quinta-feira, 28 de março de 2019

Cantares de Venezuela - "MONTILLA" (ou: A Morte do "Tigre de Guaitó")


General venezuelano José Rafael Montilla (1859-1907)

Ao estado a que chegou Montilla!
Ao estado a que ele chegou...
Um homem tão valoroso
y a Montilla lo han matado!

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"Montilla" é uma peça musical, de anónimo compositor, pertencente ao rico folclore venezuelano. Surgiu nos princípios do século XX. Muita gente a ouve, a canta e a dança sem fazer a mais pequena ideia de que nos seus versos se contempla a vida e o trágico fim do general venezuelano José Rafael Montilla, também conhecido, pela sua bravura, como "El Tigre de Guaitó".

José Rafael Montilla nasceu em San Miguel, estado de Trujillo (Venezuela) no dia 16 de Setembro de 1859, sendo filho de Custodio Montilla e de Juana Natividad Petaquero. Desde muito novo se distinguiu pela determinação e valentia com que defendia os camponeses oprimidos do seu país, cujas reivindicações apoiava.

Durante as duras batalhas em que participou, do lado dos Liberais, ascendeu a general perante o delírio dos soldados que o acompanhavam. Recolhido a certa altura na povoação de Guaitó (estado de Lara, no noroeste do país), determinou o que considerava uma justa repartição de terras por aqueles que as trabalhavam. Em breve se tornou uma dor de cabeça - e um alvo - para os Conservadores.



Vários presidentes venezuelanos tentaram a sua prisão, mas o "Tigre de Guaitó" mostrou-se indomável. Mudando de táctica, Cipriano Castro ofereceu-lhe importantes cargos públicos. O objectivo consistia em afastá-lo das regiões em conflito, mas Montilla cedo se apercebeu da armadilha e recusou.


Venezuela com os seus estados


A partir dessa altura, intensificou-se o assédio com que procuravam capturá-lo ou, mesmo, eliminá-lo fisicamente. Contra ele marcharam forças poderosas, sobretudo a partir do sul, dos estados de Barinas, Cojedes e Portuguesa. Mas Montilla resistiu e não foi aprisionado. Juan Vicente Gómez ofereceu-lhe garantias para que se entregasse, mas o general, naturalmente desconfiado, tornou a recusar.

Finalmente, no dia 21 de Novembro de 1907, chegou ao seu termo a vida aventurosa de José Rafael Montilla, então com 48 anos de idade. Foi apanhado à traição por um dos seus próprios soldados, quando, à beira de um curso de água, se preparava para matar a sede provocada por uma dura marcha. O soldado, um tal Jacinto Canelones, desferiu-lhe no pescoço, pelas costas, um terrível golpe de machete (espécie de catana) que o decapitou. Uma das versões do episódio refere que o "Tigre de Guaitó" teve ainda oportunidade de disparar sobre o seu assassino, matando-o. Mas é impossível confirmar tal facto.

Entrada do povoado de Guaitó (Venezuela)
Nas horas que se seguiram, milhares de pessoas, em esmagadora maioria camponeses, convergiram para o pequeno povoado de Guaitó a fim de homenagearem o falecido no seu velório. Vieram de Guárico, Trujillo, Portuguesa e outros estados da parte ocidental da Venezuela. Uma enorme procissão de gente humilde acompanhou o féretro do general até ao cemitério. Muitos entoavam canções que enalteciam as proezas do seu defensor, e diz-se que foi nessa altura que nasceu a peça musical "Montilla", canção que viria a conhecer diversas versões.

As três que se apresentam seguidamente são, talvez, as mais conhecidas, contribuindo para a lenda em que se transformou a turbulenta carreira do "Tigre de Guaitó".

A primeira é a de Lilia Vera, famosa cantora e activista venezuelana.
A segunda pertence a Illapu, conhecida banda chilena de folclore andino.
 
A terceira é cantada pela mezzo-soprano Luciana Mancini (descendente de chilenos, nascida na Suécia), magistralmente acompanhada pelo grupo L'Arpeggiata (dirigido pela austríaca Christina Pluhar).

No final, apresenta-se a letra mais divulgada nas várias versões de "Montilla" (a ordem das quadras é por vezes trocada em diferentes interpretações).




Letra:
Vengo a trovar este golpe
que un amigo me mandó
pa' que mañana o pasado
hagan lo mismo con yo.

Ahí viene Montilla a dar la pelea
y viene diciendo, morena: la bala chirrea
El armó su gente con la artillería
y prendió los fuegos, morena, al Ave María.

Al estado en que llegó Montilla,
al estado en que ha llegado.
Un hombre tan valeroso
y a Montilla lo han matado.

Dicen que Montilla viene,
dicen que Montilla va,
yo digo que eso es mentira
porque yo vengo de allá.

El que me dijera negro
yo no me enojo por eso
porque negro tengo el cuero
pero blanco tengo el hueso.

Un veintiuno de noviembre
de mil novecientos siete
muere el general Montilla
asesinado a machete.

quarta-feira, 27 de março de 2019

"Canção da Índia" (Da ópera SADKO, de Rimsky-Korsakov)


Vídeo de TheWickedNorth

Nikolai Andreyevich Rimsky-Korsakov foi um compositor russo. Nasceu na cidade de Tikhvin, em Março de 1844, e faleceu em Lyubensk, a 21 de Junho de 1908.
Considerado um mestre em orquestração, o seu poema sinfónico Scherazade é um bom exemplo da sua frequente inspiração em contos de fadas e contos populares.
Sendo um dos compositores mais influentes da escola nacionalista romântica, foi responsável por recuperar, de maneira inovadora, a cultura tradicional russa.
Integrou um grupo de compositores denominado "Os Cinco" (os outros quatro foram Mily Balakirev, Aleksandr Borodin, César Cui e Modest Mussorgsky).
"SADKO" é uma ópera em sete cenas, com libreto de Vladimir Belsky e Vladimir Stasov, entre outros.
Dedicada ao herói mítico Sadko, estreou no Teatro Solodovnikov, em Moscovo, no dia 7 de Janeiro de 1898.

terça-feira, 26 de março de 2019

Poema do Coração (António Gedeão)


Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".


Mas o meu coração é como o dos compêndios
Tem duas válvulas (a tricúspide e a mitral)
e os seus compartimentos
(duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue a circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.


Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados
e uma lâmina baça e agreste,
que endurece a luz nos olhos
em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

António Gedeão - Portugal (Lisboa, 1906-1997)

sexta-feira, 22 de março de 2019

Hudson, Explorador Trágico do Árctico

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Henry Hudson (c. 1550 - c. 1611)
Hudson foi um navegador e explorador inglês. Tornou-se notado a partir de 1607, mas desapareceu apenas quatro anos depois em circunstâncias trágicas.
Pouco se conhece acerca da sua carreira no período anterior, mas nos derradeiros anos de vida realizou quatro tentativas para descobrir um caminho marítimo mais curto para Oriente, navegando pelo Norte.
O mapa seguinte mostra os sucessivos itinerários de Henry Hudson até ao drama final.

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As duas últimas viagens de Hudson
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Em 1607, Hudson foi contratado pela Companhia Moscovita (grupo financeiro inglês). Navegando para norte, entre a Gronelândia e Spitzberg, procurou o acesso ao Oriente nas imediações do Pólo Norte. Uma intransponível barreira de gelo forçou-o todavia a retirar, quando se achava a somente 10º do Pólo.
Em 1608, nova tentativa fracassada (seguiu uma rota ao longo da costa setentrional da Ásia).

A fama de Hudson resultou das suas duas últimas viagens (mapa acima):

- em 1609, contratado pelos Holandeses, viajou no Half Moon até à costa leste da América do Norte (veja as duas linhas castanhas na parte inferior da figura);

- em 1610-1611, comandando o Discovery ao serviço de alguns comerciantes ingleses, desapareceu para sempre (linha azul, na parte superior da figura).
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Hudson na costa da América do Norte
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Viagem de 1609


Henry Hudson assinou em Janeiro deste ano um contrato com a Companhia Holandesa das Índias Orientais, cujo objectivo consistia em “procurar uma passagem a norte para o Oriente, contornando a costa setentrional de Nova Zembla”.
Hudson largou do porto de Amesterdão em Abril de 1609, no Half Moon, com uma tripulação de dezasseis homens, entre Ingleses e Holandeses.

Subindo a costa ocidental da Noruega, os exploradores avistaram o Cabo Norte a 5 de Maio e logo se internaram nas perigosas águas do mar de Barents.
Temperaturas negativas, violentíssimas tempestades, nevoeiros cerrados, blocos maciços de gelo e um princípio de motim dos tripulantes holandeses, obrigaram o comandante a desrespeitar o que havia contratado, abandonando a busca da passagem a nordeste ainda antes de avistar Nova Zembla.

Aproando a sudoeste, o Half Moon atravessou o Atlântico Norte, com águas agitadas, e alcançou as costas americanas do Maine por alturas de Julho.
O navio seguiu então para sul, dobrou o cabo Cod, torneou os perigosos baixios de Nantucket e, em meados de Agosto, estacionava na baía de Chesapeake. Seguiu-se uma série de explorações - baía de Delaware, costa de Nova Jérsia, bancos de Sandy Hook e uma vasta baía orlada de florestas (New York). Deram-se então contactos com os índios, nem sempre amistosos, e a exploração de um grande curso de água (que recebeu o nome pelo qual o conhecemos ainda hoje: rio Hudson).
A 4 de Outubro, o Half Moon aproou de novo ao mar alto, chegando a Inglaterra nos princípios de Novembro de 1609.
 A passagem para Oriente não fora descoberta.
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Hudson e os companheiros vêem afastar-se o Discovery
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Viagem de 1610-1611

Um grupo de abastados comerciantes ingleses formou um consórcio privado destinado a financiar uma nova viagem de Henry Hudson.
Este levava agora instruções para explorar estreitos e enseadas do Árctico Canadiano, procurando apurar “se seria possível encontrar uma passagem para o outro oceano chamado mar do Sul”.

A 17 de Abril de 1610, Hudson partiu no Discovery para a derradeira viagem, sempre em busca da misteriosa rota que o conduzisse ao Oriente. Desta vez levava consigo o seu jovem filho, John Hudson.
Em meados de Maio de 1610 o Discovery atingia a Islândia, não sem que antes se tivessem verificado incidentes graves entre a tripulação, uma perigosíssima constante desta terrível viagem.

Contornando o extremo sul da Gronelândia (ver mapa acima), o navio progrediu com imensa dificuldade para oeste, através de mares coalhados de blocos de gelo.
A tripulação murmurava, descrente de que o objectivo pudesse ser alcançado em tais condições. Hudson, um homem de fé, insistia. Penetrando no estreito que receberia o seu nome (entre o Labrador e a Ilha de Baffin), os exploradores chegaram a “um grande mar que se estendia para ocidente” (actual Baía de Hudson), que sabemos hoje que não conduz à Ásia, mas que penetra profundamente nas regiões selvagens do Canadá.

Em vez de alcançar o Pacífico, como esperava, Hudson atingiu em Setembro de 1610 a baía de James, o recesso mais meridional da baía de Hudson. O Discovery gastou as semanas seguintes em desesperadas navegações para diante e para trás, para norte e para sul, para leste e para oeste, num labirinto infernal.
Veio e passou o Inverno. Frio, fome, discussões e desesperança eram agora o quotidiano da tripulação do Discovery.

Finalmente, em 22 de Junho de 1611, conduzida pelos revoltosos Juet e Henry Greene, a tripulação dominou Hudson e, juntando-o ao filho e a mais sete marinheiros fiéis numa pequena chalupa, abandonou-o à sua sorte nas águas gélidas e mortíferas da baía.

Era o fim para Henry Hudson e para aqueles que o acompanharam. Nunca mais se soube deles, e podemos somente imaginar como acabaram as suas vidas.

Entretanto, o Discovery conseguiu chegar a Inglaterra com a tripulação amotinada. O caso viria a ser revelado e os cabecilhas da rebelião punidos.
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Adaptado de: Great Adventures That Changed Our World.

terça-feira, 19 de março de 2019

Cantares de Venezuela (2) - Cecilia Todd ("Polo Margariteño")

Cecília Todd nasceu em Caracas, Venezuela, no dia 4 de Março de 1951.
Dona de uma voz belíssima, é também exímia executante do "cuatro" venezuelano (instrumento de cordas que parece ter tido como antepassado remoto o cavaquinho português).


(Vídeo de Paisssano)

segunda-feira, 18 de março de 2019

Cantares de Venezuela (1) - Soledad Bravo ("Polo Margariteño")



Soledad Bravo é uma cantora venezuelana (embora nascida em Espanha no ano de 1943).
É uma das mais importantes figuras da música latino-americana. Senhora de uma voz cristalina e poderosa, abordou os mais variados géneros musicais.
O começo da sua carreira ficou, porém, associado à canção folclórica e de protesto, onde alcançou enorme popularidade. Contribuiu para dar a conhecer os compositores mais representativos da chamada "Nova Trova Cubana" e da "Nova Canção Latino-Americana".



(Vídeo de RecordsFromShelf)

sexta-feira, 15 de março de 2019

Suspeitas de crime na morte de D. João VI (de Portugal e Brasil)

Rei D. João VI (Queluz 1767- Lisboa 1826)
Sua Majestade fora a Belém [Lisboa] comer uma merenda. Era nos primeiros dias de Março [de 1826]. Quando voltou a palácio achou-se, à noite, mal – cãibras, sintomas de epilepsia. Vieram médicos: o barão de Alvaiázere e o valido cirurgião Aguiar.
No dia seguinte, o estado do enfermo piorou. E o rei decidiu-se a despir de si o pesado encargo do governo. A 7, a Gazeta publicava o decreto nomeando a regência, presidida pela infanta D. Isabel Maria, cuja bondade merecia as graças particulares do infeliz pai. Esta minha imperial e real determinação, afirmava o decreto do dia 6, regulará também para o caso em que Deus seja servido chamar-me à sua santa glória, enquanto o legítimo herdeiro e sucessor desta coroa não der as suas providências…
Mas quem era esse legítimo herdeiro?
D. Pedro, o brasileiro?
D. Miguel, no seu desterro de Viena?
Não o dizia o rei moribundo, que toda a vida se achara indeciso, e acabava como tinha existido, sem uma afirmação de vontade, entre flatos, na impotência de uma morte oportuna.

D. João VI no Brasil (ano de 1808)

Em Lisboa corriam os boatos mais extravagantes.

O velho imperador sem império, rei de dois mundos já reduzidos ao que ele chamava o seu canapé da Europa, massa humana estendida num leito, era como um valo ou barreira que represava a torrente de ambições e fúrias soltas ou mal contidas em 1820, em 1823, em 1824.

O caos de conflitos dinásticos, religiosos, políticos, que a fome universal acirrara, ia reaparecer à luz do dia — tão depressa o caixão do imperador-rei terminasse a viagem mortuária, do paço ao carneiro de S. Vicente de Fora.

Logo que a notícia da doença se propagou, e, mais ainda, quando apareceu o decreto do dia 6, correu uma opinião forte. D. João VI tinha sido envenenado. A peçonha fora propinada nas laranjas da merenda de Belém; embora o dessem por vivo, era cadáver quando saiu o decreto. Conservavam-no para enganar, para preparar melhor os ânimos. Mas quem era o autor de tamanhos crimes?

A rainha [Carlota Joaquina], diziam os constitucionais de então.

Os constitucionais, diziam os absolutistas apostólicos. Entretanto a rainha era esbulhada da regência, e, se tramara o feito, saía-se duas vezes mal — por isto, e porque à indecisão do decreto responderam o consenso geral e os regentes proclamando rei de Portugal o brasileiro [D. Pedro, primeiro imperador do Brasil].

D. João VI regressa do Brasil a Portugal (Lisboa, ano de 1821)
No dia 10 pela tarde morreu o rei, oficial ou realmente. Houve  sentimento e lágrimas, porque, na sua moleza insípida, era bom; sobretudo porque deixava depois de si um vácuo, uma sombra povoada de medos das inevitáveis catástrofes amontoadas e  iminentes.

Este susto agravava a maledicência geral. Ninguém já punha em dúvida a causa da morte do rei. Os boatos eram positivas certezas — de que o parecer dos médicos depois da autópsia concluiria pelo envenenamento.

Em tudo se achavam provas. Os absolutistas afirmavam cerradamente que o cozinheiro Caetano fora convidado pelos constitucionais, e que, por se recusar, morrera com o veneno destinado para o rei: com efeito, o cozinheiro caíra de repente.

Por outro lado, atribuíam-se confissões graves ao barão de Alvaiázere, que também morrera logo; e o cirurgião Aguiar, sobre quem recaíam as acusações de ter propinado o veneno dos pedreiros-livres, o cirurgião valido que fora brindado com um posto na diplomacia, morria também, assassinado segundo uns, suicida na opinião dos mais — devorado pelos remorsos do crime praticado contra o seu benfeitor!

Muita gente dizia ter lido cartas em que de Lisboa se anunciava a doença, a morte certa do rei, bastantes dias antes da merenda de Belém.

Alegoria às virtudes de D. João VI (quadro de Domingos Sequeira)
Se D. João VI morreu ou não envenenado, nem se sabe, nem importa. O que vale é o facto da opinião geral sobre o caso; e essa opinião acreditava num crime.
Os vómitos e delíquios do imperador-rei, o cortejo dos cadáveres com que o seu corpo era metido no túmulo, faziam de um crime o intróito da história dos longos crimes da sua sucessão.

A tragédia portuguesa começava, e o travo da peçonha acirrava os ânimos prontos para um combate inevitável.

A regência, e todos, tinham reconhecido como rei D. Pedro IV [Pedro I do Brasil]; mas com a certeza de que esse acto era uma pura formalidade, um incidente sem alcance, um preito, apenas, dado à doutrina da hereditariedade e ao direito da primogenitura.

Imperador no Brasil, D. Pedro não podia ser rei em Portugal: havia apenas um ano que se assinara o tratado da separação redigido pelo inglês Stuart, e sabia-se que por coisa alguma a Inglaterra consentiria na reunião dos dois estados [Portugal e Brasil].

D. Pedro teria de abdicar por força; e em quem, se não no infante D. Miguel, seu irmão? (…)
Tudo se faria em boa paz, e os medos gerais provar-se-iam infundados.
Ingénua ilusão!
Para além das questões formais, havia, no fundo, um duelo inevitável. (..) Só [seriam de esperar] o ferro, o fogo, o canhão, o punhal, a miséria, e um cataclismo final que terminasse pela morte de um dos contendores. (*)

(*) - Oliveira Martins - Portugal Contemporâneo - Tomo I - 3.ª edição - Pgs.1-5 - Livraria de António Maria Pereira (Editor) - Rua Augusta, 50-54, Lisboa (Ano de 1895)

[Texto actualizado pela Torre da História Ibérica]

terça-feira, 12 de março de 2019

Ana Vidovic toca "Astúrias" (de Isaac Albéniz)

 
Ana Vidovic nasceu na Croácia em 8 de Novembro de 1980.
Isaac Albéniz foi um compositor espanhol (1860-1909)
 

sábado, 9 de março de 2019

Como Eça de Queiroz Via a Marinha Portuguesa ("As Farpas" - Julho de 1871)

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“Mas, meus senhores, antes de tudo, nós não temos Marinha!
Singular coisa! Nós só temos Marinha pelo motivo de termos colónias – e justamente as nossas colónias não prosperam porque não temos Marinha!
Todavia, a nossa Marinha, ausente dos mares, sulca profundamente o orçamento.
Gasta 1 159 000$000.
Que realidade corresponde a esta fantasmagoria das cifras?
Uns poucos de navios defeituosos, velhos, decrépitos, quase inúteis, sem artilharia, sem condições de navegabilidade, com cordame podre e mastreação carunchosa, a história obscura.
É uma Marinha inválida.
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A D. João tem 50 anos, o breu cobre-lhe as cãs: o seu maior desejo seria aposentar-se como barca de banhos.
A Pedro Nunes está em tal estado, que, vendida, dá uma soma que o pudor nos impede de escrever.
O Estado pode comprar um chapéu no Roxo com a Pedro Nunes – mas não pode pedir troco.
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A Mindelo tem um jeito: deita-se. No mar alto, todas as suas tendências, todos os seus esforços são para se deitar.
Os oficiais de Marinha que embarcam neste vaso fazem disposições finais.
A Mindelo é um esquife – a hélice.
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A Napier saiu um dia para uma possessão. Conseguiu lá chegar. Mas, exausta, não quis, não pôde voltar. Pediu-se-lhe, lembrou-se-lhe a honra nacional, citou-se-lhe Camões, o Sr. Melício, todas as nossas glórias. A Napier, insensível, como morta, não se mexeu.
Das 8 corvetas que possuímos são inúteis para combate ou para transporte – todas as 8.
Nem construção para entrar em fogo, nem capacidade para conduzir tropa.
Não têm aplicação.
Há ideia de as alugar como hotéis. A nossa esquadra é uma colecção de jangadas disfarçadas! E este grande povo de navegadores acha-se reduzido a admirar o vapor de Cacilhas!
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Têm um único mérito estes navios perante uma agressão estrangeira: impor-se pelo respeito da idade. Quem ousaria atacar as cãs destes velhos?
Já se quis muitas vezes introduzir nas fileiras destes vasos caducos alguns navios novos, ágeis, robustos. Tentou-se primeiro comprá-los.
Sucedeu o caso da corveta Hawks.
Era esta corveta uma carcaça britânica, que o Almirantado mandava vender pela madeira – como se vende um livro a peso.
Por esse tempo, o Governo português – morgado de província ingénuo e generoso – travou conhecimento com a Hawks, e comprou a Hawks. E quando mais tarde, para glória da monarquia, quis usar dela, a Hawks, com um impudor abjecto, desfez-se-lhe nas mãos!
Estava podre! Nem fingir soube! Tinha custado muitas mil libras.
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Tentou-se então construir em Portugal.
Sabia-se que o Arsenal é uma instituição verdadeiramente informe: nem oficinas, nem instrumentos, nem engenheiros, nem organização, nem direcção. Tentou-se todavia – e fez-se nos estaleiros a Duque da Terceira. Foi meter máquina a Inglaterra. E aí se descobre que a tenra Duque da Terceira, da idade de meses, tinha o fundo podre!
Foi necessário gastar com ela mais cento e tantos contos.
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Nova tentativa. Entra nos estaleiros a Infante D. João. 87 contos de despesa. Vai meter máquina a Inglaterra. Fundo podre! O Arsenal perdia a cabeça! Aquela podridão começava a apresentar-se com um carácter de insistência verdadeiramente antipatriótica!
Os engenheiros em Inglaterra já se não aproximavam dos navios portugueses senão em bicos de pés – e com o lenço no nariz. As construções saídas do Arsenal sucumbiam de podridão fulminante.
A Infante D. João custou em Inglaterra mais cento e tantos contos!
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O Arsenal, humilhado no género navio, começou a tentar a especialidade lancha. Fez uma a vapor. Lança-se ao Tejo, alegria nacional, colchas, foguetes, bandeirolas… E a lancha não anda! Dá-se-lhe toda a força, geme a máquina, range o costado – e a lancha imóvel! Mas de repente faz um movimento…
Alegria inesperada, desilusão imediata! A lancha recuava. Era uma brisa que a repelia.
Em todas as experiências a lancha recuava com extrema condescendência: brisa ou corrente tudo a levava, mas para trás. Para diante, não ia.
O Arsenal tinha feito uma lancha a vapor que só podia avançar puxada a bois.
O País riu durante um mês.
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A nossa glória, inquestionavelmente, é a Estefânia. Parece que poucas nações possuem um vaso de guerra tão bem tapetado! O orgulho daquele navio é rivalizar com os quartos do Hotel Central. É um salão de Verão surto no Tejo.
E no Tejo, realmente, dá-se bem. No mar alto, não! Aí tem tonturas. Não nasceu para aquilo: um navio é um organismo, e como tal pode ter vocações: a vocação da Estefânia era ser gabinete de toilette. É pacata como um conselheiro. É uma fragata do Tribunal de Contas!
Por isso, quando a quiseram levar a Suez, quantos desgostos deu à sua Pátria! Quantas brancas fez à honra nacional!
É verdade que os cabos novos, da Cordoaria Nacional, quebraram como linhas, e ninguém lhes pode contestar que tivessem esse direito.
A marinhagem também não quis subir às vergas (opinião respeitável, porque a noite estava fria).
Alguns aspirantes choraram de entusiasmo pela Pátria.
O capelão quis confessar os navegadores.
O caso foi muito falado nesse tempo. Mais celebrado que a descoberta da Índia. (…)
O facto é que desde então brilha no Tejo, tranquila, reluzente, vaidosa – a Estefânia, corveta mobilada pelos Srs. Gardé e Raul de Carvalho.”


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Eça de Queiroz – Uma Campanha Alegre ( As Farpas - Julho de 1871) - Vol. I - Pág.134-138)
Lello & Irmão Editores – Porto – Portugal – 1979.
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quarta-feira, 6 de março de 2019

O fantástico talento da menina Anastasia Tyurina



Executante de balalaica: Anastasia Tyurina (8 anos de idade)
Peça executada - "Valenki"
Orquestra Folclórica Russa de Osipov
Maestro: Vladimir Andropov
Local: Sala de Concertos Tchaikovsky (Moscovo)
Data: 13 de Setembro de 2018

(Vídeo de George Cosimo)

terça-feira, 5 de março de 2019

Emmylou Harris ("Wildwood Flower")

 
Emmylou Harris é uma cantora e compositora norte-americana.
Nasceu em Birmingham, Alabama, em 2 de Abril de 1947.
Apesar de colocada, geralmente, no género country, aborda igualmente o folk, o rock e, ocasionalmente, o pop.
Gravou praticamente todos os grandes compositores de música popular, de Bob Dylan a Lennon-McCartney, passando por Bruce Springsteen, Hank Williams, Steve Earle, Louvin Brothers, Neil Young e Johnny Cash.
Ouçam-na, abaixo, no clássico "Wildwood Flower" (com Iris DeMent e Randy Scruggs).
 



(Vídeo de Tom Page)

segunda-feira, 4 de março de 2019

Poema de Helena Lanari (Sophia de Mello Breyner)


Gosto de ouvir
o português do Brasil
Onde as palavras recuperam
sua substância total
Concretas como frutas
nítidas como pássaros
Gosto de ouvir a palavra
com suas sílabas todas
Sem perder sequer
um quinto de vogal.

Quando Helena Lanari dizia
o "coqueiro"
O coqueiro ficava
muito mais vegetal.

Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal)
(1919-2004)