sexta-feira, 6 de março de 2020

Oração de um Chefe Africano a Favor do Etnólogo Routlege



"Ó Deus, o homem branco veio a minha casa.
Aceita este sacrifício.
Quando o homem branco adoecer,
faz que nem ele nem a sua mulher
fiquem muito doentes.

O homem branco veio do seu país à nossa terra,
do outro lado da água;
é um homem bom
e trata bem aqueles que trabalham com ele.

Se o homem branco e a sua mulher adoecerem,
faz com que não fiquem muito doentes,
porque eu e o homem branco nos unimos
para te fazermos um sacrifício.

Não os deixes morrer,
pois nós sacrificámos um cordeiro bem gordo.
O homem branco veio de muito longe para nos visitar,
e decidimos fazer-te um sacrifício.

Onde quer que ele for não deixes que ele adoeça,
pois ele é bom e extraordinariamente rico,
e eu também sou bom e rico;
e eu e o homem branco damo-nos tão bem
como se fôssemos filhos da mesma mãe.


Ó Deus, este grande carneiro destinámo-lo a ti;
o homem branco, a sua mulher
e eu e o meu povo
vamos sacrificar por ti sobre o tronco de uma árvore
um carneiro,
um precioso carneiro.


Faz com que ele não fique gravemente doente,
porque eu ensinei-o a rezar-te
como se ele fosse um verdadeiro Mikikuyu. "



(Povo Kikuyu - Quénia)

(Extraído de A Oração dos Homens - Uma Antologia das Tradições Espirituais, pág. 74 - Editora Assírio & Alvim, 2006)


quarta-feira, 4 de março de 2020

Martin Luther King - Ele "tinha um sonho". E morreu por ele...




Discurso de Martin Luther King, Jr. em Washington, D.C., a capital dos Estados Unidos da América, em 28 de Agosto de 1963, após a Marcha para Washington.

O discurso de Martin Luther King ("I Have a Dream" - "Eu Tenho um Sonho") pronunciado na escadaria do Monumento a Lincoln, em Washington, foi escutado por mais de 250.000 pessoas de todas as etnias, reunidas na capital dos Estados Unidos da América, após a «Marcha para Washington por Emprego e Liberdade».

A manifestação foi planeada como uma maneira de divulgar de forma dramática as desesperadas condições de vida dos negros no Sul dos Estados Unidos, e exigir ao poder federal maior comprometimento quanto à segurança física dos negros e dos defensores dos direitos civis.

Devido a pressões políticas da Presidência dos Estados Unidos - exercida por John Kennedy -, as exigências a apresentar no comício tornaram-se mais moderadas, mas mesmo assim foram feitos pedidos claros: fim da segregação no ensino público, aprovação de legislação no que respeita aos direitos civis, assim como de legislação proibindo a discriminação racial no emprego; fim da brutalidade policial contra militantes dos direitos civis; criação de um salário mínimo para todos os trabalhadores, que beneficiaria sobretudo os negros.

Realizada num clima muito tenso, a manifestação revelou-se um estrondoso sucesso, e o discurso ficou conhecido sobretudo pela frase permanentemente repetida no meio do discurso «I have a Dream» ("Eu tenho um sonho"), mas também pela frase que é repetida no fim - «That Liberty Ring» ("Que a Liberdade ressoe"), que retoma o poema patriótico «América». Tornou-se, com o discurso de Lincoln em Gettysburg, um dos mais importantes da oratória americana.

Em 1964 a Lei dos Direitos Civis foi votada e promulgada por Lyndon B. Johnson.
Em 1965 foi por seu turno aprovada a Lei sobre o Direito de Voto.
Martin Luther King, Jr. foi escolhido como Prémio Nobel da Paz no ano seguinte, em 1964.
Foi assassinado em 4 de Abril de 1968.




O Discurso


"Há cem anos, um grande americano, sob cuja sombra simbólica nos encontramos, assinava a Proclamação da Emancipação. Esse decreto fundamental foi como um raio de luz de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido marcados a ferro nas chamas de uma vergonhosa injustiça.
Veio como uma aurora feliz para terminar a longa noite do cativeiro.
Mas, cem anos mais tarde, devemos enfrentar a realidade trágica de que o Negro ainda não é livre.

Cem anos mais tarde, a vida do Negro é ainda lamentavelmente dilacerada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação.
Cem anos mais tarde, o Negro continua a viver numa ilha isolada de pobreza, no meio de um vasto oceano de prosperidade material.
Cem anos mais tarde, o Negro ainda definha nas margens da sociedade americana, exilado na sua própria terra.

Por isso, encontramo-nos aqui hoje para dramaticamente mostrarmos esta extraordinária condição.

Num certo sentido, viemos à capital do nosso país para descontar um cheque.
Quando os arquitectos da nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, estavam a assinar uma promissória de que cada cidadão americano se tornaria herdeiro.


Este documento era uma promessa de que todos os homens veriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à procura da felicidade.
É óbvio que a América ainda hoje não pagou tal promissória no que concerne aos seus cidadãos de cor. Em vez de honrar este compromisso sagrado, a América deu ao Negro um cheque sem cobertura; um cheque que foi devolvido com a seguinte inscrição: "saldo insuficiente".
Porém, nós recusamo-nos a aceitar a ideia de que o banco da justiça esteja falido. Recusamo-nos a acreditar que não exista dinheiro suficiente nos grandes cofres de oportunidades deste país.

Por isso viemos aqui cobrar este cheque - um cheque que nos dará, quando o recebermos, as riquezas da liberdade e a segurança da justiça. Também viemos a este lugar sagrado para lembrar à América a clara urgência do agora. Não é o momento de se dedicar à luxúria do adiamento, nem para se tomar a pílula tranquilizante do gradualismo.

Agora é tempo de tornar reais as promessas da Democracia.
Agora é o tempo de sairmos do vale escuro e desolado da segregação para o iluminado caminho da justiça racial.
Agora é tempo de abrir as portas da oportunidade para todos os filhos de Deus.
Agora é tempo para retirar o nosso país das areias movediças da injustiça racial para a rocha sólida da fraternidade.



Seria fatal para a nação não levar a sério a urgência do momento e subestimar a determinação do Negro. Este sufocante Verão do legítimo descontentamento do Negro não passará até que chegue o revigorante Outono da liberdade e da igualdade.

1963 não é um fim, mas um começo. Aqueles que crêem que o Negro precisava só de desabafar, e que a partir de agora ficará sossegado, irão acordar sobressaltados se o País regressar à sua vida de sempre.
Não haverá tranquilidade nem descanso na América até que o Negro tenha garantido todos os seus direitos de cidadania.

Os turbilhões da revolta continuarão a sacudir as fundações do nosso País até que desponte o luminoso dia da justiça.
Existe algo, porém, que devo dizer ao meu povo que se encontra no caloroso limiar que conduz ao palácio da justiça. No percurso de ganharmos o nosso legítimo lugar não devemos ser culpados de actos errados.

Não tentemos satisfazer a sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio.
Temos de conduzir a nossa luta sempre no nível elevado da dignidade e disciplina.

Não devemos deixar que o nosso protesto, realizado de uma forma criativa, degenere na violência física. Teremos de nos erguer uma e outra vez às alturas majestosas para enfrentar a força física com a força da consciência.


Esta maravilhosa militância que engolfou a comunidade negra não nos deve levar a desconfiar de todas as pessoas brancas, pois muitos dos nossos irmãos brancos, como é claro pela sua presença aqui, hoje, estão conscientes de que os seus destinos estão ligados ao nosso destino, e que a sua liberdade está intrinsecamente ligada à nossa liberdade.

Não podemos caminhar sozinhos.
À medida que caminhamos, devemos assumir o compromisso de marcharmos em frente.
Não podemos retroceder.
Há quem pergunte aos defensores dos direitos civis: "Quando é que ficarão satisfeitos?"




Não estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos incontáveis horrores da brutalidade policial.
Não poderemos estar satisfeitos enquanto os nossos corpos, cansados das fadigas da viagem, não conseguirem ter acesso a um lugar de descanso nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades.

Não poderemos estar satisfeitos enquanto a mobilidade fundamental do Negro for passar de um gueto pequeno para um maior.

Nunca poderemos estar satisfeitos enquanto um Negro no Mississipi não puder votar e um Negro em Nova Iorque achar que não há nada pelo qual valha a pena votar.

Não, não, não estamos satisfeitos, e só ficaremos satisfeitos quando a justiça correr como a água e a rectidão como uma poderosa corrente.




Sei muito bem que alguns de vocês chegaram aqui após muitas dificuldades e tribulações.
Alguns de vocês saíram recentemente de pequenas celas de prisão.
Alguns de vocês vieram de áreas onde a vossa procura da liberdade vos deixou marcas provocadas pelas tempestades da perseguição e sofrimentos provocados pelos ventos da brutalidade policial.
Vocês são veteranos do sofrimento criativo.
Continuem a trabalhar com a fé de que um sofrimento injusto é redentor.

Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para a Luisiana, voltem para os bairros de lata e para os guetos das nossas modernas cidades, sabendo que, de alguma forma, esta situação pode e será alterada.

Não nos embrenharemos no vale do desespero.




Digo-lhes hoje, meus amigos, que apesar das dificuldades e das frustrações do momento, ainda tenho um sonho.
É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado da sua crença: "Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais".

Tenho um sonho que um dia, nas montanhas rubras da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade.

Tenho um sonho que um dia o estado do Mississippi, um estado deserto, sufocado pelo calor da injustiça e da opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.

Tenho um sonho que os meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu carácter.




Tenho um sonho, hoje.

Tenho um sonho que um dia o estado de Alabama, cujos lábios do governador actualmente pronunciam palavras de ódio e de recusa, seja transformado numa condição onde pequenos rapazes negros, e raparigas negras, possam dar-se as mãos com outros pequenos rapazes brancos, e raparigas brancas, caminhando juntos, lado a lado, como irmãos e irmãs.

Tenho um sonho, hoje.

Tenho um sonho que um dia todo os vales serão elevados, todas as montanhas e encostas serão niveladas, os lugares ásperos serão polidos, e os lugares tortuosos serão endireitados, e a glória do Senhor será revelada, e todos os seres a verão, conjuntamente.



Esta é nossa esperança. Esta é a fé com a qual regresso ao Sul.
Com esta fé seremos capazes de retirar da montanha do desespero uma pedra de esperança.
Com esta fé poderemos transformar as discórdias da nossa nação numa bonita e harmoniosa sinfonia de fraternidade.

Com esta fé poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, ir para a prisão juntos, ficarmos juntos em posição de sentido pela liberdade, sabendo que um dia seremos livres.

Esse será o dia em que todos os filhos de Deus poderão cantar com um novo significado:
"O meu país é teu, doce terra da liberdade, de ti eu canto. Terra onde morreram os meus pais, terra do orgulho dos peregrinos, que de cada localidade ressoe a liberdade".


E se a América quiser ser uma grande nação, isto tem que se tornar realidade.

Que a liberdade ressoe então dos prodigiosos cabeços do Novo Hampshire.
Que a liberdade ressoe das poderosas montanhas de Nova Iorque.
Que a liberdade ressoe dos elevados Alleghenies da Pensilvânia!
Que a liberdade ressoe dos cumes cobertos de neve das montanhas Rochosas do Colorado!

Que a liberdade ressoe dos picos curvos da Califórnia!
Mas não só isso; que a liberdade ressoe da Montanha de Pedra da Geórgia!
Que a liberdade ressoe da Montanha Lookout do Tennessee!
Que a liberdade ressoe de cada Montanha e de cada pequena elevação do Mississipi.
Que, de cada localidade, a liberdade ressoe.


Quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e de cada aldeia, de cada estado e de cada cidade, seremos capazes de apressar o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção negra:

"Liberdade finalmente!
Liberdade finalmente!
Louvado seja Deus, Todo Poderoso, estamos livres, finalmente!"





Vejam-no e ouçam-no aqui:






Tennessee, Memphis, 4 de abril de 1968: o disparo de um rifle interrompia bruscamente a biografia de um negro chamado Martin Luther King, o maior líder negro das Américas.
O nome com que foi batizado marcou a existência e a trajectória luminosas do Dr. Martin Luther King Jr.: religioso, destemido, líder pacifista, majestoso, estadista, eloquente, revolucionário.

Nascido no sul dos Estados Unidos, em 1929, em pleno auge do famigerado sistema "Jim Crown" (separados mas iguais), filho de um pastor baptista, Martin Luther King Jr. recebeu o Nobel da Paz aos 35 anos, sagrando-se o mais jovem laureado pelo Prémio Nobel.

Comprometendo as igrejas com as lutas sociais, organizando boicotes aos transportes públicos, apoiando greves de estudantes e de trabalhadores, liderando passeatas integradas por legiões de negros, brancos, judeus e muçulmanos, pregando a resistência pacífica, difundindo os ensinamentos de Gandhi, Martin Luther King Jr. sacrificou a própria vida em nome da igualdade, da justiça e da paz.

Em resposta aos linchamentos e às atrocidades cometidas pelos integrantes da Ku Klux Klan, Martin Luther King organizou a resistência pacífica, valorizou o diálogo, unificou as lutas do seu povo, pregou a não-violência, convocou negros e brancos para fundarem as bases de uma convivência harmoniosa, baseada no respeito, no espírito de compreensão e na tolerância recíproca.

A Marcha sobre Washington, que em 1963 colocou mais de 250.000 mil pessoas nas ruas da capital norte-americana - ocasião na qual ele proferiu o seu mais famoso discurso (I Have a Dream...) - mudou a face e a história política e económica dos Estados Unidos.

Depois daquele 28 de agosto de 1963, os Estados Unidos da América nunca mais foram os mesmos. O mundo nunca mais foi o mesmo - o sonho da igualdade despertou sonhadores em todas as partes: na África, na Índia, na Europa, nas Américas.

No Brasil, tinha início o regime ditatorial-militar que durante mais de duas décadas empurrou lideranças, partidos progressistas e movimentos sociais para a clandestinidade, incluindo o Movimento Negro.

Na concepção e prática da luta negra que retoma espaço após a ditadura, lá estavam as lições, o pensamento, o legado político do Reverendo Martin Luther King.

Nos nossos dias, em que se debatem intensamente propostas de políticas de promoção da igualdade racial, permanecem vivos e actuais os métodos e postulados do Dr. Martin Luther King.
Os sonhos não envelhecem.
Pode-se calar um homem, mas não se pode eliminar o vigor e a força de suas ideias, da verdade e da justiça.
Onde houver um ser humano lutando por dignidade, justiça e paz, lá estará sendo concretizado o sonho do Reverendo Martin Luther King.

terça-feira, 3 de março de 2020

"Se os Tubarões Fossem Homens" (Bertolt Brecht)


"Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos.
Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar para os peixes pequenos, com todos os tipos de alimentos, tanto vegetais, como animais.

Eles cuidariam de que as caixas tivessem água sempre renovada e adoptariam todas as providências sanitárias se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana: imediatamente colocariam uma ligadura a fim de que ele não morresse antes do tempo.

Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam de vez em quando uma festa aquática, pois os peixes alegres sabem melhor do que os tristonhos.




Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas.
Nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões.
Eles aprenderiam, por exemplo, a usar a geografia para encontrarem os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí.

A aula principal seria naturalmente a da formação moral dos peixinhos.
Eles seriam ensinados de que o acto mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando estes dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos.

Meter-se-ia na cabeça dos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo o mais, os peixinhos deveriam guardar-se de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E cada peixinho denunciaria imediatamente aos tubarões aquele de entre eles que manifestasse essas inclinações.





Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos.
Eles ensinariam aos peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões, existem diferenças gigantescas.

Eles explicariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que se entendam uns com os outros.

Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua muda seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.



Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente.

Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as goelas dos tubarões.
A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes, e com a orquestra à frente, entrariam em massa para as goelas dos tubarões possuídos dos mais agradáveis pensamentos.
Também haveria uma religião ali. Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião.


E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.
Além disso, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos. Alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.
Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusivamente comer os menores, e isso seria muito agradável aos tubarões, pois estes obteriam assim, constantemente, maiores bocados para devorar.

E os peixinhos maiores que detivessem os cargos zelariam pela ordem entre os peixinhos, para que estes pudessem vir a ser professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante.
Curto e grosso, só então haveria civilização no mar - se os tubarões fossem homens."

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(Bertolt Brecht)

segunda-feira, 2 de março de 2020

Filmes e Temas Musicais (2)

1 - Dances with Wolves
    ("Danças com Lobos")

 1.A - Tema de John Dunbar
(Autor: John Barry)




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2 - To Have and Have Not
("Ter ou Não Ter")

2.A - Tema: Am I Blue
(Autores: Harry Akst - música,
Grant Clarke - letra)


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3 - Rebecca

3.A - Tema de Rebecca
(Autor: Franz Waxman)




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4 - Vertigo
("A Mulher que Viveu Duas Vezes")
4.A - Tema de Vertigo
(Autor: Bernard Herrmann)

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Eça de Queiroz e a Revolta na Índia Portuguesa (1871) - "Se podemos vender a Índia aos Ingleses, vendamos a Índia, por Deus!"

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Portugal aportou à Índia em 1498 (rever aqui). Meia dúzia de anos depois instalou-se na região com um vice-rei expressamente nomeado para o efeito (Francisco de Almeida).

Assim se deu início a uma presença contínua, mas sobressaltada, em diversos territórios costeiros (Goa, Damão, Diu…), aventura que só chegaria ao seu termo, de forma violenta, com a invasão militar promovida pela União Indiana, recém-independente, em Dezembro de 1961.
Durou quase meio milénio esse minúsculo, surpreendente e irrealista "Estado Português da Índia".

Quem não parece ter levado muito a sério essa epopeia no Índico - nem outras deambulações coloniais - foi Eça de Queiroz, o grande escritor português. O artigo que escreveu para "As Farpas" em 1871 (tinha ele 25 anos de idade), e que abaixo se transcreve, constitui disso uma excelente e bem-humorada demonstração...


História Pitoresca da Revolta da Índia
(Setembro – 1871)
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"Andávamos inteiramente esquecidos da Índia!
Uma clara manhã, ela aparece violentamente no meio de nós, envolta num telegrama do sr. Visconde de S. Januário.
Por essa ocasião, muito bom português se admirou que a Índia ainda fosse nossa!
Ela tinha saído, havia muito, das pompas solenes dos artigos de fundo.
Ela quase não aparecia nos orçamentos.
Obscura, velha, arruinada, estéril, dobrada sobre si mesma, comia, nas brumas distantes, o seu arroz!
A sua reaparição surpreendeu!
A notícia de que ela ainda tinha vitalidade bastante para se revoltar – espantou!
A certeza de que ainda ali havia soldados, cidadãos, fortes, interesses e telégrafos – sobressaltou!



Uma vez que a gloriosa Índia ainda existia, era necessário que existisse o correspondente “brio patriótico”: sacudiu-se o velho “brio patriótico” do pó e da caliça – e cada um vestiu o “velho brio patriótico”.
Começou então o movimento.
A Baixa (de Lisboa) teve os seus alvitres.
Os jornais perfilaram de novo, em parada, as frases solenes de perruca e rabicho, que celebram num ritmo dormente o alto amor da pátria.
Meteu-se na mão do sr. infante D. Augusto uma espada – condicional.
A própria Estefânia comoveu-se, venceu os nervos, o chic, a preguiça, e partiu, cheia de mobília e de brio, a salvar o mapa das possessões…
Nós, entretanto, ríamos.


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Oh Santo Deus!, não era cepticismo, não.
Como outros quaisquer, mais que outros quaisquer, nós amamos a terra do nosso berço, a pátria, o velho Portugal, etc.
Mas nós sabemos, meus dignos senhores, que uma revolta na Índia é alguma coisa tão extremamente insignificante, efémera e nula como um meeting civil no reino. (…)

O grosso do exército da Índia é composto de indígenas - mouros, canarins, banianos e gentios.
Estes nomes melodiosos designam castas; e as castas na Índia conservam ainda todo o seu velho e irreconciliável separatismo.
As castas desprezam-se, guerreiam-se, e nunca absolutamente se fundem. Quase não se comunicam.

Se um baniano toca a púcara de barro poroso de um canarim, o canarim espedaça num cunhal a púcara desventurada!
Estas hostilidades, nada as dissipa: nem as promiscuidades inevitáveis da caserna, nem os rigores igualitários da disciplina.
De sorte que o exército, formado destes elementos antipáticos, que se não unem, que se amaldiçoam, e onde apenas há o contacto material dos ombros na fileira - não tem unidade nem coesão.

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Além disto, todas as castas têm hábitos fatais, horas impreteríveis.
Está o soldado gentio de guarda: se chega a hora do seu arroz e não lho trazem - ele pousa tranquilamente a espingarda, cruza as mãos atrás das costas, e vai ao quartel ladrar contra o rancheiro; se chega a hora da ablução, atira a arma para um canto, e corre, aos pulos, a acocorar-se à beira do mar!

E não há severidades, não há castigos, que alterem estes hábitos orientalmente fatais.
A oficialidade deste exército compõe-se pela maior parte de portugueses nascidos na índia – mestiços, castiços ou descendentes.
São os filhos de antigos degredados, de velhos bastardos da fidalguia indiana, de oficiais expedicionários, etc.
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Além destes oficiais nativos, há os oficiais europeus, mandados do continente, os expedicionários.
Estes, por altos motivos que só os grandes homens de Estado - como o Sr. Barros e Cunha - podem saber, têm um soldo maior que os oficiais índios.
Ora os oficiais índios, com um zelo pelas rupias extremamente compreensível, quereriam ter um soldo igual aos oficiais que vão de Portugal.
Por consequência, requerem.
Têm a ingenuidade asiática de requerer!

Mas quando desesperam dos despachos da Pátria, permitem-se, como uma variedade mais ruidosa, uma certa porção de revolta!
Levam alguns batalhões para a rua e soltam o babadé.
O babadé é um ah! ah! ah! prolongado, uivado - cortado pela mão espalmada que bate rapidamente sobre a boca.
Tais são as revoltas da Índia, ó concidadãos timoratos!
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Para conter este elemento indígena e revoltoso, que meios tem o sr. governador-geral?
Diz-se que o sr. governador-geral, para defesa dos grandes interesses portugueses, dispõe da guarda municipal.
Essa guarda foi todo o tempo composta de soldados portugueses, que os índios chamam paquelós.
Os portugueses que vão servir como funcionários são considerados aristocracia, e chamam-se fringuis.
Na Índia, o Sr. Melício seria um fringui!

Esta guarda foi sempre segura, fiel e valente. Somente, hoje, tem a qualidade lamentável das legiões de Varo: - já não existe!
A Pátria distraída esqueceu-se de renovar os paquelós: e a Morte, com um desdém pelas nossas possessões que nunca lhe censuraremos bastante, foi-os levando, e paqueló após paqueló, destruiu na Índia todo o poder lusitano.

Hoje, duas ou três companhias de mouros compõem a guarda fiel: estes pobres mouros arrastam na vadiagem os sapatos rotos, e estimulam o seu entranhado patriotismo com aguardente de banana, bebida alucinadora que leva à caquexia!
O que hoje há, pois, nessa Índia gloriosa e tradicional, para policiar e sustentar o poder português, é um bando de mouros sujos, idiotas, e bêbedos de aguardente!

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Pois bem! Ainda assim uma revolta na Índia não tem seriedade. E o motivo é que os oficiais, que, para terem maior número de rupias no seu soldo, tentaram uma revolta, vêem-se, realizada ela, singularmente embaraçados.
Vêem-se sós.
Em primeiro lugar, os soldados não vão por um impulso próprio.
Divididos em castas, fracos, ignorantes, odiando-se, sem terem interesse comum ou vontade comum - vão unicamente porque os seus oficiais, no primeiro momento, lhes mandaram que fossem.
É mesmo assim - como eles dizem.

Se contra eles, porém, se apontar uma espingarda fiel - como estão ali, não em virtude da revolta sua, mas por obediência à revolta alheia - dispersam.
E, depois, os oficiais revoltados não têm rancho para lhes dar.
O povo conserva-se indiferente, sem adesão, sem simpatia.
Os que possuem alguma rupia, nesses dias enterram-na; os que têm arroz ensacado, escondem-no. Ninguém confia uma para a um oficial revoltado.
Ao segundo dia de desordem, quando chega a hora do rancho, os oficiais só têm a dar aos soldados - palavras de entusiasmo!
Os soldados (nunca podemos compreender por quê) preferem o arroz à retórica; e começam a debandar.



Além disso, no exército índio não há pólvora, nem munições... Quase não há armas!
Por outro lado, à mais pequena insurreição, a disciplina, já famosamente diminuta, desaparece, sem pudor nenhum; e as diversas castas aproveitam os vagares da revolta para se espancarem com fervor.
Acrescente-se que os oficiais da Índia não têm instrução, nem táctica; não são capazes de ordenar uma marcha hábil, de formar um campo entrincheirado, de darem um apoio estratégico à revolta.

Ao fim de dois dias de gritos e de babadé, acham-se nesta situação triunfante: sem ponto de apoio, sem adesões, sem rancho, sem munições, sem dinheiro, sem disciplina.
Se o governador-geral faz sair um bando que, ao som do tambor, propõe a amnistia, cada um solta um ah! de satisfação e de alívio, e volta para o seu quartel!
Ainda tendes medo, patriotas da Arcada?



E não se deve esquecer ainda esta circunstância: o índio das nossas possessões é de uma debilidade gelatinosa. Anémico, miudinho, assustadiço, consumido pelo sol, mal sustentado de arroz, o índio cai de bruços com uma carícia no rosto e morre com uma palmada na espinha. É de uma fraqueza comprometedora.

As pessoas inexperientes e impacientes fazem um prodigioso consumo de índios.
Um empurrão, e o índio tomba - na eternidade.

Não há talvez desembargador algum em Goa que não tenha, com a sua mão grave e jurídica, assassinado um índio!
Dá-se uma pancada leve no ombro do índio - ele cambaleia, suspira, nesse dia come pouco, no outro estende-se ao sol a gemer, começa a beber muita água, e morre.
Depois, o soldado índio, mal ouve o nome de paqueló - treme.
Aí vem o paqueló - foge!
Vê o paqueló - atira-se de bruços, já moribundo.

Há tempos, em Mapuçá, um regimento de 400 praças revoltou-se.
Sai para a rua e vem fazer babadé para defronte da casa do comandante.
O comandante, à janela, em chinelas, tomava café, e entre os goles, vagarosamente sorvidos, exclamava para o regimento insurgido:
Ah! vocês revoltaram-se? Depois para dentro, ao criado: — Mais açúcar!

E continuava:
Bem, eu já vos falo. - (Uma colher! )
- Assim é que estais disciplinados, velhacos? — (Dá cá o cachimbo! ) - Ora deixai estar que os paquelós aí vêm! - (lume!)...

O regimento hesitava.
Nisto aparece, numa pequena elevação, a distância, o tenente Bruno de Magalhães, que vinha, com 20 paquelós, bater os 400 revoltosos.
Os 400 revoltosos, só com ver ao longe os 20 paquelós, debandaram aos gritos.
Nem mesmo se chegou nunca a saber por que se tinham revoltado!
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Porém, ó homens de Estado, podeis dizer-nos:
Mas se a Inglaterra meter lenha para o forno? Uff! A Inglaterra?!
No dia, meus senhores, em que a Inglaterra mandasse um soldado à fronteira da Índia Portuguesa - todo o território índio, mestiços, canarins, descendentes, todas as castas, todas as fraquezas se levantavam num ímpeto.
Povo e tropa na Índia tudo querem - menos o Inglês.

O povo não quer o Inglês - porque no nosso regime ele vive na ociosidade, no desleixo, na sua imundície querida, na sua bem-amada traficância; e se fosse inglês, o cipaio viria obrigá-lo, a golpes de curbach, a ser policiado e a ser trabalhador.
E o soldado índio detesta o Inglês - porque, sob o nosso regime, ele pode subir os postos até major; e sob o regime inglês não subiria nem a cabo!
Aí está a razão por que uma revolta na Índia não tem valor, e por que foram tão supérfluos os vossos fervores patrióticos!
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No entanto, é indispensável que estes sustos acabem!
O País está débil e fraco, e estas comoções matam-no.
Há pouco Macau, agora a Índia!
Que as colónias nos deixem respirar!
Que se revoltem, sim, mas com intervalos, sem acumular.
Que se abra mesmo um registo no Ministério da Marinha. Em Setembro de 71 revoltou-se a Índia? - Pois bem, só em Setembro de 1872 será permitido que Timor se subleve.

A Índia não nos serve senão para nos dar desgostos.
É um pedaço de terra tão escasso que se anda a cavalo num dia.

As pequenas povoações caem em ruína e em imundície; não há nelas movimento, nem iniciativa; a única cultura é o arroz, que exportam a 5 para importar a 8;
a única indústria é fazer olas, que são uns encanastrados de palmeira com que se erguem os pacaris, alpendres coloridos e frescos que sombreiam as janelas;
não existe nenhum comércio;
os tributos esmagam;

dois ou três homens ricos, Jossy e mais dois, que se vêem nos patins, descalços e encruzados, comendo o seu arroz com a mão, têm o dinheiro enterrado, e quando se lhes garante um forte juro, cavam e emprestam;
as escolas são uma ficção grotesca;
as estradas são a espessura do mato;
a higiene é feita pelos cães que lambem as imundícies na rua;
a polícia é feita por cada um com o seu bambu;

uma intriga sórdida e rastejante agita indígenas e europeus;
o deboche tem o ardor do clima;
os soldados embebedam-se com aguardente;
e, no entanto, velhos pardieiros, que se esboroam às mordeduras do sol, esconderijos de corvos, lembram as nossas glórias e alastram o chão de caliça.
Tal é a Índia Portuguesa.
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Noutro número das Farpas lembrámos, a respeito das colónias, este grande melhoramento - vendê-las!
Ocorre-nos outro ainda maior a respeito da Índia - dá-la!
E quanto a glórias nacionais, contentemo-nos com o barítono Lisboa e com o Sr. Arrobas - e é já glória bastante!

A única coisa por que conservamos a Índia, é por ser uma glória do passado.
Oh! meus senhores, também D. João I é uma glória, e nós não nos conservamos abraçados à sua sepultura, soluçando e gemendo.

O passado é belo e heróico - bem: quando o passado pretende antepor-se aos interesses do presente, o passado é caturra!
Seria verdadeiramente impertinente que uma rosa murcha tivesse a pretensão de andar na boutonnière da nossa sobrecasaca;
que uma pomada rançosa do ano passado ousasse querer anediar os nossos cabelos;
e que o esqueleto da mulher amada ainda tentasse dar-nos beijos!


Se podemos vender a Índia aos Ingleses, vendamos a Índia, por Deus!
E quanto às glórias de Diu e de Damão, se elas se querem conservar na História e na pompa da epopeia, quietinhas e caladinhas, terão a nossa consideração.
Mas se, quando se tratar de negociar, elas se interpuserem com recordações importunas, dir-lhes-emos insolências, e desejaríamos dar-lhes coronhadas.
Fora daqui, caturras! voltai para o sepulcro e para o pó das crónicas!

D. João de Castro, hoje, não serve senão para os rapazes de latinidade fazerem temas na província.
Tem paciência, glorioso varão! Sobre as tuas soberbas façanhas, o nosso tempo científico, positivo e racionalista, não tem senão a dizer-te:

«Cumpriste sublimemente, meu velho D. João, os deveres do teu tempo segundo as ideias do teu tempo. Dorme agora quieto o teu grande dormir; e deixa que nós, segundo as ideias do nosso tempo, cumpramos os deveres do nosso tempo!» " (*)

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(*) - Eça de Queiroz - Portugal  (1845-1900)

Fontes do Texto:
a) As Farpas - Setembro de 1871 - Typographia Universal, Rua dos Calafates, 110, Lisboa - Portugal.
b) Uma Campanha Alegre (As Farpas) - Lello & Irmão Editores - Porto - Portugal - 1979.

Imagens: Travel Pictures (Índia)