domingo, 13 de julho de 2014

Vai em Frente, Brasil: Levanta, Sacode a Poeira, Dá a Volta por Cima!

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Deixemos de lado a derradeira partida do Brasil, contra a Holanda, pois tratou-se de mero complemento da anterior, daquela que verdadeiramente conta, a do 1-7 frente à Alemanha. E a primeira ideia a reter é a de que, por mais traumatizante que tenha sido o jogo frente aos germânicos, o Brasil não deixou de ter potencialmente os melhores jogadores e o melhor futebol do mundo! Não existe entre os dois times, de modo nenhum, a diferença de qualidade que o resultado parece reflectir.
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Sucedeu ao Brasil, em versão um pouco mais cruel, mas por razões semelhantes, o que havia já ocorrido com Portugal: ambos os times cometeram o suicídio táctico de jogar abertamente com este adversário, concedendo-lhe espaços amplos, autênticas "avenidas", sem os quais a máquina germânica, comprovadamente, enguiça.
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Os alemães possuem um futebol eficaz - até demolidor - se lhes oferecerem ensejo para tal. Mas, colocada perante barreiras tácticas inteligentes e disciplinadas, a sua equipa não evidencia grande imaginação e é pouco versátil. Diante de colectivos compactos, com zonas de meio-campo convenientemente preenchidas, que defendam bem e lancem contra-ofensivas velozes e controladas, demonstram enormes dificuldades e caem num futebol recorrente, estereotipado, pobre de ideias e, por isso mesmo, ultrapassável.
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Afinal, o que fez de grandioso essa Alemanha tão enaltecida pelo seu futebol?
Para além das goleadas, muitíssimo consentidas, a Portugal e ao Brasil (irmãos até na ingenuidade de seu sistema de jogo), a soberba Alemanha ganhou dificilmente aos Estados Unidos (1-0) e França (1-0) e não conseguiu vencer, dentro dos 90 minutos regulamentares, nem o Gana (empate, 2-2) nem a Argélia (0-0 - o triunfo de 2-1 surgiu apenas no prolongamento)!
Na final, contra a Argentina, de novo um empate (0-0) no tempo regulamentar, e só as oportunidades perdidas e o estoiro físico dos argentinos lhes permitiram um triunfo injusto.
Onde, portanto, a máquina perfeita, demolidora, irresistível?
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O Brasil, para além da ausência de Neymar e de Thiago Silva, foi vítima do seu futebol aberto, generoso, alegremente individualista, quer dizer, do futebol que não pode, ou não deve ser jogado contra times frios e calculistas, de sistema geométrico e aproveitador, como têm a Alemanha e a Holanda. Recordem a Espanha, anterior campeão do Mundo, que resolveu abandonar a segurança do seu sistema táctico "tipo Barcelona" e jogar aberto com a Holanda, terminando esmagada por 1-5.
O Brasil foi ainda vitimado pela pressão emocional decorrente da "obrigação" de ter de ganhar por jogar em sua casa. Só uma quebra desse tipo pode explicar o que se passou na partida fatídica: sofrer 4 tentos em 6 minutos é absolutamente anormal para qualquer equipa, mesmo amadora, quanto mais para uma selecção como a brasileira!
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A Argélia, por exemplo, ensinou como se deve jogar contra a Alemanha - e a Argélia não é uma equipa de estrelas, joga inclusive com vários futebolistas de equipas secundárias, nomeadamente de Portugal.
Na partida Alemanha-Argélia (empate de 0-0, em 90 minutos), chegou a ser confrangedora a inépcia dos centro-campistas e atacantes germânicos diante daquela muralha verde, de onde brotavam, de vez em quando, contragolpes venenosos e perigosíssimos que estiveram à beira de provocar o primeiro grande escândalo do Mundial! Valeu aos germânicos, em diversas ocasiões, um goleiro como "São" Neuer...
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Na Europa, ainda há bem pouco tempo, o Real Madrid igualmente demonstrou na Champions League, diante do Bayern de Munique, como se deve fazer. O Bayern integra a maior parte dos titulares desta selecção alemã (a começar por "São" Neuer), mas, confrontado com o denso meio-campo e os contra-ataques madrilenos, acabou humilhado, em sua casa, por um contundente 0-4, que poderia facilmente ter evoluído para números impensáveis caso os espanhóis tivessem concretizado mais algumas das suas numerosas oportunidades.
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Não sei se Felipe Scolari teria coragem e margem suficientes, perante a exigente torcida brasileira, para impor, em certos jogos (como esse, diante da Alemanha), um futebol colectivo de contenção, compacto, astucioso, ficando de tocaia para vibrar o golpe - um futebol semelhante, afinal, ao que hoje praticou a Argentina e que transformou a Alemanha, durante a maior parte do tempo, numa equipa repetitiva, enervada, ineficaz e vulgar. Mas não tenham grandes dúvidas de que, no processo de reorganização do futebol brasileiro que decerto se vai seguir, o caminho passará também por aí. O Brasil tem de reaprender a jogar colectivamente para poder de novo impor-se ao "cinismo táctico" dos seus principais rivais.
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O golpe sofrido foi tremendo, mas acredito que desta derrota nascerá em breve uma selecção vigorosa e imparável. O Brasil é, pelas suas potencialidades, o país mais capaz de evoluir para um futebol pragmático e eficaz, apto a defrontar os modernos sistemas europeus, ou quaisquer outros, sem abdicar da fantasia e do perfume incomparável do seu maravilhoso futebol.
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Por isso, vai em frente, Brasil. Como disse a Presidente Dilma - e como diz a canção de Beth Carvalho -  "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!".
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Para alegria dos Brasileiros, dos Portugueses e de todos os apreciadores do futebol com magia! 
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Beth Carvalho - "Volta por Cima"
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