quarta-feira, 18 de março de 2020

Alondra de la Parra dirige "Huapango", de Moncayo

A maestrina mexicana Alondra de la Parra.
Nasceu em 31 de Outubro de 1980. 
 
No vídeo que se segue, Alondra de la Parra conduz a Orquestra de Paris na interpretação da mais célebre criação do seu compatriota José Pablo Moncayo (1912-1958).
Esta composição - Huapango - passou a ser considerada desde a altura em que nasceu, há quase oitenta anos, como uma espécie de segundo hino nacional mexicano.
Já a tínhamos escutado numa versão mais ligeira e festiva, a cargo do Mariachi Real do México e dos músicos do Film Symphony Orchestra - rever aqui.
 
A condução de Alondra de la Parra, assente na excelência dos integrantes desta magnífica orquestra, ilustra por inteiro o seu estilo habitual: seguro, apelativo e contagiante, combinando firmeza e suavidade em doses sabiamente equilibradas, tudo servido por uma alegria natural e expressiva, muito distante das "fitas" em que são escusadamente pródigos alguns dos seus companheiros de profissão.
Alondra de la Parra tem uma página oficial, a que pode aceder aqui.
 
 

terça-feira, 17 de março de 2020

D. Pedro III de Portugal, pai de D. João VI - O "Capacidónio"


D. Pedro III foi Rei Consorte de Portugal, por ter casado com a herdeira do trono, a rainha D. Maria I [mãe de D. João VI; recorde-se que ela viria a falecer em 1816 no Brasil, com as faculdades mentais gravemente afectadas,  no período em que a Corte lusitana se instalou, para escapar a Napoleão, na cidade do Rio de Janeiro (1808-1821)].

D. Pedro era tio de D. Maria I, uma vez que foi irmão do pai desta (o rei português D. José I, que tivera o famoso Marquês de Pombal como principal ministro).
Era, também, bastante mais velho do que a esposa e sobrinha (quase dezoito anos de diferença).

A historiografia não foi muito generosa para com esta figura relativamente apagada. Puseram-lhe em realce a beatice e duvidaram-lhe amiúde da inteligência e da capacidade governativa. Quanto ao primeiro aspecto, Oliveira Martins chegou ao ponto de lhe chamar "sacristão"…


Rainha D. Maria I, de Portugal (1734-1816)
e o tio D. Pedro III, seu esposo e Rei Consorte (1717-1786)

Segundo os testemunhos disponíveis, D. Maria I terá sempre respeitado, e até amado, este seu tio e marido. Desejando pô-lo em destaque, mandou cunhar moedas de ouro com as efígies de ambos (eram as célebres peças de duas caras).

Tratou também de o convocar para reuniões de governo, onde se debatiam negócios públicos e inúmeras pretensões de uma multidão de requerentes. Mas ele, de facto, não possuía bagagem intelectual para uma colaboração válida. Aflito, socorria-se, então, de um bordão, uma frase feita, que aplicava sempre que lhe solicitavam opiniões sobre uma eventual solução : Eu não vou por aí…
Isto não significava que ele pretendesse de alguma forma opor-se a esta ou àquela medida: queria apenas dizer que não tinha outra resposta. Limitava-se, assim, a pôr um ar grave e lá ia repetindo: Eu não vou por aí… E dali não passava.

A razão da sua alcunha mais famosa teve igualmente origem em algo que ele repetia com frequência. Certa ocasião, D. Pedro terá escutado sobre certo indivíduo que este era capaz e idóneo para exercer determinado cargo. Soando-lhe bem o que ouviu, passou a utilizar a expressão para qualificar quaisquer candidatos que lhe agradassem. Porém, juntando incorrectamente as palavras que lhe tinham chegado aos ouvidos, dizia que eles eram capacidónios para os lugares pretendidos. Fulano é capacidónio para… Beltrana é capacidónia para…
E assim ficou D. Pedro III para todo o sempre lembrado como o Capacidónio

Fosse como fosse, D. Maria I foi-lhe dedicada até ao fim. Acredita-se, até, que a morte de D. Pedro III (em 1786) e a do primogénito e herdeiro de ambos, D. José (aos 27 anos, no ano de 1788) contribuíram decisivamente para o agravamento da instabilidade mental que havia de a conduzir à loucura.

A morte do primogénito D. José e a demência de D. Maria I acabariam por atirar para a ribalta um outro filho da rainha e de D. Pedro III: D. João, que todos conhecemos, primeiro, como Príncipe Regente, e, depois, como o rei D. João VI de Portugal, Brasil e Algarves...

Moeda de ouro
com as efígies de D. Maria I e D. Pedro III


segunda-feira, 16 de março de 2020

Paolo Conte


Paolo Conte nasceu a 6 de Janeiro de 1937 em Asti, Piemonte (Itália).
Trata-se de um excepcional compositor, cantor e multi-instrumentista, ainda que seja pianista de jazz por formação.
É considerado um dos artistas mais importantes e inovadores da sua geração.
Alguns exemplos:

1 - It's Wonderful (Via con me):

2 - Gong - oh:

3 - Azzurro:



4 - … e ainda, agora ao vivo,
repetindo o 1.º tema:

sábado, 14 de março de 2020

A Inquisição em Portugal (segundo Oliveira Martins) (2)



(Continuação da 1.ª Parte - 12-Março-2020) (ver aqui)

" (...) Cordões de tropa impediam que o povo invadisse, na praça, o recinto reservado ao Auto.
Havia ali, para um lado, afastadas, as pilhas de madeira, rectangulares, com o poste erguido ao centro e um banco; e no meio da praça um espaço reservado com o estrado e as tribunas.
Na da esquerda estava o rei, D. João III, piedosamente satisfeito na sua fé, com o espírito duro, mas sincero e forte; estavam a rainha e a corte; e, ao lado do monarca, o condestável com o estoque desembainhado.

Na outra, da direita, levantavam-se o trono e dossel do cardeal D. Henrique, depois rei, e agora infante inquisidor-mor, ladeado pelos membros do tribunal sagrado, nos seus bancos.
A meio do tablado ficava o altar, com frontal preto, banqueta de seda amarela, e um crucifixo ao centro. Em frente, num plinto, erguia-se o estandarte da Inquisição. (...)
E os padecentes, em linhas, ficavam de pé, voltados para o altar, para o púlpito, para o tribunal.

 
Disse-se missa. O inquisidor-mor, de capa e mitra, apresentou ao rei os Evangelhos, para sobre eles jurar e defender a fé. D. João III e todos, de pé e descobertos, juraram com solenidade sincera. Depois houve sermão; e finalmente a leitura das sentenças, começando pelos crimes menores.

A adoração das imagens, questão debatida nos concílios, dava lugar a muitas faltas.
Outros iam ali por terem recusado beijar os santos dos mealheiros, com que os irmãos andavam pelas ruas pedindo esmola.
Outros por irreverências, outros por falta de cumprimento dos preceitos canónicos; muitos por coisa nenhuma; a máxima parte, vítimas de delações pérfidas ou interessadas.

Os relatores iam lendo as sentenças, os condenados gemendo e chorando; outros, exultando por se verem soltos do cárcere, livres da tortura, prometendo de si para consigo serem de futuro meticulosamente hipócritas.


Chegou-se finalmente aos condenados à morte, no fogo: eram três mulheres por bruxas, e dois homens, cristãos-novos, por judaizarem, mais um por feiticeiro.
O relator, imperturbável, leu as sentenças, onde se narravam os crimes.

Os cristãos-novos comiam pães ázimos; e um deles, quando varria a casa, chamava nomes a um crucifixo, fazia-lhe caretas, e dava-lhe tantas unhadas quantos eram os golpes de vassoura no chão.

Estes crimes vinham envolvidos em frases horrorosas e generalidades tremendas; e a corte, o clero e o povo, ao ouvirem tão grandes sacrilégios, pasmavam de ódio contra os desgraçados.


 
A feitiçaria não os impressionava menos.
Cristãos-novos e bruxos, que lançavam malefícios e olhados, eram a causa das pestes, das fomes e dos naufrágios das naus da Índia.
Sobre as cabeças dos desgraçados caíam as maldições de uma população aflita. Ninguém duvidava da verdade dos crimes, que muitas testemunhas afiançavam.

O diabo aparecera a um, e ensinara-lhe as curas infernais, pelo livro de S. Cipriano. Sangrava os doentes na testa, com alfinetes. "Estou picado e enfeitiçado: Jesus! nome de Jesus! despicai-me e desenfeitiçai-me!" - dissera uma vítima a um padre da Beira.
Os diabos, para se vingarem, foram a casa do padre e quebraram-lhe toda a louça.
Um caso terrível era esse; e o povo olhava com horror para o médico de S. Cipriano, que tinha a loucura evidente na face.

 
Às bruxas o diabo aparecia de dia sob a forma de um gato preto, e, de noite, de forma humana de homem pequeno; assim o dizia gravemente a sentença, com o depoimento das testemunhas.

A bruxa saía com o demónio e iam juntos a um rio, onde as outras estavam com outros demónios; e depois de se banharem tinham coito com circunstâncias lascivas e abomináveis; a sentença enumerava-as e a devassidão da corte e do povo percebia-as, comentava-as.

De volta ao sabbath, de madrugada, as bruxas entravam invisivelmente nas casas, perseguindo as famílias honestas e piedosas.


Terminada a leitura, absolvidos os penitentes, os cristãos-novos e as bruxas foram relaxados ao braço secular para serem queimados.
O rei, a corte e o inquisidor retiraram-se; e os sinos continuavam a dobrar, pausada e funebremente.
Os carvoeiros de alabardas, os verdugos de capuzes, e os frades de escapulário e crucifixo na mão, ficaram junto dos condenados para os queimar.

O povo cercou em massa o lugar das pilhas quadrangulares de lenha, com os olhos ávidos e a cabeça cheia de cóleras contra esses réus das suas desgraças.
Todos, menos o bruxo, morreram piedosamente, garrotados, depois queimados.

O médico de S. Cipriano, porém, tinha culpas maiores e fora condenado a ser queimado vivo.
Junto da pilha, o frade, com as mãos postas, pedia-lhe que, por Deus, se arrependesse; mas ele, com o olhar esgazeado do louco, virava a cara e zombava.

Largando a correr pela escada, subia à pilha, e, do alto, sentado no banco, fazia esgares e visagens irreverentes.
O frade batia nos peitos, a plebe rugia colérica.
Os verdugos amarraram-no ao poste e os carvoeiros acenderam a fogueira, que principiou a crepitar.
Os rapazes e as mulheres da Ribeira, salteando-o com paus e garrunchos, arrancaram-lhe um olho. Atiravam-lhe pedras, pregos, e tudo; e faziam-lhe feridas por onde escorria sangue: tinha a cabeça aberta e um beiço rasgado.

Entretanto, a chama começava a romper por entre os toros; e ele com as mãos, estorcendo-se, dava no fogo, querendo apagá-lo; e quando via, com o olho que lhe restava, vir no ar uma pedra, fazia rodela ou escudo com a samarra, para se livrar. Do vão do outro olho escorria pela face um fio de sangue.

Isto já durava por mais de uma hora e divertia muito o povo - agora que tinha a certeza de ver morrer o seu inimigo.
Mas o vento, que soprava rijo do poente, da banda do rio, arrastava consigo as chamas; e por não ter fumos que o afogassem, o condenado ficou três horas vivo, a torrar, agonizando, contorcendo-se, em visagens, e gritando - ai!... ai!... ai!...".

Fim da 2.ª e última parte

(Oliveira Martins - História de Portugal - 1.ª ed. - 1879)

sexta-feira, 13 de março de 2020

Brandi Carlile homenageando o imortal Johnny Cash ("Folsom Prison Blues")


Brandi Carlile nasceu no ano de 1981,
em Ravensdale, Washington,
Estados Unidos da América.


Brandi Carlile canta
Folsom Prison Blues:


  ...tema aqui interpretado
pelo seu homenageado:


quinta-feira, 12 de março de 2020

A Inquisição em Portugal (segundo Oliveira Martins) (1)



A Inquisição Portuguesa, também conhecida por Tribunal do Santo Ofício, foi uma instituição da Igreja Católica que vigorou em Portugal de 1536 a 1821.
Grandemente responsável pela instauração de um clima de terror no país, contribuiu também, em muito, para o atraso cultural do mesmo.

A Inquisição perseguia, julgava e punia pessoas acusadas de cometer crimes considerados heréticos.
Tais "crimes", inúmeras vezes fantasiosos, decorriam de confissões arrancadas sob torturas crudelíssimas, conduzindo centenas de desgraçados inocentes aos infames braseiros das praças públicas.
Oliveira Martins, grande historiador português [1845-1894], viu-a assim:
………

"A Inquisição, ardentemente desejada e pedida por D. João III ao Papa, estava fundada; e se a criação do tribunal era o único meio de conter e moralizar os furores fanáticos da turba, e de evitar o sistema de matanças e pilhagens do reinado anterior, é fora de dúvida que os nervos da nação (Portugal), já flácidos e podres, não podiam usar, de um modo relativamente justo, a arma terrível que lhes era confiada . (...)


 
(...) Os seus processos infringiam todas as regras elementares da justiça e do bom-senso.

Os delatores serviam de testemunhas; os filhos depunham contra os pais, os pais contra os filhos; o réu não podia comunicar com os defensores nem conhecia quem o acusava; a delação era aplaudida e a espionagem considerada uma virtude.

Os "familiares" insinuavam-se nas famílias, como médicos, confessores, íntimos e conselheiros, para captarem os segredos e os delatarem.

Na sentença não havia revisão nem apelação.

Nas prisões não havia prazos preventivos, e o encarcerado jazia meses, anos, todo o resto da vida muitas vezes, ignorante do crime de que o acusavam.


Armavam-lhe laços e perfídias para o perder.

Metiam-lhe no cárcere pessoas subornadas, que se diziam também pacientes, para o afagarem e se condoerem da sua miséria.

Ganha assim a confiança, começavam as confidências: a Inquisição era um horror, uma peste! E se o miserável, perdido, aplaudia, estava condenado. Para lhe obter a confissão de faltas, imaginárias frequentemente, os inquisidores fingiam enternecer-se, prometiam perdões, ajudavam, seduziam, até que o miserável confessasse o que fizera, ou não fizera.

Esta espécie de tortura era muitas vezes mais dolorosa do que a outra; e os infelizes encarcerados chegavam a considerar um céu o calabouço negro, onde lhes não era dado nem ver, nem falar, nem gemer, nem chorar, sob pena da chibata do verdugo. No seio da treva e do silêncio absoluto, nem bem sabiam se viviam ou tinham morrido, e, como idiotas, deixavam-se ficar estendidos no chão, imóveis, no antro dos seus sepulcros.

Cada vez que a porta do cárcere se abria, estremeciam de medo, ou de uma esperança meio-apagada. Levavam-nos amarrados à casa dos tormentos; e enquanto iam descendo as escadas tortuosas, onde os gritos se perdiam abafados, o juízo ardia-lhes, confundiam-se-lhes as ideias, já não distinguiam do real o suposto.

Começavam a crer-se monstros, a acreditar em tudo aquilo de que eram acusados: tinham visto o diabo em pessoa, tinham-lhe vendido a alma, tinham partido com um machado um crucifixo, etc.

O inquisidor, frio e fúnebre, sentado ao fundo da casa de abóbada, mal alumiada por tochas presas em anéis de ferro às paredes, acreditaria no diabo e nos seus aparecimentos? Porque não? Um doido torturava um idiota; e, no fundo escuro de uma cripta, a loucura dos homens tinha os seus ágapes terríveis.

Demónios pareciam os verdugos, mudos e mascarados, com o capuz e samarra de holandilha preta, onde havia os buracos dos olhos e da boca, movendo-se como autómatos a preparar os instrumentos da tortura.



E de toda aquela gente, nem talvez o médico, a um lado, a observar que a vida dos pacientes se não apagasse de todo, tivesse o juízo são.

Desde que os homens se tinham considerado senhores da verdade absoluta, a palavra de Deus enlouquecia-os e fazia deles monstros.

Nessas tragédias lúgubres morria por vezes o miserável, na tortura ou no cárcere; e então era enterrado nas covas do palácio, sendo primeiro o esqueleto dscarnado, religiosamente, para que os ossos pudessem figurar no Auto-da-fé próximo, queimados na fogueira.

O primeiro desses dramas fúnebres e burlescos teve lugar em Lisboa no dia 20 de Setembro de 1540: ainda a Inquisição não estava definitivamente confirmada pelo Papa.

A procissão saía do palácio do Rossio, para a praça da Ribeira, onde tinha lugar a cerimónia.

Vinham à frente os carvoeiros, armados de piques e mosquetes para olhar pelas fogueiras; depois um crucifixo alçado, e os frades de S. Domingos, nos seus hábitos e escapulários brancos, com a cruz preta, levando o estandarte da Inquisição, onde numa bandeira de seda se via a figura do santo, tendo numa das mãos a espada vingadora, na outra um ramo de oliveira: Justitia et Misericordia.

Após os frades seguiam as pessoas de qualidade, a pé; familiares da Inquisição, vestidos de branco e preto, com as cruzes das duas cores, bordadas a fio de ouro.

Depois vinham os réus, um a um, em linha; primeiro os mortos, depois os vivos: fictos, confictos, falsos, simulados, confitentes, diminutos, impenitentes, negativos, pertinazes, relapsos - por ordem de categoria dos delitos, a começar nos mortos e nos contumazes.

Em varas erguidas como guiões, (...) penduravam-se as estátuas dos condenados ausentes; e se a estátua representava o morto, outro verdugo seguia após ela com uma caixa negra pintada de demónios e de chamas, contendo os ossos, para serem lançados aos pés da estátua na fogueira. Mais de uma vez se queimaram esqueletos desenterrados de pessoas que, imunes durante a vida, foram julgadas e condenadas depois de mortas.




Em seguida vinham os réus vivos, por ordem crescente de gravidade dos crimes, sem distinção de sexos, um a um, com o padrinho ao lado, ou com o confessor domínico se iam a queimar.
Os homens vestiam um fato raiado de branco e preto; as mulheres apareciam em longos hábitos da mesma fazenda. Traziam todos tochas de cera amarela na mão e o baraço ao pescoço. Insígnias diferentes distinguiam os que iam ao fogo, dos penitentes e dos confessores. Estes vestiam o sambenito, espécie de casula branca, com as cruzes de Santo André, vermelhas, no peito e nas costas; e levavam a cabeça descoberta.

Os que depois da sentença tinham obtido perdão da fogueira, levavam samarra, uma casula parda; e carocha, uma mitra de papelão; e numa e noutra, pintadas, línguas de chama invertidas, o fogo revolto, a indicar a sua sorte.

Os condenados à morte, quer para serem estrangulados, quer não, levavam na samarra e na carocha o retrato pintado, ardendo em chamas, com demónios pretos pelo meio, e o nome escrito, e o crime por que padeciam.

Depois da estirada procissão, vinham os alabardeiros da Inquisição, e, a cavalo, os oficiais do conselho supremo, inquisidores, qualificadores, relatores e mais sequazes da corte. Os sinos dobravam pausadamente nas torres das igrejas. A turba apinhava-se nas ruas, insultando os pacientes com palavras desonestas e atirando-lhes pedras e lama."

(Conclui no próximo sábado, 14-Março-2020 - ver aqui)

(Oliveira Martins - História de Portugal - 1.ª ed. - 1879)

quarta-feira, 11 de março de 2020

Ao Criador do Homem (Oração Antiga do Peru)



A aurora terrestre
veste-se de luz
para prestar homenagem
ao Criador do Homem.


Os altos céus
fazem correr as nuvens
e humilham-se
perante o Criador do Homem.

 

O Senhor das Estrelas,
nosso pai, o Sol,
espalha a sua cabeleira
aos seus pés.

O vento, por sua vez,
sacode o cimo das árvores,
agita os seus ramos
e verga-os até ao chão.

No coração das árvores
cantam os pássaros
e prestam homenagem
ao Senhor da Terra.

Todas as flores,
esplêndidas e belas,
se desdobram em cores
e em perfumes.

O fundo do lago,
um espelho de água,
é a morada feliz
dos peixes vivazes.

A forte torrente,
com a sua canção rouca,
canta os louvores
de Viracocha. (*)

E também o rochedo
se cobre de verdura
e, na ravina, a floresta
oferece as frescas flores.

E os habitantes da montanha,
o Povo das Serpentes,
a seus pés deslizam rápidos.
A vicunha no alto das montanhas,
a viscacha dos rochedos,
fazem os seus covis
à volta dele.

Também o meu coração,
em cada aurora,
te presta homenagem,
meu Pai, meu Criador.

……………..

(*) - Viracocha - O principal deus dos Incas.

(A Oração dos Homens - Uma Antologia das Tradições Espirituais
- Editora Assírio e Alvim - Lisboa - 2006)

terça-feira, 10 de março de 2020

Filmes e Temas Musicais (3)







1 - Out of Africa
(África Adeus)








1.A - Out of Africa
(Autor: John Barry)



................



2 - A 25.ª Hora

2.A - A 25.ª Hora
(Tema de Yohann)
(Autor: Georges Delerue)



..................


3 - Platoon

3.A - Tema de Platoon
(Autor: Samuel Barber)




………........
4 - The World of Suzie Wong
(O Mundo de Suzie Wong)

4.A - Tema de The World of Suzie Wong
(Autor: George Dunning)

segunda-feira, 9 de março de 2020

"Foi um dia de kremesse" (Olegário Mariano - Brasil)


Foi um dia de kremesse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.

Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.

Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo?
- Dou-se.

E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?

Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.

- Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
- Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.

E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.

Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.

Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse.

sábado, 7 de março de 2020

Os Exércitos de Napoleão em Portugal - O Desastre da Ponte das Barcas (Porto - Ano de 1809)

Ao fundo, do lado direito da imagem, a cidade do Porto; em primeiro plano, o casario de Vila Nova de Gaia. Atravessando o rio Douro e unindo as duas povoações, vê-se a famosa ponte, assente em vinte barcas unidas por cabos metálicos, onde ocorreria a tragédia.

Devido à aliança com a Inglaterra que Portugal se obstinava em respeitar (ainda que recorrendo a diversos subterfúgios), Napoleão decidiu ordenar aos seus exércitos que invadissem o território lusitano.
Fê-lo em três ocasiões, e foi sucessivamente repelido ao fim de períodos mais ou menos longos: a primeira invasão, comandada em 1807 pelo general Junot, levou à fuga da família real portuguesa para o Brasil (rever aqui), o que acabaria por precipitar as condições propícias à declaração de independência do grande país sul-americano. 
A segunda invasão, conduzida pelo marechal Soult, ocorreu em 1809; a derradeira aconteceria em 1810 e seria encabeçada pelo marechal Massena.

Foi exactamente durante a segunda invasão que se deu o trágico episódio que hoje evocamos. Soult, que se encontrava na Galiza com 24 000 homens, recebeu ordens de Napoleão para entrar em Portugal pela fronteira norte, atravessando o rio Minho. Daí deveria partir à conquista da cidade do Porto, capital do Norte português, e, logo a seguir, apontaria à conquista de Lisboa, seu principal objectivo.



Depois de passar por Braga e Guimarães, as vanguardas francesas atingiram os arredores do Porto no dia 27 de Março de 1809. A cidade contava com cerca de 20 000 homens para a defesa (entre tropas de linha, milicianos e ordenanças) e erguera um conjunto de redutos precários ao longo de um grande arco defensivo compreendido entre o Castelo do Queijo e a Quinta do Freixo.

O marechal Soult efectuou um reconhecimento às defesas da cidade e verificou imediatamente a sua debilidade. Ainda enviou uma carta ao comando português (confiado a um bispo, membro da Junta Governativa!) intimando-o a render-se, mas a conciliação não foi possível.
Então, no dia 29 de Março, o marechal francês ordenou o ataque à cidade, com várias investidas em pontos diferentes. A resistência durou pouco. O bispo-comandante (!) fugiu do Porto para Gaia, na margem oposta, e terá dado ordem para se levantarem os alçapões da ponte das barcas para impedir, ou pelo menos dificultar, a passagem das tropas napoleónicas.

Entretanto, uma parte considerável da população portuense, indefesa perante bandos de soldados franceses que cometiam toda a espécie de violências nas ruas da cidade, tentou fugir para a outra margem do Douro, ou seja, para Vila Nova de Gaia, atravessando a ponte das barcas. Foi então que aconteceu a tragédia, com a perda de milhares de vidas.

Várias razões terão contribuído para tal mortandade: em primeiro lugar, o levantamento súbito dos alçapões da ponte terá precipitado a queda de muitos no rio, empurrados pelos que, em pânico, corriam imediatamente atrás; depois, parece que certos lanços da ponte ruíram sob o peso da mole humana em fuga; em terceiro lugar, a acção das tropas invasoras, que perseguia e fazia fogo sobre os fugitivos, ocasionou um número indeterminado de vítimas; por fim, muitos terão sido atingidos pela própria artilharia portuguesa, que, postada na serra do Pilar (do lado de Vila Nova de Gaia), abriu fogo para tentar deter os Franceses.
Como resultado, uma carnificina horrorosa: terão perecido cerca de 4 000 pessoas naquele fatídico dia 29 de Março de 1809.



Cidade do Porto: placa comemorativa colocada junto ao local da tragédia, na margem do rio Douro.