domingo, 22 de novembro de 2009

A Fuga de D. João VI de Portugal para o Brasil - Novembro de 1807 (Oliveira Martins)

."(…) Quem faria face a Napoleão, cuja coorte atravessara a Espanha e pisava já o solo português?
Não seria o príncipe-regente, nem a rainha doida, nem as altas classes ensandecidas, nem o povo faminto, indiferente, sebastianista.
À voz do verdadeiro Anti-Cristo português, que foi Junot, desabou tudo por terra!
A nação, roída nos ossos pelo térmita infatigável, o jesuíta, nem já era o esqueleto, era apenas o pó de um cadáver.
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Três séculos antes, Portugal embarcara, cheio de esperanças e cobiça, para a Índia; em 1807 (Novembro, 29) embarcava num préstito fúnebre para o Brasil.
A onda da invasão varria diante de si o enxame dos parasitas imundos, desembargadores e repentistas, peraltas e sécias, frades e freiras, monsenhores e cadastrados.
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O embarque para o Brasil
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Tudo isso, a monte, embarcava, ao romper do dia, no cais de Belém.
Parecia o levantar de uma feira e a mobília de uma barraca suja de saltimbancos falidos: porque o príncipe, para abarrotar o bolso com louras peças de ouro, seu enlevo, ficara a dever a todos os credores, deixando a tropa, os empregos, os criados, por pagar.
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Desabava tudo a pedaços; e só agora, finalmente, o terramoto começado pela natureza, continuado pelo marquês de Pombal, se tornava um facto consumado. Os cortesãos corriam pela meia-noite as ruas, ofegantes, batendo às lojas, para comprarem o necessário; as mulheres entrouxavam a roupa e os pós, as banhas, o gesso com que caiavam a cara, o carmim com que pintavam os beiços, as perucas e rabichos, os sapatos e fivelas, toda a frandulagem do vestuário.
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D. João VI
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Era um afã, como quando há fogo; e não havia choro nem imprecações: havia apenas uma desordem surda. Embarcavam promiscuamente, no cais, os criados e os monsenhores, as freiras e os desembargadores, alfaias preciosas e móveis toscos sem valor, nem utilidade.
Era escuro, nada se via, ninguém se conhecia. Os botes formigavam sobre a onda sombria, carregando, levando, vazando bocados da nação despedaçada, farrapos, estilhas, aparas, que o vento seco do fim dispersara nessa noite calada e negra.
(…) O príncipe regente e o infante de Espanha chegaram ao cais na carruagem, sós: ninguém dava por eles; cada qual cuidava de si, e tratava de escapar.
Dois soldados da polícia levaram-nos ao colo para o escaler.
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Depois veio noutro coche a princesa Carlota Joaquina, com os filhos.
E por fim a rainha (D. Maria I), de Queluz, a galope. Parecia que o juízo lhe voltava com a crise. Mais devagar!, gritava ao cocheiro; diria que fugimos!
A sua loucura proferia com juízo brados de desespero, altos gritos de raiva, estorcendo-se, debatendo-se às punhadas, com os olhos vermelhos de sangue, a boca cheia de espuma.
O protesto da louca era o único vislumbre de vida. O brio, a força, a dignidade portuguesa acabavam assim nos lábios ardentes de uma rainha doida!
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Tudo o mais era vergonha calada, passiva inépcia, confessada fraqueza.
O príncipe decidira que o embarque se fizesse de noite, por ter a consciência da vergonha da sua fuga; mas a notícia transpirou, e o cais de Belém encheu-se de povo, que apupava os ministros, os desembargadores, toda essa ralé de ineptos figurões de lodo.
E – tanto podem as ideias! – chorava ainda pelo príncipe, que nada lho merecia. D. João também soluçava, e tremiam-lhe muito as pernas que o povo de rastos abraçava.
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D. João VI e Carlota Joaquina
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A esquadra recebera 15 000 pessoas, e valores consideráveis, em dinheiro e alfaias.
Levantou ferro na manhã de 29, pairando em frente da barra até o dia seguinte, às sete horas, que foi quando Junot entrou em Lisboa. Os navios largaram o pano, na volta do mar, e fizeram proa a sudoeste, caminho do Brasil.
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Enquanto a esquadra esteve à vista, pairando, os altos da cidade, donde se descobre o mar, apareciam coroados de povo mudo e aflito.
As salvas dos navios ingleses que bloqueavam o Tejo troavam lugubremente ao longe.
O sol baixava, a esquadra perdia-se no mar, ia-se toda a esperança, ficava um desespero, uma solidão… Soltou-se logo a anarquia da miséria, e na véspera da chegada do Anti-Cristo, Lisboa correu risco de um saque.
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Chegada da família real portuguesa ao Brasil
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Napoleão estava burlado.
O príncipe D. João, a bordo com as mãos nos bolsos, sentia-se bem remexendo as peças de ouro: ia contente com a sua esperteza saloia, única espécie de sabedoria aninhada no seu gordo cérebro. Bocejava ainda: mas porque o enjoo começava com os balanços do mar.
É o que sucede à história, com os miseráveis balanços do tempo: vem o enjoo incómodo e a necessidade absoluta de vomitar.”
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Oliveira Martins (1845-1894) - História de Portugal - 1.ª ed. - 1879 - Lisboa - Portugal.
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3 comentários:

Milu disse...

Gostei bastante de ter lido este texto. Já li alguns livros sobre a fuga - que fuga foi - de D.João VI para o Brasil, mas determinados pormenores aqui descritos não constavam neles! Até custa a acreditar, mas se pensarmos melhor, verificamos que, actualmente, também temos algumas figuras com poderes neste país que não detêm postura para tal. Uma dessas figuras é o professor Cavaco Silva. Como é que uma pessoa assim, com uma figura tão tenebrosa, com uma forma de se expressar tão seca e teatral chega a Presidente da República? Nem a imagem de D. João com os bolsos a abarrotar de pedaços de frango me choca tanto!

ascendens disse...

Claro... o governo de Portugal mede-se pelo bom estilo e estética e não por questões de verdade.... isto vai lindo vai.

Em segundo lugar a "fuga" estava preparada,e jornais ingleses da época dão conta disso. Há registos, documentos conforme a família real tinha programado salvar a coroa e a corte deslocando-se para outra parte do território português (Brasil). A conservação do território do império, a conservação da coroa e da corte frustraria o plano da "cavalaria maçónica". Em Espanha a coroa foi tomada pelos franceses, coisa que não passou em Portugal. Logicamente que há a necessidade dos autores portugueses e brasileiros do liberalismo, jacobinos, escreverem contra o Rei, contra a Igreja e contra a aliança inglesa naquela época. A França napoleónica nunca tomou Portugal com "legitimidade internacional", teve de preparar posteriormente o desmantelamento e o enfraquecimento da Igreja e da monarquia para lançar a "alternativa": a res publica.

Ouvimos de tudo...

Saibam os senhores que Portugal é católico e monárquico, e o "outro portugal" é outro que nada tem a ver com o "Portugal de Sempre" que continua ocupado pela mentira.

fernando chiarelli disse...

CÁ EM BRASIL TEMOS FIGURAS Q CHOCAM MUITO MAIS Q AQUELES BOLSOS ABARROTADOS DE PÉS DE FRANGO
SAO OS APEDEUTAS Q JAMAIS AGARRARAM UM LIVRO NA VIDA E HOJE GOVRNAM DANDO NO Q ESTA DANDO