sábado, 25 de abril de 2015

Tempo de Vinícius - O Dia da Criação (Porque hoje é sábado)

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Macho e fêmea os criou.
Bíblia: Gênese, 1, 27
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I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.


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II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.

Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.

Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

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III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat
e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas,
e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves
e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.

Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo,
que queres como as plantas,
imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar
durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor
e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na terra.

Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor
nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor
nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil,
imposto sobre a renda
e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terra
e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves 
e dos animais em cópula.

Ao revés, precisamos ser lógicos,
frequentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade
e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou
em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.




Vinícius de Moraes, Rio de Janeiro, Brasil - 1946
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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Quem terá sido "Jack, o Estripador"?

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Há quase 130 anos, nos finais do Verão e durante o Outono de 1888, os habitantes da cidade de Londres viveram cerca de três meses de terror, quando uma figura sinistra, surgida das sombras da noite e do nevoeiro, deixou atrás de si um rasto de mulheres assassinadas, uma a uma, da forma mais cruel.
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Com espantoso sangue frio, o criminoso mutilou a maioria das vítimas e chegou ao ponto de enviar à polícia fragmentos de órgãos humanos acompanhados de mensagens sarcásticas. Escrevendo com tinta vermelha, gabava-se dos seus feitos, garantia que nunca o apanhariam e, autodenominando-se Jack, o Estripador, inscrevia no remetente: Do Inferno.
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Os crimes ocorreram nas ruas, becos e vielas sujas do bairro de Whitechapel, habitado por uma população pobre e fartamente provido de tabernas, bordéis e antros de ópio. Muitas jovens, condenadas à miséria, enveredavam por uma vida de prostituição, calcorreando o bairro, noite após noite, década após década, indefesas e precocemente envelhecidas, até que o misterioso "Jack" chegou para lhes trazer o seu inferno.
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A primeira vítima foi Mary Ann "Polly" Nichols, de 42 anos, esfaqueada por uma lâmina de 25 cm no dia 31 de Agosto.
A segunda foi "Dark Annie" Chapman, de 47 anos, minada pela tuberculose e assassinada de forma idêntica, com o mesmo tipo de arma.
Calhou depois a vez a Elizabeth "Long Liz" Stride, de 45 anos, encontrada no chão com um cacho de uvas numa das mãos e alguns doces na outra.
A seguir, na mesma noite de 30 de Setembro, Catherine Eddowes, de 43 anos...
O último dos ataques atribuído a Jack, o Estripador, aconteceu a 10 de Novembro e vitimou Jane "Black Mary" Kelly, a mais jovem das suas presas - 24 anos. 
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O assassino parecia protegido por artes diabólicas. Surgia repentinamente e desaparecia sem deixar rasto, apesar dos fortes contingentes policiais empenhados no patrulhamento da área. Um dos crimes foi praticado a escassos metros de um agente da autoridade, que não deu por nada...
Comerciantes londrinos, preocupados com os efeitos dos acontecimentos nos seus negócios, instituíram a Comissão de Vigilância de Whitechapel, em que logo se alistaram detectives privados e inúmeros voluntários civis. "Jack" permaneceu, porém, a salvo de todas as diligências.
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Não obstante, os peritos conseguiram determinar certos padrões dos crimes.

Concluíram, por exemplo, que o assassino era canhoto e que tinha bastantes conhecimentos de anatomia, pois sabia extrair com precisão órgãos humanos. E verificou-se que todos os crimes ocorreram entre as 11 horas da noite e as 4 da madrugada. Isto não foi contudo suficiente para capturar "Jack".

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Desorientada, pressionada pela imprensa e pela opinião pública, a polícia começou a perseguir gente que, não obstante as suas características e antecedentes, se provaria nada ter a ver com as trágicas ocorrências - criminosos de delito comum, agressores sexuais conhecidos, cirurgiões e talhantes com doenças mentais.
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Espalhavam-se boatos incontroláveis. Um deles atribuía as mortes a um neto da rainha Vitória, o duque de Clarence, filho mais velho do futuro rei Eduardo VII, que sofria de alguma instabilidade mental. Os defensores desta pista faziam notar que ele fora internado num hospital de doentes mentais depois do último crime de "Jack"  e que nunca mais de lá saiu.
No entanto, investigações recentes demonstraram que o duque se encontrava a caçar na Escócia na altura em que pelo menos dois dos crimes foram cometidos...
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Montague John Druitt

Poucos dias depois do assassínio de Jane "Black Mary" Kelly (10 de Novembro), a polícia encerrou o caso e a Comissão de Vigilância de Whitechapel recebeu a informação de que o assassino confessara antes de se suicidar, por afogamento, no rio Tamisa. Contudo, a nota de suicídio, se existiu, nunca foi publicamente exibida. Muita gente suspeitou de que as autoridades tinham engendrado um embuste para proteger alguém - ou o duque de Clarence ou um agente da polícia.
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Quanto à história do homem afogado, fora na verdade retirado do Tamisa o corpo de um suicida depois do derradeiro assassínio de "Jack".
Tratava-se de um advogado, Montague John Druitt, homem de vida difícil, propenso a perturbações do foro psicológico e conhecido pelo seu  ódio às mulheres. Para visitar a mãe, internada numa clínica de doenças mentais, tinha de atravessar o bairro de Whitechapel. Isso bastou para o transformar, até aos dias de hoje, no principal suspeito dos crimes de "Jack". Mas o mistério perdurará, provavelmente, para sempre...
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Quem terá sido, de facto, "Jack, o Estripador"?
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sábado, 11 de abril de 2015

Portugal Antigo Visto Por Estrangeiros (Maria Rattazzi, os Portugueses e os Espanhóis)

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“O povo português, além da bondade de coração, da brandura de costumes, da alegria, da lealdade e do bom humor, possui ainda duas outras qualidades: a docilidade e a paciência. Não é possível que exista gente mais tranquila, mais dócil, mais resignada. Medidas arbitrárias, actos violentos, deixam-na fria, não perturbando de maneira alguma a sua inalterável placidez. É o estoicismo e o fanatismo combinados e elevados ao mais subido grau.
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A natureza do povo pode traduzir-se e entender-se mediante duas locuções que lhe são familiares.
Alude-se às misérias, aos vexames, aos abusos - eis a resposta invariável: Tenha paciência!
Diz-se-lhe que é preciso tomar uma resolução, testemunhar actividade, defender os seus direitos - resposta insubstituível: Amanhã.
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Tenha paciência e amanhã são as duas fórmulas inseparáveis da língua portuguesa, que servem para tudo e que o povo emprega a propósito de tudo.
Se morre de fome, “tenha paciência”; se se lhe oferece trabalho, “amanhã”.
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O povo português é muito cortês, muito condescendente, muito hospitaleiro, muito obsequiador e muito impressionável. Tudo isto provém, naturalmente, da bondade nativa a que me refiro.
É incontestavelmente dotado das mais belas qualidades morais; o sangue gira-lhe nas veias impetuosamente; a sua reputação de coragem e bravura não é contestada, nem pelos seus inimigos. (...) Provou-o largamente em sucessivas revoluções e na enérgica resistência que opôs ao seu vizinho.
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O rancor também não é para ele um sentimento desconhecido. Para nos convencermos desta afirmação basta ouvi-lo discretear acerca dos espanhóis. O tempo não modificou esta velha animosidade; ao contrário, agravou-a.
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Diz-se que em certas partes da Oceânia as tribos devoram os inimigos que aprisionam, condimentando-os com vários adubos. O português é “hispanófago”, e se de tempos a tempos não trinca, sob a forma de costeleta, o espanhol que lhe cai nas unhas, é simplesmente por timidez e não porque lhe escasseie o apetite.
Chamai idiota a um português, e perdoar-vos-á, talvez; mas se lhe disserdes que se parece com um espanhol, assassinar-vos-á. (…).
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Uma anedota dará uma ideia aproximada do grau de intimidade que reina entre os dois povos vizinhos:
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Certo dia, um espanhol e um português encontraram-se numa ponte estreitíssima que ligava as margens de uma torrente profunda. O português escorregou e caiu na água. (Note-se que eu não disse que o espanhol esteve na origem da queda.)
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O português, não sabendo nadar, debateu-se, mergulhou, depois voltou à superfície; foi então que, lutando contra a corrente e antes de desaparecer pela última vez, avistou o espanhol, encostado tranquilamente à balaustrada da ponte, vendo-o afogar-se indiferentemente,  com inaudita impassibilidade e sem a menor ideia de o socorrer.
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À vista disto, o português, chegando ao paroxismo do furor, fez um supremo esforço e, mostrando o punho cerrado ao espanhol, gritou-lhe: Tira-me daqui, canalha de espanhol, e poupar-te-ei a vida!
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Este ódio do português contra o vizinho explica muitíssimas coisas (…).”
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Autora do texto: Maria Rattazzi, in Portugal de Relance (Tradução portuguesa do livro "Portugal à vol d'oiseau"), Lisboa, 1882, págs. 68-70.
Maria Rattazzi nasceu em Waterford (Irlanda), em 1831, e faleceu em França (Paris) no ano de 1902.
Mulher de letras (poetisa, romancista, cronista, dramaturga, tradutora).
Espírito observador e analítico, servido por um sentido de humor apuradíssimo - e às vezes verrinoso.
Polemista temível.
Indispôs alguns dos intelectuais portugueses do seu tempo, com destaque para Camilo Castelo Branco, que a procurou diminuir num texto entre o furioso e o sarcástico.
Ela respondeu-lhe, com elegante e bem humorado desprendimento, no prefácio da tradução portuguesa do seu livro Portugal à vol d'oiseau (de onde se extraiu o texto acima).
Foi sobrinha-neta de Napoleão I.
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Quadro de abertura: José Malhoa, Portugal.
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domingo, 5 de abril de 2015

Na Páscoa - "Francisco Entre os Lobos"

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" (...) Na última entrevista a Valentina Alazraki, Francisco admite uma certa alergia face à Cúria que o rodeia, a que insiste chamar "corte" (o que, mais uma vez, põe algumas orelhas a arder à sua volta).
Defende que o debate é necessário para que "as coisas saiam. Há sempre pontos de vista diferentes. São legítimos. Mas quero que se digam as coisas de frente, que se tenha a coragem de não calar e de saber dizer não", disse o Papa.
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O perfil dos seus colaboradores está traçado. E a vontade de tornar claras as diferenças de opinião é uma das regras do jogo de Francisco.
Só que "há um momento em que tem de ser ele a decidir", diz um especialista em religião. E, pelo que se viu, não há conciliação possível, um meio termo entre as posições conservadoras ou modernas assumidas no último sínodo.
Francisco terá de escolher um lado, tomar partido, e isso, inevitavelmente, acabará por afastar um dos lados (...).
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O terreno à volta de Francisco está minado.
Marco Politi, outro vaticanista italiano, não faz a coisa por menos e lançou o livro "Francisco Entre os Lobos", em que explica como "está em curso uma batalha muito séria entre o projeto reformista de Francisco e as oposições".
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Os "lobos" estão por todo o lado, são adversários "na Cúria e fora da Cúria", estão "tanto em Roma como fora de Roma".
"Não se manifestam abertamente", diz o jornalista, mas nem por isso têm menos força.
Podem ser conservadores da doutrina, paladinos da tradição.
Mas também forças económicas que não vêem, nem viram, com bons olhos um Papa que não tem problemas em dizer que o atual modelo económico é um pecado mortal, porque o capitalismo "mata mesmo".
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Marco Politi pode estar a exagerar quando assume que "a máfia financeira foi perturbada nos seus tráficos por um pontífice que rema contra o luxo, é coerente e credível".
Por isso, se pudessem, "os mafiosos não hesitariam em pregar-lhe uma rasteira (...). Não sei se a criminalidade organizada está em condições de fazer algo, mas está a pensar sobre o assunto. Pode ser muito perigoso", diz.
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Pode ser uma posição extremada. Ninguém consegue contar as espingardas dos que estão contra o Papa Francisco.
Já dos que o continuam a apoiar há quem garanta estar seguro de que são maioritários.
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Leonardo Boff, teólogo brasileiro, expoente da teoria da libertação, defende com unhas e dentes o atual Papa, porque compreendeu como é "imprescindível abrir a Igreja" sobretudo à realidade do Terceiro Mundo, "onde vivem 72,56% dos católicos.
O Povo estará com Francisco.
A Cúria, nem por isso".
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Rosa Pedroso Lima, in E - A Revista do Expresso, Edição 2214, 3-Abril-2015, pág. 33, Lisboa, Portugal.
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(Destaques da responsabilidade da Torre).
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terça-feira, 31 de março de 2015

A "rendição" de uma menina síria

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Hudea, menina síria de quatro anos, confundiu a máquina fotográfica do jornalista com uma arma e, instintivamente, levantou os braços e “rendeu-se”.
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A imagem, captada no campo de refugiados de Atmeh, deve-se ao turco Osman Sagirli.
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Símbolo terrível do drama criminoso que se vive na Síria.
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(Fonte: revista "Visão", Lisboa, Portugal, 30-Março-2015).
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domingo, 29 de março de 2015

A Paixão da Dona Felicidade pelo Conselheiro Acácio

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"Aos domingos à noite havia em casa de Jorge e Luísa uma pequena reunião, uma cavaqueira, na sala, em redor do velho candeeiro de porcelana cor-de-rosa.
Vinham apenas os íntimos - o Julião Zuzarte, a Dona Felicidade de Noronha e o conselheiro Acácio" (já aqui apresentado - cf. 22-Março-2015).
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Foi ao correr desses serões mansos que floriram e se desenvolveram os amores da Dona Felicidade pelo conselheiro.
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Eça de Queiroz conta-nos como sucedeu:
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"Ás nove horas, ordinariamente, entrava Dona Felicidade de Noronha. Vinha logo da porta com os braços estendidos, o seu bom sorriso dilatado.
Tinha cinquenta anos, era muito nutrida, e, como sofria de dispepsia e de gases, àquela hora não se podia espartilhar e as suas formas transbordavam.
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Já se viam alguns fios brancos nos seus cabelos levemente anelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, de uma alvura baça e mole de freira; nos olhos papudos, com a pele já engelhada em redor, luzia uma pupila negra e húmida, muito móbil; e aos cantos da boca uns pêlos de buço pareciam traços leves e circunflexos de uma pena muito fina.
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Fora a íntima amiga da mãe de Luísa, e tomara aquele hábito de vir ver a pequena aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas de Redondela, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da Encarnação.
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Mal entrava, ao pôr um beijo muito cantado na face de Luísa, perguntava-lhe baixo, com inquietação:
- Vem?
- O conselheiro? Vem. (...)
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Havia cinco anos que Dona Felicidade o amava.
Em casa de Jorge riam-se um pouco com aquela chama. Luísa dizia: Ora! É uma caturrice dela!
Viam-na corada e nutrida, e não suspeitavam que aquele sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silêncio, a ia devastando como uma doença e desmoralizando como um vício.
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Todos os seus ardores até aí tinham sido inutilizados.
Amara um oficial de lanceiros que morrera, e apenas conservava o seu daguerreótipo.
Depois apaixonara-se muito ocultamente por um rapaz padeiro, da vizinhança, e vira-o casar.
Dera-se então toda a um cão, o Bilro; uma criada despedida deu-lhe por vingança rolha cozida; o Bilro rebentou, e tinha-o agora empalhado na sala de jantar.
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A pessoa do conselheiro viera de repente, um dia, pegar fogo àqueles desejos, sobrepostos como combustíveis antigos.
Acácio tornara-se a sua mania: admirava a sua figura e a sua gravidade, arregalava grandes olhos para a sua eloquência, achava-o numa "linda posição".
O conselheiro era a sua ambição e o seu vício!
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Havia sobretudo nele uma beleza, cuja contemplação demorada a estonteava como um vinho forte: era a calva.
Sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos homens, e aquele apetite insatisfeito inflamara-se com a idade.
Quando se punha a olhar para a calva do conselheiro, larga, redonda, polida, brilhante às luzes, uma transpiração ansiosa humedecia-lhe as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade absurda, ávida, de lhe deitar as mãos, palpá-la, sentir-lhe as formas, amassá-la, penetrar-se dela!
Mas disfarçava, punha-se a falar alto com um sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gotejava-lhe nas roscas anafadas do pescoço.
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Ia para casa rezar estações, impunha-se penitências de muitas coroas à Virgem; mas apenas as orações findavam, começava o temperamento a latejar.
E a boa, a pobre Dona Felicidade tinha agora pesadelos lascivos, e as melancolias do histerismo velho!
A indiferença do conselheiro irritava-a mais: nenhum olhar, nenhum suspiro, nenhuma revelação amorosa o comovia! Era para com ela glacial e polido.
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Tinham-se às vezes encontrado a sós, à parte, no vão favorável duma janela, no isolamento mal alumiado dum canto do sofá -, mas apenas ela fazia uma demonstração sentimental, ele erguia-se bruscamente, afastava-se, severo e pudico.
Um dia ela julgara perceber que, por trás das suas lunetas escuras, o conselheiro lhe deitava de revés um olhar apreciador para a abundância do seio; fora mais clara, mais urgente, falara em paixão, disse-lhe baixo: Acácio!
Mas ele, com um gesto, gelou-a - e de pé, grave:

- Minha senhora,

.................... As neves que na fronte se acumulam
.................... Terminam por cair no coração...

- é inútil, minha senhora!
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O martírio de Dona Felicidade era muito oculto, muito disfarçado; ninguém o sabia; conheciam-lhe as infelicidades do sentimento, ignoravam-lhe as torturas do desejo.
E um dia Luísa ficou atónita, sentindo Dona Felicidade agarrar-lhe o pulso com a mão húmida, e dizer-lhe baixo, os olhos cravados no conselheiro:

- Que regalo de homem!"
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Eça de Queiroz, O Primo Bazilio, Livraria Internacional, 2.ª edição, Porto, 1878, págs. 41-44.
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(Actualização ortográfica da responsabilidade da Torre)
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Ao cimo: foto (autor desconhecido) da estátua de Eça de Queiroz no Largo Barão de Quintela, em Lisboa.
Trata-se da réplica, em bronze, da estátua de pedra executada por Teixeira Lopes e inaugurada em 1903.
O original, alvo de constantes actos de vandalismo, encontra-se desde 2001 no Museu da Cidade, ao Campo Grande, ano em que, por iniciativa camarária, foi inaugurada a réplica no referido Largo (informação da Câmara Municipal de Lisboa).

terça-feira, 24 de março de 2015

O Porquinho-da-Índia

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Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-índia
foi minha primeira namorada.
,,,
(Manuel Bandeira - Brasil)
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domingo, 22 de março de 2015

O Conselheiro Acácio (que se mantém por aí...)

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Conselheiro Acácio é uma das personagens da obra O Primo Basílio, de Eça de Queiroz (Portugal).

Esta figura fictícia tornou-se célebre como representação da convencionalidade e da mediocridade dos políticos e burocratas portugueses dos finais do século XIX.

É ainda utilizada para designar a pompa balofa e a postura de pseudo-intelectualidade de muitas figuras públicas.

Deu origem ao termo acaciano, designativo de tais figuras e ditos.
………….
"Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado num colarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até à calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabelos que duma orelha à outra lhe faziam colar por trás da nuca - e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho à calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, caído aos cantos da boca. Era muito pálido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do crânio.

Fora, outrora, director-geral do Ministério do Reino, e sempre que dizia El-rei! erguia-se um pouco na cadeira.
Os seus gestos eram medidos, mesmo a tomar rapé.
Nunca usava palavras triviais; não dizia vomitar, fazia um gesto indicativo e empregava restituir.
Dizia sempre "o nosso Garrett, o nosso Herculano".
Citava muito.
Era autor.
E sem família, num terceiro andar da rua do Ferragial, amancebado com a criada, ocupava-se de economia política; tinha composto os Elementos Genéricos da Ciência da Riqueza e Sua Distribuição, segundo os melhores autores, e como subtítulo: Leituras do serão!
Havia apenas meses publicara a Relação de Todos os Ministros D'Estado Desde o Grande Marquês de Pombal Até Nossos Dias, Com Datas Cuidadosamente Averiguadas de Seus Nascimentos e Óbitos.

- Já esteve no Alentejo, conselheiro? - perguntou-lhe Luísa.
- Nunca, minha senhora - e curvou-se. - Nunca! E tenho pena, sempre desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são de primeira ordem.
..... Tomou uma pitada de uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e acrescentou com pompa:
- De resto, país de grande riqueza suína!
- Ó Jorge, averigua quanto é o partido da Câmara em Évora - disse Julião do canto do sofá.
..... O conselheiro acudiu, cheio de informações, com a pitada suspensa:
- Devem ser seiscentos mil réis, senhor Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o nos meus apontamentos. Porquê, senhor Zuzarte, quer deixar Lisboa?
- Talvez!...
..... Todos desaprovaram.
- Ah! Lisboa sempre é Lisboa! - suspirou Dona Felicidade.
- Cidade de mármore e de granito, na frase sublime do nosso grande historiador! - disse solenemente o conselheiro.
..... E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados.
..... Dona Felicidade disse então:
- Quem não era capaz de deixar Lisboa, nem à mão de Deus Padre, era o conselheiro!
..... O conselheiro, voltando-se vagarosamente para ela, um pouco curvado, replicou:
- Nasci em Lisboa, Dona Felicidade, sou lisboeta d'alma!
- O conselheiro - lembrou Jorge - nasceu na rua de S. José.
- Número setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegada àquela em que viveu, até casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo!

..... Geraldo, o seu pobre Geraldo, era o pai de Jorge. Acácio fora seu íntimo. Eram vizinhos. Acácio tocava então rabeca, e, como Geraldo tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo à Filarmónica da rua de S. José.
Depois Acácio, quando entrou nas repartições do Estado, por escrúpulo e por dignidade, abandonou a rabeca, os sentimentos ternos, os serões joviais da Filarmónica. Entregou-se todo à estatística. Mas conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquela amizade vigilante; fora padrinho do seu casamento, vinha vê-lo todos os domingos, e, no dia de seus anos, mandava-lhe pontualmente, com uma carta de felicitações, uma lampreia de ovos.

- Aqui nasci - repetiu, desdobrando o seu belo lenço da Índia - e aqui conto morrer.
.....  E assoou-se discretamente.
- Isso ainda vem longe, conselheiro!
..... Ele disse, com uma melancolia grave:
- Não me arreceio dela, meu Jorge. Até já fiz construir, sem vacilar, no Alto de S. João, a minha última morada. Modesta, mas decente. É ao entrar, no arruamento à direita, num lugar abrigado, ao pé da choça dos Veríssimos amigos.
- E já compôs o seu epitáfio, senhor conselheiro? - perguntou Julião, do canto, irónico.
- Não o quero, senhor Zuzarte. Na minha sepultura não quero elogios. Se os meus amigos, os meus patrícios entenderem que eu fiz alguns serviços, têm outros meios para os comemorar; já têm a imprensa, o comunicado, o necrológio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero apenas sobre a lápide lisa, em letras negras, o meu nome - com a minha designação de conselheiro - a data do meu nascimento e a data do meu óbito.
..... E com um tom demorado, de reflexão:
- Não me oponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores: Orai por ele!"
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Eça de Queiroz, O Primo Bazílio, 2.ª edição, Livraria Internacional, Porto, Portugal, ano de 1878 (págs. 48-51).
(Actualização ortográfica da responsabilidade da Torre).