sábado, 27 de março de 2021

Recordando tempos de D. João VI, rei de Portugal e do Brasil (1) - Um caminho cheio de dificuldades


Alegoria das virtudes de D. João VI (pintura de Domingos Sequeira)


D. João VI (1767-1826) foi filho de D. Maria I e de D. Pedro III (aqui 1). Decidindo fugir com a corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em Novembro de 1807, viria a ficar estreitamente ligado ao processo da independência brasileira que seu filho Pedro encabeçou.

D. João revelou-se desde cedo um ser retraído, mesmo tímido, mas de bom fundo. Eram-lhe conhecidas as hesitações e evasivas quando chegava a hora de decidir, mas há que compreender as especiais circunstâncias que o levavam a isso. Com efeito, o destino não o poupou a condições e momentos difíceis - ou, até, aflitivos.

Foi príncipe-regente (e depois rei) quando nunca esperara sê-lo: a morte prematura do irmão mais velho e a loucura de D. Maria I, sua mãe, não lhe deixaram alternativa nem escapatória. Não tinha sido preparado para o cargo, daí as naturais dificuldades que sentiu. Assim, teve que ir aprendendo o ofício com o tempo, no meio de brutais e inesperadas turbulências...



(D. João VI e D. Carlota Joaquina, ainda muito jovens)


D. João teve ainda como esposa uma espanholita azougada e praticamente impossível de controlar (Carlota Joaquina, filha de Carlos IV e neta de Carlos III - reis de Espanha -, que o casamento fez vir para Portugal com dez anos de idade).

Parece que só a rainha, D. Maria I, enquanto conservou o juízo, conseguia ter mão na garota. Quando esta se portava bem, a rainha autorizava-a a dar longos passeios de burrico pelas cercanias verdejantes de Queluz. A soberana estimava sinceramente a pequena nora, e nisso deve ter sido uma das poucas excepções. Quando ocorreu a demência de D. Maria, ninguém mais conseguiu segurar a indomável Carlota: nem aias, nem damas de companhia, nem professores, nem confessores - e muito menos o marido bondoso e bonacheirão...

Mas, enfim, foi ela que deu nove filhos ao príncipe-regente e à nação, quase todos nascidos no palácio de Queluz, nas proximidades de Lisboa. Entre eles Pedro, que seria o primeiro imperador do Brasil independente.

Fugindo a confrontos com a esposa difícil, D. João passava grande parte do tempo no convento de Mafra, distante cerca de trinta quilómetros de Queluz (onde ela preferia viver).

Rodeado de frades e dos sons do cantochão, o príncipe-regente sentia-se apaziguado e confortável. Mas foi, como se sabe, sol de pouca dura, porque, enquanto governante (pelo menos em Portugal), D. João teve escassos momentos realmente tranquilos e felizes. Mais tarde, no Brasil (pelo qual se apaixonaria a sério), as coisas seriam bem diferentes e bem mais risonhas para ele...


Napoleão Bonaparte


O outro pesadelo de D. João foi Napoleão Bonaparte, o terrível corso que o queria obrigar, sob promessas de guerra,  a hostilizar a Inglaterra (secular aliada de Portugal).

Costuma dizer-se que o príncipe-regente nunca foi tão medroso e hesitante como neste lamentável e trágico episódio.

Mas o que se poderia esperar que fizesse?

De um lado tinha ele o corso intratável, cada vez mais impaciente e ameaçador na sua arrogância de vencedor, pelas armas, de vários e poderosos exércitos europeus. Napoleão exigia-lhe que fechasse os portos portugueses à Inglaterra e que mandasse prender os cidadãos britânicos que aqui viviam, confiscando-lhes, simultaneamente, negócios e patrimónios.

D. João fingia concordar, mandando recados ambíguos para Paris a fim de ganhar tempo. Pelo menos numa ocasião procurou amansar Napoleão com a oferta de um punhado de diamantes brasileiros. Mas nada foi suficiente para aplacar o francês: ou Portugal cedia ou Bonaparte despachava os exércitos até Lisboa. E com isso se acabaria o trono e a dinastia de Bragança, que D. João encimava como regente.


Jorge III, o rei inglês.

Do outro lado, D. João era apertado pelos ingleses de Jorge III, que lhe prometiam protecção e uma escolta de navios para o conduzirem ao Brasil. O que ele não poderia, de forma alguma, segundo eles, era ceder a Napoleão Bonaparte...

Como é evidente, os britânicos não se moviam apenas - nem sobretudo - pelo apego à velha aliança: eles queriam, em troca dos seus serviços, que os portos brasileiros se abrissem ao comércio inglês, alcançando desse modo preponderância e proveitos vultosos na maior e mais rica das colónias portuguesas.

E se o príncipe-regente não cedesse aos ingleses? Nesse caso, Portugal arriscava-se a um castigo semelhante ao que estes tinham infligido aos dinamarqueses uns meses antes. Quando a Dinamarca não se portou como eles pretendiam perante as imposições de Napoleão, a marinha britânica postou-se de canhões assestados diante de Copenhaga e bombardeou impiedosamente a cidade.

D. João, uma vez mais na sua vida, não teve alternativas.

E foi assim que, em 29 de Novembro de 1807, após ter mantido o imperador francês iludido até quase à última hora, largou de barco para o Brasil com toda a sua corte (rever o relato de Oliveira Martins - aqui 2).

... Alguns anos mais tarde, Napoleão Bonaparte, já vencido e desiludido, recordava velhos e movimentados tempos. E desabafava, inútil e melancolicamente, acerca daquele escorregadio D. João: foi o único que me conseguiu enganar...

1 comentário:

A. Mendes disse...


D. João VI tem sido muito injustiçado pelos historiógrafos, que lhe salientam as fraquezas e os ridículos. Mas, quase sempre tolhido por dificuldades, ele comportou-se na maioria dos casos com sabedoria. Os brasileiros, que, à época, gostavam muito dele e o reverenciavam, tinham bastantes razões para o fazer. Muito do que a nação brasileira foi, após 1822, fica a dever-se ao que ele tinha realizado na então colónia durante os treze anos em que lá viveu (1808-1821). E poucos amaram tanto o Brasil como ele. Só à força e sob ameaças (vindas de Portugal) o fizeram regressar ao país em que havia nascido. Já se tornara brasileiro pelo coração, como sucedeu com seu filho Pedro, o primeiro imperador...