Pequenas e grandes histórias da História e mensagens mais ou menos amenas sobre vidas, causas, culturas, quotidianos, pensamentos, experiências, mundo...
domingo, 7 de maio de 2017
domingo, 29 de janeiro de 2017
"I PUT A SPELL ON YOU"
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Canção: I Put a Spell on You (Lancei-te um Feitiço)
Intérprete: Nina Simone (1933-2003)
Vídeo de: Susana Pérez Prado
Pesquisa e apresentação: Albina de Castro
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Música e Músicos
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
POR CAUSA DE JANDIRA
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O mundo começava nos seios de Jandira.
Depois surgiram outras peças da criação:
Depois surgiram outras peças da criação:
surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos.)
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
(às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos.)
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
o
ar inteirinho ficou rodeado de sons
mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
E as antenas das mãos de Jandira
captavam objetos animados, inanimados.
Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
quando Jandira penteava a cabeleira...
Depois o mundo desvendou-se completamente,
foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
da cabeça aos pés,
todas as partes do mecanismo tinham importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
de sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedeciam aos sinais de Jandira,
crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
e eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal,
e apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
Por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira
Outro, por causa de uma pinta
Depois o mundo desvendou-se completamente,
foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
da cabeça aos pés,
todas as partes do mecanismo tinham importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
de sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedeciam aos sinais de Jandira,
crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
e eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal,
e apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
Por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira
Outro, por causa de uma pinta
na face esquerda de Jandira.
E seus cabelos cresciam furiosamente
E seus cabelos cresciam furiosamente
com a força das máquinas;
não caía nem um fio,
nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
a família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
por causa de Jandira.
E um padre na missa
esqueceu de fazer o sinal-da-cruz
nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
a família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
por causa de Jandira.
E um padre na missa
esqueceu de fazer o sinal-da-cruz
por causa de Jandira.
E Jandira se casou
e seu corpo inaugurou uma vida nova.
Apareceram ritmos que estavam de reserva.
Combinações de movimento entre as ancas e os seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas
E Jandira se casou
e seu corpo inaugurou uma vida nova.
Apareceram ritmos que estavam de reserva.
Combinações de movimento entre as ancas e os seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas
que repetem as formas e os sestros de Jandira
desde o princípio do tempo.
E o marido de Jandira
morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia
E o marido de Jandira
morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia
o marido
fez um grande esforço para ressuscitar:
não se conforma, no quarto escuro onde está,
que Jandira viva sozinha,
que os seios, a cabeleira dela,
não se conforma, no quarto escuro onde está,
que Jandira viva sozinha,
que os seios, a cabeleira dela,
transtornem a cidade
e que ele fique ali à toa.
E as filhas de Jandira
inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
espera que os clarins do juízo final
venham chamar seu corpo,
mas eles não vêm.
E mesmo que venham,
e que ele fique ali à toa.
E as filhas de Jandira
inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
espera que os clarins do juízo final
venham chamar seu corpo,
mas eles não vêm.
E mesmo que venham,
o corpo de Jandira ressuscitará inda mais belo,
mais ágil e transparente
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(Poema de Murilo Mendes. Nasceu em Juiz de Fora, Brasil, em 1901.
Faleceu em Lisboa, Portugal, no ano de 1975).
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domingo, 15 de janeiro de 2017
O RISO DE MÁRIO SOARES (1924-2017)
"Uma vez, era ele Presidente e eu jornalista, encontrámo-nos entre cabinas de um avião, num voo presidencial sobrevoando a Ásia. Como sabia que ele gostava de anedotas, perguntei-lhe se sabia a anedota sobre a sua própria morte.
Respondeu-me que não e eu contei-lha:
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Mário Soares morre e vai ter com São Pedro para pedir para entrar no Paraíso. Depois de consultar o seu computador, São Pedro responde-lhe que nem pensar: "Tu foste um pecador horrível, vais é para o Inferno!"
Mas Soares insiste, justifica os seus pecados, pede clemência. E São Pedro reconsidera: "OK, vou pôr-te à prova: durante dez anos, dia por dia, do acordar ao adormecer, tu vais estar sempre ligado à madre Teresa de Calcutá e sem nenhuma relação com mais quem quer que seja. E, daqui a dez anos, se te portares bem, logo se vê."
Sem nenhuma escapatória, Soares aceita. Mas, assim que arranca, de mão dada com a madre Teresa, vê Cavaco Silva de mão dada com Madonna. E, aí, Soares passa-se, volta atrás e diz a São Pedro: "Está bem que eu fui um grande pecador. Mas o Cavaco foi algum santinho para ter como penitência a Madonna?"
Ao que São Pedro lhe responde: "Calma, Mário, essa é a penitência da Madonna!"
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Nessa noite, nesse avião, algures no céu da Ásia, Mário Soares ia-se engasgando a rir com a anedota que eu lhe contei sobre a sua morte. Estávamos os dois vivos, a Ásia estava lá em baixo e a morte era apenas uma anedota.
Mas não tenho a certeza se agora, voando lá em cima sobre o mundo, ele não estará a desafiar as regras estabelecidas da eternidade."
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Narrado por Miguel Sousa Tavares na "E", Revista do jornal Expresso - Edição 2307, de 14 de Janeiro de 2017, pág. 16 - Número Especial inteiramente dedicado à figura de Mário Soares.
Título do artigo: "O Seu Nome, Liberdade".
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sábado, 7 de janeiro de 2017
sábado, 31 de dezembro de 2016
SAUDANDO O ANO NOVO
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Peça musical - El Barberillo de Lavapiés (zarzuela em 3 actos) - Prelúdio e Dança dos Estudantes
Compositor - Francisco Asenjo Barbieri (1823-1894)
Libreto - Luís Mariano de Larra (1830-1901)
Lugar de estreia - Teatro de la Zarzuela de Madrid (19 de Dezembro de 1874)
Pesquisa e apresentação - Albina de Castro
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domingo, 25 de dezembro de 2016
sábado, 17 de dezembro de 2016
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
MALAK AL-SHEHRI NO REINO DA ESTUPIDEZ (FACINOROSA)...
Malak al-Shehri publicou uma fotografia em que surge
com um vestido colorido, um casaco e óculos de sol. Ia beber café com um amigo.
Tudo isto lhe valeu valentes críticas nas redes sociais. Devido ao seu
comportamento, foram apresentadas queixas à polícia religiosa. Agora, foi
detida.
Malak
al-Shehri tem cerca de 20 anos e vive na capital da Arábia Saudita. Numa manhã
saiu de casa para tomar o pequeno-almoço e tirou uma fotografia, que publicou
no Twitter. “Decidi sair sem abaya [traje completo de cor escura], vesti uma
saia com um casaco elegante”, lia-se na descrição da imagem. Depois, foi ter
com um amigo para “beber café e fumar um cigarro”. Estes comportamentos foram
motivo de queixas à polícia religiosa. Agora, Malak al-Shehri foi detida.
“Publicou
nas redes sociais algo que está contra as leis”, justificou o porta-voz da
polícia de Riade, Fawaz al Miman, citado pelo jornal espanhol “El Mundo”.
Segundo as autoridades, além da roupa em causa está ainda o facto de Malak
al-Shehri “falar abertamente sobre relações proibidas com homens que não
pertencem à sua família”, acrescenta o britânico “The Guardian”.
Foi a 28 de
novembro que Malak al-Shehri publicou a imagem. Muitos revoltaram-se, outros
saíram em sua defesa. A jovem, acabou mesmo por apagar o tweet e,
consequentemente, a sua conta no Twitter.
Na Arábia
Saudita, existem regras bastante restritas quanto à forma de uma mulher se
apresentar nos locais públicos. A condução e o convívio com homens que não são
seus familiares estão proibidos.
Segundo o
“The Guardian”, milhares de sauditas assinaram uma petição que exige o fim da
lei que prevê que uma mulher esteja sempre sob a guarda de um homem.
Habitualmente, quando são mais novas estão à guarda do pai ou dos irmãos e
quando casam passam a ser da responsabilidade do marido. (*)
(*) Jornal Expresso (Diário - online) - 12-Dezembro-2016.
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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
sábado, 22 de outubro de 2016
domingo, 25 de setembro de 2016
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
sábado, 23 de julho de 2016
Sonhar e realizar o impossível - THOR HEYERDAHL e a viagem da jangada "KON-TIKI"
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A ideia ocorrera a Thor Heyerdahl dez anos antes, durante a sua permanência em Fatu Hiva, uma das ilhotas polinésicas do arquipélago das Marquesas. Foi aí que começou a juntar indícios resultantes das suas investigações no terreno, e foi aí que, fascinado, os relacionou com as lendas que ia ouvindo ao velho Tei Tetua à volta da fogueira.
Tei Tetua era o único sobrevivente das extintas tribos da costa oriental de Fatu Hiva. Falava das remotas origens do seu povo - primitivo habitante das ilhas da Polinésia - dizendo que ele tinha sido conduzido até ali por um tal Tiki, filho do Sol, que era simultaneamente deus e chefe.
Segundo Tei Tetua, a sua gente viera de leste, dos lados da América, transportada em ligeiras embarcações que flutuavam, empurradas pelos ventos, ao sabor das correntes marítimas.
Tohr Heyerdahl principiou então a juntar as peças. Recordou que os primeiros europeus que se aventuraram no Pacífico haviam descoberto nas ilhas polinésicas uma gente alta e esbelta, de tez clara e nariz aquilino, que falava uma língua que nenhum outro povo compreendia. Alguns possuíam olhos azul-acinzentados, usavam longas barbas e a cor do cabelo variava entre o avermelhado e o louro.
Nalguns locais, os europeus depararam com antiquíssimas pirâmides, ruas calçadas e estátuas de pedra da altura de uma casa europeia de quatro andares.
Lendas alusivas a brancos misteriosos, de quem esses ilhéus descenderiam, eram correntes em toda a Polinésia. Não podiam ter vindo de oeste, onde habitavam povos primitivos de tez escura, da Austrália e da Melanésia, nem da Indonésia ou da costa asiática.
Thor Heyerdahl voltou a atenção para a costa leste mais próxima, centrando-se na região da República do Peru, terra dos Incas, onde não havia falta de vestígios. Ali vivera outrora um povo desconhecido, fundador de uma das mais estranhas civilizações do mundo.
Os homens desse povo extraíam das montanhas blocos de pedra de tamanho descomunal e transportavam-nos pelo campo, quilómetros a fio. Depois punham-nos em pé ou colocavam-nos uns por cima dos outros para formar portões, paredões e terraplenos.
Quando esse povo desapareceu subitamente da região, deixou atrás de si enormes estátuas de pedra semelhantes a seres humanos que faziam lembrar as de Pitcairn, as das ilhas Marquesas e as da ilha de Páscoa. E, também, grandes pirâmides construídas em degraus como as de Taiti e de Samoa.
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Quando os primeiros espanhóis irromperam nessa região montanhosa, incluída no império dos Incas, ouviram destes que os colossais monumentos abandonados no meio da paisagem tinham sido erigidos por uma raça de deuses brancos que ali haviam vivido antes deles.
Esses arquitectos desaparecidos eram, segundo a descrição dos Incas, homens sábios, pacatos, oriundos do Norte na aurora dos tempos. Tinham ensinado aos antepassados dos Incas a arquitectura e a agricultura, assim como os bons costumes e as boas maneiras. Não se confundiam fisicamente com os indígenas: tinham a pele branca, ostentavam longas barbas e eram também de maior estatura.
Os Incas acabaram senhores do país. Os seus mestres brancos sumiram-se para sempre da terra sul-americana, marchando para oeste e atravessando o Pacífico.
Thor Heyerdahl continuou as pesquisas. Notou que, quando Roggeween chegou à ilha de Páscoa, em 1722, avistou com surpresa "homens brancos" entre os que se achavam na praia. E essa gente referia, com aparente convicção, os seus antepassados de tez branca - recuando até ao tempo do famoso Tiki, que tinha singrado através do oceano "vindo de uma terra montanhosa a leste, requeimada pelo sol".
Heyerdahl achou surpreendentes vestígios de tudo isto na mitologia e na língua do Peru.
Lia ele, um dia, as lendas incas do Rei-Sol Virakocha, que fora chefe supremo do remoto povo branco do Peru, quando deparou com o seguinte:
"Virakocha é um nome inca (ketchua) e, por conseguinte, de data relativamente recente. O nome original do deus-sol Virakocha era Kon-Tiki, que significa Sol-Tiki ou Fogo-Tiki.
Kon-Tiki era sumo sacerdote e rei dos lendários "homens brancos", que tinham deixado as enormes ruínas nas margens do lago Titicaca.
Rezava a lenda que Kon-Tiki fora atacado por um chefe de nome Cari, que veio ao vale de Coquimbo.
Na batalha travada numa ilha do lago Titicaca, os misteriosos brancos barbados foram desbaratados. Kon-Tiki e os seus companheiros mais chegados conseguiram escapar e, mais tarde, deslocaram-se até à costa, de onde finalmente desapareceram sobre o mar para as bandas do ocidente".
Thor Heyerdahl ficou sem dúvidas de que o branco deus-chefe Sol-Tiki, expulso do Peru para o Pacífico pelos antepassados dos Incas, era o mesmo branco deus-chefe Tiki, filho do Sol, a quem os habitantes de todas as ilhas orientais do Pacífico reconheciam como primitivo fundador da sua raça.
E os pormenores da vida de Sol-Tiki no Peru, bem como os nomes de lugares em redor do lago Titicaca, repetiam-se nas lendas evocadas pelos naturais das ilhas do Pacífico.
Por toda a Polinésia, Thor Heyerdahl achou indicações de que a pacífica raça de Kon-Tiki não logrou conservar as ilhas só para si durante muito tempo.
Segundo tais indicações, barcaças de guerra, amarradas duas a duas, haviam transportado povos indígenas do nordeste até ao Hawai e, mais para sul, até às restantes ilhas.
Foi este o segundo povo a chegar à Polinésia, por volta de 1100. Ignorava a cerâmica, os metais, a roda, o tear e o cultivo de cereais.
Os guerreiros recém-chegados misturaram o seu sangue com o da raça de Kon-Tiki, originando um novo tipo de civilização nas ilhas polinésicas.
![]() |
| Thor Heyerdahl expondo a sua teoria no Clube dos Exploradores de Nova Iorque |
Chegou a Segunda Guerra Mundial. E veio a paz. Thor Heyerdahl elaborara entretanto, por escrito, a sua teoria sobre o primitivo povoamento das ilhas polinésicas: Polinésia e América - Estudo de suas relações pré-históricas.
Concluía basicamente que um antigo povo branco partira da América do Sul havia cerca de 1500 anos, navegando, nas embarcações então disponíveis, ao sabor das correntes marítimas e dos ventos dominantes, até atingir e povoar as ilhas da Polinésia.
Viajando até aos Estados Unidos para apresentar o seu trabalho, parece só ter conseguido suscitar algum entusiasmo nos frequentadores do Clube dos Exploradores de Nova Iorque ou nos do Lar dos Marinheiros Noruegueses, em Brooklyn, para onde teve de se mudar por razões financeiras.
Os sábios americanos, por seu turno, moveram-lhe furiosa oposição. Pura e simplesmente não admitiam que fosse materialmente possível a um nebuloso e remoto povo concretizar, com os recursos da época, a navegação de 8000 quilómetros pretendida pelo investigador norueguês.
Thor Heyerdahl narra, no seu livro, como exemplo das dificuldades que enfrentou, o tempestuoso encontro com um desses velhos sábios num museu de Nova Iorque:
- (O sábio) O senhor não tem razão. Está erradíssimo!
- (Thor) Mas o senhor ainda não leu os meus argumentos...
- (O sábio) Argumentos! Não é possível tratar de problemas etnográficos como se fosse um romance policial!
- (Thor) Por que não? Baseei todas as minhas conclusões em observações pessoais e em factos registados pela Ciência.
- (O sábio, afastando para o lado o manuscrito de Thor e inclinando-se sobre a mesa) É bem verdade que a América do Sul foi a pátria de algumas das mais curiosas civilizações da antiguidade, e que não sabemos para onde foram quando os Incas passaram a dominar ali. Uma coisa, porém, sabemos ao certo: é que nenhum povo da América do Sul se passou para as ilhas do Pacífico. Sabe por quê? É simples. Porque não podiam chegar lá. Não dispunham de botes!
- (Thor) Mas dispunham de jangadas. Jangadas de madeira de balsa!
- (O sábio, sorrindo) Não me venha dizer que o senhor é capaz de tentar uma excursão, desde o Peru até às ilhas do Pacífico, numa jangada de madeira de balsa!
Thor Heyerdahl não respondeu, mas é possível que se tenha decidido pelo grande projecto durante cenas como esta.
Daí em diante, forcejou por obter apoios diversos, incluindo o de patrocinadores. Reuniu, também, elementos adicionais, designadamente sobre as jangadas de madeira de balsa (mais leve do que a cortiça) cujos segredos de construção tinham sido herdados pelos Incas do misterioso povo branco de Kon-Tiki. Para o efeito, estudou minuciosamente os relatos e os desenhos deixados pelos Espanhóis após o seu encontro com os Incas.
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E tratou, naturalmente, de recrutar, não sem dificuldades, aqueles que seriam os seus companheiros de viagem. Todos noruegueses, com excepção do sueco Danielssen.
Na foto acima, da esquerda para a direita: Knut Haugland - Bengt Danielssen - Thor Heyerdahl (de braços cruzados) - Erik Hesselberg (de boina) - Torstein Raaby - Herman Watzinger.
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Os troncos de madeira de balsa foram obtidos por Thor Heyerdahl na selva do Equador, onde os Incas iam buscá-los outrora.
Acompanhado por Herman Watzinger, deslocou-se até às plantações de balsa de D. Frederico von Buchwald, situadas nas proximidades de Quivedo, bem no interior do país.
O troço final da viagem foi percorrido num jeep conduzido por um capitão do exército do Equador, especialmente destacado para os proteger. Terra de chuvas abundantes, de coberturas vegetais quase impenetráveis, de escorpiões gigantes e de venenosas serpentes a balouçarem-se nas ramarias. E, de acordo com testemunhos locais, ainda infestadas por degoladores profissionais e caçadores de cabeças (Thor conta que, em Quito, lhes foram oferecidas por preço módico - a ele e a Watzinger -, duas cabeças humanas habilmente mumificadas e reduzidas segundo a melhor técnica do ramo).
Enfim derrubados, os troncos de balsa flutuaram sem problemas pelos rios da região até chegarem ao litoral do Equador. Daí partiram, carregados num barco a vapor, até ao porto de Callao, no Peru, onde a aventura teria início.
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A jangada, que Thor Heyerdahl resolveu baptizar com o nome de "Kon-Tiki" em homenagem ao remoto chefe do misterioso povo branco, foi construída pelos expedicionários nos estaleiros da Marinha peruana em Callao, para o que foi necessária autorização expressa do Presidente da República.
Foram escolhidos os nove troncos de maior envergadura, em cuja superfície se traçaram sulcos fundos para impedir que as cordas de cânhamo que os deviam manter no lugar escorregassem ao longo deles.
Seguindo a técnica dos seus remotos antecessores, os construtores não utilizaram um único prego, cavilha ou cabo de arame.
Os troncos de balsa foram primeiro colocados lado a lado na água, de modo que pudessem flutuar livremente na sua posição natural antes de serem fortemente amarrados uns aos outros. O toro mais longo, com 13,70 metros, foi colocado no centro, projectando-se bem além dos outros numa e noutra extremidade.
À ré, foram fixados toletes para sustentarem o comprido remo de direcção.
A jangada foi tomando forma, laboriosamente ligada com cordas de cerca de trezentos comprimentos diferentes, cada qual amarrada com nós firmíssimos.
Sobre ela foi posta uma coberta feita de taquaras, amarradas na forma de sarrafos separados e cobertos com esteiras soltas de bambu trançado.
No meio da jangada, mas mais perto da popa, foi erguida uma pequena cabina aberta, feita de bambu, com telhado também de bambu combinado com folhas de bananeira que se encaixavam umas nas outras como se fossem telhas.
À frente da cabina levantaram-se dois mastros. Eram de mangueiro, de uma dureza de ferro, inclinavam-se um para o outro e, no topo, estavam amarrados em cruz.
Em seguida, foi içada a verga de bambu e desenrolada a vela, que tinha ao centro o desenho da cara barbada de Kon-Tiki: tratava-se da cópia fiel da cabeça do Rei-Sol esculpida em pedra vermelha numa estátua das ruínas da cidade de Tiahuanaco.
A 27 de Abril, carregados os mantimentos, um bote auxiliar de borracha e as bagagens indispensáveis, foi hasteada na jangada a bandeira da Noruega. Ao longo da verga, no tope do mastro, tremulavam as bandeiras dos países que, de uma forma ou doutra, tinham dispensado algum apoio à expedição.
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A largada da "Kon-Tiki" para a sua histórica viagem aconteceu no porto de Callao, Peru, no dia 28 de Abril de 1947.
O momento foi testemunhado por uma multidão entusiasmada. Entre ela, viam-se altas autoridades peruanas e os representantes de diversos países.
Em homenagem a Thor Heyerdahl e aos companheiros, seguem-se alguns momentos marcantes da sua epopeia, tal como o comandante os relatou.
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Os primeiros dias da "Kon Tiki" no mar
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A organização do governo da embarcação era o nosso maior problema. A jangada fora construída exactamente como a haviam descrito os espanhóis, mas não existia nenhuma pessoa viva no nosso tempo que nos pudesse ministrar um curso prático de como governar uma jangada indígena.
À medida que o vento sueste aumentava em força, era necessário manter a jangada em tal marcha que a vela se enfunasse da parte da popa. A luta era árdua: enquanto três homens pelejavam com a vela, os outros três lidavam com o comprido remo de governo para pôr na devida posição o bico de proa da jangada, afastando-o do vento.
À tardinha, já o vento alísio soprava com toda a força. O resultado foi que o oceano se tornou agitado e roncador, enquanto as águas nos invadiam pela parte de trás. Ali, no vasto oceano, as coisas só correriam bem se as qualidades da jangada fossem realmente boas. Sabíamos que dali em diante não teríamos vento que soprasse para terra nem jeito de voltar atrás.
A única coisa a fazer era seguir avante a todo o pano; se tentássemos virar, derivaríamos em alto mar e com a popa para a frente. Só havia uma alternativa: navegar ao sabor do vento com a proa voltada para poente. Era essa, afinal, a meta da nossa viagem: acompanhar o Sol no seu curso, como supúnhamos que Kon-Tiki e os adoradores do astro-rei tinham feito quando foram postos em fuga do Peru rumo ao mar.
Já não havia dúvida de que havíamos entrado na parte mais vertiginosa da corrente de Humboldt. As ondas, tal como se apresentavam, pertenciam a determinada corrente, não sendo apenas movidas pelo vento. Em toda a extensão que nos cercava, a água era verde e fria; as recortadas montanhas do Peru tinham desaparecido atrás, no meio de densas massas de nuvens.
Quando ouvimos o ruído generalizado do mar em torno de nós, subitamente abafado pelo silvo de uma vaga próxima, e vimos uma crista branca vir, como que às apalpadelas, ao nível do telhado da cabina, esperámos sentir a massa de água despenhar-se sobre nós. Mas, de cada vez, era a mesma surpresa e o mesmo alívio. A "Kon-Tiki" calmamente meneava a popa para cima e erguia-se imperturbável, enquanto a massa de água lhe resvalava pelos lados. Então abismávamo-nos de novo no espaço compreendido entre duas ondas, aguardando outro embate.
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Sobre o dia a dia na jangada
Quanto a mim, tinha bastante que fazer com o diário de bordo, a colecção de plâncton, a pesca e as fotografias. Cada homem tinha a sua esfera de responsabilidade e nenhum se intrometia no trabalho alheio. As ocupações piores, como cozinhar e montar guarda ao remo de direcção, eram divididas igualmente entre todos. Cada um tinha de ficar junto do remo duas horas por dia e duas horas por noite. O serviço de cozinha era distribuído de acordo com uma escala diariamente renovada.
Havia poucas leis e regulamentos a bordo. Reduziam-se mais ou menos ao seguinte: o vigia nocturno devia ter uma corda em volta da cintura; a corda salva-vidas tinha um lugar certo; todas as refeições deviam ser feitas fora da cabina; o WC situava-se exclusivamente na mais afastada extremidade dos toros, à ré. Se era necessário tomar alguma decisão importante, reuníamo-nos em assembleia, discutíamos o assunto e resolvíamos o que havia a fazer.
Um dia ordinário, a bordo da "Kon-Tiki", começava com a obrigação, que incumbia ao último vigia nocturno, de infundir um pouco de vida no cozinheiro, sacudindo-o; este, estremunhado, arrastava-se para o convés húmido, onde já batia o sol da manhã, e punha-se a recolher os peixes-voadores que ali caíam.
Em vez de comer os peixes crus, conforme a receita tanto polinésica como peruana, fritávamo-los sobre o fogãozinho "Primus" colocado no fundo do caixote, solidamente amarrado ao convés, do lado de fora da porta da cabina.
Este caixote era a nossa cozinha. Nele, havia abrigo contra os ventos alísios de sueste, que, por via de regra, sopravam do lado oposto ao da nossa cozinha. Somente quando o vento e o mar atiçavam a chama do "Primus" é que esta ameaçava pegar fogo ao caixote. Certa vez, o cozinheiro adormeceu e o caixote ficou em chamas, que se comunicaram à parede da cabina de bambu. Mas o fogo foi depressa extinto, porque, afinal, a bordo da "Kon-Tiki" não tínhamos de ir muito longe para buscar água.
Raramente o cheiro de peixe frito lograva acordar os dorminhocos no interior da cabina, e, assim, o cozinheiro tinha quase sempre de espicaçá-los com um garfo ou de cantar o É a hora do rancho, de uma maneira tão desafinada que ninguém podia suportar o berreiro por muito tempo.
Se, ao longo da jangada, não se viam barbatanas de tubarão, o dia principiava com um ligeiro mergulho no Pacífico, seguido da primeira refeição, feita ao ar livre na beira da jangada.
Companheiros e visitantes marinhos
Logo no primeiro dia em que ficámos sós no mar, reparámos nuns peixes que rodeavam a jangada, mas estávamos muito atarefados para pensarmos em pescarias. No segundo dia, deparou-se-nos um cardume de sardinhas e, logo depois, um tubarão azul de 2,40 metros veio rolar de barriga para cima, enquanto roçava na popa alagada da embarcação. Andou-nos rodeando por algum tempo, mas desapareceu quando, resolvidos a agir, pegámos num arpão.
No dia seguinte fomos visitados por atuns, bonitos e dourados, e quando um grande peixe-voador caiu na jangada, empregámo-lo como isco e imediatamente puxámos para dentro dois grossos dourados, respectivamente de 9 kg e e 16 kg cada um. Serviram-nos de alimento durante vários dias.
Quanto mais nos aproximávamos do Equador e nos distanciávamos da costa, mais comuns se tornavam os peixes-voadores. Quando, por fim, penetrámos na água azul, onde o mar rolava majestosamente, brilhante de sol e manso, vimo-los cintilar como uma chuva de projécteis, arrojando-se da água e voando em linha recta até que a sua força voadora se esgotasse. Então desapareciam abaixo da superfície.
A nossa intimidade com o mar só foi verdadeiramente compreendida por Torstein - que dormia com a cabeça na soleira da porta da cabina - quando, uma manhã, ao acordar, encontrou uma sardinha no travesseiro. Pegou nela pela cauda e segredou-lhe que todas as sardinhas gozavam da sua simpatia. Mas depois sucedeu qualquer coisa que fez com que Torstein fosse procurar, para dormir, um lugar no alto de todos os trens de cozinha.
Isso aconteceu algumas noites mais tarde. Estava escuro como breu, e Torstein havia colocado a lâmpada de parafina perto da cabeça. Por volta das quatro horas, acordou com a lâmpada revirada e uma coisa fria e húmida a roçar-lhe pelas orelhas. "Peixe-voador", pensou, tacteando no escuro a ver se o agarrava para o atirar longe. Pegou assim numa coisa comprida e molhada que se agitava como uma cobra, mas largou-a ao perceber que as mãos lhe ardiam como se estivessem queimando. O visitante invisível enroscou-se e escapuliu-se, indo passar por cima de Herman, enquanto Torstein procurava acender a lâmpada. Herman também acordou assustado, e isto, pondo-me igualmente desperto, lembrou-me o polvo que, naquelas águas, surgia à noite.
Depois que conseguimos acender a lâmpada, Herman, triunfante, estava sentado, segurando o pescoço de um peixe comprido e fino que se retorcia nas suas mãos como uma enguia. Tinha uns 95 centímetros de comprimento, era delgado como uma serpente, possuía feios olhos pretos e longo focinho com uma voraz mandíbula cheia de dentes afiados como navalhas.
Sob a pressão dos dedos de Herman, o animal regurgitou dois peixes brancos de cerca de 20 centímetros. Eram claramente duas "vítimas" que habitavam as grandes profundidades, e estavam bastante maltratados pelos dentes do peixe-cobra.
Bengt também acordara afinal com o barulho, e assim aproximámos do nariz dele a lâmpada e o comprido peixe. Estremunhado, sentou-se no seu saco de dormir e proclamou, com solenidade: Não, peixe assim não existe. E, virando-se pacatamente para o lado, tornou a adormecer.
Tubarões!
Não decorrera ainda muito tempo de viagem quando o primeiro tubarão nos visitou. Depois, as visitas tornaram-se uma ocorrência quase quotidiana. As mais das vezes seguiam na nossa esteira, logo atrás do remo de direcção, ali permanecendo sem tugir nem mugir, passando furtivamente de estibordo para bombordo e, vez por outra, dando uma rabanada mansa para acompanhar o plácido avanço da jangada.
Se o mar estava encapelado, as ondas eram capazes de erguer o peixe bem acima do nosso nível. Tínhamos então uma vista directa, lateral, do tubarão - como se este se achasse encerrado numa redoma de vidro -, quando ele nadava no nosso rumo, com porte majestoso, e precedido da sua escolta de peixes-pilotos, bem à frente das suas mandíbulas.
Por alguns segundos, parecia que não só o tubarão mas também os seus companheiros iriam entrar a bordo, mas a jangada inclinava-se, graciosamente, para sotavento, erguia-se sobre a crista das ondas e baixava do outro lado.
Na realidade, tínhamos grande respeito pelos tubarões, devido à sua fama e à sua aparência assustadora. Havia uma força indomável naquele corpo aerodinâmico, um grande feixe de músculos de aço, com os olhinhos verdes de gato e as imensas mandíbulas.
Quando o timoneiro gritava tubarão a estibordo! ou tubarão a bombordo!, costumávamos sair à procura de arpões e fateixas e postávamo-nos ao longo da beira da jangada. O nosso respeito pelo animal crescia quando víamos as fateixas vergar como esparguetes ao baterem contra a lixa do dorso do peixe, ao passo que as pontas dos arpões se rompiam no aceso da batalha, durante a qual a água fervia ao redor de nós e o animal lograva soltar-se e lá se ia embora.
Para salvar a ponta do nosso último arpão, amarrámos, num feixe, os nossos maiores anzóis e escondemo-los no interior da carcaça de um dourado. Atirámos o isco ao mar com infinitas precauções, depois de havermos amarrado algumas linhas de aço no parapeito da jangada.
O tubarão aproximou-se, confiado e vagaroso, e ao mesmo tempo que levantava o focinho acima da água, abriu de golpe as grandes mandíbulas em forma de crescente e fez resvalar por elas dentro o dourado inteiro.
Houve então uma batalha durante a qual o tubarão vergastava a água espumante, mas nós segurávamos a corda com muita firmeza, e a custo arrastámos o animal até aos toros posteriores, onde abriu a boca como para nos intimidar com as filas paralelas de uns dentes que pareciam serrotes.
Então aproveitámos uma onda mais forte para fazer o tubarão deslizar, suspendendo-o pela extremidade mais baixa dos toros, escorregadia por causa das algas, e, depois de laçar com uma corda a barbatana caudal, puxámo-lo facilmente para bordo. Na cartilagem do nosso primeiro tubarão achámos a ponta do arpão. Estava tudo terminado.
O monstro
Estávamos a 24 de Maio e vogávamos num mar calmo. Era quase meio-dia e acabávamos de deitar à água as tripas de dois grandes dourados que tínhamos pescado de manhã cedo. Eu dava um refrescante mergulho junto à proa, preso à ponte por uma corda, quando avistei um grosso peixe pardo que vinha na minha direcção. De um pulo, galguei a beira da jangada e sentei-me ao sol quente observando o peixe que passava tranquilamente, quando ouvi um formidável berro de Knut: Tubarão!
Como quase diariamente víamos, sem tamanho estardalhaço, tubarões nadando ao lado da jangada, compreendemos que se devia tratar de um novo espécime e reunimo-nos todos na popa para o observar.
Avistámos a cabeça de um verdadeiro monstro marinho, tão descomunal e horroroso que o próprio Neptuno, surgindo com o seu tridente dos abismos do oceano, não nos faria impressão maior. A cabeça era larga e chata como a de uma rã, com dois olhinhos de cada lado e uma mandíbula de sapo, de 1,20 m ou 1,50 m de largura, e com longas franjas a penderem-lhe dos cantos da boca. Atrás da cabeça, estendia-se um enorme corpo terminando em comprido e fino rabo com uma pontuda barbatana caudal erecta, a provar que aquele monstro não era nenhuma espécie de baleia.
Tratava-se, na realidade, de um tubarão-gigante [tubarão-baleia], o maior peixe hoje conhecido no mundo. Possui, em média, 15 m de comprimento e, segundo os zoólogos, chega a pesar 15 toneladas. Mas dizem que alguns espécimes podem atingir os 20 m.
O monstro era tão grande que, quando começou a nadar descrevendo círculos, em redor de nós e sob a jangada, a sua cabeça podia ser vista de um lado enquanto a cauda inteira avultava do outro. Repetidas vezes descreveu círculos cada vez menores sob a jangada, enquanto nós aguardávamos o que podia acontecer. Ao sair da outra banda, deslizou lentamente sob o remo de direcção e ergueu-o no ar, enquanto a pá do remo resvalou ao longo do seu dorso.
Não havia indício de que o tubarão-gigante pensasse em nos deixar; fazia círculos e mais círculos e seguia-nos como um cão fiel, perto da jangada. Afinal, aquilo afigurou-se demasiado irritante para Erik, que estava de pé empunhando um arpão de 2,40 m. Quando o tubarão-gigante veio deslizando vagarosamente na direcção dele, Erik, com toda a sua força gigantesca, arremessou o arpão que foi cravar-se na cabeça cartilaginosa do animal. Então, repentinamente, o plácido lorpa transformou-se numa montanha de músculos de aço.
Ouvimos um ruído sibilante quando a linha do arpão passou violentamente sobre a beira da jangada, e vimos um cascatear de água quando o monstro ergueu alto a cabeça para logo depois mergulhar nos abismos. Os três homens que se achavam mais perto foram atirados de pernas para o ar, e dois deles ficaram esfolados e queimados pela linha que fendia o ar. A linha grossa, com resistência suficiente para amarrar um bote, partiu-se como um pedaço de cordel, e uns segundos depois um arpão quebrado surgiu à tona da água a mais de 180 metros de distância. Ficámos longo tempo à espera de que o monstro voltasse como um submarino furioso; mas nunca mais vimos nenhum vestígio dele.
Primeiro avistamento da Polinésia
Na noite de 29 para 30 de Julho, nova e estranha atmosfera pairava sobre a "Kon-Tiki". Era talvez o alarido ensurdecedor das aves marítimas sobre nós, como para mostrar que, breve, teríamos novidades.
A algazarra das aves era vibrante e terrestre, depois do surdo rangido de cordas sem vida, única coisa que ouvíramos, além do estridor do mar, durante os três meses de navegação.
Às seis horas, Bengt desceu da ponta do mastro, acordou Herman e deitou-se. Quando Herman marinhou pelo mastro rangedor e oscilante, o dia começava a raiar. Dez minutos depois tornava a descer pela escada de corda e puxava-me pela perna: Saia e venha ver a sua ilha!
Tinha o rosto radiante. Pus-me em pé de um salto, no que fui imitado por Bengt, que ainda não pegara no sono. Um atrás do outro, amontoámo-nos no lugar mais alto que pudemos atingir, no ponto em que os mastros se cruzavam.
Terra! Uma ilha! Devorámo-la avidamente com os olhos e acordámos os outros, que, estremunhados, saíram de roldão e olharam para todos os lados como se pensassem que a proa da jangada ia já abicar a uma praia. Barulhentas aves marinhas formavam uma ponte, através do céu, na direcção da ilha distante, que tomava a cor do ouro com a aproximação do sol e a plena luz do dia.
No entanto, na nossa posição actual, o vento não nos permitia colocar a jangada no rumo da ilha. A região que ficava em redor do arquipélago de Tuamotu estava cheia de fortes correntes oceânicas que se ramificavam em vários sentidos e nos impediam o acesso a terra.
Às seis e meia, o sol emergiu do mar e subiu directamente, como acontece nos trópicos. A ilha ficava distante algumas milhas marítimas e, de longe, parecia uma faixa de floresta que se estendia no horizonte. Pelos nossos mapas, tratava-se da ilha de Puka-puka, posto avançado do arquipélago de Tuamotu.
Todos nos sentimos cheios de uma satisfação plena e tranquila por havermos, de facto, alcançado a Polinésia, mas a essa satisfação vinha misturar-se ligeiro e momentâneo desencantamento pela irremediável situação de apenas podermos ver a ilha, que permanecia como uma miragem, enquanto prosseguíamos o nosso longo cruzeiro para oeste.
A ilha começara agora a diminuir e a ficar à nossa retaguarda, de modo que recebíamos dela ligeiros sopros de aragem. Durante uns quinze minutos, eu e Herman, agarrados à ponta do mastro, deixámos o cheiro quente de folhagem e verdura coar-se pelas nossas narinas.
Aquilo era a Polinésia, aquele rico cheiro de terra seca após noventa e três dias de água salgada e no meio das ondas.
Às oito e meia, Puka-puka afundou-se no mar atrás de nós, mas até às onze horas pudemos ver uma esgarçada lista azul acima do horizonte, a leste. Depois, também isto desapareceu, e uma nuvem alta, elevando-se quase imóvel para o céu, era o único indício que se tinha da situação de Puka-puka.
Desembarque na ilha deserta de Raroia (Polinésia)
(7 de Agosto de 1947)
No extremo sul estava uma ilha comprida, toda coberta de coqueiros. E logo acima de nós, ao norte, ficava outra ilha de coqueiros, mas consideravelmente menor. Achava-se no interior do recife, com os cimos das palmeiras erguendo-se para o céu e com as praias de areia alvíssima estendendo-se até se perderem na plácida lagoa. A ilha toda parecia um verde açafate de flores, um pedacinho onde se concentrara o Paraíso.
Foi essa ilha que escolhemos.
A "Kon-Tiki" permanecia à distância, no recife, recebendo o esguicho das ondas. Era uma embarcação naufragada, mas era-o com muita honra. Tudo o que estivera por cima do convés achava-se esfacelado, mas os nove troncos de madeira de balsa da floresta de Quivedo, no Equador, estavam intactos. Tinham-nos salvado a vida.
A carga que o mar tomara para si fora pouca, e não se perdeu nenhuma da que havíamos depositado no interior da cabina.
Relanceei um último olhar pela "Kon-Tiki". Fui andando a vau até à ilha. A certa distância lobriguei Knut, dirigindo-se também para terra e transportando sob o braço uma miniatura da "Kon-Tiki" que fizera, com muito trabalho, durante a viagem.
Pouco depois passámos por Bengt. Com um galo na testa e água salgada a gotejar da barba, vinha curvado, arrastando um caixote que oscilava diante dele cada vez que, lá de fora, os vagalhões enviavam uma corrente para o interior da lagoa. Com orgulho, levantou a tampa. Era o caixote da cozinha, e dentro dele iam o "Primus" e demais utensílios em boa ordem.
Nunca esquecerei a caminhada, através do recife, em demanda da ilha paradisíaca, que se fazia maior à medida que nos aproximávamos. Quando alcancei a praia cheia de sol, tirei os sapatos e pus os pés, nus, sobre a areia quente e seca. Causou-me um prazer intenso ver cada vestígio deixado por mim na arenosa praia virgem que ia dar aos coqueiros. Não tardou que me achasse debaixo deles e fui assim andando na direcção do centro da ilha.
Cocos verdes pendiam dos ramos e algumas moitas densas encobriam flores alvíssimas de perfume tão suave e sedutor que quase me sentia desfalecer. No interior da ilha, duas andorinhas do mar, mansíssimas, voavam quase sobre os meus ombros. Eram tão brancas e leves como farrapos de nuvens. Pequenos lagartos passavam rápidos perto dos meus pés, e os habitantes mais importantes da ilha eram grandes caranguejos bernardos eremitas, vermelhos cor de sangue, que se moviam pesadamente em todas as direcções.
Sentia-me verdadeiramente esmagado. Caí de joelhos e enterrei os dedos na areia quente e seca.
A viagem estava terminada.
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| O fim da viagem. Caminhando pelo recife em direcção à ilha de Raroia. |
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| Os seis expedicionários, depois de recuperarem a "Kon-Tiki" |
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| A rota de 8000 kms da "Kon-Tiki", entre Callao (Peru) e Raroia (Polinésia) |
NOTA
As fotos a preto e branco foram tiradas pelos expedicionários. Algumas foram obtidas do exterior da jangada, a partir do bote de borracha auxiliar.
As fotos coloridas foram extraídas do filme norueguês "Kon Tiki", realizado em 2012 por Joachim Ronning e Espen Sandberg. O actor Pal Sverre Valheim Hagen interpretou o papel de Thor Heyerdahl. Existe edição portuguesa do filme.
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