sábado, 9 de novembro de 2019

Apache! (Episódios da resistência dos povos do sudoeste norte-americano) (5)

 

Nos princípios da década de 1880, após a morte de Victorio, quase todos os Apaches se achavam encurralados em reservas atribuídas pelo governo americano - grandes espaços vigiados por enxames de soldados prontos a reprimir à nascença qualquer esboço de revolta. No entanto, grupos de desesperados logravam por vezes furtar-se à vigilância e regressar à vida anterior, novamente de armas na mão. Alguns relatos insuspeitos, de origem americana, deixariam a nu, com toda a clareza, a explicação dessas fugas: elas resultavam invariavelmente dos abusos sofridos pelos índios.

Certos agentes do governo, conluiados com outros cidadãos sem escrúpulos, procediam, em proveito próprio,  ao desvio e à negociação das rações e demais produtos destinados aos habitantes das reservas. Por outro lado, as terras destas eram amiúde cobiçadas por ambiciosos oportunistas, que procuravam suscitar respostas violentas dos Apaches para que eles fossem expulsos dali.

A demonização dos índios constituía um processo contínuo. Jornais da fronteira propagavam toda a espécie de falsidades sobre eles, atribuindo-lhes violências que não haviam cometido - ou que, no limite, correspondiam a actos de vingança pelos agravos sofridos.
Essas notícias fantasiosas eram acriticamente reproduzidas, sem filtragens ou verificações, pela imprensa dos grandes centros urbanos, muito afastados dos locais dos acontecimentos, o que contribuía para consolidar uma opinião pública generalizadamente hostil aos nativos e tendencialmente concordante com qualquer retaliação exercida contra eles.

Um homem acima de toda a suspeita nesta matéria era o general americano George Crook. Para os Apaches, ele continuava a ser o Lobo Cinzento, que perseguira antigamente Cochise e outros índios, de diferentes tribos (Sioux, Cheyennes). Mas Crook, com o decurso dos anos, fora mudando de opinião acerca daqueles inimigos singulares: passara a encará-los como seres humanos (o que estava longe de ser posição pacífica entre os invasores). E confirmava, agora, o desrespeito e as injustiças de que eles tinham sido vítimas: Os índios não são culpados, escreveu, porque não vêem nenhuma justiça num governo que só os castiga, enquanto permite que o homem branco os roube à vontade.

Crook, que no derradeiro quadrimestre de 1882 assumira  o comando do Departamento do Arizona - e que nessa condição logo se deslocou à reserva de White Mountain -, não vislumbrou ali motivos para alterar as suas ideias. Acreditava que a solução já não residia na guerra, mas no diálogo com os índios. 
Tornando-se embora impopular entre os seus concidadãos, insistia com veemência: Somos culpados de mais, como nação, pela situação actual. Isso quer dizer que devemos mostrar aos Apaches que serão doravante tratados com justiça e protegidos da invasão dos brancos.


Gerónimo (1829-1909)

O general Crook, ao clamar naquelas áridas paragens pelos direitos dos índios, era apenas uma voz no deserto - como fora outrora a de Tom Jeffords, o amigo de Cochise. Mas os Apaches conheciam outras vozes de brancos - a imensa maioria - que exprimiam ideias muito diferentes. Por isso continuavam a desconfiar e, alguns deles, a lutar.
Foi o que se passou com o velho Nana, guerreiro apache de 70 anos - um dos trinta sobreviventes do massacre que acabara com a vida de Victorio, em Tres Castillos -, que conseguira escapar para o México com alguns seguidores.
Após o desastre, Nana não só recusara render-se como recrutou guerrilheiros entre os jovens apaches que vegetavam nas reservas, entregues a quotidianos de tédio e desprovidos de horizontes. No Verão de 1881, transpôs o Rio Grande com a sua gente e, em três ou quatro semanas, travou oito combates, apoderou-se de duas centenas de cavalos e tornou a refugiar-se no México, não obstante a perseguição da Cavalaria dos Estados Unidos.

Os americanos, temendo o recrudescimento da guerra, expediram reforços para o Sudoeste, particularmente para a área de White Mountain. Aqui, algumas figuras já nossas conhecidas - como Naiche e Gerónimo, que se deixara entretanto enclausurar na reserva - alarmaram-se com as manobras de intimidação que a cavalaria inimiga levava a cabo nas imediações. Corriam boatos sobre a iminente prisão de todos os líderes que haviam combatido os brancos.
Uma noite, em finais de Setembro de 1881, Naiche, Juh e Gerónimo - de longe o mais prestigiado - fugiram da reserva acompanhados por 70 guerreiros e refugiaram-se nos seus conhecidos baluartes da Sierra Madre, em território mexicano.

Em Abril de 1882, após meio ano de combates e de assaltos que lhes permitiram equipar-se e armar-se convenientemente, retornaram a White Mountain para fazerem evadir mais guerreiros e as suas famílias. Muitos responderam ao apelo, e o grupo, agora bastante aumentado, tomou o rumo do México. O exército americano procurou embargar-lhes o passo nas proximidades da fronteira, mas uma manobra repentina dos Apaches, tacticamente brilhante, reteve os soldados durante o tempo necessário para que o grosso dos fugitivos entrasse no México. Foi então que sobreveio o  desastre: um regimento mexicano montou uma emboscada à coluna apache, matando a maioria das mulheres e das crianças, que seguiam à frente.

Gerónimo sobreviveu, tal como sobreviveram, entre outros, Naiche, Loco e Chato. Com os guerreiros que restavam, eles correram a unir as suas forças com as de Nana, que continuava muito activo nas operações de guerrilha.
O que se seguiu foi um período de lutas ferozes, com os norte-americanos a enviarem reforços sucessivos, os quais só contribuíam para fazer crescer a intranquilidade entre os índios ainda presentes nas reservas. Isso originava mais evasões e um cortejo de ataques contra os ranchos situados nas rotas de fuga dos índios. E o nome de Gerónimo passou a ressoar por toda a região como símbolo de rebeldia e de terror.

Gerónimo com três dos seus guerreiros. Ele é o mais alto, à direita.

Foi para tentar resolver a situação de caos instalada no Sudoeste que o Exército americano convocou o general George Crook e o enviou para o Arizona, com largos poderes, no mês de Setembro de 1882. O general, depois de se inteirar da situação em White Mountain, reforçou a crença de que o diálogo com os índios era a melhor forma - porventura a única - de fazer regressar a paz ao território. E pensava que, através de medidas concretas e apaziguadoras na reserva, conseguiria fazer regressar a maioria dos fugitivos e chegar à fala com o próprio Gerónimo para o convencer a depor as armas.

Algumas das medidas de Crook provocaram a ira dos seus compatriotas, mas contribuíram indubitavelmente para a restauração de um clima de confiança entre a população índia. Ele começou por expulsar de White Mountain todos os colonos e garimpeiros brancos, que estavam frequentemente na origem dos desentendimentos. Depois exigiu que a Agência Índia cooperasse com ele no tocante à introdução de reformas na reserva.

Os contratos para a obtenção de forragens foram celebrados com os Apaches e não com os antigos fornecedores brancos. O Exército pagaria, com dinheiro, todos os excedentes de milho e verduras que os índios conseguissem produzir nas suas terras. Tal como nos tempos de John Clum, foi restaurada a polícia apache e os casos passaram a ser julgados por tribunais índios. Os agentes e comerciantes foram sujeitos a controlo apertado, impedindo ou dificultando as fraudes habituais, o que teve logo como consequência o aumento das rações. Os índios deixaram de ser obrigados a viver nas imediações de San Carlos ou do Forte Apache, possibilitando-se que se instalassem, com as suas casas e quintas, em qualquer ponto da reserva. O general incitava-os a criar os seus rebanhos e a cultivar campos de milho e feijão. E, tão importante como tudo isso, deixaram de ser vistos soldados no interior da reserva.

O cepticismo inicial dos habitantes de White Mountain foi dando gradualmente lugar a um sentimento de confiança. As notícias ultrapassavam os limites da reserva e chegavam a Sierra Madre, no território mexicano, de onde continuavam a partir os ataques de Gerónimo e dos seus seguidores. Certo dia, o general George Crook entrou no México com uma força expedicionária e, auxiliado por batedores experientes, conseguiu alcançar o refúgio de Gerónimo, a quem propôs o regresso a White Mountain com a gente que lhe restava. Surpreendentemente para muitos, o líder apache gostou de Lobo Cinzento, confiou nas suas palavras e aceitou. Em Fevereiro de 1884 deu entrada na reserva americana, parecendo que o "problema índio" se achava definitivamente ultrapassado no Sudoeste.
Mas não seria bem assim...


O general Crook tornara-se um obstáculo incómodo para os que construíam fortunas fomentando guerras e enganando os índios. Com os seus actos de pacificação, ele prejudicava grandes interesses e não tardou a ser hostilizado pela imprensa, tornando-se alvo de boatos sem fundamento. Ao mesmo tempo que o acusavam de ser demasiado tolerante para com os índios, puseram a correr que ele se rendera a Gerónimo no México e que tivera de fazer um acordo vergonhoso com o inimigo para escapar com vida.
Simultaneamente, os jornais intensificaram a campanha contra Gerónimo, atribuindo-lhe dezenas de atrocidades, alertando para a sua pretensa perigosidade e pedindo que ele fosse enforcado. O líder apache, que ao longo de um ano em White Mountain não dera razões de queixa a Crook, soube desses artigos inflamados e comentou: Quando um homem procura portar-se bem, não deviam pôr histórias dessas nos jornais.
Na altura em que diversas fontes fizeram chegar a Gerónimo que os americanos se preparavam para o prender e, talvez, enforcar, ele pensou de novo em fugir - o que concretizou na noite de 17 de Maio de 1885, levando com ele 34 guerreiros e cerca de uma centena de mulheres e crianças.

O pânico regressou ao Sudoeste, embora a ideia de Gerónimo fosse apenas a de se refugiar com os seus nos recantos familiares da Sierra Madre. Nesses dias, ele procurou desesperadamente furtar-se a qualquer confronto com os brancos. Crook, a quem a imprensa logo exigiu uma campanha sangrenta, compreendeu que tinha de chegar de novo à fala com os Apaches para impedir um massacre. Com efeito, a partir de Washington, os seus superiores impunham-lhe que matasse os fugitivos ou que os forçasse a uma rendição definitiva.
Só em Março de 1886 o general tornou a encontrar-se com Gerónimo, a quem informou de que provavelmente passaria algum tempo preso, na Flórida, antes de voltar a White Mountain. O líder apache disse que não se renderia, a menos que Lobo Cinzento lhe prometesse que o período de prisão não ultrapassaria dois anos, findos os quais os prisioneiros seriam devolvidos à reserva. Crook, atendendo ao que estava em jogo, respondeu que tentaria obter essas condições dos seus superiores. Gerónimo aceitou, então, o retorno a White Mountain.

Desgraçadamente, Washington negou-se a aceitar o princípio de acordo alcançado pelo general. Quando soube disso, Gerónimo voltou a evadir-se, desta vez acompanhado por Naiche e por algumas dezenas de guerreiros. O Departamento de Guerra americano repreendeu Crook e este demitiu-se, sendo substituído por um brigadeiro-general, Nelson Miles, em 12 de Abril de 1886.
Miles colocou-se à testa de uma poderosa força de 5 mil soldados, 500 batedores apaches e milhares de voluntários civis. Do lado mexicano foram disponibilizadas centenas de soldados para ajudarem na caça a Gerónimo e ao seu pequeno grupo.
Descoberto em Skeleton Canyon, Arizona, com Naiche, Gerónimo acabou por se render a Nelson Miles - a sua última rendição - em 3 de Setembro de 1886.
Embora o presidente norte-americano, Grover Cleveland, recomendasse que o derradeiro chefe apache fosse enforcado, prevaleceu um resto de bom senso entre os vencedores - e ele, juntamente com os seus, foi condenado à reclusão na Flórida.

Quando chegaram a Forte Bowie, quatro dias após a rendição, Gerónimo e os guerreiros foram metidos em vagões do caminho-de-ferro para viajarem até ao local de exílio. Nunca mais tornariam a ver a terra natal.
A banda do 4.º Regimento de Cavalaria compareceu para uma espécie de cerimónia de despedida. No momento em que o comboio se pôs em movimento, a banda tocou a velha canção Auld Lang Syne, que pode escutar abaixo:

Auld Lang Syne (principia aos 10 segundos):


FIM DA 5.ª E ÚLTIMA PARTE

1.ª Parte - Ver aqui
2.ª Parte - Ver aqui
3.ª Parte - Ver aqui
4.ª Parte - Ver aqui

Bibliografia:
Principal:
Dee Brown - Bury My Heart at Wounded Knee - An Indian History of the American West - 1970.
Outros:
Albert Britt - Great Indian Chiefs - 1938.

Britton Davis - The Truth About Geronimo - 1951.
John C. Cremony - Life Among the Apaches - 1868.
John G. Bourke - An Apache Campaign in the Sierra Madre - 1958.


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Visitas Breves - O Museu Ermitage (São Petersburgo - Rússia)

Pedro, o Grande (Jean-Marc Nattier)









Praça do Mercado Novo em Dresden (Bernardo Bellotto)










O Menino Mimado (Jean-Baptiste Greuze)












Virgem Benois ou A Virgem da Flor (Leonardo da Vinci)











Retrato de Homem com Luva (Frans Hals)










Retrato de Elizabeth e de Philadelphia Wharton (Anton van Dyck)











Infância de Cristo (Gerrit van Honthorst)











O Beijo Furtivo (Jean-Honoré Fragonard)











O Rapaz do Cão (Bartolomé Esteban Murillo)










Bebedora de Absinto (Pablo Picasso)









A Cura de Tobias (Bernardo Strozzi)










Dama do Xaile Azul (Thomas Gainsborough)









Retrato de um Actor (Domenico Fetti)










Retrato de Senhora (Correggio)










São Lucas Desenhando a Virgem (Rogier van der Weyden)









Mulher no Jardim (Claude Monet)










Esaú e Jacob (Matthias Stomer)











O Tocador de Alaúde (Caravaggio)











Safo e Fáon (Jacques-Louis David)









As Três Graças (Antonio Canova)

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Amelia Earhart - Destemida e desditosa pioneira da aviação americana

Amelia Earhart (1897-1937)

Amelia Mary Earhart nasceu em Atchison (Kansas, Estados Unidos da América) no dia 24 de Julho de 1897 e foi dada como desaparecida no oceano Pacífico a poucos dias de completar 40 anos de idade (2 de Julho de 1937).
Foi uma notável pioneira da aviação norte-americana, tendo sido a primeira mulher-piloto a atravessar os Estados Unidos num voo sem escalas, a primeira a voar do Havai à Califórnia e - seu feito mais memorável - a primeira a atravessar o Atlântico num voo solitário (1932).

Amelia já tinha efectuado a viagem transatlântica em 1928, mas fizera-o na companhia de dois outros pilotos. Quando a viagem terminou, ela exprimiu toda a sua insatisfação, dizendo que os companheiros haviam feito todo o trabalho de pilotagem. Eu fui só bagagem, como um saco de batatas, resumiu. Mas logo acrescentou, com o seu espírito de lutadora: Talvez um dia eu tente fazê-lo sozinha.

E foi o que fez, aos 34 anos. Partiu de Harbour Grace (Terra Nova) na manhã de 20 de Maio de 1932. Após um voo muito difícil de 14 horas e 56 minutos, em que enfrentou ventos fortíssimos, gelo e problemas mecânicos, aterrou numa pastagem em Culmore (norte de Derry, Irlanda do Norte). Um fazendeiro, espantado, perguntou-lhe: Você veio de longe? Amelia respondeu-lhe, com toda a simplicidade: Vim da América.
No local existe hoje o museu Amelia Earhart.


Amelia Earhart foi, desde muito jovem, convicta defensora dos direitos das mulheres e da sua capacidade para levarem a cabo qualquer das tarefas usualmente atribuídas aos homens. Numa carta que deixou ao marido, George Putnam, antes de partir para aquela que seria a sua derradeira viagem, escreveu: Fica sabendo que estou consciente dos riscos que vou enfrentar. Mas as mulheres devem tentar as mesmas coisas que os homens já tentaram. Se eles fracassaram, isso deve constituir um desafio para nós.

O seu feminismo manifestava-se de diversas formas - por exemplo, na sua recusa de usar o apelido do marido. Quando alguma imprensa insistiu em tratá-la como Sra. Putnam, ela troçou e fez logo saber que o marido devia passar a ser referido como Sr. Earhart.
No dia do seu casamento (1931), fez chegar às mãos do noivo uma carta em que estabelecia minuciosamente a perfeita equivalência de direitos e de responsabilidades do casal que estavam prestes a formar...



Durante a primeira parte do ano de 1937, Amelia preparou-se para aquilo que esperava viesse a ser a grande façanha da sua vida: voar 46 000 quilómetros à volta do mundo.
No dia 1 de Junho, acompanhada pelo navegador Fred Noonan, ela descolou no seu avião Lockheed Electra para cumprir a primeira etapa da viagem: seguiram de Miami até Porto Rico. Depois, em sucessivas etapas, desceram pela costa nordeste da América do Sul e, inflectindo para leste, voaram para atravessar a África pelo ponto de maior largura.
Contornando o Golfo Pérsico, Amelia e Noonan tomaram o rumo de Carachi e de Calcutá, passando depois por Rangun, Banguecoque, Singapura, Java, Port Darwin (norte da Austrália) e, finalmente, Papuásia-Nova Guiné. 

Nessa altura tinham já percorrido mais de 35 000 quilómetros, ou seja, cerca de 80% do total previsto. Amelia Earhart sabia que a próxima etapa, voando para leste da Nova Guiné, seria a de maior dificuldade.
Mesmo desfazendo-se de tudo o que não era essencial a bordo - a fim de libertar espaço para mais combustível -, a margem de segurança era mínima. Mas ela resolveu prosseguir, escolhendo como próximo local de reabastecimento um minúsculo atol coralífero, com cerca de 2 quilómetros quadrados, perdido na imensidão do Pacífico central: Howland Island (Ilha Howland), mais ou menos a meio caminho entre o Havai e a Austrália.

Tomada a decisão, o Lockheed Electra levantou voo para percorrer os cerca de 4 000 quilómetros da etapa. Como pontos de referência ao longo desta parte da sua rota, Amelia Earhart contava naquelas águas com a presença do Itasca, navio da Marinha norte-americana, que navegava na companhia de mais três embarcações.



Às 7h42m da manhã de 2 de Julho, o Itasca recebeu uma curta e inquietante mensagem proveniente do Lockheed Electra de Amelia Earhart:

KHAQQ chama Itasca. Devemos estar perto de vocês mas não conseguimos ver-vos, o nível de combustível está a ficar muito baixo. Temos para meia hora e não se avista terra.

Cerca de um quarto de hora após esta comunicação, Amelia transmitiu que não conseguia captar as mensagens do Itasca. Às 8h43m emitiu outra mensagem, fornecendo apenas a posição do avião. Depois disso, não voltou a comunicar.

Consciente da gravidade da situação, o comandante do Itasca ordenou que fosse alterada a mistura de combustível do navio, por forma a que as chaminés expelissem uma fumaça escura que talvez pudesse guiar o Lockheed Electra. Mas os céus continuaram vazios, sem qualquer sinal do avião, e, à medida que as horas se foram escoando sem novidade, todos se convenceram de que os aviadores se tinham perdido.

O presidente norte-americano, Franklin Roosevelt, mandou que fossem imediatamente despachados para a zona nove navios de guerra e 66 aviões. A sua missão consistia em procurar a aeronave perdida numa superfície de 250 000 milhas quadradas de oceano. Mas todas as buscas foram baldadas: nem sinais do avião nem dos seus tripulantes.

Apesar das teorias que foram surgindo ao longo dos anos sobre o desaparecimento do Lockheed Electra (algumas delirantemente fantasiosas), é hoje incontestável que  Amelia Earhart simplesmente se perdeu durante o voo e que, sem pontos de referência à vista e com o combustível esgotado, se despenhou no mar.

Foi ali, nas águas alterosas do imenso Pacífico, que ela ficou sepultada com o seu último e grande sonho - o sonho que por muito pouco não chegou a concretizar.


Amelia Earhart aos 35 anos
Com o tempo, Amelia acabou por transformar-se num ícone, presente em livros, filmes, bandas desenhadas e documentários especulativos sobre o seu trágico fim. Inúmeras canções foram compostas em sua homenagem. Algumas delas abordam precisamente aquele dia fatídico de Julho, como a que se apresenta a seguir (O Último Voo de Amelia Earhart):  



O filme seguinte mostra as derradeiras imagens captadas com Amelia Earhart e o navegador Fred Noonan (embarque no Lockheed Electra e descolagem para o voo fatal):



Se quiser saber mais pormenores sobre a vida fascinante de Amelia Earhart, clique aqui.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Leonardo di Caprio encontrou-se com Greta Thunberg...




… e publicou a foto acima com as seguintes palavras:

"Não há muitos momentos na história da Humanidade em que as vozes fossem amplificadas em momentos tão cruciais e de maneiras tão transformadoras, mas a Greta Thunberg tornou-se numa líder do nosso tempo.



A história julgar-nos-á pelo que estamos hoje a fazer para garantir que as gerações futuras possam desfrutar do mesmo planeta habitável que tão claramente tomámos por garantido.

Espero que a mensagem de Greta seja um alerta aos líderes de todo o mundo, porque o tempo para a inação está a terminar.

É por causa de Greta e de jovens ativistas de todo o mundo que eu estou otimista sobre o que o futuro nos reserva.

Foi uma honra passar um tempo com Greta.
Ela e eu assumimos o compromisso de nos apoiar, na esperança de garantir um futuro melhor para o nosso planeta."

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Adriana Calcanhotto, senhora de mil talentos...


Nasceu em Porto Alegre (Rio Grande do Sul, Brasil) no ano de 1965.
Cantora, compositora, intérprete, instrumentista, produtora musical, arranjadora, escritora e ilustradora. E, recentemente, professora na Universidade de Coimbra, Portugal.
Oiçam-na numa das suas mais belas canções:

Devolva-me


Rasgue as minhas cartas
E não me procure mais
Assim será melhor, meu bem!
O retrato que eu te dei
Se ainda tens, não sei

Mas se tiver, devolva-me!

Deixe-me sozinho
Porque assim
Eu viverei em paz
Quero que sejas bem feliz

Junto do seu novo rapaz

Rasgue as minhas cartas
E não me procure mais
Assim vai ser melhor, meu bem!
O retrato que eu te dei
Se ainda tens, não sei
Mas se tiver, devolva-me!
Devolva-me!
Devolva-me!

………..

(Para saber mais de Adriana Calcanhotto, clique aqui)

sábado, 2 de novembro de 2019

Apache! (Episódios da resistência dos povos do sudoeste norte-americano) (4)


Na Primavera de 1875, em resultado das investidas do exército norte-americano, grande parte do povo apache tinha já sido confinado em reservas. Os que recusaram tal destino tinham fugido para o México ou vagueavam ainda pelos seus antigos territórios, onde praticavam assaltos e se confrontavam a espaços com os invasores, militares ou civis.

Em Apache Pass, após a morte do grande Cochise, o seu filho mais velho, Taza, ascendera à chefia dos Chiricahuas, mantendo-se Tom Jeffords como responsável pela administração da reserva. Ainda que ambos se esforçassem por manter a orientação de Cochise, que proibira terminantemente os ataques, estes recomeçaram em força, levados a cabo por grupos de índios revoltados com o crescente assédio de garimpeiros, colonos e políticos desejosos de se apoderarem de parcelas da reserva. Como esta ficava próxima da fronteira, esses chiricahuas desgarrados iam e vinham entre o Arizona e o México.
(Taza morreria de pneumonia pouco tempo depois, em 1876, passando a chefia para Naiche, o outro filho de Cochise).
…...

Os americanos foram evoluindo na sua política índia. A partir de certa altura optaram por concentrar um número máximo de nativos em enormes reservas regionais, o que implicava a reversão das concessões originais e a transferência para os novos destinos, mesmo que contra vontade, de grandes massas de gente.

A reserva de White Mountain, no Arizona oriental (cuja agência se situava em San Carlos), era, com o seu milhão de hectares, maior do que todas as outras reservas apaches juntas. Transformara-se, por isso, no local de concentração preferido pelas autoridades. O seu agente era John Clum, homem íntegro e de perfil moderado, seguidor da Igreja Reformada Holandesa.

Naiche (1857-1919), filho de Cochise,
acompanhado por sua esposa

Embora não possuísse a experiência e as qualidades de Tom Jeffords (o agente da reserva de Apache Pass, que sabia pensar como um índio), Clum estava a realizar um trabalho notável em White Mountain. Começara por fazer retirar os militares do local. Depois formou uma companhia apache para policiar os territórios da agência e fundou tribunais índios para julgarem os violadores da lei.
Ainda que cépticos e desconfiados relativamente aos métodos de Clum, os seus superiores tiveram que reconhecer que ele, ao devolver uma parcela importante do processo decisório aos índios - restituindo-lhes também, dessa forma, algum amor-próprio -, conseguira manter a paz na reserva.
Não obstante, impelidas pelo furor concentracionário, as autoridades governamentais logo perfilharam uma via de abusiva dureza para com os Apaches: John Clum recebeu um telegrama do comissário dos Assuntos Índios, ordenando-lhe que fosse à reserva de Apache Pass, afastasse dali o agente Tom Jeffords e transferisse os apaches chiricahuas para White Mountain.

A contragosto, Clum obedeceu e foi até Apache Pass. Era ainda no tempo da chefia de Taza, o filho e primeiro sucessor de Cochise. Lembrando-se dos conselhos e do comportamento do pai no final da vida, Taza não levantou obstáculos à transferência para White Mountain. Cerca de metade do seu povo decidiu seguir com ele. A outra metade rejeitou o novo destino, e, por isso, quando o Exército entrou na reserva para obrigar os recalcitrantes a viajar até White Mountain, já não os encontrou. A maioria resolvera atravessar a fronteira, passando-se para o México.
Um dos líderes dos fugitivos era um homem de 46 anos, que em jovem se aliara a Mangas Coloradas e que, após a morte deste, se pusera ao lado de Cochise. O seu nome índio era Goyathlay, mas os brancos conheciam-no como Gerónimo.



No México, Gerónimo e o seu grupo infernizaram a vida de outros velhos inimigos, os Mexicanos, que por vezes se associavam ao Exército americano para perseguirem os Apaches.
Os fugitivos assaltaram ranchos e caravanas isoladas, efectuando ricas presas de gado e cavalos. Na Primavera de 1877, Gerónimo trouxe os animais roubados para o Novo México e vendeu-os a rancheiros americanos, o que lhe possibilitou a compra de armas e provisões. Depois foi refugiar-se nas proximidades da agência governamental de Ojo Caliente (Novo México), onde os apaches eram chefiados por outro chefe prestigiado, Victorio.

Justamente nessa altura, John Clum recebeu instruções de Washington para se deslocar a Ojo Caliente e conduzir Victorio e a sua gente (os apaches Warm Springs) para a reserva de White Mountain, no Arizona.
Embora relutante, o chefe apache seguiu com os seus até à nova reserva, onde Clum, com a diplomacia do costume, lhe outorgou mais autoridade do que aquela que ele tivera em Ojo Caliente. Mas a parte derradeira do drama de Victorio tinha já começado.

As condições em White Mountain, e em particular na agência de San Carlos, foram-se deteriorando com a passagem do tempo. O Exército reforçou ali os seus contingentes, contrariando os processos de auto-governo de Clum. Este protestou, mas não foi atendido. Então, o agente demitiu-se e partiu para Tombstone, no Arizona, onde acabaria por fundar o jornal Epitaph.

A ausência de Clum revelou-se um desastre para os apaches de Victorio, pois o agente seguidamente nomeado para San Carlos não tinha nada em comum com ele. Os abastecimentos, de que dependia a sobrevivência dos índios, começaram a sofrer enormes atrasos. Piorando as coisas, o novo agente exigiu que os apaches de White Mountain se deslocassem até à sede da agência para receberem provisões, o que obrigava muitos deles a percorrer mais de seis léguas. Velhos e crianças, incapazes de cobrir tão longas distância, ficavam excluídos das distribuições.
Por outro lado, bandos de garimpeiros invadiam os terrenos da reserva índia, instalando-se na parcela nordeste da mesma e recusando-se a sair dali. 


Victorio (1825-1880)

Finalmente, a paciência de Victorio chegou ao fim. Na noite de 2 de Setembro de 1877, evadiu-se da reserva com a tribo e fez-se aos trilhos que levavam a Ojo Caliente, a terra natal. Pelo caminho, viram-se obrigados a combater soldados e rancheiros, mas conseguiram chegar ao destino.
Durante cerca de um ano o Exército permitiu que eles morassem ali, tal como antes. Todavia, em finais de 1878 chegaram ordens para que os índios fossem outra vez para San Carlos (White Mountain). Victorio, desesperado, pediu aos militares que deixassem o povo viver onde havia nascido. Quando compreendeu que as ordens eram irreversíveis, gritou que lhes poderiam roubar as mulheres e as crianças, mas que ele e os seus guerreiros não obedeceriam. Em seguida pôs-se em fuga, com cerca de 80 guerreiros, e foi passar um Inverno rigoroso nas montanhas Mimbre.

Em Fevereiro de 1879, o chefe apache achava-se de regresso e disposto à rendição, desde que o Exército restituísse as mulheres e as crianças presas em San Carlos. As autoridades concordaram, mas Victorio não poderia continuar em Ojo Caliente: deveria viajar com a tribo até Tularosa, fixando-se junto dos Apaches Mescaleros
Victorio, mais uma vez, cedeu, mas o acordo teve duração efémera: a meio do ano de 1879 foi desenterrada uma antiga acusação de roubo de cavalos e de assassínio contra ele, e os soldados entraram na reserva para o prender. Convencido de que fora marcado para morrer, o chefe apache concluiu que só lhe restava a opção da guerra.

Firmemente decidido a nunca mais se deixar aprisionar numa reserva, internou-se no México e começou a recrutar guerrilheiros para uma luta sem tréguas. Em breve contava com duas centenas de guerreiros, entre Chiricahuas e Mescaleros, e com eles assaltou ranchos mexicanos para obter provisões, cavalos e armas. Depois efectuou investidas audaciosas no Novo México e no Texas, matando todos os colonos que conseguiu surpreender, armando emboscadas mortíferas aos que procuravam capturá-lo e desaparecendo logo de seguida para lá da fronteira como se fosse um fantasma.

A liquidação de Victorio e da sua gente tornou-se uma prioridade para os seus perseguidores. A luta não dava sinais de abrandamento e o ódio do chefe apache parecia crescer de dia para dia. Torturava e mutilava os inimigos que lhe caíam nas mãos e transformou-se num matador implacável. O seu extremismo chegou a tal ponto, que muitos dos companheiros se assustaram e resolveram abandoná-lo.
Finalmente, os exércitos dos Estados Unidos e do México uniram esforços para colocar termo à ameaça. Como resultado de uma vasta manobra conjunta, soldados mexicanos lograram cercar Victorio nos montes Tres Castillos, situados entre Chihuahua e El Paso. Victorio foi abatido, com 77 dos seus guerreiros. Foram aprisionadas 68 mulheres e crianças. Cerca de 30 guerreiros conseguiram escapar-se.


(Conclui em 9-Novembro-2019 (5.ª Parte)


Ver 1.ª Parte - aqui
Ver 2.ª Parte aqui
       Ver 3.ª Parte - aqui       


Bibliografia:

Principal:
Dee Brown - Bury My Heart at Wounded Knee - An Indian History of the American West - 1970.
Outros:
Albert Britt - Great Indian Chiefs - 1938.
Britton Davis - The Truth About Geronimo - 1951.
John C. Cremony - Life Among the Apaches - 1868.
John G. Bourke - An Apache Campaign in the Sierra Madre - 1958.