sábado, 27 de fevereiro de 2010

Filipa de Lancaster, Rainha de Portugal - A Mãe da Ínclita Geração (1359-1415)

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Filipa de Lancaster (1359-1415) (retrato imaginário)
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Nota Prévia - Filipa de Lancaster, inglesa, foi filha de Blanche de Lancaster e de John de Gaunt, duque de Lancaster (filho do rei inglês Edward III).
Nasceu em 1359 e faleceu em 1415.
Casou em 1387 com D. João I, rei de Portugal, fundador da 2.ª Dinastia (a de Avis).
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Foi mãe da Ínclita Geração, expressão devida a Luís de Camões: D. Duarte (sucessor de João I), Infante D. Henrique (alma dos Descobrimentos Portugueses), D. Pedro (regente, após a morte do irmão Duarte), D. João (avô da rainha Isabel, a Católica, de Castela), D. Fernando (o Infante Santo, que morreu prisioneiro dos Muçulmanos em Tânger) e Isabel (que casaria com Filipe, o Bom, duque da Borgonha).
Faleceu de peste, às vésperas da partida do marido e dos filhos para o ataque a Ceuta, no Norte de África, que marcou o início da expansão ultramarina portuguesa (1415).

Júlio Dantas (1876-1962), que na Cultura Portuguesa foi muito mais do que aquilo que dele se guardou no famoso Manifesto Anti-Dantas (de Almada Negreiros), traçou desta inglesa, rainha de Portugal, o seguinte retrato:
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“Reflexiva, serena, cheia de pudores e de escrúpulos, decerto feia, a julgar pela estátua do túmulo e pelo silêncio de Fernão Lopes, Filipa de Lancaster entrou na corte portuguesa em circunstâncias que deviam ter ferido o seu natural orgulho de mulher.
D. João I, comprometido já pela letra dum contrato, demorava propositadamente, sob todos os pretextos, a realização do seu casamento. Carácter torcido, espírito interesseiro, tortuoso, cheio de cautela e de simulações, ele reconsiderava e desculpava-se com o facto de ser cavaleiro professo e de não poder contrair matrimónio sem dispensa da Cúria Romana.

Mas o Duque de Lancaster, mais prático, cortou todas as hesitações por uma resolução imprevista: mandou a filha para o Porto, onde estava o rei, acompanhada do bispo de Acres e do confessor.
Ali se conservou a noiva ainda muitos dias, sem que o rei procurasse ao menos vê-la. Por fim, lá se resolveu: trocaram as jóias e casaram.
Os princípios não podiam considerar-se auspiciosos.
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D. João I, rei de Portugal, fundador da Dinastia de Avis (1357-1433)
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Mas, passado pouco tempo, tudo mudou.
Essa pobre mulher de quase trinta anos, sem prestígio e sem beleza, amortalhada em grandes dobras hirtas de pano de oiro, atravessando o paço sempre de olhos baixos, cheia de doçura e de tranquilidade, mas possuindo a terrível energia de certas criaturas aparentemente passivas, dominava inteira e absolutamente o rei.
Algum tempo ainda – e estava também dominada a Corte.
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Foi uma conquista palmo a palmo, feita com um singular poder de sugestão, de infiltração, sem exaltações, sem violências, não perdendo um momento a sua impassibilidade, as suas atitudes de figura gótica, os seus movimentos sóbrios, a sua doçura incomparável.
Bastava um volver daqueles olhos azuis e frigidíssimos: adivinhavam-na.
A maior força de Filipa estava no seu exemplo, na sua fundamental e indestrutível virtude. Quase insensivelmente, a corte de D. Fernando (o rei anterior, meio irmão de João I) converteu-se na corte de Filipa de Lancaster – uma corte severa, casta, metódica, onde não se casava por amor mas sim por ordem da rainha, e onde os negócios do sentimento se regulavam à inglesa, simplesmente, praticamente.
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Antes dela, já D. Pedro I (pai de João I) pretendera moralizar – mas moralizara à bruta, fazendo justiça de epiléptico, gaguejando impropérios contra as alcoviteiras, enforcando, azorragando bispos, ensanguentando as suas próprias mãos. Passado o primeiro momento de terror, ele tinha de novo em volta de si a mesma corte de devassos, e – pior ainda – era ele próprio o mais devasso de todos.
Um desgraçado como D. Pedro não moraliza: quando muito, assassina.
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Filipa de Lancaster, não. Tinha por si a força do seu exemplo e da sua virtude. Os seus processos eram, pelo menos aparentemente, mais suaves. Sempre cheia de doçura, de serenidade, os olhos baixos, o simbólico pilriteiro de oiro bordado no oral de seda.
Não demolia, edificava; não mandava matar, mandava casar.
Quando menos o esperava, um fidalgo solteiro, com moradia no Paço, recebia ordem terminante da rainha: “prepare-se para casar amanhã”.
Não sabia como, não sabia com quem – mas obedecia.
No dia seguinte, estavam casados.
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Casamento de João I com Filipa de Lancaster (Porto - Portugal - 1387)
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Ninguém se insurgia, ninguém arriscava uma palavra.
E, não obstante, D. Filipa cometia a maior das violências; ia de encontro ao que há de mais íntimo, de mais sagrado no sentimento humano; de encontro à corrente emancipadora das novelas do Ciclo Bretão, que exaltavam, com Tristão e Isolda, a liberdade do amor; de encontro às próprias tradições; de encontro ao que desde antiga data se achava expresso nas leis do reino.
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Uma velha lei de Afonso II estabelecia que nem ele nem os seus sucessores poderiam constranger alguém ao casamento.
A legislação era clara.
A rainha sabia bem tudo isto, consultara sobre o caso todos os capelos vermelhos da corte, o seu companheiro e mestre Roberto Paíno, o seu confessor, os seus frades.
As opiniões dividiam-se, as consultas discordavam, folheavam-se cânones, invocavam-se doutores da Igreja – e, entretanto, Filipa de Lancaster, fixando nos bispos e nos prelados os seus olhos azuis impassíveis, continuava a mandar casar, sistematicamente, inflexivelmente – como D. Pedro mandava matar.
E a moralidade voltou – e a revolução fez-se.
.Sentia-se, dia a dia, a influência dessa prodigiosa criatura sobre os costumes e sobre o modo de viver na corte e fora dela.
Os fidalgos passaram a ouvir missa, a jejuar, a confessar-se, deixaram-se de freiras e de judias, nunca mais se jogou nas varandas do Paço, nunca mais se viu um escudeiro bêbedo.
Dentro de poucos anos, a grave princesa normanda, a despeito da sua placidez, da sua impassibilidade, da sua candura, do seu ar de figura primitiva, com os olhos baixos, as mãos cruzadas, a roupa em grandes dobras solenes de pano de oiro, aparentemente frágil, passiva, insignificante -, tinha edificado uma corte nova sobre aquela ruína de adultérios, de infanticídios, de incestos e de violações que era a sociedade portuguesa no fim do século XIV.
A honra desse renascimento pertence-lhe exclusivamente a ela." (*)
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Túmulo de João I e de Filipa (Mosteiro da Batalha, Portugal)
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(*) - Júlio Dantas, Portugal (1876-1962).
Extraído do livro: Outros Tempos - Inquéritos Médicos às Genealogias Reais Portuguesas - Avis e Bragança, publicado em 1909 pela Editora Portugal-Brasil.
Júlio Dantas foi sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa e membro da Academia Brasileira de Letras.
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