domingo, 1 de abril de 2018

Ribatejo, Ribatejanos e Campinos


Quadro de Cássio Mello

"(…) Bastará lembrarmo-nos de que o Ribatejo é a região do gado bravo. Daqui o natural e necessário esforço do homem, a que desde pequeno se habitua, para viver entre vacas e touros criados em plena liberdade e bravura, e que é preciso subjugar pelo valor e pela astúcia até submetê-los ao trabalho agrícola.

Julga-se falsamente, no norte do país, que a criação do gado bravo no Ribatejo constitui apenas uma indústria tauromáquica. Não, é um erro: ela representa um alto valor económico, que se obtém à custa de um contínuo e arriscado trabalho.

A propriedade, nas províncias setentrionais do país, está dividida e retalhada: é a quinta, o campo, a bouça ou a horta. Aqui, como no Alentejo, percorrem-se léguas e léguas de terrenos pertencentes a um mesmo proprietário. A propriedade é vasta, imensa, a perder de vista. Proporciona as grandes colheitas e a criação das grandes manadas e rebanhos.

A vida do lavrador ribatejano torna-se, portanto, muito mais trabalhosa e o campino — designando por esta expressão todo o serviçal da lavoura ribatejana — é por via de regra um homem afoito e valente que todos os dias põe em jogo a sua vida com uma indiferença estóica singularmente admirável.

Quadro de Simão da Veiga

Faz-se toureiro, não por gosto de vir exibir a sua perícia tauromáquica no redondel perante a multidão; mas por obrigação e necessidade, no campo, diante das hastes nuas do touro – não só do touro, mas da manada inteira, sem espectadores entusiasmados e sem aplausos ruidosos.

Há, no homem do Ribatejo, o que quer que seja de forte e de simples, de atlético e indiferente, que parece conservar a expressão das idades primitivas, quando a força física e a serenidade de ânimo eram precisas ao homem para lutar com os monstruosos animais pré-historicos. A natureza deu-lhe a bravura calma e a astúcia ingénita necessárias para subjugar as reses bravas, acudindo-lhe com a astúcia quando a valentia não basta.

 Também o dotou com uma certa tendência contemplativa, espécie de identificação, plácida e concentrada, com a vasta paisagem que o rodeia, onde a solidão é profunda e profundo é o silêncio, apenas de quando em quando entrecortado pelo mugido do touro, pelo uivo do lobo, pelo chocalho das manadas e rebanhos.




O perigo que, por via de regra, assusta o homem em qualquer parte, é no Ribatejo o pão nosso de cada dia, um hábito, um costume, em vez de ser, como noutras regiões do país, uma surpresa ou uma eventualidade. Aqui, a natureza, favorecendo, por condições especiais, a criação do gado bravo, pôs harmoniosamente, ao lado dele, o homem forte e sadio, robusto e tranquilo, que tem de viver e lutar quotidianamente com as reses possantes e manhosas. (…)

(…) Esta irrequieta colónia bovina não deixa um momento de paz e descanso aos homens a quem está confiada, e cujo trabalho é incessante, desde a difícil operação da desmama dos bezerros até à amansia do touro.

(…) A luta, no Ribatejo, entre o homem e o touro, quando há necessidade de recorrer a esse extremo, efectua-se frente a frente, toma o carácter de um combate singular, sempre arriscado, porque nós, os Portugueses, picamos o touro por diante, ao contrário dos Espanhóis, que o mandam pela anca.

E, contudo, apesar das contingências desastrosas a que o campino está constantemente sujeito, todas as operações, em que ele é chamado a intervir na vida e na liberdade das manadas, tomam um ar de folia local que sobrepõe a alegria à consciência e temor do perigo." (*)


(*) Alberto Pimentel – A Extremadura Portugueza – 1.ª Parte – O Ribatejo – Lisboa, 1908, pp. 35-36 (ortografia actualizada).

Sem comentários: