quinta-feira, 22 de agosto de 2019

"Os Pássaros no Caramanchão" (de: "Os Contos de Hoffmann") - Jacques Offenbach

Patricia Janecková (n. 1998)

Da ópera Os Contos de Hoffmann, composta por Jacques Offenbach, já ouvimos algumas peças (aqui e aqui).
A ária da mesma ópera abaixo apresentada (Les oiseaux dans la charmille) dá-nos a oportunidade de assistir à fenomenal interpretação de Patricia Janecková (nascida há 21 anos, na Alemanha, de pais eslovacos).
No entanto, e como verificarão, transformada em boneca ela só funciona quando "lhe dão corda"...

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Grandes Quadros (Jean-Léon Gérôme - França) - 1.ª Parte

O Gladiador - "Polegares para baixo"








A Luta de Galos









No Deserto









Duelo depois do baile de máscaras







A verdade nua saindo do poço









Napoleão no Egipto









O guardador de cães









Caravana árabe no exterior da cidade fortificada








Napoleão III recebe em Fontainebleau os embaixadores siameses









Arnaut e o seu cão










Pigmalião e Galatéia









Diógenes









O Grande Condé é recebido em Versailles








Jean-Léon Gérôme no seu estúdio.
Nasceu em 1824 e faleceu em 1904.

Saiba mais sobre este pintor e escultor clicando aqui.

sábado, 17 de agosto de 2019

Hernán Cortés e os Astecas - A Conquista do México pelos Espanhóis - 4.ª Parte

Cortés conferenciando com os habitantes do território.
A seu lado, trabalhando como intérprete, a famosa Dona Marina (Malinche para os índios).
Continuação de:
27-Julho-2019 - 1.ª parte (ver aqui)
03-Agosto-2019 - 2.ª parte (ver aqui)
10-Agosto-2019 - 3.ª parte (ver aqui)

Uma das vinte escravas oferecidas pelos chefes de Tabasco a Cortés ficaria para sempre na história da conquista espanhola do México. De rara formosura, expressiva, afável e muito inteligente, logo encantou os expedicionários. Nascida em território asteca, ficara órfã de pai em criança e acabara por andar de mão em mão até ser vendida aos Tabasquenhos. Os Espanhóis baptizaram-na com o nome de Marina, ficando conhecida nas suas crónicas como "Dona Marina". Os índios chamavam-lhe Malinche.

Depois do resgate de Gerónimo de Aguilar em Cozumel, o aparecimento de Dona Marina, ou Malinche, foi a ocorrência mais relevante da primeira fase da conquista, tanto mais que o tradutor índio Melchorejo se havia posto em fuga durante os recentes combates em Tabasco.
Com efeito, a jovem escrava tanto dominava a língua dos Astecas (o "náuatle") como o idioma "maia", que imperava entre os Tabasquenhos e seus vizinhos. Como Aguilar falava "maia", Dona Marina tornou-se imprescindível para a comunicação de Cortés com os povos que foi encontrando. Ela traduzia de náuatle para maia e Aguilar passava de maia para castelhano, assim se evitando os equívocos e conflitos suscitados por interpretações erróneas.

Com o tempo, e dada a sua capacidade aprendizagem, Malinche começou a falar com fluência a língua castelhana, pelo que Cortés pôde entender-se quase directamente com os naturais do território. Isso constituiu um factor fundamental para o desenvolvimento da sua política de alianças (e de confrontos) com os diferentes interlocutores.
Também com o tempo, Dona Marina tornou-se confidente, conselheira e amante do comandante espanhol e com ele teve um filho - Martín Cortés.

Nota: O papel de Dona Marina (Malinche) é ainda hoje objecto de discussão e controvérsia. Para alguns ela deve ser considerada "traidora", por se ter posto do lado dos conquistadores e ajudando-os a comunicar com os nativos (parecendo haver aqui alguma confusão entre mensagem e mensageira).
Para outros, ela foi sobretudo a hábil sobrevivente de um choque brutal. E, como progenitora de mestiços, acabou por transformar-se na "mãe da nação mexicana" (ou na "Eva mexicana"), constituindo-se como verdadeiro símbolo da mescla de culturas que caracteriza o México.
Tzvetan Todorov, numa síntese feliz, escreveu que Malinche, no desempenho do seu papel de intermediária, glorifica a mistura em detrimento da pureza (espanhola ou asteca).
Cortés com os emissários de Moctezuma. Aguilar e Dona Marina (Malinche) servem de intérpretes.

Embora estivesse já com o sentido no ouro, Cortés resolveu prosseguir durante mais algum tempo o reconhecimento da costa antes de se lançar à exploração do interior. No dia 21 de Abril de 1519 fundeou próximo do local onde actualmente se ergue a cidade de Veracruz e recebeu a bordo uma delegação de índios. Ainda que parecessem bem-intencionados, ninguém conseguia entender o que diziam, pois falavam "náuatle". Foi então que se lembraram de Dona Marina. Coadjuvada por Gerónimo de Aguilar, ela fez com que Cortés tivesse enfim acesso às informações por que ansiava.

Os índios - que não eram, ainda, os emissários de Moctezuma - falaram de uma magnífica cidade do interior, erigida na ilha de um enorme lago, que distaria dali cerca de três centenas de quilómetros. A cidade chamava-se Tenochtitlán e era a capital de um povo próspero e poderoso, os Astecas, aos quais quase todas as tribos tinham que pagar tributos. O chefe era uma espécie de rei-deus e tinha por nome Moctezuma.
Cortés ficou entusiasmado com as notícias. E compreendeu que os Astecas possuíam uma civilização mais rica e mais avançada do que qualquer outra achada pelos Espanhóis no Novo Mundo. Trocou presentes com os visitantes. No dia seguinte chegaram mais ofertas e o comandante confidenciou aos portadores que ele e os seus homens sofriam de uma doença no coração que só se curava com ouro.

A estranha e despudorada queixa de Cortés não caiu em saco-roto. Uma semana depois chegaram emissários do próprio imperador asteca, trazendo consigo presentes esplêndidos: dois discos de ouro e de prata do tamanho de rodas de carruagem, ornamentos cobertos de pérolas e turquesas, vestes enfeitadas com jóias e vistosos leques e penachos confeccionados com plumas. No entanto, ainda que indirectamente, os recém-chegados procuravam dissuadir os expedicionários de irem mais longe. Segundo eles, o imperador Moctezuma não poderia vir até ali porque se sentia doente e estava impossibilitado de viajar. Mas também não valia a pena que o comandante se deslocasse até Tenochtitlán: os caminhos atravessavam montanhas íngremes e vales desérticos, que se podiam tornar muito perigosos para estrangeiros. Cortés, fazendo-se desentendido, afirmou que aquelas dificuldades só lhe aumentavam o desejo de conhecer o grande imperador. E com isto se fechou a conferência e se despediram os emissários.

Aquele encontro só contribuiu para fazer germinar no comandante, e nos que o acompanhavam, as sementes da cobiça. Cortés tinha já elementos suficientes para farejar a imensa fortuna que se escondia no interior e, nessa conformidade, congeminou um plano para se apoderar dela.

Inutilização dos navios da expedição.

Nessa altura, ele já não estava interessado numa simples expedição comercial: passara a acreditar que, com o auxílio dos nativos que conseguisse pôr do seu lado, seria possível conquistar todo o reino de Moctezuma. O comandante percebera que alguns povos não aceitavam de bom grado o domínio dos Astecas e o consequente pagamento de tributos. Pensou então que seria vantajoso incentivá-los a recusar esse encargo, oferecendo-lhes ao mesmo tempo a protecção espanhola contra eventuais retaliações. Isso sucedeu, por exemplo, com o povo de Cempoala, de raça Totonaca, que se transformou subitamente em aliado dos invasores.

Antes do avanço final, Cortés tratou de consolidar jurídica e militarmente a sua posição. Assim, navegando um pouco mais para norte, fundou na costa uma colónia permanente, que recebeu o nome de Vila Rica de Vera Cruz e que se tornaria daí em diante uma testa-de-ponte para a conquista do território. Foram imediatamente designadas as autoridades da nova colónia - o Ayuntamiento.
Querendo ficar com as mãos livres para executar o seu plano, Cortés precisava de se furtar à autoridade que Diego Velásquez, o governador de Cuba, ainda tinha sobre ele. Tratou então de renunciar formalmente ao comando da expedição que este lhe atribuíra, e, em contrapartida, o Ayuntamiento de Vera Cruz nomeou-o capitão-general e primeiro magistrado da colónia. Com isto, passaria a agir doravante com autonomia.

O passo seguinte de Cortés foi o de enviar um navio para Espanha, com os tesouros recebidos de Moctezuma e um pedido ao rei (Carlos V) para que o reconhecesse como governador da colónia recém-fundada. O que fez depois demonstra o quão decidido estava em cumprir o objectivo. Quando alguns dos seus subordinados o acusaram de usurpar os poderes do governador Velásquez e expressaram o desejo de regressar imediatamente a Cuba, ele não esteve com meias medidas: fez enforcar dois deles, mandou açoitar os restantes e, não satisfeito com isso, ordenou que os navios da frota fossem afundados ou inutilizados para impedir quaisquer veleidades de fuga.
Com a sua posição de líder consolidada, Hernán Cortés deixou em Vila Rica de Vera Cruz uma guarnição de 100 homens comandada por Juan Escalante e partiu com os restantes na direcção das mesetas interiores onde se situava Tenochtitlán, a capital asteca (a mais de 2000 metros de altitude). Levava com ele o importante reforço de mil cempoaltecas.


Para prosseguir o avanço, Cortés teria que atravessar a região de Tlaxcala, que ele sabia independente do império asteca. Para sua surpresa, os Tlaxcaltecas receberam-no com uma saraivada de setas e ele teve que combatê-los durante várias semanas até conseguir dominar a inesperada resistência. No dia 23 de Setembro de 1519, os Espanhóis entravam na capital inimiga e conseguiram o que mais ambicionavam no momento: a celebração de um tratado que fazia dos Tlaxcaltecas aliados poderosos na conquista do México. Nos dias seguintes, os vencidos deram guarida aos expedicionários e cumularam-nos de amabilidades, oferecendo-lhes, para seu sustento, presentes de galinhas, tortilhas e figos-da-índia. Cortés tentou convencê-los a renunciarem aos seus ídolos e a tornarem-se cristãos, mas, quando eles recusaram - e porque precisava deles -, achou mais prudente não insistir.

Em meados de Outubro os Espanhóis retomaram a marcha, agora acompanhados por cerca de seis mil guerreiros tlaxcaltecas. Em breve chegavam a Cholula, cidade sagrada dos Astecas e importante centro religioso, que atraía peregrinos de todo o império. Nessa altura, estavam a pouco mais de uma centena de quilómetros do objectivo final, Tenochtitlán. A princípio os Cholultecas receberam bem os estrangeiros, aos quais forneceram alimentos. Mas três dias depois suspenderam os fornecimentos e informaram Cortés que Moctezuma o proibia de ir mais longe. O comandante, desafiador, ordenou às tropas que se preparassem para retomar a marcha no dia seguinte.

Nessa mesma noite, Cortés recebeu informações de que os Cholultecas planeavam armar-lhe uma emboscada quando as tropas saíssem da cidade. Resolveu, então, reagir com extrema violência. Os canhões entraram em acção e espalharam o terror pelas ruas da cidade, no que constituiu o prelúdio de uma luta encarniçada. Mas não havia hipóteses de  resistência séria aos invasores e aos seus recentes aliados. Ao cair da noite, milhares de cadáveres de cholultecas juncavam as ruas e os edifícios foram saqueados e incendiados.
A 1 de Novembro de 1519, depois de ter deixado um cacique de confiança a governar Cholula, Cortés colocou-se na dianteira das tropas e empreendeu a etapa final do seu avanço. Uma semana depois, os Espanhóis tinham Tenochtitlán à vista.

Rota de Hernán Cortés, desde o litoral, no Golfo do México, até à capital asteca, Tenochtitlán.
----------------

(Continua em 24-Agosto-2019 - 5.ª Parte - ver aqui)

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Elvis Presley - Foi-se embora há 42 anos...



Partiu, neste mesmo dia e mês, há 42 anos - com a idade de 42 anos...
Elvis Aaron Presley nasceu em Tupelo, Mississipi, EUA, no dia 8 de Janeiro de 1935.
Faleceu em Memphis, Tennessee, EUA, a 16 de Agosto de 1977.

Sentido rítmico invulgar, poderosa força interpretativa, timbre de voz inigualável.
A sua curta e gloriosa vida foi, a partir de certa altura, um permanente It's Now or Never jogado no fio da navalha.
Até que a deixou, inesperadamente, para entrar onde ainda hoje permanece: nos campos enigmáticos, mas floridos, das lendas eternas.



Casa onde nasceu Elvis Presley, em Tupelo

Burning Love:

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

terça-feira, 13 de agosto de 2019

"Barcarolle" de "Os Contos de Hoffmann" (Jacques Offenbach)

Elina Garanca (n. Letónia em 1976)
Anna Netrebko (n. Rússia em 1971)




















Já tínhamos conhecimento desta Barcarolle, de J. Offenbach, numa versão mais ligeira (aqui).
Oiçamos agora esta famosa ária de Os Contos de Hoffmann num outro tipo de registo. Cantam as duas senhoras acima apresentadas: a mezzo-soprano Elina Garanca  e a soprano Anna Netrebko.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

A menina Greta Thunberg, de 16 anos, não desperdiça o seu tempo com o embotado e ignorante Donald Trump...

 
 
… e faz muitíssimo bem, porque seria inútil. Na sua luta pelo clima (e pela salvação do planeta) há paragens perigosas que são realmente de evitar. O máximo que arrancaria ao velho cabeça-dura, a propósito das suas actividades em defesa do planeta, seria um daqueles comentários elaborados e profundos em que ele é pródigo nas mais variadas situações. Por exemplo, um sonante, trabalhado e entusiasmante It's terrific!
Não daria para mais. Ele não consegue. Não enxerga. Não alcança…
 
Segundo a RTP (Radiotelevisão Portuguesa), "a activista sueca Greta Thunberg, iniciadora das manifestações das "sextas feiras pelo futuro", declarou  que numa próxima visita aos Estados Unidos não tenciona "perder tempo num encontro com Donald Trump".
Em entrevista à televisão pública suíça SRF, a jovem de 16 anos reagiu com as seguintes palavras a uma pergunta sobre o que diria ao inquilino da Casa Branca: "Eu não lhe diria grande coisa. Ou melhor: não tenho nada a dizer-lhe. Se ele não está disposto a escutar cientistas e peritos, como é que eu hei-de convencê-lo? Como conseguirá fazê-lo quem quer que seja, do nosso movimento? Eu não iria, portanto, desperdiçar o meu tempo com Donald Trump".
E acrescentou: "Antes quero tentar convencer a população do que fazer pressão sobre Donald Trump".
Sobre o conteúdo da sua mensagem ao povo norte-americano, Thunberg dir-lhe-á que "estamos perante uma crise e é preciso que entendam as consequências. E que temos de agir com os melhores meios que a ciência coloca à nossa disposição".
 
É assim mesmo, menina Greta - bem decidido e bem dito! Continua, vai em frente - para vergonha e desonra de muitos adultos, com o intraduzível Trump e sua tropa fandanga à frente de todos eles…
 


domingo, 11 de agosto de 2019

Homenagem a Enid Blyton - Nasceu há 122 anos...

 


Enid Mary Blyton, escritora inglesa de livros de aventuras para crianças e adolescentes, nasceu a 11 de Agosto de 1897 e faleceu em 28 de Novembro de 1968.

Já a tínhamos recordado a propósito da sua mais famosa série de obras, os celebérrimos Cinco (rever aqui: "Os Cinco" - Quem não se lembra?).
Mas teve outras criações notáveis, como Noddy, Os Sete, The Naughtiest Girl e The Twins at St. Clare’s.

Os mais de 800 volumes da sua obra mantêm a popularidade e acham-se entre os mais vendidos do mundo, com cerca de 600 milhões de cópias traduzidas em quase uma centena de línguas.

Os famosos Cinco.
Da esquerda para a direita: o Júlio, o David, a Zé (remando), a Ana e o Tim.

Enid Blyton foi construindo um império literário com a sua escrita espontânea e fácil (chegava a produzir vários livros por ano). Contudo, esse império tornou-se algo controverso e ela ficou sob fogo nalguns meios  da crítica e do professorado.

Acompanhando os tempos, acusavam os livros de Blyton de serem elitistas, sexistas e xenófobos. A BBC, por exemplo, recusou divulgá-la até 1950 por não lhe reconhecer grande mérito literário. Algumas livrarias e escolas baniram os seus livros. Mas nada disso impediu que estes continuassem a ser grandes sucessos de vendas - tanto nessa altura como muitos anos depois do desaparecimento físico da autora.


Os saudosamente lembrados farnéis dos Cinco.

Enid Blyton pretendeu confessadamente passar aos seus leitores uma forte mensagem moral e incutir-lhes a ideia de apoiarem causas que ela considerava nobres. Em particular, incentivou-os - através de associações que criou, ou que apoiava - a juntarem meios financeiros para ajudar crianças e animais.

Acima de tudo, como se comprova pela maioria dos comentários produzidos pelos seus mais antigos (e encanecidos) leitores, Enid enriqueceu de forma inapagável as infâncias de milhões de seres humanos, fazendo-os sonhar e tornando-os mais felizes apesar dos quotidianos cinzentos, e por vezes bastante amargos, que muitos foram forçados a viver.



Enid Blyton e as suas filhas Gillian (esq.) e Imoge numa foto de 1949. A escritora disse ter-se inspirado nas vivências das duas meninas para abordar ambientes colegiais nas suas obras.

sábado, 10 de agosto de 2019

Hernán Cortés e os Astecas - A conquista do México pelos Espanhóis - 3.ª Parte


Continuação de:
27-Julho-2019 - 1.ª parte (ver aqui)
03-Agosto-2019 - 2.ª parte (ver aqui)

Rumando ao Yucatán a partir de 18 de Fevereiro de 1519,  a frota de Cortés foi favorecida por um tempo bonançoso nos primeiros dias de viagem. O comandante tinha ordenado que os navios seguissem atrás dele e próximos uns dos outros. Durante a noite, uma luz colocada à popa da sua embarcação garantia que os navios não perdessem o rumo e que pudessem vogar na ondulação escura como uma matilha disciplinada.
O tempo mudou, todavia, subitamente, e os Espanhóis viram-se no meio de uma das tempestades tão frequentes na zona durante aquela altura do ano. Sacudidos por vagas alterosas, os navios progrediam semi-desgovernados e, perdendo de vista a luz do comando, em breve se dispersaram. Vários sofreram estragos consideráveis e quase todos se afastaram da rota que deviam seguir. Um após outro, contudo, conseguiram chegar a uma ilha habitada, Cozumel, que fica diante - e muito próxima - da costa oriental da península de Yucatán.

O navio de Cortés, que se atrasara para auxiliar uma das naves em pior estado, foi o último a chegar a Cozumel. E o comandante foi logo surpreendido por más notícias: um dos seus capitães, Pedro de Alvarado, aproveitara o avanço para invadir os templos da ilha e saquear os ornamentos que aí achou. O seu procedimento fora de tal ordem que a população, constituída por índios maias, se tinha refugiado em massa no interior da ilha, mantendo prudente distância em relação aos recém-chegados.

Cortés ficou furioso, pois aquela conduta contrariava a política de diplomacia que tencionava adoptar enquanto pudesse. Censurou asperamente o oficial prevaricador diante de todo o exército, após o que fez vir à sua presença dois homens aprisionados por Alvarado. Recorrendo a um tradutor índio - Melchorejo, que já acompanhara a expedição de Grijalva -, explicou-lhes que o objectivo da expedição era pacífico e que não queria fazer mal ao povo. Enchendo-os de presentes, pediu-lhes que informassem os fugitivos de que poderiam regressar sem receio de serem molestados.
A iniciativa do comandante surtiu efeito. Tranquilizados, os índios logo volveram aos seus lares e iniciaram relações amistosas com os europeus. Estes presentearam-nos com facas e quinquilharias variadas, ao que eles corresponderam com a oferta de vistosos adornos de ouro.


Apesar da atitude conciliadora com que ultrapassou o incidente provocado por Alvarado, Cortés não esquecera que um dos primeiros objectivos da Coroa espanhola naquelas terras era a conversão dos habitantes à fé cristã. Era por isso que expedições como aquela podiam ser encaradas como autênticas cruzadas. Os Espanhóis estavam convencidos de que a sua religião era a única verdadeira e de que os índios "pagãos" só teriam a ganhar se abandonassem para sempre os seus hábitos de idolatria. A recompensa deles, segundo os invasores, seria a salvação das suas almas, que de outro modo ficariam condenadas às penas eternas. Para alcançarem a conversão dos índios, todos os meios se consideravam legítimos: tanto valia a persuasão como o emprego da força. Ou seja: o que as palavras não conseguissem catequizar seria catequizado pela espada. 

Era assim que se pensava na época, e Cortés não constituía excepção. Tal como os seus subordinados, ele escandalizava-se com os hábitos religiosos do povo de Cozumel, ainda que não fossem ali muito frequentes os sacrifícios humanos. Por isso, começou por recorrer aos bons ofícios de dois clérigos que trouxera consigo, Juan Diáz e Bartolomé de Olmedo. Os homens da igreja procuraram convencer os índios de quão abomináveis eram as suas crenças e de como era pura e salvífica a religião que lhes queriam dar em troca. Depois pediram-lhes que os deixassem destruir os ídolos que guardavam nos templos: para os padres, como para os restantes expedicionários, aquelas imagens não passavam de genuínos retratos de Satanás.

É duvidoso que o intérprete Melchorejo tenha logrado transmitir, com um mínimo de fidelidade, ideias tão complexas e abstractas como as que Olmedo e Diáz queriam fazer chegar às gentes de Cozumel. Mas houve uma coisa que estas perceberam perfeitamente: os estrangeiros tencionavam privá-los dos seus deuses. Reagindo com horror ao que consideravam uma intolerável profanação, explicaram que aqueles eram os poderosos deuses que lhes enviavam a luz, a bonança, as tempestades, o sustento - tudo o que lhes permitia viver. E preveniram que, se lhes fosse infligido qualquer ultraje, eles, os deuses, fariam tombar raios fulminantes sobre os responsáveis.

Cortés, que se tinha abstido de intervir até então, concluiu que as palavras, por mais piedosas que fossem, não bastariam. E, embora não tenha feito uso da brutalidade que posteriormente se verificaria, resolveu o caso à sua maneira. Pensando que a melhor solução seria uma demonstração prática irrefutável, ordenou aos soldados que derrubassem dos pedestais as imagens veneradas e que as fizessem rebolar pelos degraus do templo abaixo. Em seu lugar mandou erguer um altar - onde foi colocada uma imagem da Virgem e outra de Jesus Cristo - e logo ali se celebrou a primeira missa. Como os índios estarrecidos puderam constatar, dos seus deuses, agora espalhados pelos terrenos circundantes, não vieram nem raios nem outra qualquer manifestação de vingança. Segundo as crónicas espanholas, alguns deles não tardaram a abraçar a religião cristã. Mas fica por saber se o fizeram pelo medo que lhes infundia aquela gente tão estranha, ou por estarem finalmente convencidos da total impotência dos velhos deuses. Afinal, estes nem sequer tinham sido capazes de defender os seus próprios lugares de culto.

A rota de Cortés (linhas vermelhas).
Desde Santiago, na ilha de Cuba (à direita), passando por Cozumel e contornando a península de Yucatán até fundar Vila Rica de Vera Cruz, no litoral mexicano (à esquerda).
Cortés levantou ferro da ilha de Cozumel no dia 4 de Março de 1519. Mas, antes disso, aconteceu algo de grande importância para a expedição: vindo das costas de Yucatán numa canoa, um grupo de índios trouxe-lhe um náufrago espanhol de anterior navegação. O homem, chamado Gerónimo de Aguilar, vivia entre os seus salvadores há cerca de oito anos. Cortés percebeu rapidamente a utilidade do recém-chegado: ele falava, com grande à-vontade, o idioma maia, que se utilizava na região a que iam ter acesso, pelo que poderia ajudar a resolver as insuficiências de Melchorejo enquanto único tradutor. Por essa razão, o comandante incorporou-o gostosamente na expedição.

Os navios começaram a bordejar o litoral do Yucatán. Acercando-se tanto quanto possível da costa, dobraram o cabo Catoche, atravessaram a todo o pano a vasta baía de Campeche e, pouco depois, chegavam à desembocadura do rio Tabasco (a que os Espanhóis chamariam rio Grijalva, em homenagem ao comandante da expedição anterior).
Ainda que o seu objectivo principal fosse alcançar o coração do império asteca, Cortés pretendia explorar aquela região e apurar o que pudesse sobre as suas riquezas. Por isso resolveu subir a correnteza do Tabasco (Grijalva) para atingir a grande cidade que se sabia existir nas suas margens. Os depósitos de areia no fundo do rio impediam, porém, a navegação da frota, pelo que Cortés embarcou em canoas com uma parte das forças. A progressão era lenta e penosa, pois as águas estavam cobertas de plantas aquáticas, cujas raízes, entrelaçadas, formavam uma rede quase impenetrável.
Nas margens surgiram entretanto guerreiros índios fazendo gestos ameaçadores. Cortés redobrou de precauções. Num lugar mais aberto, onde se concentravam muitos índios, recorreu ao intérprete para lhes pedir que o deixassem ir a terra. Mas eles brandiram as armas e ripostaram com gestos que expressavam cólera e desprezo. Cortés concluiu finalmente que ia ter que lutar. Retirou para uma pequena ilhota e ali passou a noite.


No dia seguinte, o comandante deu início àquilo que seria a sua primeira operação militar no território. Ainda que não contasse com a totalidade do exército, dispunha de bestas e de armas de fogo que, aliadas à enorme superioridade táctica, resolveram as coisas a seu favor. Desbaratados, os índios bateram em retirada e os Espanhóis entraram sem resistência na cidade de Tabasco, entretanto abandonada pelos habitantes. Cortés tomou posse da urbe em nome dos reis de Espanha.
Os índios preparavam, contudo, nova investida, agora associados aos habitantes dos povoados vizinhos. O seu número era, aparentemente, esmagador. Mas Cortés recebera entretanto reforços - em meios e homens. Nos navios da frota ficaram apenas os que, por qualquer razão, se achavam impossibilitados de combater. Foram trazidas para Tabasco sete peças de artilharia e uma outra novidade para se estrear na guerra: os cavalos embarcados em Cuba. Entorpecidos pela longa inacção, readquiriram em poucas horas de exercício as suas forças e agilidade.

Em vez de se deixar cercar em Tabasco, Cortés optou pela iniciativa do ataque. No dia 25 de Março de 1519, as tropas espanholas marcharam mais de uma légua, por vezes através de terrenos pantanosos, até se encontrarem com o grosso do exército inimigo. A luta foi intensa, mas o fogo da artilharia e dos arcabuzes varria as fileiras índias.
Subitamente, a cavalaria espanhola soltou o grito de guerra "Santiago e S. Pedro" e irrompeu no campo de batalha, com o metal dos elmos, das lanças e das espadas a reflectir sinistramente a luz do sol. Para os Tabasquenhos, esse foi o golpe final. Surpreendidos pela aparição daquelas criaturas monstruosas - eles pensavam que cavalo e cavaleiro formavam um único ser -, fugiram tomados de pânico, em muitos casos largando as armas e deixando de opor resistência.
Cortés, satisfeito com o triunfo, não cuidou de perseguir os vencidos. O sítio da batalha foi depois assento de uma povoação que se chamou Vila de Santa Maria da Vitória e que chegou a ser capital de província.

O comandante mandou libertar os prisioneiros que havia feito, incluindo alguns chefes, e fez espalhar a notícia de que os habitantes da terra nada teriam a temer da sua parte se deixassem de o hostilizar e lhe prometessem obediência. Caso contrário, seriam todos passados a fio de espada.
Os Tabasquenhos já não tinham alento para resistir. Acorrendo ao chamamento de Cortés, acercaram-se dele e, tal como ocorrera em Cozumel, foi possível iniciar contactos mais ou menos cordiais entre espanhóis e índios. Tiveram também começo umas tímidas relações comerciais, que contribuíram para o estabelecimento de um clima de confiança entre as duas partes.
Cortés foi obsequiado com diversos presentes pelos seus ex-inimigos. Alguns eram de ouro puro, e, quando o comandante pretendia saber de onde provinha o metal, os índios apontavam para o interior do território e respondiam: "México".
Entre as ofertas dos Tabasquenhos contavam-se vinte jovens escravas. Uma delas assumiria em breve um papel relevantíssimo na conquista espanhola do território.

Continua em 17 de Agosto de 2019 - 4.ª parte (ver aqui)