domingo, 6 de junho de 2010

Magnífica Luciana Rabello e o "Chorinho" Brasileiro (Os gloriosos destinos do velho cavaquinho português)

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Luciana Rabello nasceu em Petrópolis, Brasil, no ano de 1961.
Pertence a uma família proveniente do Nordeste Brasileiro, onde – como ela própria explica – se mistura o sangue de portugueses, espanhóis, holandeses, alemães, negros e índios.
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Luciana, como vão poder confirmar daqui a pouco, é uma extraordinária cavaquinista (tocadora de cavaquinho), embora se tenha iniciado, ainda criança, pelo violão, e tenha estudado também piano clássico durante cinco anos.
É, igualmente, compositora.
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O avô materno, José de Queiroz Baptista, foi o seu primeiro e único professor. Começou a tocar aos 6 anos e, aos 13, já compunha.
Em 1975 integrou, com o irmão Raphael Rabello, o grupo “Os Carioquinhas”, especializado em choro (ou chorinho), uma das mais famosas e características expressões musicais do Brasil.
Começava assim, aos 14 anos, a carreira magnífica de Luciana Rabello, numa época em que, como ela diz, para muita gente “o choro era coisa de velho…”.
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Primeira mulher a tocar cavaquinho profissionalmente, Luciana estreou-se em disco aos 16 anos.
No início da década de 1980 viajou pela Europa, actuando como solista de choro em espectáculos de Toquinho (que tocava violão).
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A partir de então, tornou-se na cavaquinista preferida de vários maestros brasileiros de 1.ª linha.
Em 1999 fundou, com Maurício Carrilho, a Acari Records, que administra desde o ano de 2000. Trata-se da primeira gravadora a dedicar-se, exclusivamente, ao choro. Tem hoje muitas dezenas de títulos no seu catálogo.
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Os filhos de Luciana Rabello, Ana e Julião, são também músicos reconhecidos. Diz-se, e é verdade, que eles “estão seguindo as pisadas de mamãe…”.
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O choro, cujos executantes são chamados de chorões, é um género musical com cerca de 140 anos de existência. Mas há quem diga que as suas origens remotas se acham no ano de 1808, quando a Família Real portuguesa chegou ao Brasil refugiada da ameaça militar napoleónica que alastrava na Europa.
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Com a corte lusitana foram para o Brasil instrumentos como o piano, o clarinete, o violão, o saxofone, o bandolim e o cavaquinho, bem como danças de salão europeias (valsa, mazurca, quadrilha, modinha, xote e, principalmente, a polca).
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Os novos instrumentos, as novas músicas e a reforma urbana entretanto operada criaram o caldo de cultura que levaria ao surgimento do choro.
Surgiu um novo estrato social, a classe média (funcionários públicos, instrumentistas de bandas militares e pequenos comerciantes).
Algumas dessas pessoas passaram a formar conjuntos para tocar “de ouvido” aquelas músicas, combinando-as com os ritmos africanos já enraizados na cultura brasileira.
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E, assim, nos quintais dos subúrbios do Rio de Janeiro se foi impondo a primeira música urbana tipicamente brasileira: o choro.
O choro resultou, portanto, da criatividade com que os músicos populares executavam, ao seu jeito, a música importada que se ouvia nos salões e bailes da alta sociedade por meados do século XIX.
A música dos chorões, porém, evoluiu - e em breve se distinguia bastante da que se tocava nos salões da nobreza carioca.
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Da esquerda para a direita: violão de sete cordas - violão - bandolim
flauta - cavaquinho - pandeiro.
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Esta designação (choro) deve-se ao carácter plangente, choroso, da música que esses pequenos conjuntos faziam.
As primeiras combinações instrumentais giravam em torno de um trio constituído por flauta (para os solos), o violão (acompanhamento, como se fosse um contrabaixo) e, claro, o cavaquinho, que fazia um acompanhamento mais harmónico, rico de acordes e variações.
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Os primeiros chorões, improvisadores por definição, não tinham regras fixas para o número de executantes ou para os instrumentos musicais admitidos. Por isso, o leque se foi alargando com a passagem do tempo (como pode ver acima).
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O choro exige do músico um completo domínio do instrumento e uma percepção apuradíssima dos códigos e senhas que se encaixam em gigantescos improvisos.
Ainda hoje, o bom músico de choro tem como condição básica ser também um bom improvisador
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No princípio da década de 1980, como se disse, Luciana Rabello, então com pouco mais de 20 anos, actuou como solista de choro nos espectáculos de Toquinho.
É de um desses espectáculos a peça que seguidamente vos apresento.
Trata-se de uma famosa composição ("Brasileirinho") de Waldir Azevedo, um popularíssimo artista de choro e, também ele, um virtuoso do cavaquinho.
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Os Brasileiros, como sabemos, transformaram e enriqueceram a língua portuguesa: pronunciam-na com todas as sílabas e embeberam-na numa mistura fina de açúcar e canela.
Ora, nesta espantosa interpretação, Luciana mostra o que os Brasileiros fizeram do cavaquinho português: afinaram-no ao seu jeito e deram-lhe o perfume inebriante da sonoridade tropical.
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Quanto a Luciana Rabello, a gente não sabe bem o que mais admirar nesta intervenção.
A fantástica demonstração de talento?
A imperturbável serenidade da execução?
A beleza invulgar da artista?
Pensando bem, creio que anda tudo pelo mesmo - elevadíssimo - nível.
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Comprovem aqui --> http://www.youtube.com/watch?v=MfIdOfeWK2A
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Para os amigos brasileiros que tiverem curiosidade em saber como soava (e soa) o velho cavaquinho português - que deu origem ao vosso cavaquinho dos chorões -, deixo uma interpretação dos "Cavaquinhos do Paranho" (Trofa - Portugal).
Trata-se de um Malhão Minhoto, a música alegre e comunicativa de muitas festas e romarias do Norte Português:
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3 comentários:

Pernambucana disse...

Pôxa, Cavaleiro, você se encantou mesmo com nossa Luciana, verdade?...

Cavaleiro da Torre disse...

Verdade, cara Pernambucana. Mas Luciana Rabello merece amplamente que nos encantemos com ela e com o seu virtuosismo. E, também, com os seus importantes empreendimentos de divulgação da cultura musical brasileira - você não acha? Compreende-se que os Brasileiros se orgulhem do facto de Luciana ter nascido nesse país. Mas quando o talento e o mérito se elevam a tais patamares de excepção, o artista deixa de ser um exclusivo de sua terra-mãe para se tornar em verdadeiro património universal. Para fruição e felicidade de todos nós... Insisto: você não acha?

Pernambucana disse...

É claro que eu acho, Cavaleiro da Torre, Luciana é merecedora de todas as homenagens! A propósito, amei também seus músicos de Paranho. Um abraço para você, a quem parabenizo por este sítio.