sábado, 14 de agosto de 2010

Cuanhamas do Sul de Angola (3) - Um Pouco do seu Quotidiano

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Um eumbo, ou aldeia cuanhama. Os Cuanhamas pertencem ao grupo étnico dos Ambós,
com mais quatro tribos: Cuamatos, Evales, Cafimas e Dombondolas.
Ocupam a parte central do Sul de Angola, fronteira à Namíbia.
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A vida matrimonial dos Ambós é normalmente de base poligâmica, sendo excepcional encontrar um par monogâmico. Consideram inferior esta última situação e só a aceitam quando não podem proceder de outra maneira.
Os chefes de certa importância – sobretudo se chefes de cantão – não vivem com menos de três ou quatro mulheres. O maior número de mulheres que encontrei foi em casa de um antigo chefe guerreiro, um lenga, que possuía quinze.
O homem tem de construir um conjunto de cubatas para uso pessoal de cada uma das suas mulheres.
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O homem tem o dever de visitar as suas mulheres, num ritmo alternado e regular, que depende do número de esposas.
A regra mais geral é a de passar quatro noites na cubata de cada uma.
De facto, não é a mulher que vem dormir na cubata do homem, mas sim o inverso.
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É geralmente depois da conversa que se segue à refeição da noite, e para a qual todos os habitantes da casa se reúnem no pátio grande, que o marido convida a mulher com quem vai passar a noite.
Ele emprega para isso, invariavelmente, uma destas fórmulas:
Fulana, vai acender o fogo na nossa cubata!
Ou:
Fulana, vai estender as minhas mantas!
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De manhã cedo, não estando ausente ou doente, o marido passa diante das cubatas das suas mulheres dando-lhes a saudação matinal e informando-se se estão todos (esposas e filhos) de saúde.
Em seguida vai sentar-se no pátio grande e aí lhe levam as mulheres, em pequenos cântaros, uma cerveja ligeira chamada osikundu.
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O homem prova, fica com a melhor e dá a outra aos rapazes crescidos. É o seu pequeno-almoço.
Mulheres e crianças pequenas contentam-se com os restos da ceia do dia anterior.
Tomada esta pequena refeição, começa o trabalho do dia.
Os rapazes vão ordenhar as vacas no curral e trazer o leite para as cabaças que servem de batedeiras na fabricação de manteiga.
Pouco depois, levam o gado para o pasto.
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A carga de trabalho das mulheres e das raparigas crescidas varia muito ao longo do ano.
Assim, durante o tempo do cultivo, que começa em fins de Outubro e termina em Abril, saem logo de manhã cedo para os campos e, durante a faina da sacha, nem sequer regressam a casa ao meio-dia.
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Fora desta época, o trabalho é mais leve, e a mulher pode muitas vezes passar horas a ocupar-se com coisas de somenos importância, tais como: consertar a cinta de missangas ou acrescentar umas voltas ao cesto trançado com folhas de palmeira que começou há dias.
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Pode ainda tomar para si algum tempo, recebendo visitas ou atardando-se pelos caminhos na conversa com vizinhas e amigas.
Será entretanto necessário ir buscar água e lenha para a refeição do meio-dia. Esta é menos importante do que a da noite, e a parte do marido e dos rapazes é em geral preparada por uma só mulher.
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Quanto à refeição da noite, podemos retratá-la da seguinte maneira: o marido senta-se, à espera, no lugar de honra do pátio grande. As esposas, uma a uma, vão-lhe levar uma pratada de pirão (papa espessa, obtida do cozimento da farinha) e uma tigela de conduto.
Ele escolhe o que lhe apraz, para ele e para os rapazes, e com estes se põe a jantar.
As mulheres comem cada uma na sua epata (conjunto das suas cubatas particulares), juntamente com as raparigas crescidas e as crianças de ambos os sexos.
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Acabado o jantar, reúnem-se todos fraternalmente em volta do pai de família na “sala grande”.
É a hora do recreio comum, que não se dispensa.
Conversa-se à vontade.
Comentam-se os acontecimentos do dia, ou recordam-se as coisas dos tempos antigos.
É o momento propício para se contarem fábulas e resolver adivinhas.
A gente nova pede por vezes licença para ir a uma reunião dançante, onde muitas vezes passa a noite.
Depois de uma ou duas horas de conversa alegre, chega o momento de recolher. Cada um se despede e se retira para o seu canto.
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Adaptado de: Padre Carlos Estermann - Etnografia do Sudoeste de Angola - Vol. I - pág. 126-128 - Junta de Investigações do Ultramar - Lisboa - Portugal - 1960.
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