu, estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava". (*)
(*) Carlos Drummond de Andrade (Brasil)

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Desejos

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Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
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Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
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Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.
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Carlos Drummond de Andrade (Brasil)
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sexta-feira, 30 de março de 2012

Infância (Carlos Drummond de Andrade)

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Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho, menino entre mangueiras
lia história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.


No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da sanzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café,
café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.


Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... não acorde o menino,
para o berço onde pousou um mosquito
e dava um suspiro... que fundo!


Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.


(Carlos Drummond de Andrade)
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Salário

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Ó que lance extraordinário:
aumentou o meu salário
e o custo de vida, vário,
muito acima do ordinário,
por milagre monetário
deu um salto planetário.

Não entendo o noticiário.
Sou um simples operário,
escravo de ponto e horário,
sou caxias voluntário
de rendimento precário,
nível de vida sumário,
para não dizer primário,
e cerzido vestuário.

Não sou nada perdulário,
muito menos salafrário,
é limpo meu prontuário,
jamais avancei no Erário,
não festejo aniversário
e em meu sufoco diário
de emudecido canário,
navegante solitário,
sob o peso tributário,
me falta vocabulário
para um triste comentário.

Mas que lance extraordinário:
com o aumento de salário,
aumentou o meu calvário!


(Carlos Drummond de Andrade - 1902-1987)

Brasil.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Hino Nacional (Carlos Drummond de Andrade)

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Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.

Precisamos colonizar o Brasil.
O que faremos
importando francesas
muito louras,
de pele macia,
alemãs gordas,
russas nostálgicas
para garçonettes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas...

Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings
e subvencionaremos as elites.
Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos,
piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.

Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções
são bem maiores do que quaisquer outras;
nossos erros também.
E nossas virtudes?
A terra das sublimes paixões...
os Amazonas inenarráveis...
os incríveis João-Pessoas...

Precisamos adorar o Brasil!
Se bem que seja difícil compreender
o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram
e qual a razão de seus sofrimentos.

Precisamos,
precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso,
tão sem limites,
tão despropositado,
ele quer repousar
de nossos terríveis carinhos.

O Brasil não nos quer!
Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo.
Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe.
E acaso existirão os brasileiros?

Quanto a mim,
sonharei com Portugal.
Às vezes,
quando estou triste
e há silêncio nos corredores e nas veias,
vem-me um desejo de voltar a Portugal.
Nunca lá estive, é certo,
como também é certo meu coração,
em dias tais,
ser um deserto.
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Carlos Drummond de Andrade - Brasil
(1902-1987)
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(Escrito pelo poeta na década de 1930)
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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Também Já Fui Brasileiro (Carlos Drummond de Andrade)

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Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola,
guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora
em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas,
o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso,
dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.

Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.
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Carlos Drummond de Andrade - Brasil - (1902-1987)
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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Destruição (Carlos Drummond de Andrade - Brasil)

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Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto
não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são?
Dois inimigos.

Amantes
são meninos estragados
pelo mimo de amar:
e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo
volve a nada.

Nada.
Ninguém.
Amor, puro fantasma
que os passeia de leve,
assim a cobra se imprime
na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir,
mas o existido
continua a doer
eternamente.

domingo, 27 de junho de 2010

Sentimental (Carlos Drummond de Andrade)


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Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria,
cheia de escamas
e debruçados na mesa
todos contemplam esse romântico trabalho.

Desgraçadamente
falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!

- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!

Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências
um cartaz amarelo:
"Neste país é proibido sonhar."
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Carlos Drummond de Andrade - Brasil (1902-1987)
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sábado, 17 de abril de 2010

Deus Triste (Carlos Drummond de Andrade)

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Deus é triste.
Domingo descobri
que Deus é triste
pela semana fora
e além do tempo.

A solidão de Deus
é incomparável.
Deus não está diante de Deus.
Está sempre em si mesmo
e cobre tudo
tristinfinitamente.

A tristeza de Deus é como Deus:
eterna.
Deus criou triste.
Outra fonte não tem
a tristeza do homem.
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Carlos Drummond de Andrade (Brasil) (1902-1987)
..

sábado, 19 de dezembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade - Provável influência do grande poeta na conquista da 3.ª Copa do Mundo pelo Brasil (1970)


De 31 de Maio a 21 de Junho de 1970, uma selecção brasileira compareceu no México para disputar a fase final da Copa do Mundo de Futebol.
O Brasil possuía (como sempre) jogadores superdotados. Basta lembrar Tostão, Gérson, Carlos Alberto, Rivelino, Jairzinho, Leão.
Possuía, acima de todos, o (sobrenatural) Pelé.
Mas o desfecho de um Campeonato do Mundo é sempre imprevisível, mesmo para o melhor futebol do Mundo, que é o do Brasil (recordem 1950, contra o Uruguai; ou 1966, contra Portugal).

 
... Porém, a par de Pelé e de seus companheiros, o Brasil tinha ainda Carlos Drummond de Andrade, o grande poeta.
Em Maio, às vésperas do início da competição, angustiado pelos males do seu país, ele elevou aos céus esta

Prece do brasileiro

Meu Deus, só me lembro de vós para pedir,
mas de qualquer modo sempre é uma lembrança.
Desculpai vosso filho,
que se veste de humildade e esperança
e vos suplica:
Olhai para o Nordeste onde há fome, Senhor,
e desespero dando nas estradas entre esqueletos de animais.
Em Iguatu, Parambu, Baturité,Tauá
(vogais tão fortes não chegam até vós?)
vede as espectrais procissões de braços estendidos,
assaltos, sobressaltos, armazéns arrombados
e – o que é pior – não tinham nada.

Fazei, Senhor, chover a chuva boa,
aquela que, florindo e reflorindo,
soa qual cantata de Bach em vossa glória
e dá vida ao boi, ao bode, à erva seca,
ao pobre sertanejo destruído
no que tem de mais doce e mais cruel:
a terra estorricada sempre amada.
Fazei chover, Senhor, e já!
numa certeira ordem às nuvens.
Ou desobedecem a vosso mando, as revoltosas?

Fosse eu Vieira (o padre)
e vos diria, malcriado, muitas e boas...
mas sou vosso fã omisso, pecador, bem brasileiro.
Comigo é na macia, no veludo/lã
e matreiro, rogo,
não ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre)
mas ao Deus que Bandeira, com carinho, botou em verso:
“meu Jesus Cristinho”.

E mudo até o tratamento:
por quê “vós”, tão gravata-e-colarinho,
tão“vossa excelência?”
O "você" comunica muito mais
e se agora o trato de “você",
ficamos perto,
vamos papeando
como dois camaradas bem legais,
um, puro;
o outro, aquela coisa, quase que maldito
mas amizade é isso mesmo:
salta o vale, o muro, o abismo do infinito.
Meu querido Jesus, que é que há?
Faz sentido deixar o Ceará sofrer em ciclo
a mesma eterna pena?

E você me responde suavemente:
Escute, meu cronista e meu cristão:
essa cantiga é antiga
e de tão velha não entoa não.
Você tem a Sudene
abrindo frentes de trabalho de emergência,
antes fechadas.
Tem a ONU,
que manda toneladas de pacotes
à espera de haver fome.
Tudo está preparado para a cena
dolorosamente repetida no mesmo palco.
O mesmo drama, toda vida.

No entanto, você sabe,
você lê os jornais, vai ao cinema,
até um livro de vez em quando lê
se o Buzaid não criar problema:
Em Israel, minha primeira pátria
(a segunda é a Bahia)
desertos se transformam em jardins
em pomares, em fontes, em riquezas.
E não é por milagre:
obra do homem e da tecnologia.
Você, meu brasileiro, não acha
que já é tempo de aprender
e de atender àquela brava gente
fugindo à caridade de ocasião
e ao vício de esperar tudo da oração?

Jesus disse e sorriu.
Fiquei calado.
Fiquei, confesso,
muito encabulado,
mas pedir, pedir sempre ao bom amigo
é balda que carrego aqui comigo.
Disfarcei e sorri.
Pois é, meu caro.Vamos mudar de assunto.
Eu ia lhe falar noutro caso,
mais sério, mais urgente.

Escute aqui, ó irmãozinho.
Meu coração, agora, tá no México
batendo pelos músculos de Gérson,
a unha de Tostão,
a ronha de Pelé,
a cuca de Zagalo,
a calma de Leão
e tudo mais que liga o meu país
e uma bola no campo
e uma taça de ouro.
Dê um jeito, meu velho,
e faça que essa taça
sem milagres ou com eles
nos pertença
para sempre, assim seja...
Do contrário
ficará a Nação tão malincônica,
tão roubada em seu sonho e seu ardor
que nem sei como feche a minha crônica.

(Carlos Drummond de Andrade - 30-Maio-1970)

Nota da Torre - ... e o Brasil, pela terceira vez, foi Campeão do Mundo de Futebol...


Pode rever abaixo os golos dessa inesquecível conquista, que os Portugueses também celebraram como sua:

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

(Carlos Drummond de Andrade) (Brasil) - Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris,
ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação
com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)


para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até
no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)


novo,
espontâneo,
que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come,
se passeia,
se ama,
se compreende,
se trabalha,


você não precisa beber champanha
ou qualquer outra birita,
não precisa expedir
nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem


e seja tudo claridade,
recompensa,
justiça entre os homens
e as nações,
liberdade com cheiro e gosto
de pão matinal,
direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro,
tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo,
eu sei que não é fácil,
mas tente,
experimente,
consciente.


É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


(Carlos Drummond de Andrade - Brasil)

domingo, 13 de julho de 2008

O Homem - As Viagens (Carlos Drummond de Andrade)


O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria
e pouca diversão,
faz um foguete,
uma cápsula,
um módulo,
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua
Lua humanidade:
tão igual à Terra.


O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte -
ordena a suas máquinas.
Elas obedecem,
o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte
com engenho e arte.


Marte humanizado,
que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho sofisticado e dócil.
Vamos a Vénus.
O homem põe o pé em Vénus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.


O homem funde a cuca
se não for a Júpiter
proclamar justiça
junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto repetitório.


Outros planetas restam
para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol
ou dá uma volta só pra te ver?
Não vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé:
mas que chato que é o Sol,
falso touro espanhol domado.


Restam outros sistemas
fora do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem (estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão do seu coração
experimentar colonizar
civilizar
humanizar o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene,
insuspeitada
alegria de conviver.

(Carlos Drummond de Andrade - Brasil)