sábado, 1 de outubro de 2011

Lisboa, Portugal - Nas encostas do castelo de S. Jorge
















































































































































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A cidade de Lisboa foi conquistada aos Mouros, no ano de 1147, pelo primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques.
Haviam decorrido 436 anos sobre a vitoriosa invasão muçulmana da Península Ibérica comandada pelo berbere Tariq ibn Zyiad, governador de Tânger (ano de 711, desembarque em Gibraltar).
No assalto à cidade, D. Afonso Henriques foi auxiliado por uma armada de cruzados (anglo-normandos, flamengos e alemães), num total de cerca de 13000 homens.
Os sangrentos combates tiveram início em finais de Junho de 1147. A 25 de Outubro, depois de corajosa e desesperada resistência dos muçulmanos, o castelo e a cidade caíam definitivamente nas mãos dos Portugueses.
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As fotos pertencem ao arquivo da Torre, com excepção da última, de autor(a) desconhecido(a).
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domingo, 25 de setembro de 2011

Pembe, Angola - Foi há 107 anos...

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Tropas portuguesas atravessam o vau do Pembe, no rio Cunene

Pode relembrar aqui:
Derrota portuguesa no Pembe

sábado, 24 de setembro de 2011

Máscaras Africanas

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1 Costa do Marfim
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2  Guiné





3 Mali





4  Gabão





5  Costa do Marfim





6  Nigéria





7  Burkina Faso





8  Congo (ex-Zaire)





9  Nigéria





10  Angola





11  Costa do Marfim

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

sábado, 16 de abril de 2011

Aos que não voltam

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"A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada...
De tudo o que se passou comigo só conservo a memória intacta de dois ou três rápidos minutos. Esses, sim! Teimam, reluzem lá no fundo e inebriam-me, como um pouco de água fria embacia o copo.

Só de pequeno retenho impressões tão nítidas como na primeira hora: ouço hoje como ontem os passos de meu pai quando chegava a casa; vejo sempre diante dos meus olhos a mancha azul-ferrete das hidrângeas que enchiam o canteiro da parede. O resto esvai-se como fumo.

Até as figuras dos mortos, por mais esforços que eu faça, cada vez se afastam mais de mim… Algumas sensações, ternura, cor, e pouco mais. Tinta. Pequenas coisas frívolas, o calor do ninho, e sempre dois traços na retina, o cabedelo de oiro, a outra banda verde…

Passou depois por mim o tropel da vida e da morte, assisti a muitos factos históricos, e essas impressões vão-se desvanecidas. Ao contrário, este facto trivial ainda hoje o recordo com a mesma vibração: a morte daquela laranjeira que, de velha e tonta, deu flor no inverno em que secou.
O resto usa-se hora a hora e todos os dias se apaga.
Todos os dias morre.

Lá está a velha casa abandonada, e as árvores que minha mãe, por sua mão, dispôs: a bica deita a mesma água indiferente, o mesmo barco arcaico sobe o rio, guiado à espadela pelo mesmo homem do Douro, de pé sobre a gaiola de pinheiro.

Só os mortos não voltam.
Dava tudo no mundo para os tornar a ver, e não há lágrimas no mundo que os façam ressuscitar." (*)
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(*) - Raul Brandão - Portugal (1867-1930).
Memórias - 1.º vol. - Editado por "Renascença Portuguesa," Porto, 1919
(Prefácio, pág. 10-12 ).
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segunda-feira, 7 de março de 2011

Júlio Dantas

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"(…) Figura insigne da literatura portuguesa, Dantas é uma daquelas personalidades sobre as quais foi lançado um manto de silêncio. Hoje em dia, os chamados intelectuais evitam pronunciar o seu nome e citar a sua obra e, quando o fazem, é normalmente com um sentido de escárnio e mal-dizer. Nos tempos que correm, só é possível mencionar o nome de Dantas quando se evoca o Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, cuja redacção se deve unicamente à projecção de Júlio Dantas na sociedade portuguesa de então.
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Júlio Dantas nasceu em Lagos, em 19 de Maio de 1876, e morreu em Lisboa em 25 de Maio de 1962. Médico por formação e escritor por vocação, oficial do exército, jornalista, tradutor, presidente do Conservatório Nacional, embaixador no Brasil, ministro da Instrução Pública e dos Negócios Estrangeiros, foi durante muitos anos presidente da Academia das Ciências, cargo em que se nobilitou e nobilitou a Academia.
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Consideram muitos o seu estilo pomposo, a sua escrita retrógrada quando não reaccionária, censuram-lhe a sua suposta conivência com o anterior regime, a sua ignorância dos temas sociais. Nem sequer lhe reconhecem que foi, no seu tempo, um dos portugueses que melhor manejou a língua portuguesa e a quem figuras gradas pediam conselho antes de publicarem os seus escritos.
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Para além dos discursos, peças de oratória notável que revelam uma cultura humanística das mais brilhantes do seu tempo, Dantas escreveu poesia, prosa e teatro, deixando-nos obras, hoje infelizmente esgotadas ou que apenas se encontram, e com dificuldade, em alfarrabistas e leilões, que foram um sucesso na sua época e muitas o seriam ainda hoje, se fossem lidas, o que é difícil dada a conspiração de silêncio que se teceu à sua volta.
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Das suas peças, o público (e só o mais informado) conhecerá apenas A Ceia dos Cardeais, aliás traduzida em mais de vinte línguas, e A Severa, até pelo filme que dela extraiu Leitão de Barros e que foi o primeiro filme sonoro português. Quem se recorda de Um Serão nas Laranjeiras, Santa Inquisição, Frei António das Chagas ou Os Crucificados, em que se aborda pela primeira vez no nosso teatro, e num ambiente proletário, um caso de homossexualidade?
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E da obra em prosa, quem se lembrará de Pátria Portuguesa, de O Amor em Portugal no Século XVIII ou de Marcha Triunfal? Já para não falarmos dos seus discursos, notáveis peças que fariam corar de vergonha, se a tivessem, os discursadores dos nossos dias!

Não cabe, neste pequeno apontamento, tudo o que haveria a dizer sobre Júlio Dantas, não só na literatura como na própria política. Agora considerá-lo um escritor menor, ou ignorá-lo, só poderá acontecer por ignorância (que é o que prolifera nos nossos dias) ou por má-fé."

Fonte: blogue “Do Médio Oriente e afins” (26-Maio-2009)
Com a devida vénia e parabéns pelo texto.
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domingo, 27 de fevereiro de 2011

O Mítico "Cavaleiro Andante" (n.º 11 a n.º 20)

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Semanário juvenil publicado pela ENP (Empresa Nacional de Publicidade - Lisboa - Portugal).
Estes dez números viram a luz do dia entre 15 de Março e 17 de Maio de 1952.
20 páginas.
Histórias em continuação (por vezes adaptações de grandes clássicos).
Preço: 1$80 (um escudo e oitenta centavos), cerca de 0,9 cêntimos do actual euro.
Pode ver as capas dos dez primeiros números aqui.
Para acesso a outros lançamentos desta Editora, clicar, abaixo, na respectiva etiqueta ("Empresa Nacional de Publicidade").
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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Líbia - As Amazonas de Kadhafi

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"São jovens, bonitas e treinadas para matar.
Muammar Kadhafi dispensa os tradicionais seguranças masculinos de fato e óculos escuros. Só aceita ser escoltado por mulheres seleccionadas a dedo para integrar a sua Guarda Amazónica.

Submetidas a um treino intensivo numa academia especial, as amazonas do ditador líbio aprendem artes marciais e tornam-se especialistas em armas de fogo.
Em viagens oficiais, o governante, que tem recusado abandonar o poder apesar dos fortes protestos na capital, costuma fazer-se acompanhar de 30 ou 40 elementos de segurança.
Onde quer que vão, as amazonas de Kadhafi são o centro das atenções: apresentam-se maquilhadas, usam salto alto, penteados de estilo ocidental e vestem uniforme militar.
Fortemente armado, este grupo de mulheres faz parte da longa lista de excentricidades do Chefe do Estado líbio.

Para integrarem a força de segurança, as jovens, também responsáveis por vigiar a tenda onde o líder beduíno fica alojado nas suas viagens, têm de ser virgens e fazer um voto de castidade.
Ainda assim, os supostos critérios de selecção anunciados pelo regime não impedem que corram rumores sobre o alegado envolvimento sexual entre Kadhafi e as suas amazonas.
Para entrar na Guarda Amazónica, as mulheres têm de jurar proteger o seu líder com a vida.

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Durante uma visita a Itália em Agosto do ano passado para estreitar relações com o Governo de Silvio Berlusconi, Kadhafi discursou perante centenas de jovens e pediu-lhes que se convertessem ao Islão.
O líder afirmou ainda que as mulheres são mais bem tratadas no seu país do que no Ocidente, dando origem a uma acesa polémica em Itália.

Documentos revelados pela WikiLeaks em Novembro revelam, contudo, que tem havido "uma diminuição da importância" das agentes que protegem Kadhafi.
"Só uma guarda feminina foi incluída na delegação composta por 350 pessoas que acompanhou Kadhafi na sua viagem a Nova Iorque", pode ler-se na correspondência trocada entre diplomatas americanos e o Departamento de Estado dos Estados Unidos, em Setembro de 2009.
"Observadores em Tripoli especulam que a sua guarda feminina está a começar a ter um papel menos significativo em termos de segurança pessoal", acrescenta-se no documento.

Viajar com um dispositivo de segurança fortemente armado já trouxe alguns problemas a Kadhafi.
Quando em Novembro de 2006 o Presidente líbio aterrou em Abuja, na Nigéria, acompanhado de 200 seguranças, as autoridades do aeroporto recusaram-se a deixá-lo entrar na cidade. Em causa não estava o número de elementos da comitiva, mas antes a quantidade de armas e munições que eram transportadas. Após a intervenção do então presidente nigeriano, Olusegun Obasanjo, Kadhafi aceitou entregar grande parte do armamento, mas antes ainda ameaçou ir a pé até ao centro da cidade, que fica a 40 quilómetros do aeroporto.

Mas não é só a sua segurança que Kadhafi deixa nas mãos das mulheres.
Para onde quer que vá, o ditador faz-se acompanhar por uma equipa de quatro enfermeiras. Uma delas é descrita por diplomatas americanos como uma "loira voluptuosa", com quem o ditador manterá uma relação amorosa e que poderá ser uma das suas companhias no bunker onde agora se encontra refugiado."  (*)
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(*) - Catarina Reis da Fonseca - Diário de Notícias - Lisboa - Portugal (26-Fev-2011)
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Neste mesmo instante...

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Neste mesmo instante
há um homem que sofre,
um homem torturado
tão somente
por amar a liberdade.
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Ignoro onde vive,
que língua fala,
de que cor é a sua pele,
como se chama,
mas neste mesmo instante,
quando os teus olhos lêem
o meu pequeno poema,
esse homem existe,
grita,
pode-se ouvir o seu pranto
de animal acossado,
enquanto morde os lábios
para não denunciar os amigos.
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Ouves?
Um homem, só, grita
amarrado,
existe em algum lugar.
Eu disse só?
Não sentes, como eu,
a dor do seu corpo
repetida no teu?
Não te brota o sangue
sob os golpes cegos?
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Ninguém está só.
Agora,
neste mesmo instante,
também a ti e a mim
nos mantêm amarrados.
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José Agustin Goytisolo
Barcelona - Espanha (1928-1999)
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Grandes Quadros

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A Triste Mensagem
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Peter Fendi (1796-1842)

Áustria

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Homens e mulheres na corte do rei D. João V de Portugal (1707-1750)


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"D. João V, esse rapazola «un peu fou», como dizia Mathieu Marais no seu Journal, trouxe à corte sorna e beata do princípio do século XVIII uma verdadeira convulsão.
Revolucionou tudo, transformou tudo.
Com o avô D. João IV, o paço fora uma capela; com o tio Afonso VI, uma cavalariça; com o pai Pedro II, um mosteiro.
D. João V sacudiu dos seus manguitos de renda toda a poeira do passado — e acabou com o mosteiro, com a cavalariça e com a capela.
Pois quê? Os seus vinte anos haviam de deixar-se abafar naquela corte sem mocidade e sem mulheres, por cujos corredores soturnos, em silêncio, não passavam senão velhos e frades?
Não.
O sonho de Versailles, que ele nunca vira, deslumbrava-o, acenava-lhe de longe.

Uma corte não podia ser uma sacristia, nem um picadeiro, nem um claustro.
Uma corte como ele a entendia, como ele a sentia — ele, afilhado do Rei-Sol — devia ser alguma coisa de vivaz, de brilhante, de luminoso, de magnífico, um gineceu doirado por onde o galo real passeasse, rufiando a asa e encrespando a crista, com a Jarreteira no joelho, a impertinência no olhar e o Tosão de Oiro ao pescoço.

No Paço da Ribeira só havia salas bafientas, escuras, monásticas, com tectos de tumba e chão de tijolo? Que importava! Faziam-se outras.
As mulheres fechavam-se, embiocavam-se, aferrolhavam-se à mourisca nas suas câmaras, com medo de que os homens as comessem?
Pois bem: o rei era ele, a moda era ele.
Haviam de vir dançar com os homens, falar com os homens, conviver com os homens — fazer cintilar, naquela Versailles saloia do Arco dos Pregos, à luz de quinhentas velas acesas, a sua nobreza e a sua graça, a sua mocidade e as suas jóias.
Iam murmurar os Catões do Paço?
Que importavam os Catões velhos à juventude insolente de D. João V!
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Mariana de Áustria chegou, com os seus jesuítas, os seus cães, a sua fealdade, os seus cravos holandeses. O rei casou-se.
E da sombra do velho Paço do século XVII, da capela de D. João IV, da cavalariça de Afonso VI, do mosteiro de Pedro II, jorrando luz, faúlhando talhas, sacudindo polvilhos, revoando pinturas, enchendo, dum topo a outro, a nova Sala dos Embaixadores, entre leques e espadins, púrpuras de cardeal e casacas de seda, cabeleiras de França e músicos de Itália, acanhada ainda, hesitante ainda, tonta de liberdade e de claridade — a corte de D. João V surgiu.

Sem luta?
Não.
Não se afastam séculos de tradição, ligeiramente, com o tacão vermelho dum sapato.
O «Portugal novo» aplaudiu; mas o «Portugal velho», tudo quanto havia de anacrónico, de conservador na nobreza palatina, não duvidou protestar, respeitosamente embora, contra hábitos estrangeiros de licença e de escândalo que vinham perturbar a serenidade patriarcal da corte portuguesa.

Formaram-se dois partidos: o da «moda nova», capitaneado pelo conde da Ericeira, D. Francisco, homem elegante, desempoeirado, jovial; e o da «moda velha», pelo conde de Vimioso, espécie de duque de Saint-Simon, azedo e formalista, taciturno e devoto, para quem o lar era um mosteiro, a virtude uma clausura, e uma mulher — o diabo.

O primeiro tinha por si o rei.
O segundo tinha por si a tradição.

«Fui ao Paço (conta o desembargador Brochado para Londres, em carta ao conde de Viana) a perturbar com a minha beca a alegria de tão espaçosas salas, onde me dizem que há grandes disputas entre os cavalheiros para a constituição da nova corte; porque uns querem que as senhoras se deixem ver e venham conversar com eles nas antecâmaras; que joguem e bailem sem distinção de sexo e de idade; outros, pelo contrário, pregam retiro, silêncio e recato, e detestam o comércio de damas e cavalheiros».
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Não era fácil encontrar uma fórmula de conciliação entre a observância da Cartuxa e as festas do Grand Trianon.
Venceu quem tinha de vencer: o partido da «moda nova», o partido do conde da Ericeira — o partido do rei.

No dia 4 de Novembro de 1708, dia de S. Carlos, as salas dos Tudescos, dos Embaixadores, dos Leões, abriram-se, inundaram-se de luz, armaram-se de panos de Arras; damas acanhadas, deslumbradas, salpicadas de jóias, entraram aos bandos, tímidas, escorregando, escondendo-se, encostando-se umas às outras como ovelhas medrosas;
pela primeira vez, desde os bons tempos de D. Manuel, homens e mulheres encontraram-se, conheceram-se, cortejaram-se nas salas do Paço; a rainha tocou cravo; a infanta D. Francisca, muito gorda, muito corada, muito empoada, dançou;

os moralistas de bioco do Portugal velho cuidaram que se tinha acabado o mundo e a vergonha — e Luís Manuel da Câmara, alarmado, apreensivo, contava para a Holanda, seis dias depois, em carta a D. Luís da Cunha: «houve um baile no dia de S. Carlos, em que dançaram e cantaram as damas do paço na presença de damas e fidalgos; el-Rei está teimoso em estrangeirar o nosso país, e não sei até onde chegará...»
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Desde esse dia produziu-se — era inevitável— uma profunda modificação nos costumes e na moral da corte.
A sedução nasceu.
A graça revelou-se.
Cultivou-se a elegância.
Balbuciou a intriga.
Surgiu o amor.

A nobreza portuguesa do princípio do século XVIII, carrancuda e beata, sorna e patriarcal, que mandava casar as filhas sem elas saberem com quem, teve de contar, daí por diante, com um elemento novo.
A menina fidalga, a frança do Paço, requestada, galanteada, perseguida — pôde amar e escolher. Escolhendo — dignificou-se.
Dignificando-se — dominou.

O motivo sentimental começou a intervir nos casamentos da corte.
As mulheres das grandes casas fidalgas continuavam a viver reclusas como cónegas, a sete chaves, de pernas encruzadas sobre a sua esteira?
D. João V trouxe-as ao Paço — e insensivelmente, inconscientemente, foi fazendo desse Paço uma escola de convivência e de galanteria, que as poliu, que as sociabilizou, que as libertou, que as revelou a si mesmas, que as educou na arte subtil de conversar, de perturbar, de seduzir.
É por isso que, a partir D. João V, o culto da mulher ganha em interesse, em curiosidade, em volúpia." (*)

(*) Fonte - Júlio Dantas - O Amor em Portugal no Século XVIII
Livraria Chardron de Lello&Irmão
Porto - Portugal (1916)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Salário

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Ó que lance extraordinário:
aumentou o meu salário
e o custo de vida, vário,
muito acima do ordinário,
por milagre monetário
deu um salto planetário.

Não entendo o noticiário.
Sou um simples operário,
escravo de ponto e horário,
sou caxias voluntário
de rendimento precário,
nível de vida sumário,
para não dizer primário,
e cerzido vestuário.

Não sou nada perdulário,
muito menos salafrário,
é limpo meu prontuário,
jamais avancei no Erário,
não festejo aniversário
e em meu sufoco diário
de emudecido canário,
navegante solitário,
sob o peso tributário,
me falta vocabulário
para um triste comentário.

Mas que lance extraordinário:
com o aumento de salário,
aumentou o meu calvário!


(Carlos Drummond de Andrade - 1902-1987)

Brasil.