sábado, 18 de julho de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "O Homem e o Rio" (William Faulkner - Estados Unidos)

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“Era uma vez dois forçados (passou-se isto no Mississipi, em Maio, no ano da grande cheia de 1927).
Um deles, alto, esgrouviado, o ventre estio, de pele crestada pelo sol e cabelo negro de índio, andava pelos vinte e cinco anos. Os seus olhos baços, de uma cor de faiança, tinham um ar ofendido – uma ofensa dirigida não tanto contra os homens que goraram o seu crime, nem mesmo contra os advogados e juízes que para ali o mandaram, como contra os autores de folhetins, os nomes incorpóreos ligados às histórias – os Diamond Dicks, os Jesse James e quejandos -, os quais responsabilizava pela sua presente situação, devido à ignorância e credulidade deles em relação ao meio em que se imiscuíam e pelo qual cobravam dinheiro, ao fornecerem informação a que davam o cunho de autenticidade e verosimilhança. (…)
Tinha de cumprir uma pena de quinze anos (chegara ali pouco depois do seu décimo nono aniversário) por tentativa de assalto e roubo num comboio.
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Havia planeado tudo com antecedência e seguira à letra a falsa autoridade impressa.
Guardara durante dois anos os magazines de crime, lendo-os e relendo-os de cor, comparando e verificando cada história e cada método entre si, extraindo o que era útil em cada uma delas, depurando-as da ganga, à medida que surgia o seu plano de acção, e mantendo o espírito alerta para as subtis mudanças de último minuto, sem pressa nem impaciência, enquanto os novos fascículos apareciam nos dias previstos, tal como uma modista conscienciosa faz subtis alterações num vestido de apresentação na corte à medida que vão aparecendo novas revistas de modas.
E, finalmente, quando chegou o dia, nem sequer teve tempo de atravessar as carruagens e apoderar-se dos relógios e anéis, dos broches e dos cintos com dinheiro escondido, porque foi capturado assim que entrou na carruagem do expresso onde se encontrariam o cofre e o ouro.
Não disparara um tiro sequer (…)” (*)
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(*) - O Homem e o Rio - William Faulkner (n. 1897 - f. 1962) - Editado por Publicações Europa-América, Lisboa, Portugal, 1971.
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Também disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota --> L. 65134 P. )
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