sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Tragédia Brasileira (Manuel Bandeira)

 
Misael, funcionário da Fazenda,
com 63 anos de idade,
conheceu Maria Elvira na Lapa,
- prostituída,
com sífilis,
dermite nos dedos,
uma aliança empenhada
e os dentes em petição de miséria.


Misael tirou Maria Elvira da vida,
instalou-a num sobrado no Estácio,
pagou médico,
dentista,
manicura...
Dava tudo quanto ela queria.


Quando Maria Elvira se apanhou
de boca bonita,
arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo.
Podia dar uma surra,
um tiro,
uma facada.
Não fez nada disso:
mudou de casa.


Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira
arranjava namorado,
Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio,
Rocha, Catete,
Rua General Pedra,
Olaria, Ramos,
Bonsucesso,
Vila Isabel,
Rua Marquês de Sapucaí,
Niterói, Encantado,
Rua Clapp,
outra vez no Estácio,
Todos-os-Santos,
Catumbi,
Lavradio,
Boca do Mato,
Inválidos…

 
Por fim na Rua da Constituição,
onde Misael,
privado de sentidos
e de inteligência,
matou-a com seis tiros,
e a polícia foi encontrá-la
caída
em decúbito dorsal,
vestida de organdi azul.
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…………
 
Manuel Bandeira - Brasil (1886-1968)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Aberturas de Grandes Livros - "O Crime do Padre Amaro" (Eça de Queiroz - Portugal)

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"Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia.
O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões. Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica — que o detestava — costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado:
Lá vai a jibóia esmoer. Um dia estoura!

Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe — à hora em que defronte, na casa do doutor Godinho, que fazia anos, se polcava com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral não era estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.

Nunca fora querido das devotas; arrotava no confessionário, e, tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera por isso, logo ao princípio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de lábia!
E quando as beatas, que lhe eram fiéis, lhe iam falar de escrúpulos de visões, José Miguéis escandalizava-as, rosnando:
Ora histórias, santinha! Peça juízo a Deus! Mais miolo na bola!
As exagerações dos jejuns sobretudo irritavam-no:
Coma-lhe e beba-lhe - costumava gritar -, coma-lhe e beba-lhe, criatura!

Era “miguelista” — e os partidos liberais, as suas opiniões, os seus jornais enchiam-no duma cólera irracional:
Cacete ! Cacete ! - exclamava, meneando o seu enorme guarda-sol vermelho.

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Nos últimos anos tomara hábitos sedentários e vivia isolado — com uma criada velha e um cão, o Joli. O seu único amigo era o chantre Valadares, que governava então o bispado, porque o senhor bispo D. Joaquim gemia, havia dois anos, o seu reumatismo, numa quinta do Alto Minho.
O pároco tinha um grande respeito pelo chantre, homem seco, de grande nariz, muito curto de vista, admirador de Ovídio — que falava fazendo sempre boquinhas, e com alusões mitológicas.

O chantre estimava-o. Chamava-lhe Frei Hércules.
— "Hércules" pela força — explicava sorrindo, "Frei" pela gula.
No seu enterro ele mesmo lhe foi aspergir a cova; e, como costumava oferecer-lhe todos os dias rapé da sua caixa de ouro, disse aos outros cónegos, baixinho, ao deixar-lhe cair sobre o caixão, segundo o ritual, o primeiro torrão de terra:
É a última pitada que lhe dou!

Todo o cabido riu muito com esta graça do senhor governador do bispado; o cónego Campos contou-a à noite ao chá em casa do deputado Novais; foi celebrada com risos deleitados, todos exaltaram as virtudes do chantre, e afirmou-se com respeito — que sua excelência tinha muita pilhéria!

Dias depois do enterro apareceu, errando pela Praça, o cão do pároco, o Joli.
A criada entrara com sezões no hospital; a casa fora fechada; o cão, abandonado, gemia a sua fome pelos portais. Era um bicho pequeno, extremamente gordo, — que tinha vagas semelhanças com o pároco.
Com o hábito das batinas, ávido dum dono, apenas via um padre punha-se a segui-lo, ganindo baixo. Mas nenhum queria o infeliz Joli ; enxotavam-no com as ponteiras dos guarda-sóis; o cão, repelido como um pretendente, toda a noite uivava pelas ruas.
Uma manhã apareceu morto ao pé da Misericórdia; a carroça do estrume levou-o e, como ninguém tornou a ver o cão, na Praça, o pároco José Miguéis foi definitivamente esquecido.



Dois meses depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro pároco. Dizia-se que era um homem muito novo, saído apenas do seminário.
O seu nome era Amaro Vieira. Atribuía-se a sua escolha a influências políticas, e o jornal de Leiria, A Voz do Distrito, que estava na oposição, falou com amargura, citando o Gólgota, no favoritismo da corte e na reacção clerical.
Alguns padres tinham-se escandalizado com o artigo; conversou-se sobre isso, acremente, diante do senhor chantre:
- Não, não, lá que há favor, há; e que o homem tem padrinhos, tem - disse o chantre. - A mim quem me escreveu para a confirmação foi o Brito Correia [Brito Correia era então ministro da Justiça]. Até me diz na carta que o pároco é um belo rapagão. De sorte que - acrescentou sorrindo de satisfação - depois de "Frei Hércules" vamos ter "Frei Apolo".

Em Leiria havia só uma pessoa que conhecia o pároco novo: era o cónego Dias, que fora, nos primeiros anos do seminário, seu mestre de Moral. No seu tempo - dizia o cónego - o pároco era um rapaz franzino, acanhado, cheio de espinhas carnais:
- Parece que o estou a ver com a batina muito coçada e cara de quem tem lombrigas!... De resto, bom rapaz. E espertote...
O cónego Dias era muito conhecido em Leiria. Ultimamente engordara, o ventre saliente enchia-lhe a batina; e a sua cabecinha grisalha, as olheiras papudas, o beiço espesso - faziam lembrar velhas anedotas de frades lascivos e glutões.
O tio Patrício, o Antigo, negociante da Praça, muito liberal, e que, quando passava pelos padres, rosnava como um velho cão de fila, dizia às vezes ao vê-lo atravessar a Praça, pesado, ruminando a digestão, encostado ao guarda-chuva: Que maroto! Parece mesmo D. João VI!




O cónego Dias vivia só com uma irmã velha, a snr.ª D. Josefa Dias, e uma criada, que todos conheciam também em Leiria, sempre na rua, entrouxada num xaile tingido de negro, e arrastando pesadamente as suas chinelas de ourelo. O cónego passava por ser rico; trazia ao pé de Leiria propriedades arrendadas, dava jantares com peru, e tinha reputação o seu vinho duque de 1815. Mas o facto saliente da sua vida - o facto comentado e murmurado - era a sua antiga amizade com a snr.ª Augusta Caminha, a quem chamavam a S. Joaneira, por ser natural de S. João da Foz.
A S. Joaneira morava na rua da Misericórdia, e recebia hóspedes. Tinha uma filha, a Ameliazinha, rapariga de vinte e três anos, bonita, forte, muito desejada.

O cónego Dias mostrara um grande contentamento com a nomeação de Amaro Vieira. Na botica do Carlos, na Praça e na sacristia da Sé exaltou os seus bons estudos no seminário, a sua prudência de costumes, a sua obediência. Gabava-lhe mesmo a voz: "um timbre que é um regalo":
- Para um bocado de sentimento nos sermões da Semana Santa está a calhar!
Predizia-lhe com ênfase um destino feliz, uma conezia decerto, talvez a glória dum bispado! E um dia, enfim, mostrou com satisfação ao coadjutor da Sé, criatura servil e calada, uma carta de Lisboa que recebera de Amaro Vieira.
Era uma tarde de Agosto e passeavam ambos para os lados da Ponte Nova. Andava então a construir-se a estrada da Figueira: o velho passadiço de pau sobre a ribeira do Lis tinha sido destruído, já se passava sobre a Ponte Nova, muito gabada, com os seus dois largos arcos de pedra, fortes e atarracados (…).


 (…) Ali, caminhando devagar, falando baixo, o cónego Dias consultava o coadjutor sobre a carta de Amaro Vieira, e sobre uma ideia que ela lhe dera, que lhe parecia de mestre! De mestre!
Amaro pedia-lhe com urgência que lhe arranjasse uma casa de aluguer, barata, bem situada, e se fosse possível, mobilada; falava sobretudo de quartos numa casa de hóspedes respeitável:
Bem vê o meu caro Padre-Mestre - dizia Amaro - que era isto que verdadeiramente me convinha; eu não quero luxos, está claro: um quarto e uma saleta seria o bastante. O que é necessário é que a casa seja respeitável, sossegada, central; que a patroa tenha bom génio e que não peça mundos e fundos; deixo tudo isto à sua prudência e capacidade, e creia que todos estes favores não cairão em terreno ingrato. Sobretudo que a patroa seja pessoa acomodada e de boa língua.

- Ora a minha ideia, amigo Mendes, é esta: metê-lo em casa da S. Joaneira! - resumiu o cónego com grande contentamento. - É rica ideia, hein?
- Soberba ideia! - disse o coadjutor com a sua voz servil.
- Ela tem o quarto de baixo, a saleta pegada e o outro quarto, que pode servir de escritório. Tem boa mobília, boas roupas...
- Ricas roupas - disse o coadjutor com respeito.
O cónego continuou:
- É um belo negócio para a S. Joaneira: dando os quartos, roupa, comida, criada, pode muito bem pedir os seis tostões por dia. E depois sempre tem o pároco de casa.
- Por causa da Ameliazinha é que eu não sei - considerou timidamente o coadjutor - Sim, pode ser reparado. Uma rapariga nova... Diz que o senhor pároco é ainda novo. Vossa senhoria sabe o que são as línguas do mundo…



O cónego tinha parado:
- Ora histórias! Então o padre Joaquim não vive debaixo das mesmas telhas com a afilhada da mãe? E o cónego Pedroso não vive com a cunhada, e uma irmã da cunhada, que é uma rapariga de dezanove anos? Ora essa!
- Eu dizia... - atenuou o coadjutor.
- Não, não vejo mal nenhum. A S. Joaneira aluga os seus quartos, é como se fosse uma hospedaria. Então o secretário-geral não esteve lá uns poucos de meses?
- Mas um eclesiástico... - insinuou o coadjutor.
- Mais garantias, senhor Mendes, mais garantias! - exclamou o cónego.
E parando, com uma atitude confidencial:
- E depois a mim é que me convinha, Mendes! A mim é que me convinha, meu amigo!
Houve um pequeno silêncio. O coadjutor disse, baixando a voz:
- Sim, vossa senhoria faz muito bem à S. Joaneira...
- Faço o que posso, meu caro amigo, faço o que posso - disse o cónego.
E com uma entonação terna, risonhamente paternal:
- Que ela é merecedora, é merecedora…"  (*)






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(*) - O Crime do Padre Amaro - Eça de Queiroz - Portugal (1845-1900)

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Pêro Vaz de Caminha - Quem era, e como terminou os seus dias, o autor da "certidão de nascimento" do Brasil?


Pêro Vaz de Caminha foi o escrivão, embarcado na frota de Pedro Álvares Cabral, a quem coube relatar, por escrito, em Abril de 1500, os dias extraordinários do descobrimento da terra brasileira pelos Portugueses (reveja aqui).
Por isso mesmo, considera-se que a ele se ficou a dever a "certidão de nascimento" do grande país da América do Sul - que em Portugal se encara e se sente como o "País Irmão".


Pêro Vaz de Caminha nasceu em meados do século XV (talvez em 1450) na cidade do Porto, Norte de Portugal.  Era homem bem integrado na vida pública da urbe natal, tendo ocupado cargos de relevo. Sabe-se, por consulta das respectivas actas, que esteve presente nas reuniões da Câmara entre 1488 e 1498.
Foi, a partir de 1479, mestre da Balança da Moeda do Porto (cargo herdado do pai e em que foi confirmado pelo rei português, D. Manuel I, em 1496).

Comandando as tropas do Porto, participou na batalha de Toro, que os Portugueses travaram em Castela no 1.º dia de Março de 1476.
Pêro Vaz de Caminha foi ainda cavaleiro das Casas Reais de vários monarcas lusitanos (D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I).
Foi casado com D. Catarina Vaz, de quem teve uma filha, D. Isabel de Caminha.

Possuía formação literária humanista e conhecia bem os autores latinos, achando-se familiarizado com as obras clássicas. Era, sobretudo, um ser aberto ao mundo, dotado de profunda sensibilidade, como pode ser comprovado pelas maravilhosas e emocionantes descrições que ele fez, na sua famosa "carta", da terra brasileira - fauna, flora, meio físico - e, sobretudo, das suas gentes.



Infelizmente, Pêro Vaz de Caminha não viveria tempo suficiente para testemunhar as repercussões que a sua "carta" - dirigida ao rei D. Manuel I - tivera em Portugal.
Com efeito, e como é do conhecimento geral, o destino final daquela expedição de Pedro Álvares Cabral não era o Brasil, mas sim a Índia. Tratava-se da segunda viagem realizada pelos Portugueses até àquele país asiático, depois da descoberta da respectiva rota por Vasco da Gama (rever aqui).

Discute-se, ainda hoje, se a descoberta da Terra de Vera Cruz (o Brasil) ocorreu por acidente ou por um desvio deliberado da rota principal. As teses mais recentes e sustentadas apontam para a segunda hipótese - e essa é também a nossa opinião: os Portugueses saberiam de antemão que existia por ali uma terra nova, assim se explicando o desvio pronunciado que levaram a cabo para realizar o desembarque.

Fosse como fosse, havia que cumprir o plano originalmente concebido em Lisboa - o objectivo final da viagem era Calecute, na Índia, e foi esse o rumo que retomaram ao cabo de dez dias. A carta de Pêro Vaz de Caminha, com a notícia do "achamento do Brasil", fora entretanto expedida para Lisboa num dos navios da frota que Cabral mandara regressar à pátria.

 

A frota portuguesa navegou, pois, em busca de Calecute, na Índia, onde chegou após uma viagem dramática: Cabral perdeu vários navios na travessia do Atlântico para o Índico; quando ancorou no seu destino, restavam-lhe sete embarcações das treze com que havia deixado Lisboa.
Na Índia, para além das motivações religiosas, os Portugueses estavam sobretudo interessados em participar no comércio local, acedendo às preciosas especiarias para as transportar até à Europa. Com esse intuito negociaram durante meses a fio com o governante local, o Samorim, até que conseguiram obter permissão para fundar um entreposto comercial (uma feitoria), à frente da qual Pedro Álvares Cabral colocou Aires Correia.

Como é natural, os muçulmanos que dominavam até então a actividade comercial na região (os mouros de Meca, como lhes chamavam os Portugueses) não viram com bons olhos a ameaça dos novos concorrentes. Durante algum tempo viveram-se episódios de intrigas e traições. O comportamento do Samorim foi, no mínimo, ambíguo, mas parece ter sido com a sua conivência que uma multidão de muçulmanos enfurecidos atacou o edifício da feitoria portuguesa. O grosso dos expedicionários, incluindo Cabral, achava-se no mar, a bordo da frota, pelo que na feitoria permaneciam, apenas, cerca de 70 homens. Entre eles estavam o feitor, Aires Correia, alguns frades franciscanos e, para mal dos seus pecados, o escrivão Pêro Vaz de Caminha.



Refugiados na feitoria, os Portugueses resistiram enquanto puderam. Mas o número de atacantes era esmagador, pelo que Aires Correia decidiu a retirada até à praia, onde talvez lhes chegasse algum auxílio enviado por Pedro Álvares Cabral. Correndo e lutando, a maioria conseguiu alcançar a beira do mar, mas aí verificaram que as ondas, muito agitadas, impediam a aproximação dos botes de socorro. Cercados pela multidão que os perseguia, envolveram-se então numa derradeira e desesperada luta.

Ainda que bastante feridos, vinte homens lograram atirar-se ao mar, onde, correndo risco de afogamento, foram sendo recolhidos pelos batéis da frota.
Na praia, para os seus companheiros, o drama estava todavia consumado. Aires Correia acabou trucidado, bem como três frades franciscanos e cerca de cinquenta homens. Entre as vítimas do massacre encontrava-se Pêro Vaz de Caminha - o autor da "certidão de nascimento" do Brasil.
Era o dia 15 de Dezembro de 1500, e tinham decorrido menos de oito meses sobre o momento em que ele avistara pela primeira vez, para a descrever de forma emocionada e deslumbrante, a maravilhosa Terra de Vera Cruz...

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Simone Veil e o campo de concentração de Auschwitz...



"Fui a Auschwitz pela primeira vez a 27 de Janeiro de 1994, 49 anos depois da libertação do campo.
Entre os numerosos membros de parlamentos nacionais, governos e Parlamento Europeu que participaram na viagem, encontrava-se Simone Veil, à época ministra de Estado de França. Era a primeira vez que esta  sobrevivente de Auschwitz-Birkenau voltava ao local para onde fora deportada pelos nazis a 13 de Abril de 1944.
Simone Jacob - era este o seu apelido de solteira - chegou a Auschwitz com 16 anos, acompanhada pela mãe Yvonne e pela irmã Madeleine. A família fora apanhada pela Gestapo em Nice e levada para o campo de Drancy, perto de Paris, um dos três maiores campos da Europa de reagrupamento de prisioneiros, antes de serem deportados pelos nazis.

O pai e o irmão, Jean, foram enviados para o Forte IX, em Kaunas, na Lituânia, de onde nunca regressaram, e Simone, a mãe e a irmã para Auschwitz-Birkenau, onde chegaram a 15 de Abril à noite.
Seguindo o conselho de um prisioneiro, na selecção inicial, Simone afirmou ter 18 anos, de forma a evitar, ou pelo menos adiar, as câmaras de gás. O número da matrícula tatuado no seu braço foi 78651, e o trabalho a que foi forçada consistia em descarregar pedras de camiões, cavar trincheiras e aplanar o solo.


A jovem Simone Veil (em solteira Simone Jacob)

Meses mais tarde, perante a aproximação do Exército soviético, os alemães obrigam os prisioneiros a abandonar Auschwitz, levando-os, no que ficou conhecido como Marchas da Morte, até ao campo de Bergen-Belsen, na Alemanha. A sobrelotação deste campo, a falta de higiene e de cuidados médicos provocam uma terrível epidemia de tifo, que contamina a mãe e a irmã de Simone: a primeira morre a 15 de Março de 1945, e a irmã salva-se por um triz devido à chegada das tropas britânicas a 15 de Abril de 1945.
Simone sobrevive e chega a França, a 23 de Maio, com a irmã Madeleine. A ela junta-se a outra irmã, Denise, que entrara aos 19 anos na Resistência, tendo sido deportada para o campo de Ravensbrück.
São as únicas sobreviventes de uma família que antes da guerra tinha seis pessoas.



Nessa manhã gélida de 27 de Janeiro de 1994, Simone Veil regressava pela primeira vez ao campo onde enterrara a adolescência. O seu rosto fechado não revelava emoção nem tristeza. Pressionada pelos jornalistas, manteve-se em silêncio a maior parte do dia. Mas ao final da tarde, numa cerimónia solene e muito emotiva junto do Memorial Internacional de Auschwitz-Birkenau, a tensão daquela jornada acabou por explodir, após as palavras do bispo polaco dissertando sobre os holocaustos que aconteciam pelo mundo fora.

Era quase noite, o frio era intenso e estávamos perto dos antigos crematórios e câmaras de gás. Simone Veil não se conteve: Holocaustos? Como pode falar de "holocaustos", no abstracto e no plural, neste dia e neste local, onde foram assassinadas mais de um milhão de pessoas, entre as quais centenas de milhares de crianças?
Não me lembro da resposta, se a houve. Mas ao longo destes 26 anos, e apesar de ter voltado várias vezes a Auschwitz e visitado muitos outros campos de concentração e extermínio, nunca me esqueci daquela tarde no maior e mais sinistro cemitério do mundo, em que a ministra de Estado despiu o manto oficial e falou por todos aqueles que nunca conheceram uma sepultura.




Auschwitz é considerado o símbolo máximo do Holocausto e da política genocida de Hitler. Sobretudo a partir de 1942, torna-se epicentro dos crimes do nazismo, um local único onde se conjuga o mais vasto campo de deportação do universo concentracionário nazi e o maior centro de extermínio da história do III Reich. Por tudo isso, tornou-se sinónimo do mal absoluto.
Foi aí que teve lugar a primeira experiência de assassínio em massa, numa câmara de gás, em Setembro de 1941, com prisioneiros de guerra soviéticos; foi aí que judeus e ciganos serviram de cobaias às diabólicas experiências levadas a cabo por médicos e enfermeiros nazis; foi aí que mais de um milhão de seres humanos de 15 países europeus foram gaseados, e que mais de 200 mil homens, mulheres e crianças morreram de fome, frio e doença, exaustão e brutalidade, ou simplesmente solidão e desesperança absoluta...

Com mais de um milhão de mortos, Auschwitz simboliza numa só palavra e num só espaço toda a criminalidade do regime nazi. E também, mais do que qualquer outro, é o fruto monstruoso do ódio mortal de Hitler contra o seu principal alvo de sempre: o povo judeu.
Outros campos, como Treblinka ou Sobibor, partilharam com Birkenau a imensa e inédita capacidade destrutiva. Mas de todo o universo concentracionário nazi, é decerto Auschwitz que melhor espelha a política racial do Estado de Hitler e Himmler e onde o processo - concentração, extorsão, trabalho escravo e extermínio - foi de longe o mais "perfeito".



Ao longo da sua história, a Humanidade conheceu guerras e massacres atrozes. Mas o Holocausto surge numa sociedade moderna, culta e sofisticada, num mundo em que era suposto a barbárie ter sido ultrapassada. Ora não só isso não aconteceu, como foram os próprios instrumentos da modernidade que permitiram a catástrofe com a dimensão e as características que assumiu.
É, pois, à luz desse contexto histórico e civilizacional que tem de ser feita a reflexão sobre o Holocausto. Julgado à luz do contexto da Europa do século XX e da sua cultura, o que o genocídio nazi nos revela é que vivemos num mundo que contém em si a possibilidade de 'Auschwitz'. A história nunca se repete da mesma maneira, porque o contexto que a determina é irrepetível. Mas a barbárie nazi aconteceu não num parêntesis histórico, mas como virtualidade da nossa civilização.

Na verdade, ignoramos a principal "lição" de Auschwitz: a de como podem ser destrutivas as guerras nas nossas sociedades evoluídas do ponto de vista científico, tecnológico e industrial.
O Holocausto - escreve Geneviève Decrop - demonstrou de forma inédita que os maiores massacres não são concebidos no campo de batalha, mas nos bastidores das administrações públicas e privadas, ou, como Kafka terá dito, que os grilhões da Humanidade torturada são em papel de ministério.


A história do Holocausto, como a de outros acontecimentos históricos, nunca é definitiva. Escrita no presente, altera constantemente a abordagem do passado. Mas, apesar de todos os trágicos acontecimentos destes últimos 75 anos, o Holocausto continua a ser inédito na história humana.
Se nos quisermos compreender como pessoas e europeus, o conhecimento desse momento negro do século XX é indispensável.
Como referiu Imre Kertész no discurso de atribuição do Prémio Nobel, em 2002:

O problema de Auschwitz não é saber se devemos manter a sua memória ou metê-la numa gaveta da História. O verdadeiro problema de Auschwitz é a sua própria existência, e, mesmo com a melhor vontade do mundo, ou com a pior, nada podemos fazer para mudar isso." (*)
 
 
A Lista de Schindler
(Tema musical)

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(*) - Artigo de Esther Mucznik no jornal Expresso (Lisboa, Portugal) de 1 de Fevereiro de 2020, pág.3.
Título: Auschwitz, um passado que não passa.
Nota: Esther Mucznik é a fundadora e presidente da Associação Memória e Ensino do Holocausto - Memoshoá.

(Ilustrações da responsabilidade da Torre da História Ibérica)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Grandes Pintores - Edvard Munch (Noruega)

O Grito (1893)















Madonna (1894)












O Beijo (1897)















Dia de Primavera na Rua Karl Johan (1891)















Rapariga Acendendo o Fogão (1883)
















Raparigas na Ponte (1889)
















Ansiedade (1896)















Auto-Retrato com Cigarro (1895)
















Manhã (1884)
















Melancolia (1896)
















Rosa e Amélia (1893)















Noite em Karl Johan (1892)















Primavera (1889)















Cavalo a Galope (1910)















Olhos nos Olhos (1894)















Maridalen (1881)


Edvard Munch foi um pintor norueguês (n. 1863 – f. 1944).
Frequentou a Escola de Artes e Ofícios de Oslo, vindo a ser influenciado por Courbet e Manet.
Em Paris descobre as obras de Van Gogh e Gauguin e o seu estilo sofre grandes mudanças.

Em 1892, o convite para expor em Berlim torna-se num momento crucial da sua carreira e da história da arte alemã. Inicia um projecto que intitula “O Friso da Vida”, a que pertence O Grito, considerada a sua obra máxima. O quadro retrata a angústia e o desespero e foi inspirado nas decepções do artista tanto no amor quanto com os seus amigos.

Em 1896, em Paris, interessa-se pela gravura, fazendo inovações nesta técnica. Os trabalhos deste período revelam uma segurança notável.
Em 1914 inicia a execução do projecto para a decoração da Universidade de Oslo, usando uma linguagem simples, com motivos da tradição popular.

Munch retratava as mulheres ora como sofredoras frágeis e inocentes, ora como causa de grande anseio, ciúme e desespero.
Toda a obra está impregnada pelas suas obsessões: a morte, a solidão, a melancolia, o terror das forças da natureza.