domingo, 31 de maio de 2020

D. João V, rei de Portugal - Majestoso, Esbanjador, Mulherengo e Freirático (2.ª Parte)


D. João V, Rei de Portugal de 1707 a 1750
(Continuação do post de ontem)


"… Mas não estava satisfeito ainda o grande rei.
Queria também monumentos, e traçou uma basílica maior do que o reino.
O convento de Mafra devorou, em dinheiro e gente, mais do que Portugal valia.
Por fim o rei conseguira o cúmulo da sua ambição; e a mania dos monumentos, que lavrara em França com Luís XIV, transportada para cá, erguia de uma só vez, num lugar único, uma montanha fria de pedra.

Mafra, vasto abrigo mortuário, povoado de frades negros, era ao mesmo tempo o palácio do moderno Salomão.
50 000 homens andaram nessa obra, como escravos; e ao lado a forca ameaçava os que protestassem.

As oficinas de Roma e de Veneza, de Milão e de Génova, da Flandres e da França tinham fornecido as alfaias preciosas, os lustres e candelabros, os cancelos de bronze arrendado, as lâmpadas e tocheiros, os relógios e carrilhões.

Nunca se vira ópera tão estrondosa de músicas, tão brilhante de ouros, pedrarias, luzes, púrpuras, rendas, sedas!.

Convento de Mafra

No meio da comédia burlesca da devoção, a desordem, a corrupção eram enormes.
Tudo se consegue com quaisquer quatro bolsas, aplicadas decentemente a qualquer bonzo, dizia Alexandre de Gusmão, que via as coisas de dentro.

Os fidalgos ocupavam-se de troças brutais, promovendo tumultos e desordens, em que havia mortos.

O próprio irmão do rei, o infante D. Francisco, divertia-se nessas aventuras e raptos nocturnos que ensanguentavam as ruas da capital.

A antiga valentia portuguesa aparecia transformada em uma brutalidade grosseira.


A orgia sanguinária e lúbrica era o fundo real do quadro da devoção e da majestade burlesca.

O conde de Tarouca, tão piedoso, vivia amancebado com a Rocha, furtada por ele ao pai e casada com um criado seu; a Rocha fugiu-lhe com o padre Soares.

O conde de Valadares, que matara a filha com crueldades devotas, ia disfarçado de mulher, de manto e touca, falar à criada em Santa Clara, e dormia no convento com ela.

O prior de S. Jorge tinha 65 anos e um serralho de beatas suas confessadas. A Inquisição interveio, condenando-o a degredo; mas o velho defendia-se dizendo que o amor é caridade, resumo de toda a lei.

A abadessa do convento de Santa Ana de Lisboa fugia para a Holanda com um frade capucho.

A Quaresma e a Semana Santa eram a época desejada das aventuras piedosas.

Dizia-se que o rei ia disfarçado de andrajos de pobre para junto do andor do Senhor dos Passos da Graça beliscar as fidalgas quando beijavam o pé da imagem.

Madre Paula, do convento de Odivelas


É verdade que D. João V perdia a cabeça por todas as mulheres. Mas a sua verdadeira paixão estava em Odivelas, o ninho da Madre Paula.
Madre Paula e a irmã Maria da Luz viviam juntas nesse fofo recinto preparado para todas as voluptuosidades.

Todo o luxo da época se acumulara no palacete misterioso e maravilhoso: as talhas douradas, os mosaicos de Itália, os charões da Índia, os móveis de ébano embutidos de marfim, os espelhos de Veneza, os cristais, as cambraias, as rendas, as pratas e ouros, as franjas pesadas, os estofos de melania (a fazenda da moda) e as sedas adamascadas que revestiam as paredes.

As duas irmãs dormiam no mesmo quarto, e entre as duas camas tinham duas pias de prata, com água benta, para se persignarem.
O rei entrava e saía, sem se esconder, sem recear que o vissem. Todo o convento o conhecia e lhe beijava, reverentemente, a mão. Perto do palácio, ao Arco dos Pregos, o Cucolim, ao contar as idas para Odivelas, dizia: Ali perde a vergonha!

O voluptuoso monarca era verdadeiramente rei, porque o seu povo – a nobreza, o clero, a burguesia rica – ardia nas mesmas paixões.


A perversão dos instintos, o vazio das inteligências, a maldade imbecil e a carolice piegas e lúbrica retratavam a primor o estado caduco do corpo da nação amortalhada num sudário de brocados de sacristia.

Portugal era um cenário de ópera armado numa igreja.

Não somos nós, com as nossas críticas, quem o diz: confessam-no os contemporâneos. Leia-se o que escreveu o Cavaleiro de Oliveira, leia-se Alexandre de Gusmão, leia-se o Testamento Político de D. Luís da Cunha.
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Nada há a esperar do rei: é a impressão que sai do texto deste último documento.

Foi a este porto, leitor amigo, que nos conduziu a educação que os jesuítas começaram a dar-nos no XVI século.
Não se investe debalde contra a natureza, seja em nome de quem for.
E os padres, secando em nós todas as fontes da vida real e justa, deram-nos em troca um sistema de tresvarios e fraquezas, para nos salvarem.

Quando estávamos a bom caminho do fim final, o rei Bragança lembrou-se de nos remir, e as minas do Brasil vieram jorrar um dilúvio de ouro nos bolsos de uma gente perdida de corpo e alma.

Das loucuras que isso deu, fiquem estas páginas por documento.
A história interrompe-se, mas não termina aqui.
Se alguém pensa que um povo não podia descer mais, engana-se: em breve se convencerá da verdade". (*)
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Música portuguesa
do tempo de D. João V
(Compositor: Carlos Seixas)

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(*) - História de Portugal - Oliveira Martins (adaptação e ordenação do texto da responsabilidade da Torre da História Ibérica)

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