sexta-feira, 28 de junho de 2019

Um conto exemplar do povo Cuanhama (Sul de Angola)

Angola, com as suas províncias.
O povo Cuanhama, que pertence ao grupo Ambó, vive no sul do país (na província do Cunene, que faz fronteira com a Namíbia).

O conto que abaixo se transcreve pertence a uma recolha efectuada pelo missionário espiritano Carlos Estermann, distinto etnólogo que dedicou a maior parte da sua vida ao estudo dos povos do Sul e, particularmente, do Sudoeste angolano.
Estermann, nascido alemão (na Alsácia, em 1896), chegou a Angola em 1924 e aqui faleceu em 1976.
Deixou uma obra vastíssima, ainda hoje indispensável referencial para qualquer investigador do tema. E ganhou com ela o direito de emparceirar com os mais ilustres espiritanos que o antecederam no Sul de Angola.

Quanto aos contos que apresenta na sua obra, ele faz esta importante prevenção:

O conto popular, tirado do seu ambiente natural (que é o de ser contado e ouvido), perde muito da sua espontaneidade e frescura. Isto é duplamente verdade quando se trata do conto africano. O seu ambiente é a noite, quando, depois do jantar, os habitantes da aldeia se reúnem em conversa amena em volta da fogueira.
Para narrar o conto, destaca-se um indivíduo que, em geral, fala de pé. Pouco a pouco, ele vai-se animando, modula a voz segundo os vários actores que intervêm na história e intercala interjeições - ora lamentosas ora explosivamente admirativas. Gesticula, não só com os braços, mas, conforme as exigências da narrativa, com o corpo todo.
O auditório toma parte activa, ficando às vezes como que electrizado. Manifesta de onde a onde, ruidosamente, a sua aprovação ou desaprovação, sublinha as partes hilariantes com risos estrepitosos e reage entendidamente às frases sarcásticas (…).


Recriado, deste modo, o "ambiente natural" do conto africano, estamos prontos para ouvir a seguinte história cuanhama:

 
O Leão e o Chacal
 
O leão tinha um bode.
O chacal possuía uma cabra.
O chacal foi ao leão e disse:
- Majestade, empresta-me o teu bode para fazer criação com a minha cabra. Quando esta tiver parido, eu virei trazer-te o bode com o respectivo pagamento.
O leão concordou.
Depois de ter ficado coberta, a cabra pariu dois cabritinhos: uma fêmea e um macho. Então, o chacal agarrou o bode e a pequena fêmea e levou-os ao leão, dizendo:
- Cá tens o teu bode e também o pagamento.
O leão perguntou ao chacal: Nasceu só esta cabrita?
- Nasceram dois - respondeu o chacal.
- Então, onde deixaste o outro?
- Um deles, o pequeno macho, ficou para mim, para fazer criação com a mãe.
O rei da floresta, quando ouviu isto, ficou zangado e disse:
- Vai já, já, procurar o outro cabrito, para mo entregares. Tu queres roubar-me? Se o meu bode não tivesse fecundado a tua cabra, teria ela, porventura, tido cabritos? Os dois cabritos são meus, pois o meu bode é que os gerou!
O chacal disse: - Isso não pode ser de maneira nenhuma! Tu queres roubar-me porque és rei! Vamos chamar todos os bichos da floresta para fazer um julgamento e vermos se sou eu que quero roubar-te ou se és tu que me queres roubar a mim.
Disse então o rei da floresta: - O animais da floresta vou mandá-los vir amanhã de manhã cedo. Mas, se eu tiver razão, hei-de acabar com toda a tua raça! 


Quando o chacal se separou do leão, foi à procura do cágado e disse-lhe:
- Amigo cágado, amanhã tenho um julgamento com o senhor da floresta. Vem defender-me. Pedi-lhe emprestado um bode para fecundar a minha cabra. Agora que esta pariu, diz o leão que ambos os cabritos são dele, porque foi o bode que os teve.
- Está bem - respondeu o cágado. - Encontrar-nos-emos amanhã na residência do rei, mas não deixes começar o julgamento sem eu estar presente. 

Na manhã seguinte, todos os animais se dirigiram ao local da reunião. Perguntou então o rei da floresta:
- Estão cá todos?
- Sim, viemos todos.
- Então vamos ao julgamento, para ver se chegamos a uma conclusão - disse o leão.
Disse o chacal: Não, senhor, não pode ser! Ainda falta chegar um.
- Quem é que falta?
- É o cágado.
Ficaram os bichos à espera, até que o sol se ergueu a prumo. O cágado não havia meio de chegar. Alguns impacientaram-se e disseram:
- Façamos o julgamento. Porque ficar à espera de um só? Será ele porventura mais inteligente do que nós?

Ainda não tinham acabado de falar quando o cágado se apresentou. Assim que ele chegou, disse a hiena:
- Ah! Sim! Foi este fedelho que fez de nós seus criados! É este bichinho de casca que pretende ser mais inteligente do que todos nós. Toda a manhã estivemos à tua espera, com o rei da floresta. O que andavas a fazer então? Todos os teus companheiros já vieram muito cedo. Tu és muito malcriado!
- Está calada e não me ralhes - disse o cágado. - Eu tive que fazer em casa porque o meu pai deu à luz!
Os bichos ficaram muito admirados com esta desculpa e perguntaram uns aos outros: - Todos vós que estais aqui presentes: quem é que viu um macho que desse à luz?
Ninguém sabia o que havia de responder ao cágado, ficaram todos embaraçados e disseram: - Nunca vimos um macho que parisse; são só as fêmeas que dão à luz. O teu pai deve ser o único a dar à luz nesta terra!
- Ah, sim? - disse o cágado. - Só o meu pai é que teve filhos? Então a causa do julgamento por que estais reunidos, qual é? Não sois vós que dizeis que o bode teve dois cabritos?
Então os bichos puseram-se de pé, resmungaram e disseram: - Aqui não há uma causa justa!
E assim o leão foi declarado vencido por todos os bichos e o chacal ficou com ambos os cabritos.

………

Nota do padre Carlos Estermann:

O sentido desta fábula é tão claro e a narrativa tão bem encadeada, que dispensa quaisquer comentários. Celebra ela o direito eterno e inviolável dos fracos contra os fortes e, por este lado, apesar da ingenuidade da exposição, emparceira com as obras mais sublimes da literatura mundial. Lembra-nos a "Antígona", de Sófocles, onde se proclamam os direitos não escritos e imutáveis que nenhum tirano poderá impunemente esmagar.


Fonte: Carlos Estermann, Etnografia de Angola (Sudoeste e Centro), Vol. 2, p. 290-291.
Publicado pelo Instituto de Investigação Científica Tropical
Lisboa - 1983

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