sábado, 29 de janeiro de 2011

Quando eu morrer (Ernesto Lara Filho - Angola)

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Quando eu morrer
eu quero que o N'Gola Ritmos
vá tocar no meu enterro.
Como Sidney Bechet
como Armstrong
eu gostarei de saber
que vocês tocaram no meu enterro.
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Lá no céu
também há angelitos negros
e eu gostarei de saber
que vocês
me tocaram no enterro.
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Se não puder ser
deixem lá
tocarão noutro lado qualquer
com lágrimas nos olhos,
como naquela noite
em casa do Araújo,
lembrarão o companheiro
das noites de Luanda,
das noites de boémia,
das tardes de moamba.
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Ah! Quando eu morrer
já sabem
quero que o meu caixão
vá no maxibombo da linha do Cemitério
quero que toquem
a Cidralha
ou convidem a marcha dos Invejados.
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É assim que eu quero ir
acompanhado da vossa alegria
bebedeiras seguindo o enterro
as velhas carpideiras de panos escuros
quero um kombaritókué dos antigos
que vai ser muito falado.
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Não convidem mulatas
que sempre estragam tudo.
Se vierem
não lhes vou rejeitar.
Cantem apenas
alguns dos meus poemas
até enrouquecer.
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Ah! quando eu morrer
eu quero o N´Gola Ritmos
tocando no meu enterro.
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Ernesto Lara Filho (1932 -1977)
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(para o Aniceto Vieira Dias e o "Liceu" do "N'Gola Ritmos")
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Imagem: Luanda, Angola, à noite (vista da baía)
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1 comentário:

Nguinamau Valter Laurindo Pedro disse...

É maravilhosa a forma como Ernesto Lara Filho usa de simbolismos para intrincheirar o que ele presava na mente de seu público, o amor à negritude, a sua terra livre de inxertações que de "nada valiam a pena"!