sábado, 23 de julho de 2016

Sonhar e realizar o impossível - THOR HEYERDAHL e a viagem da jangada "KON-TIKI"

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Síntese - Thor Heyerdahl foi zoólogo, geógrafo e explorador. Nasceu na Noruega, em 1914, e faleceu na Itália, em 2002. O seu nome tornou-se conhecido em todo o mundo, no ano de 1947, por ter comandado, na jangada Kon-Tiki, a expedição que cruzou o Oceano Pacífico desde o Peru até à Polinésia, numa extensão de 4300 milhas marítimas (cerca de 8000 quilómetros).
Com essa viagem de 101 dias, durante a qual não recebeu qualquer apoio exterior, o norueguês deixou praticamente provado que as ilhas da Polinésia terão sido inicialmente povoadas a partir da América do Sul - e não a partir da Ásia, como até então se supusera.
Thor Heyerdahl escreveu um relato empolgante da extraordinária aventura, o qual foi traduzido em mais de 60 países e vendeu cerca de 25 milhões de exemplares.
Sigo aqui, de muito perto, uma antiga edição portuguesa da sua obra (A Expedição da Kon-Tiki - Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, 1958). Existem vários exemplares na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota: H. G. 30331 P).

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A ideia ocorrera a Thor Heyerdahl dez anos antes, durante a sua permanência em Fatu Hiva, uma das ilhotas polinésicas do arquipélago das Marquesas. Foi aí que começou a juntar indícios resultantes das suas investigações no terreno, e foi aí que, fascinado, os relacionou com as lendas que ia ouvindo ao velho Tei Tetua à volta da fogueira.
 
Tei Tetua era o único sobrevivente das extintas tribos da costa oriental de Fatu Hiva. Falava das remotas origens do seu povo - primitivo habitante das ilhas da Polinésia - dizendo que ele tinha sido conduzido até ali por um tal Tiki, filho do Sol, que era simultaneamente deus e chefe.
 
Segundo Tei Tetua, a sua gente viera de leste, dos lados da América, transportada em ligeiras embarcações que flutuavam, empurradas pelos ventos, ao sabor das correntes marítimas.
 
Tohr Heyerdahl principiou então a juntar as peças. Recordou que os primeiros europeus que se aventuraram no Pacífico haviam descoberto nas ilhas polinésicas uma gente alta e esbelta, de tez clara e nariz aquilino, que falava uma língua que nenhum outro povo compreendia. Alguns possuíam olhos azul-acinzentados, usavam longas barbas e a cor do cabelo variava entre o avermelhado e o louro.
Nalguns locais, os europeus depararam com antiquíssimas  pirâmides, ruas calçadas e estátuas de pedra da altura de uma casa europeia de quatro andares.
 
Lendas alusivas a brancos misteriosos, de quem esses ilhéus descenderiam, eram correntes em toda a Polinésia. Não podiam ter vindo de oeste, onde habitavam povos primitivos de tez escura, da Austrália e da Melanésia, nem da Indonésia ou da costa asiática.
 
Thor Heyerdahl voltou a atenção para a costa leste mais próxima, centrando-se na região da República do Peru, terra dos Incas, onde não havia falta de vestígios. Ali vivera outrora um povo desconhecido, fundador de uma das mais estranhas civilizações do mundo.
 
Os homens desse povo extraíam das montanhas blocos de pedra de tamanho descomunal e transportavam-nos pelo campo, quilómetros a fio. Depois punham-nos em pé ou colocavam-nos uns por cima dos outros para formar portões, paredões e terraplenos.
 
Quando esse povo desapareceu subitamente da região, deixou atrás de si enormes estátuas de pedra semelhantes a seres humanos que faziam lembrar as de Pitcairn, as das ilhas Marquesas e as da ilha de Páscoa. E, também, grandes pirâmides construídas em degraus como as de Taiti e de Samoa.
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Quando os primeiros espanhóis irromperam nessa região montanhosa, incluída no império dos Incas, ouviram destes que os colossais monumentos abandonados no meio da paisagem tinham sido erigidos por uma raça de deuses brancos que ali haviam vivido antes deles.
 
Esses arquitectos desaparecidos eram, segundo a descrição dos Incas, homens sábios, pacatos, oriundos do Norte na aurora dos tempos. Tinham ensinado aos antepassados dos Incas a arquitectura e a agricultura, assim como os bons costumes e as boas maneiras. Não se confundiam fisicamente com os indígenas: tinham a pele branca, ostentavam longas barbas e eram também de maior estatura.
Os Incas acabaram senhores do país. Os seus mestres brancos sumiram-se para sempre da terra sul-americana, marchando para oeste e atravessando o Pacífico.
 
Thor Heyerdahl continuou as pesquisas. Notou que, quando Roggeween chegou à ilha de Páscoa, em 1722, avistou com surpresa "homens brancos" entre os que se achavam na praia. E essa gente referia, com aparente convicção, os seus antepassados de tez branca - recuando até ao tempo do famoso Tiki, que tinha singrado através do oceano "vindo de uma terra montanhosa a leste, requeimada pelo sol".
 
Heyerdahl achou surpreendentes vestígios de tudo isto na mitologia e na língua do Peru.
 
Lia ele, um dia, as lendas incas do Rei-Sol Virakocha, que fora chefe supremo do remoto povo branco do Peru, quando deparou com o seguinte:
 
"Virakocha é um nome inca (ketchua) e, por conseguinte, de data relativamente recente. O nome original do deus-sol Virakocha era Kon-Tiki, que significa Sol-Tiki ou Fogo-Tiki.
Kon-Tiki era sumo sacerdote e rei dos lendários "homens brancos", que tinham deixado as enormes ruínas nas margens do lago Titicaca.
 
Rezava a lenda que Kon-Tiki fora atacado por um chefe de nome Cari, que veio ao vale de Coquimbo.
Na batalha travada numa ilha do lago Titicaca, os misteriosos brancos barbados foram desbaratados. Kon-Tiki e os seus companheiros mais chegados conseguiram escapar e, mais tarde, deslocaram-se até à costa, de onde finalmente desapareceram sobre o mar para as bandas do ocidente".
 
Thor Heyerdahl ficou sem dúvidas de que o branco deus-chefe Sol-Tiki, expulso do Peru para o Pacífico pelos antepassados dos Incas, era o mesmo branco deus-chefe Tiki, filho do Sol, a quem os habitantes de todas as ilhas orientais do Pacífico reconheciam como primitivo fundador da sua raça.
E os pormenores da vida de Sol-Tiki no Peru, bem como os nomes de lugares em redor do lago Titicaca, repetiam-se nas lendas evocadas pelos naturais das ilhas do Pacífico.
 
Por toda a Polinésia, Thor Heyerdahl achou indicações de que a pacífica raça de Kon-Tiki não logrou conservar as ilhas só para si durante muito tempo.
 
Segundo tais indicações, barcaças de guerra, amarradas duas a duas, haviam transportado povos indígenas do nordeste até ao Hawai e, mais para sul, até às restantes ilhas.
Foi este o segundo povo a chegar à Polinésia, por volta de 1100. Ignorava a cerâmica, os metais, a roda, o tear e o cultivo de cereais.
Os guerreiros recém-chegados misturaram o seu sangue com o da raça de Kon-Tiki, originando um novo tipo de civilização nas ilhas polinésicas.
 
 
Thor Heyerdahl expondo a sua teoria no Clube dos Exploradores de Nova Iorque
 
 Chegou a Segunda Guerra Mundial. E veio a paz. Thor Heyerdahl elaborara entretanto, por escrito, a sua teoria sobre o primitivo povoamento das ilhas polinésicas: Polinésia e América - Estudo de suas relações pré-históricas.
Concluía basicamente que um antigo povo branco partira da América do Sul havia cerca de 1500 anos, navegando, nas embarcações então disponíveis, ao sabor das correntes marítimas e dos ventos dominantes, até atingir e povoar as ilhas da Polinésia.
 
Viajando até aos Estados Unidos para apresentar o seu trabalho, parece só ter conseguido suscitar algum entusiasmo nos frequentadores do Clube dos Exploradores de Nova Iorque ou nos do Lar dos Marinheiros Noruegueses, em Brooklyn, para onde teve de se mudar por razões financeiras.
 
Os sábios americanos, por seu turno, moveram-lhe furiosa oposição. Pura e simplesmente não admitiam que fosse materialmente possível a um nebuloso e remoto povo concretizar, com os recursos da época, a navegação de 8000 quilómetros pretendida pelo investigador norueguês.
 
Thor Heyerdahl narra, no seu livro, como exemplo das dificuldades que enfrentou, o tempestuoso encontro com um desses velhos sábios num museu de Nova Iorque:
 
- (O sábio) O senhor não tem razão. Está erradíssimo!
- (Thor) Mas o senhor ainda não leu os meus argumentos...
- (O sábio) Argumentos! Não é possível tratar de problemas etnográficos como se fosse um romance policial!
- (Thor) Por que não? Baseei todas as minhas conclusões em observações pessoais e em factos registados pela Ciência.
- (O sábio, afastando para o lado o manuscrito de Thor e inclinando-se sobre a mesa) É bem verdade que a América do Sul foi a pátria de algumas das mais curiosas civilizações da antiguidade, e que não sabemos para onde foram quando os Incas passaram a dominar ali. Uma coisa, porém, sabemos ao certo: é que nenhum povo da América do Sul se passou para as ilhas do Pacífico. Sabe por quê? É simples. Porque não podiam chegar lá. Não dispunham de botes!
- (Thor) Mas dispunham de jangadas. Jangadas de madeira de balsa!
- (O sábio, sorrindo) Não me venha dizer que o senhor é capaz de tentar uma excursão, desde o Peru até às ilhas do Pacífico, numa jangada de madeira de balsa!
 
Thor Heyerdahl não respondeu, mas é possível que se tenha decidido pelo grande projecto durante cenas como esta.
Daí em diante, forcejou por obter apoios diversos, incluindo o de patrocinadores. Reuniu, também, elementos adicionais, designadamente sobre as jangadas de madeira de balsa (mais leve do que a cortiça) cujos segredos de construção tinham sido herdados pelos Incas do misterioso povo branco de Kon-Tiki. Para o efeito, estudou minuciosamente os relatos e os desenhos deixados pelos Espanhóis após o seu encontro com os Incas.
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E tratou, naturalmente, de recrutar, não sem dificuldades, aqueles que seriam os seus companheiros de viagem. Todos noruegueses, com excepção do sueco Danielssen. 
 
Na foto acima, da esquerda para a direita: Knut Haugland - Bengt Danielssen - Thor Heyerdahl (de braços cruzados) - Erik Hesselberg (de boina) - Torstein Raaby - Herman Watzinger.
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Os troncos de madeira de balsa foram obtidos por Thor Heyerdahl na selva do Equador, onde os Incas iam buscá-los outrora.
Acompanhado por Herman Watzinger, deslocou-se até às plantações de balsa de D. Frederico von Buchwald, situadas nas proximidades de Quivedo, bem no interior do país.
O troço final da viagem foi percorrido num jeep conduzido por um capitão do exército do Equador, especialmente destacado para os proteger. Terra de chuvas abundantes, de coberturas vegetais quase impenetráveis, de escorpiões gigantes e de venenosas serpentes a balouçarem-se nas ramarias. E, de acordo com testemunhos locais, ainda infestadas por degoladores profissionais e caçadores de cabeças (Thor conta que, em Quito, lhes foram oferecidas por preço módico - a ele e a Watzinger -, duas cabeças humanas habilmente mumificadas e reduzidas segundo a melhor técnica do ramo).
Enfim derrubados, os troncos de balsa flutuaram sem problemas pelos rios da região até chegarem ao litoral do Equador. Daí partiram, carregados num barco a vapor, até ao porto de Callao, no Peru, onde a aventura teria início. 
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A jangada, que Thor Heyerdahl resolveu baptizar com o nome de "Kon-Tiki" em homenagem ao remoto chefe do misterioso povo branco, foi construída pelos expedicionários nos estaleiros da Marinha peruana em Callao, para o que foi necessária autorização expressa do Presidente da República.
 
Foram escolhidos os nove troncos de maior envergadura, em cuja superfície se traçaram sulcos fundos para impedir que as cordas de cânhamo que os deviam manter no lugar escorregassem ao longo deles.
Seguindo a técnica dos seus remotos antecessores, os construtores não utilizaram um único prego, cavilha ou cabo de arame.
 
Os troncos de balsa foram primeiro colocados lado a lado na água, de modo que pudessem flutuar livremente na sua posição natural antes de serem fortemente amarrados uns aos outros. O toro mais longo, com 13,70 metros, foi colocado no centro, projectando-se bem além dos outros numa e noutra extremidade.
À ré, foram fixados toletes para sustentarem o comprido remo de direcção.
 
A jangada foi tomando forma, laboriosamente ligada com cordas de cerca de trezentos comprimentos diferentes, cada qual amarrada com nós firmíssimos.
Sobre ela foi posta uma coberta feita de taquaras, amarradas na forma de sarrafos separados e cobertos com esteiras soltas de bambu trançado.
 
No meio da jangada, mas mais perto da popa, foi erguida uma pequena cabina aberta, feita de bambu, com telhado também de bambu combinado com folhas de bananeira que se encaixavam umas nas outras como se fossem telhas.
À frente da cabina levantaram-se dois mastros. Eram de mangueiro, de uma dureza de ferro, inclinavam-se um para o outro e, no topo, estavam amarrados em cruz.
 
Em seguida, foi içada a verga de bambu e desenrolada a vela, que tinha ao centro o desenho da cara barbada de Kon-Tiki: tratava-se da cópia fiel da cabeça do Rei-Sol esculpida em pedra vermelha numa estátua das ruínas da cidade de Tiahuanaco.
 
A 27 de Abril, carregados os mantimentos, um bote auxiliar de borracha e as bagagens indispensáveis, foi hasteada na jangada a bandeira da Noruega. Ao longo da verga, no tope do mastro, tremulavam as bandeiras dos países que, de uma forma ou doutra, tinham dispensado algum apoio à expedição.
 
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A largada da "Kon-Tiki" para a sua histórica viagem aconteceu no porto de Callao, Peru, no dia 28 de Abril de 1947.
O momento foi testemunhado por uma multidão entusiasmada. Entre ela, viam-se altas autoridades peruanas e os representantes de diversos países.
 
Em homenagem a Thor Heyerdahl e aos companheiros, seguem-se alguns momentos marcantes da sua epopeia, tal como o comandante os relatou.
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Os primeiros dias da "Kon Tiki" no mar
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A organização do governo da embarcação era o nosso maior problema. A jangada fora construída exactamente como a haviam descrito os espanhóis, mas não existia nenhuma pessoa viva no nosso tempo que nos pudesse ministrar um curso prático de como governar uma jangada indígena.
 
À medida que o vento sueste aumentava em força, era necessário manter a jangada em tal marcha que a vela se enfunasse da parte da popa. A luta era árdua: enquanto três homens pelejavam com a vela, os outros três lidavam com o comprido remo de governo para pôr na devida posição o bico de proa da jangada, afastando-o do vento.
 
À tardinha, já o vento alísio soprava com toda a força. O resultado foi que o oceano se tornou agitado e roncador, enquanto as águas nos invadiam pela parte de trás. Ali, no vasto oceano, as coisas só correriam bem se as qualidades da jangada fossem realmente boas. Sabíamos que dali em diante não teríamos vento que soprasse para terra nem jeito de voltar atrás.
 
A única coisa a fazer era seguir avante a todo o pano; se tentássemos virar, derivaríamos em alto mar e com a popa para a frente. Só havia uma alternativa: navegar ao sabor do vento com a proa voltada para poente. Era essa, afinal, a meta da nossa viagem: acompanhar o Sol no seu curso, como supúnhamos que Kon-Tiki e os adoradores do astro-rei tinham feito quando foram postos em fuga do Peru rumo ao mar.
 
Já não havia dúvida de que havíamos entrado na parte mais vertiginosa da corrente de Humboldt. As ondas, tal como se apresentavam, pertenciam a determinada corrente, não sendo apenas movidas pelo vento. Em toda a extensão que nos cercava, a água era verde e fria; as recortadas montanhas do Peru tinham desaparecido atrás, no meio de densas massas de nuvens.
 
Quando ouvimos o ruído generalizado do mar em torno de nós, subitamente abafado pelo silvo de uma vaga próxima, e vimos uma crista branca  vir, como que às apalpadelas, ao nível do telhado da cabina, esperámos sentir a massa de água despenhar-se sobre nós. Mas, de cada vez, era a mesma surpresa e o mesmo alívio. A "Kon-Tiki" calmamente meneava a popa para cima e erguia-se imperturbável, enquanto a massa de água lhe resvalava pelos lados. Então abismávamo-nos de novo no espaço compreendido entre duas ondas, aguardando outro embate.
 
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Sobre o dia a dia na jangada
 
Quanto a mim, tinha bastante que fazer com o diário de bordo, a colecção de plâncton, a pesca e as fotografias. Cada homem tinha a sua esfera de responsabilidade e nenhum se intrometia no trabalho alheio. As ocupações piores, como cozinhar e montar guarda ao remo de direcção, eram divididas igualmente entre todos. Cada um tinha de ficar junto do remo duas horas por dia e duas horas por noite. O serviço de cozinha era distribuído de acordo com uma escala diariamente renovada.
 
 
Havia poucas leis e regulamentos a bordo. Reduziam-se mais ou menos ao seguinte: o vigia nocturno devia ter uma corda em volta da cintura; a corda salva-vidas tinha um lugar certo; todas as refeições deviam ser feitas fora da cabina; o WC situava-se exclusivamente na mais afastada extremidade dos toros, à ré. Se era necessário tomar alguma decisão importante, reuníamo-nos em assembleia, discutíamos o assunto e resolvíamos o que havia a fazer.
 
Um dia ordinário, a bordo da "Kon-Tiki", começava com a obrigação, que incumbia ao último vigia nocturno, de infundir um pouco de vida no cozinheiro, sacudindo-o; este, estremunhado, arrastava-se para o convés húmido, onde já batia o sol da manhã, e punha-se a recolher os peixes-voadores que ali caíam.
Em vez de comer os peixes crus, conforme a receita tanto polinésica como peruana, fritávamo-los sobre o fogãozinho "Primus" colocado no fundo do caixote, solidamente amarrado ao convés, do lado de fora da porta da cabina.
 
Este caixote era a nossa cozinha. Nele, havia abrigo contra os ventos alísios de sueste, que, por via de regra, sopravam do lado oposto ao da nossa cozinha. Somente quando o vento e o mar atiçavam a chama do "Primus" é que esta ameaçava pegar fogo ao caixote. Certa vez, o cozinheiro adormeceu e o caixote ficou em chamas, que se comunicaram à parede da cabina de bambu. Mas o fogo foi depressa extinto, porque, afinal, a bordo da "Kon-Tiki" não tínhamos de ir muito longe para buscar água.
 
Raramente o cheiro de peixe frito lograva acordar os dorminhocos no interior da cabina, e, assim, o cozinheiro tinha quase sempre de espicaçá-los com um garfo ou de cantar o É a hora do rancho, de uma maneira tão desafinada que ninguém podia suportar o berreiro por muito tempo.
Se, ao longo da jangada, não se viam barbatanas de tubarão, o dia principiava com um ligeiro mergulho no Pacífico, seguido da primeira refeição, feita ao ar livre na beira da jangada.
 

 
 
Companheiros e visitantes marinhos
 
Logo no primeiro dia em que ficámos sós no mar, reparámos nuns peixes que rodeavam a jangada, mas estávamos muito atarefados para pensarmos em pescarias. No segundo dia, deparou-se-nos um cardume de sardinhas e, logo depois, um tubarão azul de 2,40 metros veio rolar de barriga para cima, enquanto roçava na popa alagada da embarcação. Andou-nos rodeando por algum tempo, mas desapareceu quando, resolvidos a agir, pegámos num arpão.
 
No dia seguinte fomos visitados por atuns, bonitos e dourados, e quando um grande peixe-voador caiu na jangada, empregámo-lo como isco e imediatamente puxámos para dentro dois grossos dourados, respectivamente de 9 kg e e 16 kg cada um. Serviram-nos de alimento durante vários dias.
 
Quanto mais nos aproximávamos do Equador e nos distanciávamos da costa, mais comuns se tornavam os peixes-voadores. Quando, por fim, penetrámos na água azul, onde o mar rolava majestosamente, brilhante de sol e manso, vimo-los cintilar como uma chuva de projécteis, arrojando-se da água  e voando em linha recta até que a sua força voadora se esgotasse. Então desapareciam abaixo da superfície.
 
A nossa intimidade com o mar só foi verdadeiramente compreendida por Torstein - que dormia com a cabeça na soleira da porta da cabina - quando, uma manhã, ao acordar, encontrou uma sardinha no travesseiro. Pegou nela pela cauda e segredou-lhe que todas as sardinhas gozavam da sua simpatia. Mas depois sucedeu qualquer coisa que fez com que Torstein fosse procurar, para dormir, um lugar no alto de todos os trens de cozinha.
 
Isso aconteceu algumas noites mais tarde. Estava escuro como breu, e Torstein havia colocado a lâmpada de parafina perto da cabeça. Por volta das quatro horas, acordou com a lâmpada revirada e uma coisa fria e húmida a roçar-lhe pelas orelhas. "Peixe-voador", pensou, tacteando no escuro a ver se o agarrava para o atirar longe. Pegou assim numa coisa comprida e molhada que se agitava como uma cobra, mas largou-a ao perceber que as mãos lhe ardiam como se estivessem queimando. O visitante invisível enroscou-se e escapuliu-se, indo passar por cima de Herman, enquanto Torstein procurava acender a lâmpada. Herman também acordou assustado, e isto, pondo-me igualmente desperto, lembrou-me o polvo que, naquelas águas, surgia à noite.
 
Depois que conseguimos acender a lâmpada, Herman, triunfante, estava sentado, segurando o pescoço de um peixe comprido e fino que se retorcia nas suas mãos como uma enguia. Tinha uns 95 centímetros de comprimento, era delgado como uma serpente, possuía feios olhos pretos e longo focinho com uma voraz mandíbula cheia de dentes afiados como navalhas.
Sob a pressão dos dedos de Herman, o animal regurgitou dois peixes brancos de cerca de 20 centímetros. Eram claramente duas "vítimas" que habitavam as grandes profundidades, e estavam bastante maltratados pelos dentes do peixe-cobra. 
Bengt também acordara afinal com o barulho, e assim aproximámos do nariz dele a lâmpada e o comprido peixe. Estremunhado, sentou-se no seu saco de dormir e proclamou, com solenidade: Não, peixe assim não existe. E, virando-se pacatamente para o lado, tornou a adormecer.
 
 
Tubarões!

 
Não decorrera ainda muito tempo de viagem quando o primeiro tubarão nos visitou.  Depois, as visitas tornaram-se uma ocorrência quase quotidiana. As mais das vezes seguiam na nossa esteira, logo atrás do remo de direcção, ali permanecendo sem tugir nem mugir, passando furtivamente de estibordo para bombordo e, vez por outra, dando uma rabanada mansa para acompanhar o plácido avanço da jangada.
 
Se o mar estava encapelado, as ondas eram capazes de erguer o peixe bem acima do nosso nível. Tínhamos então uma vista directa, lateral, do tubarão - como se este se achasse encerrado numa redoma de vidro -, quando ele nadava no nosso rumo, com porte majestoso, e precedido da sua escolta de peixes-pilotos, bem à frente das suas mandíbulas.
Por alguns segundos, parecia que não só o tubarão mas também os seus companheiros iriam entrar a bordo, mas a jangada inclinava-se, graciosamente, para sotavento, erguia-se sobre a crista das ondas e baixava do outro lado.
 
Na realidade, tínhamos grande respeito pelos tubarões, devido à sua fama e à sua aparência assustadora. Havia uma força indomável naquele corpo aerodinâmico, um grande feixe de músculos de aço, com os olhinhos verdes de gato e as imensas mandíbulas.
Quando o timoneiro gritava tubarão a estibordo! ou tubarão a bombordo!, costumávamos sair à procura de arpões e fateixas e postávamo-nos ao longo da beira da jangada. O nosso respeito pelo animal crescia quando víamos as fateixas vergar como esparguetes ao baterem contra a lixa do dorso do peixe, ao passo que as pontas dos arpões se rompiam no aceso da batalha, durante a qual a água fervia ao redor de nós e o animal lograva soltar-se e lá se ia embora.
 
Para salvar a ponta do nosso último arpão, amarrámos, num feixe, os nossos maiores anzóis e escondemo-los no interior da carcaça de um dourado. Atirámos o isco ao mar com infinitas precauções, depois de havermos amarrado algumas linhas de aço no parapeito da jangada.
O tubarão aproximou-se, confiado e vagaroso, e ao mesmo tempo que levantava o focinho acima da água, abriu de golpe as grandes mandíbulas em forma de crescente e fez resvalar por elas dentro o dourado inteiro.
 
Houve então uma batalha durante a qual o tubarão vergastava a água espumante, mas nós segurávamos a corda com muita firmeza, e a custo arrastámos o animal até aos toros posteriores, onde abriu a boca como para nos intimidar com as filas paralelas de uns dentes que pareciam serrotes.
Então aproveitámos uma onda mais forte para fazer o tubarão deslizar, suspendendo-o pela extremidade mais baixa dos toros, escorregadia por causa das algas, e, depois de laçar com uma corda a barbatana caudal, puxámo-lo facilmente para bordo. Na cartilagem do nosso primeiro tubarão achámos a ponta do arpão. Estava tudo terminado.
 
 
 
 
O monstro
 

 Estávamos a 24 de Maio e vogávamos num mar calmo. Era quase meio-dia e acabávamos de deitar à água as tripas de dois grandes dourados que tínhamos pescado de manhã cedo. Eu dava um refrescante mergulho junto à proa, preso à ponte por uma corda, quando avistei um grosso peixe pardo que vinha na minha direcção. De um pulo, galguei a beira da jangada e sentei-me ao sol quente observando o peixe que passava tranquilamente, quando ouvi um formidável berro de Knut: Tubarão!
Como quase diariamente víamos, sem tamanho estardalhaço, tubarões nadando ao lado da jangada, compreendemos que se devia tratar de um novo espécime e reunimo-nos todos na popa para o observar.
 
Avistámos a cabeça de um verdadeiro monstro marinho, tão descomunal e horroroso que o próprio Neptuno, surgindo com o seu tridente dos abismos do oceano, não nos faria impressão maior. A cabeça era larga e chata como a de uma rã, com dois olhinhos de cada lado e uma mandíbula de sapo, de 1,20 m ou 1,50 m de largura, e com longas franjas a penderem-lhe dos cantos da boca. Atrás da cabeça, estendia-se um enorme corpo terminando em comprido e fino rabo  com uma pontuda barbatana caudal erecta, a provar que aquele monstro não era nenhuma espécie de baleia.
Tratava-se, na realidade, de um tubarão-gigante [tubarão-baleia], o maior peixe hoje conhecido no mundo. Possui, em média, 15 m de comprimento e, segundo os zoólogos, chega a pesar 15 toneladas. Mas dizem que alguns espécimes podem atingir os 20 m.
 
O monstro era tão grande que, quando começou a nadar descrevendo círculos,  em redor de nós e sob a jangada, a sua cabeça podia ser vista de um lado enquanto a cauda inteira avultava do outro. Repetidas vezes descreveu círculos cada vez menores sob a jangada, enquanto nós aguardávamos o que podia acontecer. Ao sair da outra banda, deslizou lentamente sob o remo de direcção e ergueu-o no ar, enquanto a pá do remo resvalou ao longo do seu dorso.
 
Não havia indício de que o tubarão-gigante pensasse em nos deixar; fazia círculos e mais círculos e seguia-nos como um cão fiel, perto da jangada. Afinal, aquilo afigurou-se demasiado irritante para Erik, que estava de pé empunhando um arpão de 2,40 m. Quando o tubarão-gigante veio deslizando vagarosamente na direcção dele, Erik, com toda a sua força gigantesca, arremessou o arpão que foi cravar-se na cabeça cartilaginosa do animal. Então, repentinamente, o plácido lorpa transformou-se numa montanha de músculos de aço.
 
Ouvimos um ruído sibilante quando a linha do arpão passou violentamente sobre a beira da jangada, e vimos um cascatear de água quando o monstro ergueu alto a cabeça para logo depois mergulhar nos abismos. Os três homens que se achavam mais perto foram atirados de pernas para o ar, e dois deles ficaram esfolados e queimados pela linha que fendia o ar. A linha grossa, com resistência suficiente para amarrar um bote, partiu-se como um pedaço de cordel, e uns segundos depois um arpão quebrado surgiu à tona da água a mais de 180 metros de distância. Ficámos longo tempo à espera de que o monstro voltasse como um submarino furioso; mas nunca mais vimos nenhum vestígio dele. 
 
 


Primeiro avistamento da Polinésia
 
Na noite de 29 para 30 de Julho, nova e estranha atmosfera pairava sobre a "Kon-Tiki". Era talvez o alarido ensurdecedor das aves marítimas sobre nós, como para mostrar que, breve, teríamos novidades.
A algazarra das aves era vibrante e terrestre, depois do surdo rangido de cordas sem vida, única coisa que ouvíramos, além do estridor do mar, durante os três meses de navegação.
 
Às seis horas, Bengt desceu da ponta do mastro, acordou Herman e deitou-se. Quando Herman marinhou pelo mastro rangedor e oscilante, o dia começava a raiar. Dez minutos depois tornava a descer pela escada de corda e puxava-me pela perna: Saia e venha ver a sua ilha!
Tinha o rosto radiante. Pus-me em pé de um salto, no que fui imitado por Bengt, que ainda não pegara no sono. Um atrás do outro, amontoámo-nos no lugar mais alto que pudemos atingir, no ponto em que os mastros se cruzavam.
 
Terra! Uma ilha! Devorámo-la avidamente com os olhos e acordámos os outros, que, estremunhados, saíram de roldão e olharam para todos os lados como se pensassem que a proa da jangada ia já abicar a uma praia. Barulhentas aves marinhas formavam uma ponte, através do céu, na direcção da ilha distante, que tomava a cor do ouro com a aproximação do sol e a plena luz do dia.
 
No entanto, na nossa posição actual,  o vento não nos permitia colocar a jangada no rumo da ilha. A região que ficava em redor do arquipélago de Tuamotu estava cheia de fortes correntes oceânicas que se ramificavam em vários sentidos e nos impediam o acesso a terra.
Às seis e meia, o sol emergiu do mar e subiu directamente, como acontece nos trópicos. A ilha ficava distante algumas milhas marítimas e, de longe, parecia uma faixa de floresta que se estendia no horizonte. Pelos nossos mapas, tratava-se da ilha de Puka-puka, posto avançado do arquipélago de Tuamotu.
 
Todos nos sentimos cheios de uma satisfação plena e tranquila por havermos, de facto, alcançado a Polinésia, mas a essa satisfação vinha misturar-se ligeiro e momentâneo desencantamento pela irremediável situação de apenas podermos ver a ilha, que permanecia como uma miragem, enquanto prosseguíamos o nosso longo cruzeiro para oeste.
 
A ilha começara agora a diminuir e a ficar à nossa retaguarda, de modo que recebíamos dela ligeiros sopros de aragem. Durante uns quinze minutos, eu e Herman, agarrados à ponta do mastro, deixámos o cheiro quente de folhagem e verdura coar-se pelas nossas narinas.
Aquilo era a Polinésia, aquele rico cheiro de terra seca após noventa e três dias de água salgada e no meio das ondas.
 
Às oito e meia, Puka-puka afundou-se no mar atrás de nós, mas até às onze horas pudemos ver uma esgarçada lista azul acima do horizonte, a leste. Depois, também isto desapareceu, e uma nuvem alta, elevando-se quase imóvel para o céu, era o único indício que se tinha da situação de Puka-puka.
 

 
Desembarque na ilha deserta de Raroia (Polinésia)
(7 de Agosto de 1947)
 
No extremo sul estava uma ilha comprida, toda coberta de coqueiros. E logo acima de nós, ao norte, ficava outra ilha de coqueiros, mas consideravelmente menor. Achava-se no interior do recife, com os cimos das palmeiras erguendo-se para o céu e com as praias de areia alvíssima estendendo-se até se perderem na plácida lagoa. A ilha toda parecia um verde açafate de flores, um pedacinho onde se concentrara o Paraíso.
Foi essa ilha que escolhemos.
 
A "Kon-Tiki" permanecia à distância, no recife, recebendo o esguicho das ondas. Era uma embarcação naufragada, mas era-o com muita honra. Tudo o que estivera por cima do convés achava-se esfacelado, mas os nove troncos de madeira de balsa da floresta de Quivedo, no Equador, estavam intactos. Tinham-nos salvado a vida.
A carga que o mar tomara para si fora pouca, e não se perdeu nenhuma da que havíamos depositado no interior da cabina.
 
Relanceei um último olhar pela "Kon-Tiki". Fui andando a vau até à ilha. A certa distância lobriguei Knut, dirigindo-se também para terra e transportando sob o braço uma miniatura da "Kon-Tiki" que fizera, com muito trabalho, durante a viagem.
Pouco depois passámos por Bengt. Com um galo na testa e água salgada a gotejar da barba, vinha curvado, arrastando um caixote que oscilava diante dele cada vez que, lá de fora, os vagalhões enviavam uma corrente para o interior da lagoa. Com orgulho, levantou a tampa. Era o caixote da cozinha, e dentro dele iam o "Primus" e demais utensílios em boa ordem.
 
Nunca esquecerei a caminhada, através do recife, em demanda da ilha paradisíaca, que se fazia maior à medida que nos aproximávamos. Quando alcancei a praia cheia de sol, tirei os sapatos e pus os pés, nus, sobre a areia quente e seca. Causou-me um prazer intenso ver cada vestígio deixado por mim na arenosa praia virgem que ia dar aos coqueiros. Não tardou que me achasse debaixo deles e fui assim andando na direcção do centro da ilha.
 
Cocos verdes pendiam dos ramos e algumas moitas densas encobriam flores alvíssimas de perfume tão suave e sedutor que quase me sentia desfalecer. No interior da ilha, duas andorinhas do mar, mansíssimas, voavam quase sobre os meus ombros. Eram tão brancas e leves como farrapos de nuvens. Pequenos lagartos passavam rápidos perto dos meus pés, e os habitantes mais importantes da ilha eram grandes caranguejos bernardos eremitas, vermelhos cor de sangue, que se moviam pesadamente em todas as direcções.
Sentia-me verdadeiramente esmagado. Caí de joelhos e enterrei os dedos na areia quente e seca.
A viagem estava terminada. 
 

O fim da viagem. Caminhando pelo recife em direcção à ilha de Raroia.
 
 
Os seis expedicionários, depois de recuperarem a "Kon-Tiki"
 
 
A rota de 8000 kms da "Kon-Tiki", entre Callao (Peru) e Raroia (Polinésia)

NOTA
 
As fotos a preto e branco foram tiradas pelos expedicionários. Algumas foram obtidas do exterior da jangada, a partir do bote de borracha auxiliar.
 
As fotos coloridas foram extraídas do filme norueguês "Kon Tiki", realizado em 2012 por Joachim Ronning e Espen Sandberg. O actor Pal Sverre Valheim Hagen interpretou o papel de Thor Heyerdahl. Existe edição portuguesa do filme.
 
 
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domingo, 17 de julho de 2016

ESCULTURAS AFRICANAS

 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 


sábado, 16 de julho de 2016

PORTUGAL OUTRA VEZ SENHOR DA EUROPA...

CAMPEÕES EUROPEUS
DE HÓQUEI EM PATINS
 


Vitória por 6-2 na final disputada contra a Itália.
Antes, já tinha sido conseguido um surpreendente triunfo (6-1) sobre a fortíssima e favorita Espanha.

 
 
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1.ª fila, da esquerda para a direita - Diogo Rafael - Nélson Filipe (g.r.) - Gonçalo Alves - Ângelo Girão (g.r.) - Hélder Nunes.
2.ª fila, da esquerda para a direita - Rafa - Henrique Magalhães - João Rodrigues - Ricardo Barreiros - Reinaldo Ventura.