segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Billie Eilish, a Amazónia, os bifes no prato e as alterações climáticas...


Com apenas mais duas semanas de vida do que Greta Thunberg (completa 17 anos no próximo mês de Dezembro), Billie Eilish, nova vedeta norte-americana da moda e da moderna música pop, percorre, com estilo porventura mais irreverente, caminhos semelhantes. Numa recente entrevista ao jornal português Expresso, foi interpelada sobre a grave situação do nosso planeta - e falou como se conta abaixo:


A preocupação com as alterações climáticas é outro assunto que a apoquenta.

“Fico muito incomodada, porque as pessoas fingem estar preocupadas com a situação. Não sabem, na verdade, nada sobre o assunto. Na semana em que aquela fotografia, linda e horrível, dos incêndios na Amazónia andou a circular, lembro-me de ver todos os meus amigos e toda a gente que algum dia conheci a partilharem-na e a dizerem “isto é um horror, precisamos de salvar o planeta”.

“Fiquei ali a pensar: vocês nem se deram ao trabalho de pesquisar o porquê de a floresta estar a arder. Se o tivessem feito, seus pequenos idiotas, não andavam aí a questionar-se sobre quem provocou aquilo… Porque foram vocês!

Sabem por que razão a Amazónia está a arder, seus cretinos? Sabem porquê? Porque para haver quintas com gado, para criar vacas e matá-las para as colocarem nos vossos pratos, começaram a derrubar árvores com o intuito de arranjar mais espaço. Como isso se tornou crime, passaram a incendiar florestas para criar espaço.

Isto não está a acontecer de forma espontânea, há mesmo pessoas a provocar incêndios para acabar com as árvores. E vocês, depois de darem uma dentada, afastam-se e partilham nas redes sociais a vossa indignação com os incêndios.

Se calhar, em vez de sacarem dos vossos sacos os pratos de plástico para porem um pedaço de carne em cima deles, podiam PARAR! Não o façam. Fico doida…”

………………………...

Oiçam Billie Eilish num dos seus grandes êxitos:
All the good girls go to hell
("Todas as boas meninas vão para o inferno")



Fonte: E - Revista do jornal Expresso - Lisboa - Portugal - Edição 2447, de 21 de Setembro de 2019 - Pág. E-30.
A entrevista foi concedida a Mário Rui Vieira.

sábado, 19 de outubro de 2019

Apache! (Episódios da resistência dos povos do sudoeste norte-americano) (2)


Em 1862, o grande e carismático chefe apache Mangas Coloradas recuperava, nas Montanhas Mimbres (Novo México), do grave ferimento que sofrera em combate contra os soldados dos Estados Unidos. Embora envelhecido e bastante mais magro, achava-se ainda capaz de montar a cavalo e de conduzir os seus guerreiros, a maior parte dos quais com metade ou um terço da sua idade.

Mangas Coloradas não alimentava ilusões acerca dos caminhos da guerra. Mesmo podendo contar com um aliado excepcional como Cochise, seu genro, ou com guerreiros não menos valorosos, como Victorio ou Gerónimo, ele sabia que era impossível continuar a resistir por muito mais tempo ao poderio esmagador do exército norte-americano (os Casacos Azuis). Tomara conhecimento de que, ainda recentemente, o inimigo lograra cercar os seus irmãos Mescaleros, confinando-os no Bosque Redondo - mais uma "prisão sem grades". Por outro lado, sabia que os Casacos Azuis procuravam sem descanso os Apaches que recusavam render-se, para os matar com os seus sabres afiados e com a metralha das suas peças de artilharia. Como se não bastasse, os invasores brancos eram agora auxiliados por batedores índios, alguns deles apaches, habilíssimos em seguir os rastos deixados pelos seus irmãos insubmissos. O coração de Mangas Coloradas sofria muito com isso.

Foi nessa altura que o velho chefe começou a pensar em conseguir a paz para o seu povo antes que a morte o surpreendesse. Talvez lhe fosse possível repetir, cogitou ele, o que fizera em Santa Fé, uns anos antes, na década de 1850, quando os Apaches e os Estados Unidos tinham combinado viver em paz para sempre. É claro que esse acordo acabara por ser rompido - era por isso que agora se viviam os dias dramáticos que ameaçavam acabar com ele e com o seu povo. Mas o chefe acreditava, apesar de tudo, que seria ainda viável conversar amistosamente com aqueles terríveis inimigos.

Mangas Coloradas

Em Janeiro de 1863, estando Mangas Coloradas acampado nas margens do rio Mimbres, aconteceu algo que, face aos seus propósitos, ele achou providencial. Um mexicano desconhecido, brandindo a bandeira de tréguas, apresentou-se-lhe no acampamento e informou-o de que havia militares americanos, próximos dali, que tinham vontade de falar de paz. Os soldados, pertencentes aos Voluntários da Califórnia, eram comandados pelo capitão Edmond Shirland.
Mangas teria preferido conferenciar com alguém de patente mais elevada, como, por exemplo, um "chefe estrelado" (um general). No entanto, pressionado pela situação difícil em que se encontrava, resolveu acompanhar o mensageiro. Os seus guerreiros suspeitaram de uma armadilha e aconselharam-no a não ir. Recordaram-lhe o que sucedera a Cochise, em Apache Pass, e os conflitos que se haviam seguido.

Mangas insistiu na resolução e, seguido por uma escolta de quinze guerreiros, tomou o trilho que conduzia ao acampamento americano. Um homem que falava espanhol veio ao encontro da comitiva para guiar o chefe apache até ao capitão Shirland, mas os índios da escolta recusaram deixá-lo ir enquanto não fosse hasteada uma bandeira branca no ponto de destino.
A bandeira acabou por surgir e o próprio Mangas Coloradas ordenou aos seus homens que se fossem embora e o deixassem entrar sozinho no acampamento inimigo. Sentia-se protegido pela trégua oferecida pelos brancos. Cavalgou então, tranquilamente, para o que pensava vir a ser uma proveitosa conversa de paz. Contudo, mal os seus guerreiros desapareceram de vista, irrompeu das imediações um bando de soldados que lhe deram voz de prisão. Com esta pasmosa facilidade (e, certamente, com inesperada ingenuidade) se deixou capturar o famoso guerreiro índio.
Entretanto, no regresso ao acampamento do rio Mimbres, a escolta apache, agora neutralizada, estava longe de imaginar a trágica situação vivida nessa altura pelo seu velho chefe.



Mangas Coloradas foi pressurosamente conduzido ao acampamento dos seus captores. Chegou pouco depois ao local um "chefe estrelado", o general Joseph West, que se apressou a ir ver o prisioneiro e a deambular à sua volta, com mórbida curiosidade, como se estivesse na presença de um animal raro. West teve de o olhar de baixo para cima, porque o índio era muito mais alto do que ele. Mangas já se arrependera amargamente de ter concedido crédito à palavra dos inimigos, mas, com os seus guerreiros ausentes, não havia nada que ele pudesse fazer.

Nessa noite, o chefe apache foi entregue à guarda de dois soldados. Fazia frio, pelo que estes armaram uma grande fogueira de troncos para se aquecerem. Posteriormente, uma testemunha, o soldado Clark Stocking, revelaria ter ouvido o general West a falar com os dois guardas, tendo-lhes dirigido as seguintes palavras: Quero-o morto ou vivo amanhã de manhã - compreendem? - quero-o morto. O destino de Mangas Coloradas tinha sido traçado - e a sentença não poderia ser mais clara.

Uma outra testemunha, Daniel Conner, que patrulhava o acampamento, contou ter presenciado uma cena sinistra por volta da meia-noite. Perto da fogueira, o prisioneiro dormia, ou tentava dormir, tapado por uma manta, mas de vez em quando remexia-se furiosamente. Conner escondeu-se fora do alcance da luz da fogueira e não tardou a perceber o que se passava: os dois guardas aqueciam as lâminas das baionetas nas chamas para logo as encostarem às pernas do chefe índio. Este foi suportando a tortura, até que se ergueu, cheio de indignação, para censurar asperamente os seus algozes. Disse-lhes, em espanhol, que não era uma criança para que brincassem assim com ele. Mas não pôde falar muito mais, porque os guardas dispararam sem aviso e, quando o viram tombado no chão, esvaziaram os tambores dos revólveres no corpo inerte. A cabeça foi-lhe separada do corpo e o seu crânio acabaria por ser vendido a um frenologista do Leste. O corpo decapitado foi atirado para uma vala.
No relatório militar dedicado ao assunto escreveu-se que Mangas Coloradas havia sido abatido quando tentava fugir do acampamento.


Como é óbvio, episódios como este em nada contribuíam para a pacificação das relações entre Apaches e Norte-Americanos. Pelo contrário, a primeira consequência da traição perpetrada por Joseph West foi, como seria de esperar, o recrudescimento das hostilidades. Como testemunhou Daniel Conner: Os índios entraram francamente em guerra e pareciam decididos a vingar a morte de Mangas Coloradas com todas as suas forças.
Cochise, que salvara a vida de Mangas pouco tempo antes, tratava agora, com os seus trezentos guerreiros, de o vingar com ofensivas vigorosas desde o território chiricahua do Arizona até às montanhas Mimbres do Novo México. Desejava, como sempre, expulsar da região os brancos que haviam traído outra vez a sua palavra.

Outros chefes, como Nana e Gerónimo, empenhavam-se também nesta luta de vida ou morte. Victorio conseguiu reunir um importante efectivo, ao qual juntou apaches mescaleros fugidos da reserva de Bosque Redondo, e com ele atacou núcleos de colonos, postos de exército e vias de comunicação, contribuindo para lançar o pânico na região que se estendia ao longo do Rio Grande até El Paso. Durante cerca de dois anos, estes pequenos exércitos apaches mantiveram o Sudoeste americano em sobressalto, impedindo ou dificultando a fixação branca ou o trânsito para a Califórnia. Nem sempre dispunham de armas de fogo, mas não era por isso que renunciavam ao combate. Tinham sempre à disposição os seus arcos e flechas, sendo estas dotadas de pontas de quartzo de terrível eficácia: quando atingiam os alvos, elas penetravam com a força de uma bala cónica.
Lutando numa proporção de um para cem, os Apaches não tinham outro futuro que não fosse a morte ou a prisão. A esse destino só conseguiam furtar-se aqueles que, seduzidos pelas palavras dos brancos, concordavam em servi-los como batedores, seguindo no terreno as pistas dos seus irmãos em luta.

Batedores apaches ao serviço do exército dos Estados Unidos

A outra consequência da atitude dos invasores para com os nativos foi a perda de confiança destes nas diversas iniciativas de negociação. Mas a guerra cansava e destruía, e o poder avassalador dos brancos parecia crescer a cada dia. Por isso, não admira que, já depois de terminada a Guerra Civil americana, alguns chefes índios, com os recursos esgotados, se dispusessem enfim a fazer a paz com aquele inimigo aparentemente invencível. Foi o que sucedeu com Victorio e Nana, por exemplo.

Em Abril de 1865, ambos se avistaram com um representante dos Estados Unidos. Victorio disse que o seu povo era pobre e que quase já não tinham nada para comer ou vestir. Estavam todos cansados e queriam a paz. No fim, para garantir a seriedade das suas palavras, proclamou: Lavei as minhas mãos e a boca com água fria e fresca e o que digo é verdade. Mas a resposta do americano foi curta e brutal, comunicando aos interlocutores que não viera pedir-lhes que fizessem a paz. Se queriam paz, só tinham que aceitar abandonar a região com a sua gente e deslocar-se para a reserva de Bosque Redondo.

Tanto Victorio como Nana tinham ouvido as piores coisas acerca de Bosque Redondo, uma das "prisões sem grades" que os inimigos ofereciam aos índios. Não era por acaso que muitos dos seus irmãos se evadiam de lá e se juntavam às forças em luta. Ficaram, por isso, indignados, e Nana traduziu essa indignação com secura. Disse: Não tenho bolsos para guardar o que acaba de dizer. Mas as suas palavras mergulharam fundo no meu coração. Não serão esquecidas.
Victorio percebeu também que não havia mais nada para falar com aquele homem. Para não levantar suspeitas, disse-lhe que partiria para a reserva dentro de dias, depois de reunir o seu povo e os cavalos. Mas estava evidentemente decidido a não ceder ao ultimato.

O agente americano esperou pelos índios, em Pinos Altos, durante quatro dias. Mas não apareceu um só apache: eles tinham perdido completamente a confiança nos brancos e odiavam a simples ideia de se deixarem confinar em Bosque Redondo. Alguns abdicaram da luta e seguiram para sul, internando-se nas terras mexicanas. Outros cavalgaram para se juntarem a Cochise, no seu refúgio das Montanhas Dragoon.


Lembrado do que lhe sucedera em Apache Pass e do traiçoeiro assassínio de Mangas Coloradas, Cochise continuava o combate contra os americanos. Estes, considerando-o o adversário mais temível, haviam tentado várias aproximações para pôrem fim à guerra com um acordo. Mas o chefe apache não se dignou responder a tais iniciativas: não acreditava na sinceridade dos brancos.
Durante cinco anos, prosseguiram as guerrilhas apaches. Os índios evitavam sistematicamente acercar-se das povoações de colonos ou dos fortes militares, preferindo emboscar caravanas, rancheiros ou garimpeiros isolados. Nessas alturas, investiam para obter cavalos, armas e gado, deixando às vezes para trás algumas vítimas mortais.

No ano de 1870, as guerrilhas atingiram o auge, em locais dispersos e separados uns dos outros por centenas de quilómetros. Como Cochise era o apache mais conhecido dos Americanos, estes responsabilizavam-no, invariavelmente, pela totalidade dos ataques. Na Primavera de 1871, o comissário americano para os Assuntos Índios, Ely Parker, teve a ideia de convidar o chefe apache para viajar até Washington a fim de conversarem. Cochise tornou a recusar. Se já desconfiava antes, mais desconfiado tinha ficado nesse ano, após ser informado do que acontecera ao povo do chefe Eskiminzin.

Eskiminzin, que liderava uma pequena tribo de 150 apaches estabelecidos nas margens do riacho Aravaipa, falara com os Americanos  e aceitara entregar as armas. O seu povo vivia agora pacificamente ao longo do Aravaipa, plantando milho e cozinhando mescal. Alguns chegaram mesmo a empregar-se como lavradores em ranchos das proximidades. Um dia, houve um ataque de apaches a cerca de uma centena de quilómetros dali, incidente logo atribuído, injustamente, aos apaches do Aravaipa.

Uma força fortemente armada, composta por voluntários e mercenários, partiu então de Tucson  para assaltar a aldeia do Aravaipa. O massacre foi terrível. Em cerca de meia hora, e com excepção de umas poucas fugas, a população foi abatida pelos atacantes.
O tenente Royal Whitman, que estabelecera relações amistosas com Eskiminzin, testemunhou: Descobri várias mulheres mortas enquanto dormiam, ao lado dos fardos de forragem que haviam reunido para transportar de manhã. Os feridos que não puderam fugir tiveram as cabeças esmagadas com clavas ou pedras, enquanto alguns haviam sido crivados de flechas depois de mortalmente feridos a tiros. Todos os corpos foram desnudados.
O médico C. B. Briesly, que acompanhava o tenente Whitman, informou que duas das mulheres estavam numa tal posição e, pela aparência dos seus órgãos genitais e das suas feridas, não podia haver dúvida de que haviam sido primeiramente violadas e, depois, mortas a tiros… Uma criança de cerca de dez meses foi atingida duas vezes e a sua perna quase foi cortada.
Posteriormente, foram encontrados nas proximidades da aldeia mais alguns cadáveres, fixando-se em 144 o total de vítimas mortais.
Eskiminzin escapou ao massacre, e alguns apaches acreditavam que ele voltaria a fazer a guerra. Mas não voltou. Anos mais tarde, acabaria por ir parar a uma reserva com algumas dezenas de sobreviventes do seu povo.

Dança apache do Espírito da Montanha:




Continua em 26-Outubro-2019 (3.ª Parte)
Ver 1.ª Parte (aqui)

Bibliografia:
Principal:
Dee Brown - Bury My Heart at Wounded Knee - An Indian History of the American West - 1970.
Outros:
Albert Britt - Great Indian Chiefs - 1938.
Britton Davis - The Truth About Geronimo - 1951.
John C. Cremony - Life Among the Apaches - 1868.
John G. Bourke - An Apache Campaign in the Sierra Madre - 1958.


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Catalunha (Catalunya) - Presos políticos, "por supuesto". Qual é a dúvida?...


Convenhamos: na Europa, ponderados os equilíbrios globais e regionais da presente arrumação político-económica, uma eventual independência catalã seria potencialmente catastrófica - e, portanto, é quase impossível que algum dia possa vir a ser tolerada.
Mas, dito isto, sobram do passado a consciência histórica e, vá lá, um dever de gratidão e a necessidade de alguma honestidade intelectual.  Aos que dizem que a Catalunha nunca foi independente e que, portanto, não lhe assiste o direito de reivindicar o que nunca teve, só pode dizer-se que respirem fundo, que se acalmem e que peguem nos livros de estudo...

A Catalunha formou, juntamente com Aragão, a chamada "Coroa de Aragão", tendo o processo começado quando Petronila, filha do rei de Aragão, se casou com Raimundo, conde de Barcelona. Foi isto no ano de 1137, numa altura em que Castela (que fora, ao princípio, um modesto condado nortenho integrante do reino de Leão) ainda mal iniciava o processo de afirmação expansionista que levaria, ao correr dos séculos, à Espanha actual.
Só em 1230 Castela se uniria definitivamente ao reino de Leão para formar o reino de Leão e Castela, mais tarde Coroa de Castela.

À margem dessa entidade política, prosperava, com absoluta autonomia e independência política, a Coroa de Aragão (e, portanto, a Catalunha).
Imensamente mais poderosa e rica do que a vizinha Leão e Castela, a Coroa expandiu-se pelo Mediterrâneo. Integrando já Valência e Maiorca, e tendo Barcelona como sua estrela mais refulgente, esse império estendeu-se pela Sicília, Sardenha, reino de Nápoles e, na Grécia, pelos ducados de Atenas e de Neopatria.
Pode ter uma visão disto no mapa seguinte (espaços vermelho-acastanhados). Repare como Castela (em amarelo) se espremia, à esquerda, contra o flanco deste poderosíssimo império.


As coisas começariam a pender para o que são hoje quando o herdeiro do trono aragonês (Fernando) se casou com a (depois) rainha de Castela, Isabel (1469). Foram mais tarde conhecidos como os Reis Católicos.

Essa união pessoal não originou a imediata união ou fusão das duas coroas (Aragão e Castela), constituindo apenas um primeiro passo  para ela. Mas durante séculos as respectivas instituições e mecanismos de governo conservaram a autonomia: só nos princípios do século XVIII, através de uma série de decretos, foi a mesma abolida na Catalunha, tornando-se preponderante (e, sempre que foi preciso, ferozmente interveniente) a autoridade centrada em Madrid. Mas esse domínio "espanhol" nunca foi pacífico em terras da Catalunha.

É desta memória histórica que muitos dos que hoje se manifestam são portadores - sendo por causa da mesma memória que os cidadãos acima retratados definham na prisão sob o peso das sentenças recentemente baixadas. Nessa memória cabem igualmente os inúmeros abusos que o poder dominante foi perpetrando ao longo da história - desde cerceamento de direitos, supressão de leis autonomizantes e intervenções militares brutais, até (pasme só quem não conheça bem "Castela/Espanha"...) à proibição de falar, escrever ou publicar na própria língua (o Catalão). Isto ainda se passava há cerca de meio século...

Portugal - Dia 1 de Dezembro - Ano de 1640

Passemos agora ao que nos toca: Portugal poderia estar a viver hoje situação idêntica à dos Catalães. Também tínhamos sido independentes durante séculos, como eles foram. Também detínhamos um império. Mas, caso Castela houvesse triunfado sobre nós, estaríamos agora a escrever palavras muito parecidas com estas, trocando apenas o mapa acima por um outro, mais virado ao Atlântico e ao Índico.
Seria talvez assim se o país não tivesse sacudido a pata imperial castelhana em diversas ocasiões (Aljubarrota, por exemplo). Seria com certeza assim se, no ano de 1640, o país não tivesse expulsado o poder de Madrid, simbolizado pela duquesa de Mântua, entrando num período de vinte e oito anos de guerras para nos vermos livres de "Castela/Espanha" (ver aqui).

Consideram os estrategas lusos e, pelos vistos, a maioria dos que por aqui vão fazendo opinião, que uma independência catalã, ou outra tendência separatista de uma diferente região (potencialmente desagregadoras da Espanha que conhecemos), não nos convêm...
Sob um ângulo egoisticamente calculista, pode ser que sim.
Todavia, sempre que um qualquer português se sinta tentado a, por essa razão, censurar aqueles homens e mulheres agora condenados (bem como os que se apresentam, marchando com as suas bandeiras, nas ruas da Catalunha), é melhor que o faça baixinho e, já agora, com uma honesta dose de pudor.

É que os Portugueses devem em grande parte a sua liberdade e a sua independência aos antepassados desta gente. O nosso golpe de 1640 dificilmente teria sido bem sucedido se "Castela/Espanha" não andasse por essa altura a dispersar os seus exércitos para enfrentar os que se lhe opunham na Europa e, em particular, para esmagar os que, na Catalunha, nesse mesmo ano, pugnavam, tal como Portugal, por reconquistar a independência perdida.
Nós ganhámos. Eles perderam - e continuam a perder até hoje.
Se não fosse isso, teríamos presumivelmente sido obrigados a passar pela humilhação - como eles passaram - de ter de renunciar ao nosso belo idioma para adoptar o dos nossos opressores.
"Por supuesto"...



LeAnn Rimes (EUA)


Margaret LeAnn Rimes é uma intérprete de música country e pop mundialmente conhecida.
Nasceu em Jackson, Mississipi, Estados Unidos da América, em 28 de Agosto de 1982.
Andava pelos 13 anos quando despertou para o country. Sete anos depois tinha já vendido mais de 34 milhões de discos. E continuou, sempre de vento em popa, alcançando vendas astronómicas...
Podem ouvi-la, ainda que "caindo em pedaços", em I Fall  to Pieces...



… ou nesta interessante evocação de Elvis Presley (Jailhouse Rock):


quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Visitas Breves - National Gallery, de Londres (2.ª Parte)

A Ceia em Emaús (Caravaggio)










As Filhas do Artista (Thomas Gainsborough)










Retrato do Papa Júlio II (Rafael)









Dama ao Virginal (Jan Vermeer)









Passeio Matinal (Thomas Gainsborough)











Retrato do Pai (Albrecht Dürer)










Santa Margarida (Francisco de Zurbarán)










Retrato de Cornelis van der Geest (Anton van Dyck)










Os Embaixadores (Hans Holbein, o Jovem)










O Doge Leonardo Loredan (Giovanni Bellini)









Cristo no Horto (Giovanni Bellini)









Dona Isabel Cobos de Porcel (Goya)









Alegoria do Tempo e do Amor (Angelo Bronzino)

terça-feira, 15 de outubro de 2019

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Visitas Breves - National Gallery, de Londres (1.ª Parte)

Retrato de uma Dama (Rogier van der Weyden)








São Francisco em Meditação (Francisco de Zurbarán)









Os Esposos Arnolfini (Jan van Eyck)









O Festim de Baltasar (Rembrandt van Rijn)









O Chapéu de Palha (Peter Paul Rubens)










Retrato de Homem Vestido de Azul (Ticiano)









Depois do Casamento (William Hogarth)









Vénus ao Espelho (Diego Velázquez)










Triplo Retrato de Richelieu (Philippe de Champaigne)











Vénus e Marte (Sandro Botticelli)











Lucrécia (Lorenzo Lotto)









Os Guarda-Chuvas (Renoir)









Madame Moitessier (Dominique Ingres)
(Conclui em 16-Outubro-2019)