quinta-feira, 3 de julho de 2014

Manuel Bandeira, Sophia de Mello Breyner e as Três Mulheres do Sabonete Araxá

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Num dia de 1931, em Teresópolis, o poeta brasileiro Manuel Bandeira assinou este poema:
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Balada das Três Mulheres do Sabonete Araxá


As três mulheres do sabonete Araxá me invocam, me bouleversam,
[me hipnotizam.
Oh, as três mulheres do sabonete Araxá às 4 horas da tarde!
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!

Que outros, não eu, a pedra cortem
Para brutais vos adorarem,
Ó brancaranas azedas,
Mulatas cor da lua vem saindo cor de prata
Oh celestes africanas:
Que eu vivo, padeço e morro só pelas três mulheres do
[Sabonete Araxá!
São amigas, são irmãs, são amantes as três mulheres do Sabonete Araxá?
São prostitutas, são declamadoras, são acrobatas?
São as três Marias?

Meu Deus, serão as três Marias?

A mais nua é doirada borboleta.
Se a segunda casasse, eu ficava safado da vida,
[dava pra beber e nunca mais telefonava.
Mas se a terceira morresse... Oh, então nunca mais
[a minha vida outrora teria sido um festim!
Se me perguntassem: Queres ser estrela? queres ser rei?
[queres uma ilha no Pacífico? um bangalô em Copacabana?
Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca.
[Eu só quero as três mulheres do sabonete Araxá:

O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!

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Num outro dia, bastante mais tarde, a nossa Sophia de Mello Breyner Andresen celebrou assim esse saudoso poema da sua juventude:
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Manuel Bandeira

Este poeta está
do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar
Relembrando o antigo jovem tempo
quando pelos sombrios corredores da casa antiga
nas solenes penumbras do silêncio
eu recitava
"As três mulheres do sabonete Araxá"
E minha avó se espantava

Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura saudade
Eu lia a canção do "Trem de ferro"
e o "Poema do beco"
Tempo antigo
lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida
nos ramos da cerejeira
Quando me sentava nos bancos pintados de fresco
e no Junho inquieto e transparente
as três mulheres do sabonete Araxá me acompanhavam
tão visíveis
que um eléctrico amarelo as decepava

Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado.



quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sophia de Mello Breyner a partir de hoje no Panteão Nacional (Lisboa)

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Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), patriota, combatente da liberdade, defensora dos oprimidos, fascinante personalidade e genial poetisa portuguesa, foi hoje trasladada para o Panteão Nacional, em Lisboa, num justíssimo agradecimento do País à sua obra imorredoira.

Miguel Sousa Tavares, brilhante escritor e jornalista, dedicou-lhe num dos seus livros o texto que abaixo se transcreve, o qual fica como uma das mais belas e comoventes homenagens de um filho a sua mãe.

Emerge deste retrato tocante uma Sophia tão viva, tão sem idade, tão cativantemente humana e, ao mesmo tempo, tão acima das coisas vulgares e previsíveis, que apetece imaginá-la doravante a descer em espírito à sua derradeira morada terrena, dançando com leveza nas noites misteriosas do panteão adormecido, recitando novos, inesperados e deslumbrantes poemas através de todas as eternidades... 

(Cavaleiro da Torre)
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E ela dança

Às vezes, quando a casa estava adormecida à noite, ela dançava pela sala fora, tal qual como escreveu («bailarina fui mas nunca bailei»). Às vezes, convencia-se que havia ladrões em casa e acordava-me do sono para espreitar debaixo da minha cama, e às vezes havia ladrões a sério, com cara de assassinos e crachá da PIDE, que chegavam pela alvorada do dia, mas verdadeiramente ela não tinha medo dos ladrões nem dos esbirros do «velho abutre»: só tinha medo de fantasmas.

Naquela casa, aprendemos cedo duas coisas sobre a poesia. A primeira, era que os poetas eram todos uns personagens extraordinários, que apareciam a horas imprevistas e diziam coisas surpreendentes. De todos, o mais fantástico era o Ruy Cinatti, que nos convenceu que era o nosso irmão mais velho, regressado de outra vida em Timor e que esteve à beira de conseguir transformar-nos em guerrilheiros contra a precária disciplina familiar. Vinham e iam constantemente poetas tristes ou alegres, cerimoniosos ou tumultuosos e até um, o Ruy Belo, que me levava à Luz ver o Benfica e jogava futebol comigo no jardim.

A segunda coisa sobre poesia que aprendemos é que a poesia é para ser dita e para ser escutada: é oral, não cabe nos livros. Eu não sabia nada de aritmética, nem de botânica ou de mineralogia mas, aos dez anos, já tinha aprendido, de ouvido, a recitar sonetos de Shakespeare em inglês do século XVI, ou o «Erl König», do Goethe, em alemão. E quando ela trouxe para casa um disco com poemas do Lorca recitados em espanhol pela Germaine Montero, ouvi-o tantas, tantas vezes, que fiquei a saber de cor o imenso «Llanto por Ignácio Sanchez Mejia».

À mesa, entre a sopa e o prato principal, dentro de um automóvel a caminho do sul ou na missa das 7 da tarde na Igreja da Graça, de repente ela começava a recitar poesia com a mesma naturalidade com que os outros falavam de coisas triviais ou respondiam em latim ao «orate, frates!» do padre. Às vezes, naquele terror que as crianças têm que os pais pareçam estranhos em público, apetecia enfiarmo-nos pelo chão abaixo quando, à mesa de um café no Chiado, ou numa loja, em plenas compras de Natal, ou caminhando connosco pela rua de mãos dadas (por vezes, distraída, perdia-nos), ela começava a recitar poesia em voz alta, como se o mundo inteiro à sua volta lhe fosse de repente absolutamente alheio.

Um dia, no eléctrico a caminho de casa, ela fixou-se num letreiro, por cima de uma janela, que rezava assim: «se alguma janela o incomoda, peça ao condutor que a feche». E então, no meio daquele silêncio envergonhado dos passageiros, que fingem não ver e não se ouvir uns aos outros, ecoou a voz dela, clara e silabada, recitando um poema: «se alguma janela o incomoda, peça ao condutor que a feche e que nunca mais a abra.»

A mim, todavia, ensinou-me o mais importante de tudo: ensinou-me a olhar. Ensinou-me a olhar para as coisas e para as pessoas, ensinou-me a olhar para o tempo, para a noite, para as manhãs. Ensinou-me a abrir os olhos no mar, debaixo de água, para perceber a consistência das rochas, das algas, da areia, de cada gota de água. Ensinou-me a olhar longamente, eternamente, cada pedra da Piazza Navone, em Roma, sentados num café, escutando o silêncio da passagem do tempo. Fez-me mergulhador e viajante, ensinou-me que só o olhar não mente e que todo o real é verdadeiro. Quem ler com atenção, verá que esta é a moral que atravessa toda a sua escrita.

A outra lição decisiva foi a da liberdade. Não só a liberdade física, não só a liberdade na luta pela justiça, «num sítio tão imperfeito como o mundo», mas ainda a liberdade na busca de um caminho próprio onde as coisas tenham uma ética e façam sentido e, acima de tudo, a liberdade da nossa própria solidão. Prémios, condecorações, homenagens, são-lhe de tal forma alheios que ninguém mais o entende. Dêem-lhe, sim, silêncio e tempo, manhãs como a «manhã da praça de Lagos» e noites com «jardins invadidos de luar». E ela dançará. Ao longo das sílabas dos poemas, como dançava na minha infância.” (*)

(*) Miguel Sousa Tavares, in “Não Te Deixarei Morrer, David Crockett
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Esta Gente

Esta gente cujo rosto
às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova

E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
De um tempo justo (*)

(*) Sophia de Mello Breyner (Do livro GEOGRAFIA, 1967)

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domingo, 22 de junho de 2014

Missa Crioula (Ariel Ramirez)


 Genial composição de Ariel Ramirez,
aqui dirigida pela magnífica Rebecca Lord.

domingo, 1 de junho de 2014

Política à Portuguesa (Costa contra Seguro, no ringue - O último combate)

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"Costa saltou contra Seguro.
Se calhar ele pensava que o secretário-geral se encolhia...
Qual quê! António José Seguro subiu para o ringue, saltitando e dando ganchos no ar, com a pose de boxeur que se lhe conhece, queixo firme e discurso claro: "A minha consciência diz-me que eu tenho de continuar a lutar pelos valores e pelos princípios e habituem-se porque isto mudou."

Juro, ele disse isto, ontem. Na mesma frase, "tenho de continuar a lutar pelos valores" e "habituem-se porque isto mudou"!
No boxe chama-se a isso jabs, sucessão de golpes, esquerda-direita...
Em discurso parece contraditório, mas agora António Rocky Seguro quer passar a imagem de durão.

Ele adora desafios impossíveis, já antes queria passar por líder.
O outro quis encostá-lo às cordas do congresso. Com um jogo de pernas notável, o nosso Belarmino do Rato lançou-se para as primárias.
Eu explico o que isso quer dizer em boxe.

Suponhamos que o pugilista receia um KO, porque reconhece que o adversário é mais forte. Então, refugia-se nas cordas, dança, enfim, compra tempo.

Com um passado de ganhar por pouco, Seguro quer agora ganhar muito. Muito tempo.
O outro atrás dele para uma luta leal e ele às voltinhas à espera que o gong o salve.

Vocês vão dizer-me: "Mas ele vai ficar mal visto..."
Não sei. O erro mais visível de Seguro era ter o título de líder e sê-lo pouco.

 Agora, a fugir à luta, ele já ganha coerência. Já é ele.
Na política a coerência é importante." (*).

(*) Ferreira Fernandes, Seguro à espera que o ‘gong’ o salve, in Diário de Notícias, Lisboa, 1-Junho-2014.


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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Política à Portuguesa (Seguro e o Princípio de Peter)



“(…) Seguro cumpriu o princípio da incompetência de Peter: foi o líder de transição que sempre é sacrificado entre lideranças marcantes. E, desse ponto de vista, cumpriu fielmente o papel que lhe foi destinado. Seguro ficará tanto na memória colectiva como Fernando Nogueira, o tal que sucedeu a Cavaco Silva no PSD.
Mas, como postula o princípio de Peter, Seguro não dá mais que isto.
A sua visão para o País tem a consistência de gelatina e a capacidade mediática de um pão seco.
Eu não sei se António Costa vai ser o próximo líder do PS.
Não sendo militante, a decisão não está nas minhas mãos. Mas, francamente, tenho pressa que as entranhas do PS não confundam, como tem sido hábito, deslealdades com divergências, a forma da letra com o espírito da mesma, e os interesses do País com os interesses de meia dúzia com genética de lapa, agarradinhos aos estatutos como tábua de salvação.
Mas se Seguro quiser desmentir quem clama por algo diferente, é simples: marque congresso extraordinário por sua iniciativa e olhe António Costa - e o País - nos olhos.” (*)

(*) Ana Martins, in “Económico”, Lisboa, 30-Maio-2014




domingo, 5 de janeiro de 2014

Eusébio do Benfica - Uma Lenda para a Eternidade!

Eusébio da Silva Ferreira

O melhor futebolista do Benfica e de Portugal em qualquer tempo, e um dos melhores a nível mundial, ao nível de Pelé, Maradona e Di Stéfano.

Nascido no Bairro de Mafalala, na antiga cidade de Lourenço Marques (actual Maputo), Moçambique, em 25 de Janeiro de 1942.

Falecido em Lisboa, Portugal, aos 5 de Janeiro de 2014.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Até sempre, Madiba! E obrigado.


Nelson Rolihlahla Mandela (1918-2013)

“Eu não nasci com fome de liberdade.

Nasci livre – livre de todas as formas minhas conhecidas. Livre para correr pelos campos perto da cabana da minha mãe, livre para nadar no ribeiro claro que atravessava a vila, livre para assar milho sob as estrelas e montar na garupa larga de toiros vagarosos. Enquanto obedecesse ao meu pai e respeitasse os costumes da minha tribo, não me incomodava com as leis do homem ou de Deus.

Foi só quando comecei a aperceber-me que a minha liberdade de criança era uma ilusão, quando descobri, como jovem, que a minha liberdade já me fora tirada, que comecei a ansiar por ela.

Ao princípio, quando era estudante, queria liberdade apenas para mim, as liberdades transitórias de poder ficar fora à noite, ler o que me apetecesse e ir onde quisesse. Mais tarde, jovem em Joanesburgo, ansiava pelas liberdades básicas e honradas de realizar o meu potencial, de ganhar a vida, casar e ter uma família – a liberdade de não ser obstruído na vida de acordo com a lei.

Mas, então, comecei lentamente a ver que não só não era livre, mas também os meus irmãos e as minhas irmãs não o eram. Vi que não era só a minha liberdade que era limitada, mas a liberdade de todos os que se pareciam comigo. Foi quando me inscrevi no Congresso Nacional Africano e foi quando a minha grande fome de liberdade para mim próprio se transformou na maior fome de liberdade para o meu povo.

Foi este desejo de que o meu povo tivesse a liberdade de viver a sua vida com dignidade e auto-respeito que motivou a minha vida, que transformou um jovem assustadiço numa pessoa audaz, que levou um advogado respeitador da lei a transformar-se num criminoso, que fez de um marido amigo da família um homem sem lar, que forçou um homem que amava a vida a viver como um monge.

Eu não sou nem mais virtuoso, nem mais abnegado do que qualquer outra pessoa, mas descobri que não conseguia nem sequer desfrutar das liberdades mesquinhas e limitadas que me eram permitidas, sabendo que o meu povo não era livre. A liberdade é indivisível; as cadeias que acorrentavam um só elemento do meu povo eram cadeias neles todos, as cadeias em todo o meu povo eram cadeias em mim.

Foi durante esses longos anos solitários que a minha fome de liberdade para o meu povo se transformou na fome de liberdade para todos os povos, brancos e negros. Sabia muito bem que o opressor precisava tanto de ser libertado como o oprimido. Um homem que rouba a liberdade a outro é prisioneiro do ódio, está preso por trás das grades dos preconceitos e da estreiteza de vistas. Não sou verdadeiramente livre se tiro a liberdade a alguém, da mesma forma que não sou livre quando me tiram a minha liberdade. O opressor e o oprimido são igualmente privados da sua liberdade (…).

Percorri esse longo caminho para a liberdade. Tentei não fraquejar; dei passos errados ao longo do percurso. Mas descobri o segredo: que, depois de escalar uma grande montanha, apenas se descobre que há muitas mais montanhas para subir.

Parei aqui um pouco para descansar, para deitar uma olhada à vista maravilhosa que me rodeia, para olhar para a distância de onde vim. Mas posso descansar somente por um momento, porque com a liberdade vêm as responsabilidades – e não me atrevo a demorar-me, pois a minha caminhada ainda não terminou.”

(Últimas palavras da autobiografia de um ser humano extraordinário)

Obra publicada em Portugal, no ano de 1995, por Campo das Letras - Editores, S. A., com o título:
Longo Caminho para a Liberdade – A Autobiografia de Nelson Mandela.
Recomenda-se vivamente a leitura integral deste inesquecível documento.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013