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Realizada por Cottinelli Telmo, foi a segunda longa-metragem sonora portuguesa (e a primeira totalmente produzida no país). Contou com grandes nomes da comédia cinematográfica do tempo, como Vasco Santana, António Silva e Beatriz Costa (saiba mais - aqui).
Na cena abaixo, o Vasquinho visita o Jardim Zoológico de Lisboa em companhia das tias Perpétua e Efigénia, recém-chegadas da província (as quais lhe sustentam uma desprendida e duvidosa vida de estudante na capital e de quem ele é único herdeiro).
Após a perda inesperada de um chapéu de palha (e das consequentes tentativas de substituição do mesmo), Vasco Santana deixaria consagrada em Portugal, até aos dias que correm e com aplicação garantida em diversas situações, a expressão Chapéus há muitos (seu palerma)!
De facto, na época, havia. Hoje, claro, há muito menos. Foram substituídos por uma inescrupulosa falange de demagogos, populistas e jagunços do oportunismo político...
(I)
No Jardim Zoológico
No extracto seguinte, Caetano (António Silva) e a sua filha Alice (Beatriz Costa) exibem-se noutra famosa e icónica cena:
(II)
Canção "A Agulha e o Dedal"
Depois de peripécias mirabolantes, o alfaiate Caetano acede enfim a conceder a mão da sua filha, Alice, ao (até então) detestado Vasquinho.
Na época, como hoje, a miragem de uma fortuna na província ajudava muito a ultrapassar barreiras tidas por intransponíveis:
A batalha de Gettysburg ocorreu na Pensilvânia, USA, de 1 a 3 de Julho de 1863.
Inseriu-se na mortífera Guerra Civil da Secessão (12 de Abril de 1861 a 28 de Junho de 1865) e travou-se entre os Estados Confederados da América (“Confederação”, a sul) e os Estados Unidos da América (“União”, a norte).
Nesta batalha, as forças da Confederação (exército da Virgínia do Norte) foram comandadas pelo General Robert E. Lee e as da União (exército do Potomac) pelo General George Meade.
Até esta altura, a Confederação somara vitórias retumbantes. Em caso de novo triunfo em Gettysburg, Robert E. Lee esperava avançar para Harrisburg ou, mesmo, para Filadélfia.
Com isso estaria em posição de forçar, em condições vantajosas, negociações de paz com o Norte, tornando definitiva a independência dos Estados sulistas.
Cerca de 88.000 homens do lado da União e 75.000 do lado da Confederação empenharam-se numa luta sem quartel durante três dias.
No final, a União saiu triunfante, embora a um preço muito elevado – cerca de 23.000 baixas, entre mortos, feridos e desaparecidos. Os sulistas sofreram cerca de 28.000 perdas.
À esquerda: General George Meade, da União; à direita: General Robert E. Lee, da Confederação
O desfecho da batalha de Gettysburg pôs termo ao mito da invencibilidade da Confederação, além de interromper a sua progressão para norte.
Juntamente com a posterior derrota de Vicksburg, contribuiria para a irreversível viragem da sorte da guerra.
Robert E. Lee render-se-ia ao General Grant nos princípios de Abril de 1865 (em Appomattox), embora o fim oficial da guerra se tivesse verificado um pouco mais tarde (28-Junho-1865).
No final, um país que ficou unido até hoje, mas à custa de uma tragédia humana:
360.000 baixas para o Norte (num total de 2.200.000 combatentes);
258.000 baixas para o Sul (1.064.000 combatentes).
General venezuelano José Rafael Montilla (1859-1907)
Ao estado a que chegou Montilla!
Ao estado a que ele chegou...
Um homem tão valoroso
y a Montilla lo han matado!
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"Montilla" é uma peça musical, de anónimo compositor, pertencente ao rico folclore venezuelano. Surgiu nos princípios do século XX.
Muita gente a ouve, a canta e a dança sem fazer a mais pequena ideia de que nos seus versos se contempla a vida e o trágico fim do general venezuelano José Rafael Montilla, também conhecido, pela sua bravura, como "El Tigre de Guaitó".
José Rafael Montilla nasceu em San Miguel, estado de Trujillo (Venezuela) no dia 16 de Setembro de 1859, sendo filho de Custodio Montilla e de Juana Natividad Petaquero.
Desde muito novo se distinguiu pela determinação e valentia com que defendia os camponeses oprimidos do seu país, cujas reivindicações apoiava. Durante as duras batalhas em que participou, do lado dos Liberais, ascendeu a general perante o delírio dos soldados que o acompanhavam.
Recolhido a certa altura na povoação de Guaitó (estado de Lara, no noroeste do país), determinou o que considerava uma justa repartição de terras por aqueles que as trabalhavam. Em breve se tornou uma dor de cabeça - e um alvo - para os Conservadores.
Vários presidentes venezuelanos tentaram a sua prisão, mas o "Tigre de Guaitó" mostrou-se indomável.
Mudando de táctica, Cipriano Castro ofereceu-lhe importantes cargos públicos. O objectivo consistia em afastá-lo das regiões em conflito, mas Montilla cedo se apercebeu da armadilha e recusou.
Venezuela com os seus estados
A partir dessa altura, intensificou-se o assédio com que procuravam capturá-lo ou, mesmo, eliminá-lo fisicamente. Contra ele marcharam forças poderosas, sobretudo a partir do sul, dos estados de Barinas, Cojedes e Portuguesa.
Mas Montilla resistiu e não foi aprisionado. Juan Vicente Gómez ofereceu-lhe garantias para que se entregasse, mas o general, naturalmente desconfiado, tornou a recusar. Finalmente, no dia 21 de Novembro de 1907, chegou ao seu termo a vida aventurosa de José Rafael Montilla, então com 48 anos de idade.
Foi apanhado à traição por um dos seus próprios soldados, quando, à beira de um curso de água, se preparava para matar a sede provocada por uma dura marcha.
O soldado, um tal Jacinto Canelones, desferiu-lhe no pescoço, pelas costas, um terrível golpe de machete (espécie de catana) que o decapitou.
Uma das versões do episódio refere que o "Tigre de Guaitó" teve ainda oportunidade de disparar sobre o seu assassino, matando-o. Mas é impossível confirmar tal facto.
Entrada do povoado de Guaitó (Venezuela)
Nas horas que se seguiram, milhares de pessoas, em esmagadora maioria camponeses, convergiram para o pequeno povoado de Guaitó a fim de homenagearem o falecido no seu velório.
Vieram de Guárico, Trujillo, Portuguesa e outros estados da parte ocidental da Venezuela. Uma enorme procissão de gente humilde acompanhou o féretro do general até ao cemitério.
Muitos entoavam canções que enalteciam as proezas do seu defensor, e diz-se que foi nessa altura que nasceu a peça musical "Montilla", canção que viria a conhecer diversas versões.
As três que se apresentam seguidamente são, talvez, as mais conhecidas, contribuindo para a lenda em que se transformou a turbulenta carreira do "Tigre de Guaitó". A primeira é a de Lilia Vera, famosa cantora e activista venezuelana.
A segunda pertence a Illapu, conhecida banda chilena de folclore andino.
A terceira é cantada pela mezzo-soprano Luciana Mancini (descendente de chilenos, nascida na Suécia), magistralmente acompanhada pelo grupo L'Arpeggiata (dirigido pela austríaca Christina Pluhar). No final, apresenta-se a letra mais divulgada nas várias versões de "Montilla" (a ordem das quadras é por vezes trocada em diferentes interpretações).