domingo, 23 de janeiro de 2011

Zdenek Burian, pintor da Pré-História (2) - Os Outros Seres

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Zdenek Burian
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O artista nasceu e faleceu na República Checa (1905-1981).
Além dos animais, ele reconstituiu de forma genial as primeiras manifestações da Humanidade na Terra, ilustrando as cenas do quotidiano - a caça, a arte, a cozinha (ver, neste blogue, 14-Dezembro-2010).
A sua paixão pelas paisagens e a estreita relação que manteve com arqueólogos e paleontólogos contribuíram decisivamente para a credibilidade das cenas que apresenta.
Grande parte das suas obras acha-se no Museu de Brno (República Checa).

sábado, 22 de janeiro de 2011

A uma fábrica fechada (Domingos Carvalho da Silva)


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Atrás da pele de tuas paredes
os êmbolos dormem
e há nas sirenes um silêncio
de horizonte.

Os dínamos guardam o repouso
dos minerais ocultos,
as alavancas dobram os joelhos na laje.

Nas veias de cobre
o sangue é
apenas
um caminho de luz

Quieta,
és como um esqueleto montado,
vazio de vozes humanas,
planeta morto.

Quieta,
és uma pedra apenas,
e em tua superfície
morre de inanição
a última raiz do musgo.

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Domingos Carvalho da Silva (1915-2004)
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Domingos Carvalho da Silva nasceu em Portugal (Pedroso, Vila Nova de Gaia), mas, chegando criança ao Brasil, com seus pais, adquiriria em 1937 a cidadania brasileira por naturalização.
Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de São Paulo.
Foi advogado, funcionário federal e jornalista.
E também poeta, contista e ensaísta.
Leccionou Teoria da Literatura na Universidade de Brasília.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Grandes Quadros (Caravaggio)

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A Ceia de Emaús
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Michelangelo Merisi da Caravaggio

Itália (1571-1610)

sábado, 15 de janeiro de 2011

A Invencível Armada Espanhola (1588)

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Em 1588, Filipe II (1527-1598) era rei de Espanha, de Nápoles, da Sicília e dos Países Baixos. E, também, de Portugal, país que a Espanha dominou no período compreendido entre 1580 e 1640, como consequência do desastre militar lusitano em Alcácer Quibir, Norte de África, em 1578 (ver, neste blogue, 16-Dezembro-2007).

Nesse ano de 1588, Felipe II estava à beira de tornar o seu reino o maior império de que havia memória. Do seu lado tinha um poder absoluto, uma ideologia de pendor universal (o catolicismo militante da época, com propósitos de expansão da fé contra a heresia protestante), um exército e marinha temíveis e aliados poderosos como a Santa Liga e o Papa Sisto V.


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Como pretextos de acção imediata, Filipe II invocava os ataques dos corsários ingleses aos seus navios e portos e o suplício da rainha católica Maria Stuart, da Escócia, que fora mandada executar por sua prima, a rainha Isabel I da Inglaterra (1533-1603).

No caminho expansionista dos Espanhóis atravessava-se precisamente esta Inglaterra de Isabel I, a grande campeã herética contra o mundo católico, que constituía também uma ameaça devido ao desenvolvimento agressivo do seu comércio e aos ataques constantes às possessões ultramarinas da Espanha e de Portugal.

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Grandes forças terrestres, sob o comando do general espanhol Alexandre Farnésio, duque de Parma, preparavam-se nos Países Baixos para invadir a Inglaterra, logo que fosse eliminado o domínio inglês no canal da Mancha.

Para isso, Filipe II encarregou o seu mais famoso almirante, Álvaro de Bazán, marquês de Santa Cruz, de organizar uma armada capaz de derrotar a inglesa. O marquês iniciou os preparativos, mas morreria em Fevereiro de 1588, pelo que o rei de Espanha tratou de nomear novo almirante, desta vez Alonso Pérez de Guzmán, duque de Medina Sidónia.

Em carta ao rei, o duque de Medina Sidónia alertou para a sua completa ignorância das coisas do mar e para a sua inexperiência em assuntos de guerra. Mas o projecto foi avante. E assim se reuniram no rio Tejo, em Lisboa (Portugal), cerca de 200 velas e um exército de 20 000 homens – a mais grandiosa esquadra da Idade Moderna, considerada “invencível” pelo rei espanhol, e que, por tal motivo, ficaria conhecida nas páginas de história pela designação de La Grande y Felicísima Armada, ou Armada Invencible ou, ainda, Armada Española.
Eram portugueses muitos dos navios, tal como uma parte considerável das tripulações.

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No dia 9 de Maio de 1588, a Invencível largou de Belém para a barra, que só conseguiu ultrapassar a 28. A 19 de de Junho arribava à Corunha (Galiza, Norte de Espanha), apresentando-se dispersa, com água aberta nalguns navios, provisões apodrecidas e infestada de doenças.
Novas cartas então dirigidas a Filipe II só tiveram por resposta a ordem de apressar a partida, que se deu a 21 de Julho, chegando a Invencível à costa sudoeste de Inglaterra no dia 29.

Entre as suas instruções minuciosas, Filipe II chamava a atenção para a superioridade dos navios ingleses – mais apefeiçoados em casco e armação e dotados de muito maior velocidade de marcha e de manobra; dispunham ainda de peças de artilharia superiores em número e em alcance de tiro. Por isso, dizia o rei, eles deveriam ser atacados por barlavento e a pequena distância.
Como é que isso se poderia fazer é que ele não explicava.
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De 29 de Julho a 6 de Agosto de 1588, a Armada Invencible seguiu de perto a costa inglesa (ver mapa). Embora revelasse uma precisão de manobra impressionante, para além de elevada disciplina e invulnerabilidade da sua formação em crescente, não conseguiu jamais forçar os Ingleses a uma batalha generalizada, nem, muito menos, obrigá-los ao combate próximo ou a manobras de abordagem.

Os Ingleses, por seu turno, verificando que não conseguiam dispersar a temível formação em crescente, passaram a fustigar de longe com a sua artilharia, quase impunemente, os navios inimigos, obrigando a que estes, nas suas tentativas de resposta, fossem gastando inutilmente a maioria das 123 790 balas de canhão com que tinham sido abastecidos.
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No dia 6 de Agosto, a Invencible, às portas do perigoso mar do Norte, com necessidade inadiável de reabastecimentos, fundeou em frente do porto de Calais. O ânimo das tripulações era péssimo e o optimismo inicial desaparecera por completo.

Nessa mesma noite, os Ingleses lançaram um ataque com navios incendiários, o que fez dispersar a Armada pela primeira vez.
A perseguição que logo se seguiu, e à qual os navios da Invencible mal podiam ripostar, causou as primeiras perdas sensíveis.
No dia 8 de Agosto os navios lograram voltar à formação, mas, apesar dos sacrifícios heróicos de alguns deles para forçarem as abordagens com os inimigos, só restaram como alternativas a fuga ou o aniquilamento total.
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Uma mudança de vento providencial ainda salvou a Invencible dos baixios de Dunquerque.
Medina Sidónia deu então ordem para que os navios regressassem a Espanha, contornando a Escócia e a Irlanda (cf. mapa).

Foi uma viagem de pesadelo, em que a sede, a fome, o esgotamento, as doenças, o mau estado dos navios e violentas tempestades desfalcaram brutalmente a Armada. Mesmo assim, ainda se salvaram alguns navios (há divergências sobre o seu número, havendo autores que apontam para 53 embarcações regressadas a Espanha).

Isabel I de Inglaterra recebe as suas tropas em Tilbury


Convém rectificar algumas lendas e inexactidões formadas desde então, especialmente no tocante à propalada inépcia do duque de Medina Sidónia, que comandou a Invencible. Hoje, já se lhe vai fazendo justiça e não terá sido ele o maior culpado do desastre.

Face às instruções que levava e às circunstâncias com que deparou, poucas decisões suas representam erros incontestáveis.
Mostrou-se modesto, sensato, corajoso, empenhado numa tarefa provavelmente irrealizável com os meios de que dispôs. Erros semelhantes aos seus foram cometidos pelas chefias inglesas, só que estas tiveram por si a vitória.
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Filipe II de Espanha recebe a notícia do desastre de La Invencible Armada
Consumado o desastre espanhol e o triunfo inglês, ambas as partes invocaram, à sua maneira, a intervenção divina.
Os católicos espanhóis lamentaram-se: “Não foram os homens que nos venceram, foi Deus!”.
Os protestantes ingleses, por sua vez, vangloriaram-se: A nossa causa é justa, Deus está connosco!

De qualquer modo, a ambição de Filipe II saldou-se num rude golpe para o seu prestígio, ao passo que a Inglaterra viu aumentar a sua importância como potência marítima, abrindo-se-lhe mares antes vedados e podendo atacar de futuro, com diferentes perspectivas de êxito, os domínios ultramarinos espanhóis e portugueses.

Quanto a Portugal, particularmente, faltando ainda 52 anos para recuperar a sua independência, o que aconteceu constituiu um gravíssimo desaire. Como se disse, muitos dos navios da Invencible eram portugueses, como o eram também centenas de marinheiros e soldados. O País sofreu as consequências de uma catástrofe que não havia provocado.
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Adaptado de:
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Rodrigo Machado – Armada Invencível – Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura – Vol. 2 - Editorial Verbo – Lisboa – Portugal.
Joaquim Veríssimo Serrão – Armada Invencível – Dicionário de História de Portugal – Vol. 1 – Livraria Figueirinhas – Porto – Portugal.
Antonio Ballesteros Beretta – Sintesis de Historia de España – Salvat Editores – Barcelona-Madrid – Espanha – 1952.
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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

sábado, 8 de janeiro de 2011

Malangatana - Uma perda para Moçambique e para Portugal

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Malangatana Valente Ngwenya

N - 6-Junho-1936 (Matalana - Moçambique)
F - 5-Janeiro-2011 (Matosinhos - Portugal)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Propaganda da Segunda Guerra Mundial (1939-1945)

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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Aberturas de Grandes Livros - "A Relíquia" (Eça de Queiroz)

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“(…) Eu nasci numa tarde de sexta-feira de Paixão; e a mamã morreu, ao estalarem, na manhã alegre, os foguetes da Aleluia. Jaz, coberta de goivos, no cemitério de Viana, numa rua junto ao muro, húmida da sombra dos chorões, onde ela gostava de ir passear nas tardes de Verão, vestida de branco, com a sua cadelinha felpuda que se chamava Traviata.

Eu cresci, tive o sarampo; o papá engordava; e o seu violão dormia, esquecido ao canto da sala, dentro de um saco de baeta verde. Num Julho de grande calor, a minha criada Gervásia vestiu-me o fato pesado de veludilho preto; o papá pôs um fumo no chapéu de palha; era o luto do Comendador G. Godinho, a quem o papá muitas vezes chamava, por entre dentes, "malandro".
Depois, numa noite de Entrudo, o papá morreu de repente, com uma apoplexia, ao descer a escadaria de pedra da nossa casa, mascarado de urso, para ir ao baile das Senhoras Macedos.

Eu fazia então sete anos; e lembro-me de ter visto, ao outro dia, no nosso pátio, uma senhora alta e gorda, com uma mantilha rica de renda negra, a soluçar diante das manchas de sangue do papá, que ninguém lavara, e já tinham secado nas lajes. À porta uma velha esperava, rezando, encolhida no seu mantéu de baetilha.

As janelas da frente da casa foram fechadas; no corredor escuro, sobre um banco, um candeeiro de latão ficou dando a sua luzinha de capela, fumarenta e mortal. Ventava e chovia. Pela vidraça da cozinha, enquanto a Mariana, choramingando, abanava o fogareiro, eu vi passar, no Largo da Senhora da Agonia, o homem que trazia às costas o caixão do papá. No alto frio do monte a capelinha da Senhora, com a sua cruz negra, parecia mais triste ainda, branca e nua entre os pinheiros, quase a sumir-se na névoa; e adiante, onde estão as rochas, gemia e rolava, sem descontinuar, um grande mar de Inverno. (…)
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Passados dias, acordaram-me, numa madrugada em que a janela do meu quarto, batida do sol, resplandecia prodigiosamente como um prenúncio de coisa santa. Ao lado da cama, um sujeito, risonho e gordo, fazia-me cócegas nos pés com ternura e chamava-me brejeirote.
A Gervásia disse-me que era o Senhor Matias, que me ia levar para muito longe, para casa da tia Patrocínio; e o Senhor Matias, com a sua pitada suspensa, olhava espantado para as meias rotas que me calçara a Gervásia. Embrulharam-me no xaile-manta cinzento do papá; o João, guarda da alfândega, trouxe-me ao colo até à porta da rua, onde estava uma liteira com cortinas de oleado.

Começamos então a caminhar por compridas estradas. Mesmo adormecido, eu sentia as lentas campainhas dos machos; e o Senhor Matias, defronte de mim, fazia-me de vez em quando uma festinha na cara, e dizia: Ora cá vamos.
Uma tarde, ao escurecer, parámos de repente num sítio ermo, onde havia um lamaçal; o liteireiro, furioso, praguejava, sacudindo o archote aceso. Em redor, dolente e negro, rumorejava um pinheiral. O Senhor Matias, enfiado, tirou o relógio da algibeira e escondeu-o no cano da bota.


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Uma noite, atravessámos uma cidade, onde os candeeiros da rua tinham uma luz jovial, rara e brilhante como eu nunca vira, da forma de uma tulipa aberta.
Na estalagem em que apeámos, o criado, chamado Gonçalves, conhecia o Senhor Matias; e depois de nos trazer os bifes, ficou familiarmente encostado à mesa, de guardanapo ao ombro, contando coisas do senhor barão, e da inglesa do senhor barão.

Quando recolhíamos ao quarto, alumiados pelo Gonçalves, passou por nós, bruscamente, no corredor, uma senhora, grande e branca, com um rumor forte de sedas claras, espalhando um aroma de almíscar.
Era a inglesa do senhor barão.
No meu leito de ferro, desperto pelo barulho das seges, eu pensava nela, rezando Ave-Marias.
Nunca roçara corpo tão belo, de um perfume tão penetrante; ela era cheia de graça, o Senhor estava com ela, e passava, bendita entre as mulheres, com um rumor de sedas claras...

Depois, partimos num grande coche, que tinha as armas do rei e rolava a direito por uma estrada lisa, ao trote forte e pesado de quatro cavalos gordos. O Senhor Matias, de chinelas nos pés e tomando a sua pitada, dizia-me, aqui e além, o nome de uma povoação aninhada em torno de uma velha igreja, na frescura de um vale. (…)
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Enfim, num domingo de manhã, estando a chuviscar, chegámos a um casarão, num largo cheio de lama.
O Senhor Matias disse-me que era Lisboa; e, abafando-me no meu xaile-manta, sentou-me num banco, ao fundo de uma sala húmida, onde havia bagagens e grandes balanças de ferro.
Um sino lento tocava à missa; diante da porta passou uma companhia de soldados, com as armas sob as capas de oleado.
Um homem carregou os nossos baús, entrámos numa sege, eu adormeci sobre o ombro do Senhor Matias. Quando ele me pôs no chão, estávamos num pátio triste, lajeado de pedrinha miúda, com assentos pintados de preto; e na escada uma moça gorda cochichava com um homem de opa escarlate, que trazia ao colo o mealheiro das almas.

Era a Vicência, a criada da tia Patrocínio. O Senhor Matias subiu os degraus conversando com ela e levando-me ternamente pela mão.
Numa sala forrada de papel escuro, encontramos uma senhora muito alta, muito seca, vestida de preto, com um grilhão de ouro no peito; um lenço roxo, amarrado no queixo, caía-lhe num bioco lúgubre sobre a testa; e no fundo dessa sombra, negrejavam dois óculos defumados. Por trás dela, na parede, uma imagem de Nossa Senhora das Dores olhava para mim, com o peito trespassado de espadas.

- Esta é a Titi - disse-me o Senhor Matias. - É necessário gostar muito da Titi... É necessário dizer sempre que sim à Titi!
Lentamente, a custo, ela baixou o carão chupado e esverdinhado. Eu senti um beijo vago, de uma frialdade de pedra; e logo a Titi recuou, enojada.
- Credo, Vicência! Que horror! Acho que lhe puseram azeite no cabelo!
Assustado, com o beicinho já a tremer, ergui os olhos para ela, murmurei:
- Sim, Titi.
Então o Senhor Matias gabou o meu génio, o meu propósito na liteira, a limpeza com que eu comia a minha sopa à mesa das estalagens.
- Está bem - rosnou a Titi secamente. - Era o que faltava, portar-se mal, sabendo o que eu faço por ele... Vá, Vicência, leve-o lá para dentro... lave-lhe essa ramela; veja se ele sabe fazer o sinal da cruz...
O Senhor Matias deu-me dois beijos repenicados. A Vicência levou-me para a cozinha.

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À noite vestiram-me o meu fato de veludilho; e a Vicência, séria, de avental lavado, trouxe-me pela mão a uma sala em que pendiam cortinas de damasco escarlate, e os pés das mesas eram dourados como as colunas de um altar.
A Titi estava sentada no meio do canapé, vestida de seda preta, toucada de rendas pretas, com os dedos resplandecentes de anéis. Ao lado, em cadeiras também douradas, conversavam dois eclesiásticos. Um, risonho e nédio, de cabelinho encaracolado e já branco, abriu os braços para mim, paternalmente. O outro, moreno e triste, rosnou só "boas noites". E da mesa, onde folheava um grande livro de estampas, um homenzinho, de cara rapada e colarinhos enormes, cumprimentou, atarantado, deixando escorregar a luneta do nariz.

Cada um deles vagarosamente me deu um beijo. O padre triste perguntou-me o meu nome, que eu pronunciava “Tedrico”.
O outro, amorável, mostrando os dentes frescos, aconselhou-me que separasse as sílabas e dissesse Te-o-do-ri-co.
Depois acharam-me parecido com a mamã, nos olhos. A Titi suspirou, deu louvores a Nosso Senhor de que eu não tinha nada do Raposo. E o sujeito de grandes colarinhos fechou o livro, fechou a luneta, e timidamente quis saber se eu trazia saudades de Viana. Eu murmurei, atordoado:
- Sim, Titi.

Então o padre mais idoso e nédio chegou-me para os joelhos, recomendou-me que fosse temente a Deus, quietinho em casa, sempre obediente à Titi...
- O Teodorico não tem ninguém senão a Titi... É necessário dizer sempre que sim à Titi...
Eu repeti, encolhido:
- Sim, Titi.
A Titi, severamente, mandou-me tirar o dedo da boca. Depois disse-me que voltasse para a cozinha, para a Vicência, sempre a seguir pelo corredor...
- E quando passar pelo oratório, onde está a luz e a cortina verde, ajoelhe, faça o seu sinalzinho da cruz...
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Não fiz o sinal da cruz.
Mas entreabri a cortina; e o oratório da Titi deslumbrou-me, prodigiosamente.
Era todo revestido de seda roxa, com painéis enternecedores em caixilhos floridos, contando os trabalhos do Senhor; as rendas da toalha do altar roçavam o chão atapetado; os santos de marfim e de madeira, com auréolas lustrosas, viviam num bosque de violetas e de camélias vermelhas.
A luz das velas de cera fazia brilhar duas salvas nobres de prata, encostadas à parede, em repouso, como broquéis de santidade; e erguido na sua cruz de pau-preto, sob um dossel, Nosso Senhor Jesus Cristo era todo de ouro, e reluzia.

Cheguei-me devagar até junto da almofada de veludo verde, pousada diante do altar, cavada pelos piedosos joelhos da Titi.
Ergui para Jesus crucificado os meus lindos olhos negros. E fiquei pensando que no céu os anjos, os santos, Nossa Senhora e o Pai de todos, deviam ser assim, de ouro, cravejados talvez de pedras; o seu brilho formava a luz do dia; e as estrelas eram os pontos mais vivos do metal precioso, transparecendo através dos véus negros, em que os embrulhava à noite, para dormirem, o carinho beato dos homens.

Depois do chá, a Vicência foi-me deitar numa alcovinha pegada ao seu quarto. Fez-me ajoelhar em camisa, juntou-me as mãos, e ergueu-me a face para o céu. E ditou os Padre-Nossos que me cumpria rezar pela saúde da Titi, pelo repouso da mamã, e por alma de um comendador que fora muito bom, muito santo e muito rico e que se chamava Godinho.

Apenas completei nove anos, a Titi mandou-me fazer camisas, um fato de pano preto, e colocou-me, como interno, no colégio dos Isidoros, então em Santa Isabel. (…)."

Eça de Queiroz - Portugal (1845-1900)