Pequenas e grandes histórias da História e mensagens mais ou menos amenas sobre vidas, causas, culturas, quotidianos, pensamentos, experiências, mundo...
bate na manhã nascente e bate na tua cama, no sono da madrugada. Ternuras de áspera lona pelo corpo adolescente.
É o trabalho que te chama. Às pressas tomas o banho, tomas teu café com pão, tomas teu lugar no bote no cais de Capibaribe.
Deixas chorando na esteira teu filho de mãe solteira. Levas ao lado a marmita, contendo a mesma ração do meio de todo o dia, a carne-seca e o feijão.
De tudo quanto ele pede, dás só bom dia ao patrão, e recomeças a luta na engrenagem da fiação.
Ai, tecelã sem memória, de onde veio esse algodão? Lembras o avô semeador, com as sementes na mão, e os cultivadores pais? Perdidos na plantação ficaram teus ancestrais.
Plantaram muito.
O algodão
nasceu também na cabeça, cresceu no peito e na cara.
Dispersiva tecelã, esse algodão quem colheu? Muito embora nada tenhas, estás tecendo o que é teu.
Teces tecendo a ti mesma na imensa maquinaria, como se entrasses
inteira na boca do tear e desses a cor do rosto
e dos olhos e o teu sangue
à estamparia.
Os fios dos teus cabelos entrelaças nesses fios e noutros fios dolorosos dos nervos de fibra longa.
Ó tecelã perdulária, enroscas-te em tanta gente com os ademanes ofídicos da serpente multifária. A multidão dos tecidos exige-te esse tributo. Para ti, nem sobra ao menos um pano preto de luto.
Vestes as moças da tua idade e dos teus anseios, mas livres da maldição do teu salário mensal, com o desconto compulsório, com os infalíveis cortes de uma teórica assistência, que não chega na doença, nem chega na tua morte.
Com essa policromia de fazendas,
todo o dia, iluminas os passeios, brilhas nos corpos alheios.
E essas moças desconhecem o teu sofrimento têxtil, teu desespero fabril. Teces os vestidos,
teces agasalhos
e camisas, os lenços especialmente para adeus, choro e coriza. Teces toalhas de mesa e a tua mesa vazia
Toca a sereia da fábrica, E o apito como um chicote bate neste fim de tarde, bate no rosto da lua. Vais de novo para o bote. Navegam fome e cansaço nas águas negras do rio.
Há muita gente na rua Parada no meio-fio. Nem liga importância
à tua blusa rota
de operária. Vestes o Recife
e voltas para casa,
quase nua. ………….
Mauro Ramos da Mota e Albuquerque nasceu em 1911, na localidade de Nazaré da Mata, Brasil.
Foi jornalista, professor, poeta, cronista, ensaísta e memorialista.
Ainda que não o exprimissem em voz alta, muitos pensavam convictamente que o Titanic, o novo e magnífico navio da britânica White Star Line, jamais poderia ser afundado - nem pelos homens, nem por Deus...
Afinal, após o início da viagem inaugural, no dia 10 de Abril de 1912, o formidável rei dos mares demoraria menos de cinco dias para mergulhar, ferido de morte, rumo às trevas da sua sepultura nas profundas e geladas águas do Atlântico Norte. E com ele arrastou, para um fim trágico, cerca de milhar e meio de passageiros e tripulantes…
Comandante do navio, Edward Smith (à direita, de barba), e comissário-chefe Hugh McElroy
Várias razões contribuíam para alimentar o mito da inafundabilidade do navio. As principais baseavam-se nos complexos desenvolvimentos tecnológicos incorporados na construção, tal como sucedera com o seu irmão gémeo - o Olympic - e aconteceria mais tarde com um terceiro paquete da mesma linha - o Britannic.
De resto, o seu comandante, Edward Smith, era provavelmente o mais convencido da absoluta segurança da embarcação. Uns anos antes, em 1907, numa altura em que o Titanic não fora sequer projectado, ele terá comentado - face aos extraordinários progressos da construção naval - que não conseguia imaginar nenhuma circunstância em que aqueles gigantes dos oceanos pudessem soçobrar. Concebido pelos engenheiros navais Thomas Andrews e Alexander Carlisle nos estaleiros da Harland & Wolff (Belfast, Irlanda), o Titanic era, de facto, espantoso - o maior e mais luxuoso navio de passageiros alguma vez construído.
Tinha 269 metros de comprimento, 28 metros de boca (largura máxima), 53 metros de altura e 46.328 toneladas. Dispunha de 29 caldeiras a vapor, 2 motores de tripla-expansão e três gigantescas hélices (duas laterais e uma central) que lhe permitiam desenvolver uma velocidade média de 21 nós (cerca de 39km/hora), podendo facilmente, em caso de necessidade, ultrapassar esta marca. Mas o factor decisivo para a sua segurança eram os 16 compartimentos estanques separados por portas de emergência que podiam ser fechadas em segundos, a partir da ponte de comando, com um simples toque num interruptor eléctrico. Segundo os projectistas, o Titanic manter-se-ia a flutuar mesmo que tivesse 4 daqueles compartimentos inundados. Estava prevista uma tripulação de 892 elementos e, para além dela, o navio possuía acomodações e meios para receber 2435 passageiros.
O "Titanic" deixando o porto de Belfast para efectuar testes marítimos
(2 de Abril de 1912)
A construção do Titanic principiou em Março de 1909. Três anos depois, às seis horas da manhã do dia 2 de Abril de 1912, saiu do porto de Belfast, puxado por vários rebocadores, para realizar testes finais em mar aberto. As coisas não podiam ter corrido melhor - o navio respondia eficaz e docilmente a todas as manobras a que o foram sujeitando. Assim, foi em ambiente festivo que os engenheiros navais, os representantes dos estaleiros Harland & Wolff e vários elementos do Ministério do Comércio britânico almoçaram no salão de jantar da 1.ª classe. Às 18 horas, com todos os requisitos cumpridos, o paquete regressou a Belfast. Nesse mesmo dia, 2 de Abril, pelas 20 horas, o Titanic deixou Belfast e rumou ao porto de Southampton, de onde partiria, oito dias mais tarde, para a viagem inaugural.
Titanic saindo do porto de Southampton para a viagem fatal
O Titanic zarpou de Southampton pouco depois do meio-dia de 10 de Abril de 1912. Chegou a Cherbourg, na França, ao cair da noite, tendo descido alguns passageiros e recebido outros. No dia seguinte, efectuou a derradeira paragem, em Queenstown, Irlanda, descendo 7 passageiros e acolhendo mais 120. Quando, no dia 11 de Abril de 1912, iniciou finalmente a viagem transatlântica com rumo a New York, achava-se transformado numa autêntica cidade flutuante habitada por 2205 pessoas - 1316 passageiros e 889 tripulantes.
Disposto a arrebatar o famoso troféu da Flâmula Azul, que distinguia a travessia marítima mais rápida entre a Europa e a América, o capitão Edward Smith aproou resolutamente ao Novo Mundo. O barco continuava a transmitir-lhe - e aos que o rodeavam - uma ilimitada sensação de força e segurança. Os modernos dispositivos instalados nos estaleiros de Belfast respondiam tal como nos testes de 2 de Abril: o paquete funcionava como uma máquina perfeita e indestrutível.
O presidente da White Star Line, Joseph Bruce Ismay, acompanhado por um dos projectistas do Titanic (Thomas Andrews), mostrava-se tão confiante e orgulhoso como o comandante, testemunhando com agrado (e possivelmente encorajando-a) a progressão vertiginosa em mar aberto.
Os passageiros distribuíam-se por três classes, rigorosamente separadas umas das outras. Na 3.ª classe seguia a maior parte - mais de 700 pessoas -, gente de parcos recursos em busca de uma vida melhor no sonhado continente americano. Nalguns casos formavam grandes grupos familiares, de até uma dúzia de membros, e provinham de diferentes partes da Europa, como a Irlanda, a Escandinávia e o Leste Europeu. Havia, também, alguns asiáticos.
Na 2.ª classe viajavam sobretudo empresários, clérigos, professores e migrantes, por vezes ricos, que regressavam ao país natal. Um desses passageiros, Michel Navratil, escondia um segredo. Acompanhado por duas crianças de tenra idade - os irmãos Michel Marcel e Edmond, de 3 e 2 anos de idade, respectivamente -, viajava sob nome falso (era o sr. "Hoffman") e apresentava-se como um desconsolado viúvo com os seus filhos. Mas a verdade era muito diferente. Navratil, após um divórcio litigioso, perdera a custódia dos meninos para a sua ex-esposa: agora, a bordo do "Titanic", estava simplesmente em fuga com eles para os Estados Unidos.
Grande escadaria do "foyer" do convés A do Titanic
A 1.ª classe constituía um verdadeiro mundo à parte, afirmando-se como luxuoso refúgio dos poderosos. Viam-se figuras ricas e célebres das áreas dos negócios, da aristocracia e do desporto - como o milionário quarentão John Jacob Astor IV, provavelmente o mais rico a bordo, que viajava com a jovem e recente esposa, Madeleine, de apenas 18 anos de idade; ainda Benjamin Guggenheim, Margareth ("Molly") Brown, Isidor Straus, Cosmo Duff-Gordon, Richard Norris Williams, Jacques Futrelle, Archibald Gracie. E muitos outros, quase todos famosos.
A vida a bordo decorria sem problemas, num doce lazer e em múltiplos divertimentos - distintos de classe para classe, mas sempre animados. Bailes, jogos, cantorias, provas desportivas, banhos turcos, namoricos efémeros, alegres e despreocupados convívios. Naquela 1.ª classe, o requinte das instalações conjugava-se com a ostensiva elegância das pessoas e com a sua forma de passar o tempo. Uma orquestra tocava todos os dias para seu deleite (podemos ouvir abaixo uma das peças que os músicos executavam nos salões sumptuosos onde os pares rodopiavam ligeiros e felizes ):
A partir do dia 12 de Abril, o navio passou a receber diversos alertas, pelo telégrafo sem fio, sobre a presença de gelo nas proximidades. Na manhã de 14, quarto dia de viagem - que caiu num domingo -, essas mensagens tornaram-se mais inquietantes. Vinham dos navios que, tal como o Titanic, percorriam a chamada Rota da Terra Nova em direcção à América do Norte. Nesse dia, a primeira comunicação foi emitida pelo vapor Caronia, que avisava sobre a presença de massas de gelo flutuante na zona. O comandante Edward Smith acusou a recepção, agradeceu o alerta, mas não alterou nada de significativo: o navio prosseguiu na sua marcha veloz, rompendo as vagas a uma velocidade de 22 nós por hora.
As mensagens, todas no mesmo sentido, foram-se multiplicando nas horas seguintes. Ao princípio da tarde chegou uma do Baltic, mais específica, que o operador de serviço se apressou a levar ao comandante Edward Smith: Icebergues e grandes quantidades de campos de gelo à latitude 41º 51' N, longitude 49º 52' W. O comandante entregou o papel a J. Bruce Ismay, o presidente da White Star Line, que o leu em silêncio e não fez quaisquer comentários.
Outro navio a emitir alertas - pelo menos em duas ocasiões - foi o cargueiro britânico Californian, que parecia ser o mais próximo do Titanic (navegava a uma distância de 10 a 20 milhas deste). Da primeira vez avisara para a presença de três enormes icebergues nas imediações. Da segunda, transmitira: Estamos aqui parados, rodeados de gelo.
O radiotelegrafista Jack Phillips, do Titanic, teve então uma atitude que pode ter custado a vida a centenas de pessoas. Assoberbado de trabalho, irritado com as insistências do operador do Californian, mandou-o calar-se e justificou-se: Você está a provocar interferências na minha missão. Estou a comunicar com o cabo Race.
A resposta desabrida de Phillips revela quais eram, naquele momento, as suas maiores prioridades. Ele estava a captar mensagens do Cabo Race, dirigidas aos passageiros do Titanic, e emitia as mensagens destes para os respectivos destinatários. Aliás, era este o procedimento habitual nos grandes paquetes de luxo daquele tempo.
Cansado - e provavelmente amuado com a atitude de Phillips -, o operador do Californian desligou o seu rádio e foi dormir. Não estaria no ar, horas depois, quando se tornou mais desesperadamente necessária a sua disponibilidade.
………………………
(Conclui em 18-Janeiro-2020 - 2.ª Parte - ver aqui)
Nascido na África do Sul, o "kwela" rapidamente se espalhou um pouco por toda a África meridional (em especial a partir da década de 1960).
Aqui temos uma interpretação dos sul-africanos do Mafikizolo:
… e uma outra aqui em baixo, da autoria de dois portugueses de Angola (Duo Ouro Negro) grandemente responsáveis pela popularidade deste género musical naquela antiga colónia de Portugal:
… e mais uma, devida ao excelente Donald Kachamba, do Malawi (Musandinene):
À prostituta
mais nova
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos,
lavrados em
cristal,
límpido e
puro...
E àquela virgem esquecida,
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo,
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes
que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,
vás por essa
noite fora,
com passos feitos de lua, oferecê-los às crianças que encontrares em cada rua…
No dia que se seguiu à execução do duque de Bragança, D. João II mandou chamar o duque de Viseu, D. Diogo, irmão da rainha D. Leonor (além de cunhado, o jovem era seu primo direito). O rei sabia que ele andara metido na conspiração dos Braganças e que o finado duque, bastante mais velho e experiente, o dominara por completo nos últimos tempos, arrastando-o por maus e perigosos caminhos.
Em atenção à sua esposa, o monarca resolveu - tal como fizera com o duque de Bragança - conceder uma derradeira oportunidade a D. Diogo. Foi assim que, na presença da rainha, lhe falou com paternal severidade, admoestando-o pelo seu procedimento, mas dizendo-lhe compreender que fora apenas devido à sua juventude e falta de ponderação que agira daquele modo. Portanto, concluiu o monarca, tudo seria esquecido e perdoado, bastando que D. Diogo procedesse doravante segundo as regras de lealdade que eram devidas ao soberano. D. Diogo ouviu, calado, a reprimenda e o perdão. Calado ouviu e em silêncio continuou quando flectiu o joelho para beijar a mão de D. João. E, o que não era de bom augúrio, foi ainda mudo que abandonou os aposentos de D. Leonor onde a cena decorrera. Foi a rainha, e só a rainha, quem deu mostras de reconhecimento, agradecendo ao poderoso marido o ter poupado a vida e a liberdade do seu jovem irmão. É de admitir que as palavras do rei penetraram por um dos ouvidos do duque de Viseu e que logo saíram pelo outro. D. Diogo era um rapaz simpático e de elegantes maneiras - mas era também, e sobretudo, fraco, insensato e vaidoso. Supunha-se fadado para cumprir um grande destino (talvez, mesmo, subindo ao trono), e alguma da nobreza de que se fazia rodear alimentava-lhe as ilusões cobrindo-o de lisonjas. Havia entre esses nobres quem suspirasse pelo retorno dos bons tempos de D. Afonso V, pai do actual rei, sempre pródigo para com eles. D. Diogo, sensível aos elogios e fácil de convencer, afigurava-se-lhes mil vezes preferível ao monarca severo e avaro que lhes coubera em sorte… Não obstante o trágico fim do duque de Bragança, tudo indica que as actividades conspiratórias não chegaram a ser interrompidas. Desta vez, porém, centravam-se em torno da figura de D. Diogo, a quem andavam a convencer de que poderia, de facto, ser rei de Portugal. Para isso, é claro, teriam que dar sumiço a dois empecilhos: D. João II e o seu legítimo sucessor, D. Afonso, que contava oito anos de idade em 1483. Ou seja: era necessário avançar para o regicídio. O pequeno D. Afonso seria mantido como reizinho por uns tempos, mas não tardaria a ter destino idêntico ao do pai.
Numa altura em que a corte estacionou por algum tempo em Santarém, os conspiradores multiplicaram os encontros. Vinham de noite, a ocultas, meter-se na casa onde se hospedava D. Diogo, e ali discutiam o que - e como - se havia de fazer. O bispo de Évora, D. Garcia de Meneses, era um dos mais empenhados. Mas, como mais tarde se provou, havia outros participantes nesses sinistros conciliábulos: Fernão da Silveira, filho do falecido barão de Alvito; D. Guterre Coutinho, comendador de Sesimbra; D. Álvaro de Ataíde, irmão do conde de Atouguia, que comparecia acompanhado pelo filho, D. Pedro; D. Lopo de Albuquerque, conde de Penamacor, com o seu irmão Pero de Albuquerque; e muitos outros…
Rei D. João II
(a inscrição do retrato refere, erradamente, tratar-se de D. João IV)
Segundo se depreende do processo, estes conspiradores comportavam-se desastradamente e com uma imprudência suicida. Falavam de mais e, acima de tudo, falavam com quem não deviam. Foi o caso, por exemplo, do bispo de Évora, D. Garcia de Meneses, que mantinha uma relação íntima com uma tal Margarida Tinoco. Descuidado, o bispo acabou por eleger como confidente um irmão da amante, Diogo Tinoco, que se apressou a procurar um camareiro do rei, Antão de Faria, para lhe dar conta do que se preparava. Faria tratou de levar Tinoco a D. João II, e o delator logo pôs tudo em pratos limpos: os conspiradores planeavam a morte do rei e a do seu filho, após o que sentariam o duque de Viseu no trono. O monarca recompensou generosamente Diogo Tinoco e encarregou-o de prosseguir as tarefas de espionagem.
Houve outras denúncias, algumas das quais provindas da nobreza. Um dos avisos mais sérios veio de um fidalgo de antiga linhagem, D. Vasco Coutinho. Este não morria de amores pelo monarca, e, desejoso de melhorar a sua situação material, pensara até em ir viver para o estrangeiro. Foi nessa altura que um seu irmão, o conspirador D. Guterre Coutinho, o aconselhou a não sair do país e lhe garantiu que melhores dias estavam para vir em Portugal. Quando D. Vasco, intrigado, quis saber mais, D. Guterre não só deu a entender que a morte do rei estava iminente, como revelou ao irmão todos os pormenores da conspiração. Não se sabe ao certo porquê, mas parece que D. Guterre logo se arrependeu da inconfidência: a partir de então, ele e os restantes conspiradores passaram a exercer estreitíssima vigilância sobre D. Vasco, temerosos de que este os denunciasse. Tinham razão. Ainda que não gostasse do monarca, D. Vasco Coutinho debatia-se com sérios problemas de consciência: uma coisa era o desafecto que nutria por D. João; outra, muito diferente, era permitir, com o seu silêncio, que o assassinassem. No entanto, estreitamente vigiado, via-se impossibilitado de chegar à fala com o soberano.
Os conspiradores tinham planeado liquidar o rei no dia 20 de Agosto de 1484, uma sexta-feira, quando ele voltasse ao seu paço de Setúbal depois de uma caçada nas matas vizinhas de Alcácer do Sal. Durante a viagem de regresso, efectuada de barco, D. Vasco Coutinho conseguiu finalmente aproximar-se de D. João II. E, sem que os restantes passageiros dessem por isso, começou a murmurar ao ouvido do rei o plano a que tivera acesso. O regicídio, informou, teria lugar à chegada, nas praias de Setúbal. Estava previsto que D. Diogo, duque de Viseu, caísse com duzentas lanças sobre a guarda do monarca, enquanto este, indefeso, seria morto no barco pelo bispo de Évora e seus cúmplices.
D. Vasco disse ainda a D. João que os conspiradores se achavam na disposição de se retirarem para as suas terras se não o conseguissem assassinar naquele dia ou nos dias seguintes. Eles tinham uma data limite para executar o plano: era o dia 23 de Agosto, segunda-feira. Se até essa altura o rei não estivesse morto, recolheriam às suas fortalezas para erguerem os pendões da revolta e mergulharem o país numa guerra civil sangrenta.
O rei, que fingia dormitar com o balanço da embarcação, não precisou de ouvir mais. Simulou despertar e anunciou que desejava fazer por terra o resto da viagem até Setúbal. Não só inutilizava, desse modo, o plano conspiratório para esse dia, como estava já na posse dos elementos de que necessitava para agir.
Morte de D. Diogo, duque de Viseu
D. João II actuou, como era seu timbre, de modo fulminante. Desta vez, e não obstante as ligações de sangue, não haveria lugar a perdão. Na noite de sábado, de 21 para 22 de Agosto, mandou vir ao paço de Setúbal o seu primo e cunhado D. Diogo, duque de Viseu, entretanto recolhido em Palmela. Ainda frustrado pelo falhanço da véspera, o duque deve ter-se sentido apreensivo com a súbita convocatória, mas, sem outro remédio, viajou até Setúbal. À chegada, foi chamado a um compartimento interior, normalmente utilizado como guarda-roupa, e aí deu de caras com o rei. Este achava-se acompanhado de D. Pedro de Eça, alcaide de Moura, de Lopo Mendes do Rio e, ainda, de Diogo de Azambuja, capitão que se distinguira na Guiné.
Segundo a versão mais corrente do episódio, D. João II não perdeu tempo. Dirigindo-se com severidade ao primo e cunhado, segurou-o por um braço e perguntou-lhe sombriamente: Duque, que faríeis vós a quem vos quissesse matar? O pobre D. Diogo deve ter ficado petrificado e, provavelmente, terá pressentido o fim. Todavia, sem possibilidade de se esquivar, respondeu ao monarca: Matá-lo-ia. D. João II voltou, uma vez mais, à carga. Exibindo uma das cartas comprometedoras apanhadas aos conspiradores, perguntou ao duque se a assinatura que nela constava era a sua. Apavorado, D. Diogo disse que sim. E não houve tempo para mais interrogatórios. O rei soltou uma derradeira frase de condenação - Pois o que vós a mim ordenáveis, em vós se cumpre! - e logo, de punhal em riste, investiu sobre o cunhado ferindo-o por três vezes. Diz-se que D. Pedro de Eça agarrou a vítima pelos cabelos e lhe deu o golpe final, enquanto Diogo de Azambuja se terá limitado a lançar um reposteiro sobre o cadáver.
Nessa mesma noite, o monarca mandou chamar Manuel, irmão de D. Diogo - ainda um jovenzito de quinze anos -, e explicou-lhe o que sucedera - e porque tivera de ser assim. Mais lhe prometeu que, em caso de morte do seu herdeiro D. Afonso - e não havendo mais descendentes legítimos -, seria a ele, D. Manuel, que caberia subir ao trono quando D. João II se finasse. O rei terá provavelmente dito isto como descargo de consciência, estando muito longe de imaginar que os fados se cumpririam tal como nesta sua promessa. Com efeito, D. Afonso perderia a vida, acidentalmente, junto às margens do rio Tejo e D. Manuel acabaria como rei de Portugal daí a onze anos (1495).
Túmulo de D. João II no mosteiro da Batalha
(distrito de Leiria, Beira Litoral, centro de Portugal)
Depois disto, D. João II tratou dos restantes conspiradores. Ainda naquela noite foram presos os principais implicados, acabando quase todos executados. O bispo de Évora, D. Garcia de Meneses, talvez o maior responsável, depois do duque de Bragança, pelos maus caminhos por onde se metera D. Diogo, teve direito a tratamento especial. Encerrado numa cisterna vazia do castelo de Palmela, perto de Setúbal, regalou-se durante uns tempos com a comida trazida da mesa real. Mas, um dia, foram encontrá-lo sem vida, com um livro na mão - provavelmente envenenado.
D. Guterre Coutinho foi também condenado, mas, a pedido do irmão, D. Vasco, não foi executado publicamente: prenderam-no na torre de Avis e ali acabou por morrer, insinuando os cronistas que não foi de morte natural.
Outros condenados foram D. Fernando de Meneses (irmão do bispo de Évora), Pero de Albuquerque e D. Pedro de Ataíde. D. Álvaro de Ataíde pôde atravessar a fronteira, colocando-se a salvo. Fernão da Silveira conseguiu igualmente fugir para Castela (de onde escreveu uma carta insultuosa ao monarca português) e, daí, para França - onde findou os seus dias assassinado por um aventureiro catalão a soldo de D. João II. O conde de Penamacor andou em fuga no estrangeiro durante sete anos, até que D. João II conseguiu convencer o rei de Inglaterra a encerrá-lo na Torre de Londres, mas não a extraditá-lo.
Quanto aos irmãos do falecido duque de Bragança, o chanceler D. Álvaro foi o único que sobreviveu muito tempo. O conde de Faro morrera em Sevilha, no ano de 1483, e houve quem falasse de veneno. Quanto ao marquês de Montemor, que continuou a conspirar contra o rei de Portugal do outro lado da fronteira, foi executado em Abrantes - mas só em efígie… Arranjaram um boneco vestido como ele e, no cadafalso, cortaram-lhe a cabeça, espirrando sangue artificial. Diz-se que o marquês ficou psicologicamente muitíssimo abalado quando recebeu notícia disto - tanto que morreu passado pouco tempo.
D. João II, ao centralizar, já sem oposição significativa, o poder real nas suas mãos, achava-se agora livre para a sua grande missão na vida - preparar a notável expansão portuguesa pelo mundo. Foi devido à sua persistência que Portugal celebrou com Castela o Tratado de Tordesilhas (ano de 1494), em que os dois países dividiram entre si as terras descobertas ou por descobrir fora da Europa.
O astucioso traçado de uma linha vertical para ocidente - muito para ocidente de Portugal... - incluía uma considerável porção do que viria a ser mais tarde o território do Brasil (Pedro Álvares Cabral só ali chegaria em 1500, mas é bastante provável que os Portugueses já tivessem conhecimento da região).
A insistência de D. João II na deslocação acentuada dessa linha implicou possivelmente que os Brasileiros falem hoje a formosa língua portuguesa - e não o agreste idioma castelhano dos seus muitos vizinhos...
FIM DA 3.ª e ÚLTIMA PARTE
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Elementos Adicionais:
1 - Retrato de D. João II pelo historiador Oliveira Martins -aqui
2 - Programa do Prof. José Hermano Saraiva sobre D. João II (na Radiotelevisão Portuguesa):