domingo, 13 de julho de 2008

(Carlos Drummond de Andrade) - O Homem - As Viagens

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria
e pouca diversão,
faz um foguete,
uma cápsula,
um módulo,
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua
Lua humanidade:
tão igual à Terra.
.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte -
ordena a suas máquinas.
Elas obedecem,
o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte
com engenho e arte.
.
Marte humanizado,
que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho sofisticado e dócil.
Vamos a Vénus.
O homem põe o pé em Vénus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.
.
O homem funde a cuca
se não for a Júpiter
proclamar justiça
junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto repetitório.
.
Outros planetas restam
para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol
ou dá uma volta só pra te ver?
Não vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé:
mas que chato que é o Sol,
falso touro espanhol domado.
.
Restam outros sistemas
fora do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem (estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão do seu coração
experimentar colonizar
civilizar
humanizar o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene,
insuspeitada
alegria de conviver.
.
(Carlos Drummond de Andrade)

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