quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Parabéns à magnífica Anna Fedorova, que celebra hoje 30 anos! (com Chopin)


Anna Fedorova veio ao mundo a 27 de Fevereiro de 1990 na cidade de Kiev, União Soviética (Ucrânia independente a partir de Agosto de 1991).

Nascida em família de músicos, iniciou-se no piano clássico aos cinco anos de idade, deu o primeiro recital aos seis e concretizou a primeira prestação nacional, com a Orquestra Sinfónica da Ucrânia, aos sete.

Executante virtuosa e segura, dona de um cunho pessoalíssimo e inconfundível, tem dado concertos um pouco por toda a parte, sobretudo na Europa e na América.
São particularmente notáveis, por exemplo, os seus desempenhos no Concerto n.º 2 para Piano e Orquestra de Rachmaninoff, ou no Concerto n.º 1 para Piano e Orquestra de Tchaikovsky.

Homenageamos a aniversariante (muito apreciada aqui pela Torre) escutando-a em duas belas peças de Chopin:

1 - [Valsa op. 64, n.º 2]:

2 - [Estudo op. 25, n.º 11]:
Para aceder
à página oficial de Anna Fedorova,
clique aqui.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Tchaikovsky e a invasão da Rússia por Napoleão Bonaparte ("1812" - Abertura Solene)


Napoleão e os seus soldados

Em Junho de 1812, Napoleão invadiu a Rússia com o seu Grande Exército (mais de meio milhão de soldados).
Seria uma campanha trágica para ele, e ficaria assinalando o início da curva descendente de uma invulgar carreira política e militar.

Napoleão na batalha de Borodino (Rússia)

Após sucessivas retiradas do exército russo, acompanhadas de uma prática de terra queimada diante do avanço dos franceses, os dois exércitos encontraram-se em Borodino, uma pequena aldeia a pouco mais de 100 quilómetros de Moscovo.
As tropas do czar da Rússia, Alexandre I, eram comandadas pelo astuto general Mikhail Kutuzov.

O general russo, Kutuzov, na batalha de Borodino

A batalha ocorreu no dia 7 de Setembro de 1812.
O número de baixas, ainda hoje muito discutido, foi, em qualquer hipótese, elevadíssimo.
Uma estimativa relativamente credível aponta para cerca de 30.000 mortos franceses (em 120.000 homens empenhados nos combates), contra 60.000 baixas russas (em 150.000 combatentes).

Batalha de Borodino 

O triunfo na batalha tem sido atribuído aos franceses. Mas tratou-se de uma vitória de Pirro, pois as forças de Kutuzov conseguiram retirar-se em boa ordem e o (relativo) êxito de pouco aproveitou aos invasores.
Napoleão entrava pouco depois em Moscovo, encontrando a cidade devorada por incêndios e deserta de população e de governantes.

Em vão esperou o imperador francês pela rendição do czar da Rússia.
Pelo contrário, o inverno russo forçá-lo-ia a uma retirada dramática, em que o gelo, o frio, a fome e as constantes flagelações do exército russo lhe dizimaram praticamente o que restava do Grande Exército.
Em Dezembro de 1812, a Rússia ficou livre do invasor.

Napoleão - Retirada da Rússia


Foi esse triunfo histórico que o compositor Tchaikovsky (1840-1893) quis celebrar com o seu "1812".
Esta famosa Abertura Solene pode ser encarada como uma representação musical da campanha napoleónica na Rússia.

O hino religioso inicial evoca as orações do povo russo nas igrejas, implorando a intervenção divina contra o invasor.
As notas seguintes expressam a iminência dos combates e a preparação para a batalha, numa combinação de desespero e de transbordante entusiasmo, sublinhada pelos acordes distantes da Marselhesa, que evocam o avanço francês (ouvir, abaixo, por exemplo, a partir de 4' 30''  e 12' 10'').

A Marselhesa impõe-se em Borodino, ao passo que, mais adiante, se torna preponderante a música tradicional russa.
No momento da tomada de Moscovo, quando tudo parece perdido, o hino religioso é outra vez escutado, significando a intervenção divina (que traz um Inverno rigoroso para o qual os franceses não se achavam preparados).

No final, apoteótico, disparam-se canhões em sinal de triunfo, enquanto repicam os sinos das igrejas de uma Rússia enfim libertada.
Chamo a vossa atenção para a força vibrante e telúrica desses derradeiros acordes (a partir de 13' 42'').

Para ouvir este genial "1812" escolhemos uma magnífica interpretação da Orquestra Sinfónica de Gothenburg (Suécia) dirigida pelo maestro Neeme Järvi:

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Filmes e Temas Musicais (1)


1 - Zulu


1.A - Tema de Zulu
(Autor: John Barry)





……..………………….



2 - Laura 

2.A - Tema de Laura
(Autor: David Raksin) 




……..……………………..


3 - A Passage to India
(Passagem para a Índia)


3.A - Tema de "Passagem para a Índia"
(Autor: Maurice Jarre)




...........................

4 - Casablanca


4.A - Tema de Casablanca
(Autor: Max Steiner)

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Marie Colvin - A correspondente de guerra que tombou no seu posto


Marie Colvin, jornalista e correspondente de guerra, nasceu a 12 de Janeiro de 1956 nos Estados Unidos da América (New York) e faleceu em 22 de Fevereiro de 2012 na cidade de Homs (Síria). Trabalhou, desde 1985 até ao termo dos seus dias, para o jornal britânico The Sunday Times.
Enquanto correspondente de guerra, a vida de Marie Colvin foi um constante sobressalto, em que arriscou com frequência a integridade física e, como ficaria tragicamente demonstrado, a própria vida. Correspondente do seu jornal no Médio Oriente, cobriu também conflitos na Tchetchénia, Serra Leoa, Zimbabwe, Kosovo, Timor Leste e Sri Lanka.

Foi precisamente na guerra civil do Sri Lanka que ela foi atingida com gravidade pelos estilhaços de uma granada, apesar de se ter previamente identificado como jornalista. Em consequência disso, perdeu a visão do olho esquerdo e passou a usar a pala (tapa-olho) com que surge em diversos documentários e fotos (como acima). Tinha então 44 anos de idade.


O fim de Marie chegou no mês de Fevereiro de 2012, quando ela realizava a cobertura do cerco da cidade de Homs, na Síria, pelas forças do governo. Refugiada num prédio com outros (poucos) jornalistas, efectuou a derradeira transmissão na noite do dia 21, sendo seguida na BBC, CNN, Channel 4 e ITN News.

Numa reportagem que não deixou dúvidas a ninguém, descreveu os criminosos bombardeamentos contra pessoas e edifícios civis levados a cabo pelas tropas de Bashar al-Assad. Teve ainda tempo de classificar o conflito como "o pior que havia experimentado durante a sua carreira".

Horas depois, já no dia 22 de Fevereiro, o edifício e as redondezas foram atingidos em cheio pela artilharia síria: o alvo fora provavelmente localizado pelos sinais telefónicos, via satélite, que haviam suportado a transmissão. Marie Colvin morreu no seu posto, juntamente com Rémi Ochlik, um fotógrafo francês. O fotógrafo que a acompanhava nas suas reportagens, Paul Conroy, sobreviveu ao ataque.

Na noite da sua morte, muita gente veio lamentar nas ruas de Homs aquilo que pareceu ser um assassínio premeditado.
O funeral de Marie ocorreu em Oyster Bay, New York, em 12 de Março de 2012.
No mês de Julho de 2016, os advogados da família moveram uma acção judicial contra o governo da Síria, alegando terem provas de que este ordenara directamente o assassínio daquela jornalista tão corajosa como incómoda.


Rosamund Pike no papel de Marie Colvin ("A Private War").


Em 2018, seis anos decorridos sobre aquela trágica noite, Matthew Heineman realizou um interessante filme biográfico sobre a jornalista - A Private War, exibido em Portugal com o título Uma Guerra Pessoal.

O papel de Marie é magistralmente desempenhado pela actriz Rosamund Pike. Paul Conroy, o seu fotógrafo, é representado por Jamie Dornan.

Uma Guerra Pessoal (A Private War)
Trailer oficial (legendado em português):

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Tragédia Brasileira (Manuel Bandeira)

 
Misael, funcionário da Fazenda,
com 63 anos de idade,
conheceu Maria Elvira na Lapa,
- prostituída,
com sífilis,
dermite nos dedos,
uma aliança empenhada
e os dentes em petição de miséria.


Misael tirou Maria Elvira da vida,
instalou-a num sobrado no Estácio,
pagou médico,
dentista,
manicura...
Dava tudo quanto ela queria.


Quando Maria Elvira se apanhou
de boca bonita,
arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo.
Podia dar uma surra,
um tiro,
uma facada.
Não fez nada disso:
mudou de casa.


Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira
arranjava namorado,
Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio,
Rocha, Catete,
Rua General Pedra,
Olaria, Ramos,
Bonsucesso,
Vila Isabel,
Rua Marquês de Sapucaí,
Niterói, Encantado,
Rua Clapp,
outra vez no Estácio,
Todos-os-Santos,
Catumbi,
Lavradio,
Boca do Mato,
Inválidos…

 
Por fim na Rua da Constituição,
onde Misael,
privado de sentidos
e de inteligência,
matou-a com seis tiros,
e a polícia foi encontrá-la
caída
em decúbito dorsal,
vestida de organdi azul.
.

…………
 
Manuel Bandeira - Brasil (1886-1968)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Aberturas de Grandes Livros - "O Crime do Padre Amaro" (Eça de Queiroz - Portugal)

.
.
"Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia.
O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões. Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica — que o detestava — costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado:
Lá vai a jibóia esmoer. Um dia estoura!

Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe — à hora em que defronte, na casa do doutor Godinho, que fazia anos, se polcava com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral não era estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.

Nunca fora querido das devotas; arrotava no confessionário, e, tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera por isso, logo ao princípio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de lábia!
E quando as beatas, que lhe eram fiéis, lhe iam falar de escrúpulos de visões, José Miguéis escandalizava-as, rosnando:
Ora histórias, santinha! Peça juízo a Deus! Mais miolo na bola!
As exagerações dos jejuns sobretudo irritavam-no:
Coma-lhe e beba-lhe - costumava gritar -, coma-lhe e beba-lhe, criatura!

Era “miguelista” — e os partidos liberais, as suas opiniões, os seus jornais enchiam-no duma cólera irracional:
Cacete ! Cacete ! - exclamava, meneando o seu enorme guarda-sol vermelho.

.


Nos últimos anos tomara hábitos sedentários e vivia isolado — com uma criada velha e um cão, o Joli. O seu único amigo era o chantre Valadares, que governava então o bispado, porque o senhor bispo D. Joaquim gemia, havia dois anos, o seu reumatismo, numa quinta do Alto Minho.
O pároco tinha um grande respeito pelo chantre, homem seco, de grande nariz, muito curto de vista, admirador de Ovídio — que falava fazendo sempre boquinhas, e com alusões mitológicas.

O chantre estimava-o. Chamava-lhe Frei Hércules.
— "Hércules" pela força — explicava sorrindo, "Frei" pela gula.
No seu enterro ele mesmo lhe foi aspergir a cova; e, como costumava oferecer-lhe todos os dias rapé da sua caixa de ouro, disse aos outros cónegos, baixinho, ao deixar-lhe cair sobre o caixão, segundo o ritual, o primeiro torrão de terra:
É a última pitada que lhe dou!

Todo o cabido riu muito com esta graça do senhor governador do bispado; o cónego Campos contou-a à noite ao chá em casa do deputado Novais; foi celebrada com risos deleitados, todos exaltaram as virtudes do chantre, e afirmou-se com respeito — que sua excelência tinha muita pilhéria!

Dias depois do enterro apareceu, errando pela Praça, o cão do pároco, o Joli.
A criada entrara com sezões no hospital; a casa fora fechada; o cão, abandonado, gemia a sua fome pelos portais. Era um bicho pequeno, extremamente gordo, — que tinha vagas semelhanças com o pároco.
Com o hábito das batinas, ávido dum dono, apenas via um padre punha-se a segui-lo, ganindo baixo. Mas nenhum queria o infeliz Joli ; enxotavam-no com as ponteiras dos guarda-sóis; o cão, repelido como um pretendente, toda a noite uivava pelas ruas.
Uma manhã apareceu morto ao pé da Misericórdia; a carroça do estrume levou-o e, como ninguém tornou a ver o cão, na Praça, o pároco José Miguéis foi definitivamente esquecido.



Dois meses depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro pároco. Dizia-se que era um homem muito novo, saído apenas do seminário.
O seu nome era Amaro Vieira. Atribuía-se a sua escolha a influências políticas, e o jornal de Leiria, A Voz do Distrito, que estava na oposição, falou com amargura, citando o Gólgota, no favoritismo da corte e na reacção clerical.
Alguns padres tinham-se escandalizado com o artigo; conversou-se sobre isso, acremente, diante do senhor chantre:
- Não, não, lá que há favor, há; e que o homem tem padrinhos, tem - disse o chantre. - A mim quem me escreveu para a confirmação foi o Brito Correia [Brito Correia era então ministro da Justiça]. Até me diz na carta que o pároco é um belo rapagão. De sorte que - acrescentou sorrindo de satisfação - depois de "Frei Hércules" vamos ter "Frei Apolo".

Em Leiria havia só uma pessoa que conhecia o pároco novo: era o cónego Dias, que fora, nos primeiros anos do seminário, seu mestre de Moral. No seu tempo - dizia o cónego - o pároco era um rapaz franzino, acanhado, cheio de espinhas carnais:
- Parece que o estou a ver com a batina muito coçada e cara de quem tem lombrigas!... De resto, bom rapaz. E espertote...
O cónego Dias era muito conhecido em Leiria. Ultimamente engordara, o ventre saliente enchia-lhe a batina; e a sua cabecinha grisalha, as olheiras papudas, o beiço espesso - faziam lembrar velhas anedotas de frades lascivos e glutões.
O tio Patrício, o Antigo, negociante da Praça, muito liberal, e que, quando passava pelos padres, rosnava como um velho cão de fila, dizia às vezes ao vê-lo atravessar a Praça, pesado, ruminando a digestão, encostado ao guarda-chuva: Que maroto! Parece mesmo D. João VI!




O cónego Dias vivia só com uma irmã velha, a snr.ª D. Josefa Dias, e uma criada, que todos conheciam também em Leiria, sempre na rua, entrouxada num xaile tingido de negro, e arrastando pesadamente as suas chinelas de ourelo. O cónego passava por ser rico; trazia ao pé de Leiria propriedades arrendadas, dava jantares com peru, e tinha reputação o seu vinho duque de 1815. Mas o facto saliente da sua vida - o facto comentado e murmurado - era a sua antiga amizade com a snr.ª Augusta Caminha, a quem chamavam a S. Joaneira, por ser natural de S. João da Foz.
A S. Joaneira morava na rua da Misericórdia, e recebia hóspedes. Tinha uma filha, a Ameliazinha, rapariga de vinte e três anos, bonita, forte, muito desejada.

O cónego Dias mostrara um grande contentamento com a nomeação de Amaro Vieira. Na botica do Carlos, na Praça e na sacristia da Sé exaltou os seus bons estudos no seminário, a sua prudência de costumes, a sua obediência. Gabava-lhe mesmo a voz: "um timbre que é um regalo":
- Para um bocado de sentimento nos sermões da Semana Santa está a calhar!
Predizia-lhe com ênfase um destino feliz, uma conezia decerto, talvez a glória dum bispado! E um dia, enfim, mostrou com satisfação ao coadjutor da Sé, criatura servil e calada, uma carta de Lisboa que recebera de Amaro Vieira.
Era uma tarde de Agosto e passeavam ambos para os lados da Ponte Nova. Andava então a construir-se a estrada da Figueira: o velho passadiço de pau sobre a ribeira do Lis tinha sido destruído, já se passava sobre a Ponte Nova, muito gabada, com os seus dois largos arcos de pedra, fortes e atarracados (…).


 (…) Ali, caminhando devagar, falando baixo, o cónego Dias consultava o coadjutor sobre a carta de Amaro Vieira, e sobre uma ideia que ela lhe dera, que lhe parecia de mestre! De mestre!
Amaro pedia-lhe com urgência que lhe arranjasse uma casa de aluguer, barata, bem situada, e se fosse possível, mobilada; falava sobretudo de quartos numa casa de hóspedes respeitável:
Bem vê o meu caro Padre-Mestre - dizia Amaro - que era isto que verdadeiramente me convinha; eu não quero luxos, está claro: um quarto e uma saleta seria o bastante. O que é necessário é que a casa seja respeitável, sossegada, central; que a patroa tenha bom génio e que não peça mundos e fundos; deixo tudo isto à sua prudência e capacidade, e creia que todos estes favores não cairão em terreno ingrato. Sobretudo que a patroa seja pessoa acomodada e de boa língua.

- Ora a minha ideia, amigo Mendes, é esta: metê-lo em casa da S. Joaneira! - resumiu o cónego com grande contentamento. - É rica ideia, hein?
- Soberba ideia! - disse o coadjutor com a sua voz servil.
- Ela tem o quarto de baixo, a saleta pegada e o outro quarto, que pode servir de escritório. Tem boa mobília, boas roupas...
- Ricas roupas - disse o coadjutor com respeito.
O cónego continuou:
- É um belo negócio para a S. Joaneira: dando os quartos, roupa, comida, criada, pode muito bem pedir os seis tostões por dia. E depois sempre tem o pároco de casa.
- Por causa da Ameliazinha é que eu não sei - considerou timidamente o coadjutor - Sim, pode ser reparado. Uma rapariga nova... Diz que o senhor pároco é ainda novo. Vossa senhoria sabe o que são as línguas do mundo…



O cónego tinha parado:
- Ora histórias! Então o padre Joaquim não vive debaixo das mesmas telhas com a afilhada da mãe? E o cónego Pedroso não vive com a cunhada, e uma irmã da cunhada, que é uma rapariga de dezanove anos? Ora essa!
- Eu dizia... - atenuou o coadjutor.
- Não, não vejo mal nenhum. A S. Joaneira aluga os seus quartos, é como se fosse uma hospedaria. Então o secretário-geral não esteve lá uns poucos de meses?
- Mas um eclesiástico... - insinuou o coadjutor.
- Mais garantias, senhor Mendes, mais garantias! - exclamou o cónego.
E parando, com uma atitude confidencial:
- E depois a mim é que me convinha, Mendes! A mim é que me convinha, meu amigo!
Houve um pequeno silêncio. O coadjutor disse, baixando a voz:
- Sim, vossa senhoria faz muito bem à S. Joaneira...
- Faço o que posso, meu caro amigo, faço o que posso - disse o cónego.
E com uma entonação terna, risonhamente paternal:
- Que ela é merecedora, é merecedora…"  (*)






.
(*) - O Crime do Padre Amaro - Eça de Queiroz - Portugal (1845-1900)

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Pêro Vaz de Caminha - Quem era, e como terminou os seus dias, o autor da "certidão de nascimento" do Brasil?


Pêro Vaz de Caminha foi o escrivão, embarcado na frota de Pedro Álvares Cabral, a quem coube relatar, por escrito, em Abril de 1500, os dias extraordinários do descobrimento da terra brasileira pelos Portugueses (reveja aqui).
Por isso mesmo, considera-se que a ele se ficou a dever a "certidão de nascimento" do grande país da América do Sul - que em Portugal se encara e se sente como o "País Irmão".


Pêro Vaz de Caminha nasceu em meados do século XV (talvez em 1450) na cidade do Porto, Norte de Portugal.  Era homem bem integrado na vida pública da urbe natal, tendo ocupado cargos de relevo. Sabe-se, por consulta das respectivas actas, que esteve presente nas reuniões da Câmara entre 1488 e 1498.
Foi, a partir de 1479, mestre da Balança da Moeda do Porto (cargo herdado do pai e em que foi confirmado pelo rei português, D. Manuel I, em 1496).

Comandando as tropas do Porto, participou na batalha de Toro, que os Portugueses travaram em Castela no 1.º dia de Março de 1476.
Pêro Vaz de Caminha foi ainda cavaleiro das Casas Reais de vários monarcas lusitanos (D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I).
Foi casado com D. Catarina Vaz, de quem teve uma filha, D. Isabel de Caminha.

Possuía formação literária humanista e conhecia bem os autores latinos, achando-se familiarizado com as obras clássicas. Era, sobretudo, um ser aberto ao mundo, dotado de profunda sensibilidade, como pode ser comprovado pelas maravilhosas e emocionantes descrições que ele fez, na sua famosa "carta", da terra brasileira - fauna, flora, meio físico - e, sobretudo, das suas gentes.



Infelizmente, Pêro Vaz de Caminha não viveria tempo suficiente para testemunhar as repercussões que a sua "carta" - dirigida ao rei D. Manuel I - tivera em Portugal.
Com efeito, e como é do conhecimento geral, o destino final daquela expedição de Pedro Álvares Cabral não era o Brasil, mas sim a Índia. Tratava-se da segunda viagem realizada pelos Portugueses até àquele país asiático, depois da descoberta da respectiva rota por Vasco da Gama (rever aqui).

Discute-se, ainda hoje, se a descoberta da Terra de Vera Cruz (o Brasil) ocorreu por acidente ou por um desvio deliberado da rota principal. As teses mais recentes e sustentadas apontam para a segunda hipótese - e essa é também a nossa opinião: os Portugueses saberiam de antemão que existia por ali uma terra nova, assim se explicando o desvio pronunciado que levaram a cabo para realizar o desembarque.

Fosse como fosse, havia que cumprir o plano originalmente concebido em Lisboa - o objectivo final da viagem era Calecute, na Índia, e foi esse o rumo que retomaram ao cabo de dez dias. A carta de Pêro Vaz de Caminha, com a notícia do "achamento do Brasil", fora entretanto expedida para Lisboa num dos navios da frota que Cabral mandara regressar à pátria.

 

A frota portuguesa navegou, pois, em busca de Calecute, na Índia, onde chegou após uma viagem dramática: Cabral perdeu vários navios na travessia do Atlântico para o Índico; quando ancorou no seu destino, restavam-lhe sete embarcações das treze com que havia deixado Lisboa.
Na Índia, para além das motivações religiosas, os Portugueses estavam sobretudo interessados em participar no comércio local, acedendo às preciosas especiarias para as transportar até à Europa. Com esse intuito negociaram durante meses a fio com o governante local, o Samorim, até que conseguiram obter permissão para fundar um entreposto comercial (uma feitoria), à frente da qual Pedro Álvares Cabral colocou Aires Correia.

Como é natural, os muçulmanos que dominavam até então a actividade comercial na região (os mouros de Meca, como lhes chamavam os Portugueses) não viram com bons olhos a ameaça dos novos concorrentes. Durante algum tempo viveram-se episódios de intrigas e traições. O comportamento do Samorim foi, no mínimo, ambíguo, mas parece ter sido com a sua conivência que uma multidão de muçulmanos enfurecidos atacou o edifício da feitoria portuguesa. O grosso dos expedicionários, incluindo Cabral, achava-se no mar, a bordo da frota, pelo que na feitoria permaneciam, apenas, cerca de 70 homens. Entre eles estavam o feitor, Aires Correia, alguns frades franciscanos e, para mal dos seus pecados, o escrivão Pêro Vaz de Caminha.



Refugiados na feitoria, os Portugueses resistiram enquanto puderam. Mas o número de atacantes era esmagador, pelo que Aires Correia decidiu a retirada até à praia, onde talvez lhes chegasse algum auxílio enviado por Pedro Álvares Cabral. Correndo e lutando, a maioria conseguiu alcançar a beira do mar, mas aí verificaram que as ondas, muito agitadas, impediam a aproximação dos botes de socorro. Cercados pela multidão que os perseguia, envolveram-se então numa derradeira e desesperada luta.

Ainda que bastante feridos, vinte homens lograram atirar-se ao mar, onde, correndo risco de afogamento, foram sendo recolhidos pelos batéis da frota.
Na praia, para os seus companheiros, o drama estava todavia consumado. Aires Correia acabou trucidado, bem como três frades franciscanos e cerca de cinquenta homens. Entre as vítimas do massacre encontrava-se Pêro Vaz de Caminha - o autor da "certidão de nascimento" do Brasil.
Era o dia 15 de Dezembro de 1500, e tinham decorrido menos de oito meses sobre o momento em que ele avistara pela primeira vez, para a descrever de forma emocionada e deslumbrante, a maravilhosa Terra de Vera Cruz...