terça-feira, 31 de março de 2015

A "rendição" de uma menina síria

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Hudea, menina síria de quatro anos, confundiu a máquina fotográfica do jornalista com uma arma e, instintivamente, levantou os braços e “rendeu-se”.
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A imagem, captada no campo de refugiados de Atmeh, deve-se ao turco Osman Sagirli.
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Símbolo terrível do drama criminoso que se vive na Síria.
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(Fonte: revista "Visão", Lisboa, Portugal, 30-Março-2015).
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domingo, 29 de março de 2015

A Paixão da Dona Felicidade pelo Conselheiro Acácio

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"Aos domingos à noite havia em casa de Jorge e Luísa uma pequena reunião, uma cavaqueira, na sala, em redor do velho candeeiro de porcelana cor-de-rosa.
Vinham apenas os íntimos - o Julião Zuzarte, a Dona Felicidade de Noronha e o conselheiro Acácio" (já aqui apresentado - cf. 22-Março-2015).
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Foi ao correr desses serões mansos que floriram e se desenvolveram os amores da Dona Felicidade pelo conselheiro.
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Eça de Queiroz conta-nos como sucedeu:
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"Ás nove horas, ordinariamente, entrava Dona Felicidade de Noronha. Vinha logo da porta com os braços estendidos, o seu bom sorriso dilatado.
Tinha cinquenta anos, era muito nutrida, e, como sofria de dispepsia e de gases, àquela hora não se podia espartilhar e as suas formas transbordavam.
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Já se viam alguns fios brancos nos seus cabelos levemente anelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, de uma alvura baça e mole de freira; nos olhos papudos, com a pele já engelhada em redor, luzia uma pupila negra e húmida, muito móbil; e aos cantos da boca uns pêlos de buço pareciam traços leves e circunflexos de uma pena muito fina.
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Fora a íntima amiga da mãe de Luísa, e tomara aquele hábito de vir ver a pequena aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas de Redondela, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da Encarnação.
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Mal entrava, ao pôr um beijo muito cantado na face de Luísa, perguntava-lhe baixo, com inquietação:
- Vem?
- O conselheiro? Vem. (...)
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Havia cinco anos que Dona Felicidade o amava.
Em casa de Jorge riam-se um pouco com aquela chama. Luísa dizia: Ora! É uma caturrice dela!
Viam-na corada e nutrida, e não suspeitavam que aquele sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silêncio, a ia devastando como uma doença e desmoralizando como um vício.
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Todos os seus ardores até aí tinham sido inutilizados.
Amara um oficial de lanceiros que morrera, e apenas conservava o seu daguerreótipo.
Depois apaixonara-se muito ocultamente por um rapaz padeiro, da vizinhança, e vira-o casar.
Dera-se então toda a um cão, o Bilro; uma criada despedida deu-lhe por vingança rolha cozida; o Bilro rebentou, e tinha-o agora empalhado na sala de jantar.
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A pessoa do conselheiro viera de repente, um dia, pegar fogo àqueles desejos, sobrepostos como combustíveis antigos.
Acácio tornara-se a sua mania: admirava a sua figura e a sua gravidade, arregalava grandes olhos para a sua eloquência, achava-o numa "linda posição".
O conselheiro era a sua ambição e o seu vício!
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Havia sobretudo nele uma beleza, cuja contemplação demorada a estonteava como um vinho forte: era a calva.
Sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos homens, e aquele apetite insatisfeito inflamara-se com a idade.
Quando se punha a olhar para a calva do conselheiro, larga, redonda, polida, brilhante às luzes, uma transpiração ansiosa humedecia-lhe as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade absurda, ávida, de lhe deitar as mãos, palpá-la, sentir-lhe as formas, amassá-la, penetrar-se dela!
Mas disfarçava, punha-se a falar alto com um sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gotejava-lhe nas roscas anafadas do pescoço.
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Ia para casa rezar estações, impunha-se penitências de muitas coroas à Virgem; mas apenas as orações findavam, começava o temperamento a latejar.
E a boa, a pobre Dona Felicidade tinha agora pesadelos lascivos, e as melancolias do histerismo velho!
A indiferença do conselheiro irritava-a mais: nenhum olhar, nenhum suspiro, nenhuma revelação amorosa o comovia! Era para com ela glacial e polido.
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Tinham-se às vezes encontrado a sós, à parte, no vão favorável duma janela, no isolamento mal alumiado dum canto do sofá -, mas apenas ela fazia uma demonstração sentimental, ele erguia-se bruscamente, afastava-se, severo e pudico.
Um dia ela julgara perceber que, por trás das suas lunetas escuras, o conselheiro lhe deitava de revés um olhar apreciador para a abundância do seio; fora mais clara, mais urgente, falara em paixão, disse-lhe baixo: Acácio!
Mas ele, com um gesto, gelou-a - e de pé, grave:

- Minha senhora,

.................... As neves que na fronte se acumulam
.................... Terminam por cair no coração...

- é inútil, minha senhora!
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O martírio de Dona Felicidade era muito oculto, muito disfarçado; ninguém o sabia; conheciam-lhe as infelicidades do sentimento, ignoravam-lhe as torturas do desejo.
E um dia Luísa ficou atónita, sentindo Dona Felicidade agarrar-lhe o pulso com a mão húmida, e dizer-lhe baixo, os olhos cravados no conselheiro:

- Que regalo de homem!"
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Eça de Queiroz, O Primo Bazilio, Livraria Internacional, 2.ª edição, Porto, 1878, págs. 41-44.
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(Actualização ortográfica da responsabilidade da Torre)
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Ao cimo: foto (autor desconhecido) da estátua de Eça de Queiroz no Largo Barão de Quintela, em Lisboa.
Trata-se da réplica, em bronze, da estátua de pedra executada por Teixeira Lopes e inaugurada em 1903.
O original, alvo de constantes actos de vandalismo, encontra-se desde 2001 no Museu da Cidade, ao Campo Grande, ano em que, por iniciativa camarária, foi inaugurada a réplica no referido Largo (informação da Câmara Municipal de Lisboa).

terça-feira, 24 de março de 2015

O Porquinho-da-Índia

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Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-índia
foi minha primeira namorada.
,,,
(Manuel Bandeira - Brasil)
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domingo, 22 de março de 2015

O Conselheiro Acácio (que se mantém por aí...)

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Conselheiro Acácio é uma das personagens da obra O Primo Basílio, de Eça de Queiroz (Portugal).

Esta figura fictícia tornou-se célebre como representação da convencionalidade e da mediocridade dos políticos e burocratas portugueses dos finais do século XIX.

É ainda utilizada para designar a pompa balofa e a postura de pseudo-intelectualidade de muitas figuras públicas.

Deu origem ao termo acaciano, designativo de tais figuras e ditos.
………….
"Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado num colarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até à calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabelos que duma orelha à outra lhe faziam colar por trás da nuca - e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho à calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, caído aos cantos da boca. Era muito pálido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do crânio.

Fora, outrora, director-geral do Ministério do Reino, e sempre que dizia El-rei! erguia-se um pouco na cadeira.
Os seus gestos eram medidos, mesmo a tomar rapé.
Nunca usava palavras triviais; não dizia vomitar, fazia um gesto indicativo e empregava restituir.
Dizia sempre "o nosso Garrett, o nosso Herculano".
Citava muito.
Era autor.
E sem família, num terceiro andar da rua do Ferragial, amancebado com a criada, ocupava-se de economia política; tinha composto os Elementos Genéricos da Ciência da Riqueza e Sua Distribuição, segundo os melhores autores, e como subtítulo: Leituras do serão!
Havia apenas meses publicara a Relação de Todos os Ministros D'Estado Desde o Grande Marquês de Pombal Até Nossos Dias, Com Datas Cuidadosamente Averiguadas de Seus Nascimentos e Óbitos.

- Já esteve no Alentejo, conselheiro? - perguntou-lhe Luísa.
- Nunca, minha senhora - e curvou-se. - Nunca! E tenho pena, sempre desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são de primeira ordem.
..... Tomou uma pitada de uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e acrescentou com pompa:
- De resto, país de grande riqueza suína!
- Ó Jorge, averigua quanto é o partido da Câmara em Évora - disse Julião do canto do sofá.
..... O conselheiro acudiu, cheio de informações, com a pitada suspensa:
- Devem ser seiscentos mil réis, senhor Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o nos meus apontamentos. Porquê, senhor Zuzarte, quer deixar Lisboa?
- Talvez!...
..... Todos desaprovaram.
- Ah! Lisboa sempre é Lisboa! - suspirou Dona Felicidade.
- Cidade de mármore e de granito, na frase sublime do nosso grande historiador! - disse solenemente o conselheiro.
..... E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados.
..... Dona Felicidade disse então:
- Quem não era capaz de deixar Lisboa, nem à mão de Deus Padre, era o conselheiro!
..... O conselheiro, voltando-se vagarosamente para ela, um pouco curvado, replicou:
- Nasci em Lisboa, Dona Felicidade, sou lisboeta d'alma!
- O conselheiro - lembrou Jorge - nasceu na rua de S. José.
- Número setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegada àquela em que viveu, até casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo!

..... Geraldo, o seu pobre Geraldo, era o pai de Jorge. Acácio fora seu íntimo. Eram vizinhos. Acácio tocava então rabeca, e, como Geraldo tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo à Filarmónica da rua de S. José.
Depois Acácio, quando entrou nas repartições do Estado, por escrúpulo e por dignidade, abandonou a rabeca, os sentimentos ternos, os serões joviais da Filarmónica. Entregou-se todo à estatística. Mas conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquela amizade vigilante; fora padrinho do seu casamento, vinha vê-lo todos os domingos, e, no dia de seus anos, mandava-lhe pontualmente, com uma carta de felicitações, uma lampreia de ovos.

- Aqui nasci - repetiu, desdobrando o seu belo lenço da Índia - e aqui conto morrer.
.....  E assoou-se discretamente.
- Isso ainda vem longe, conselheiro!
..... Ele disse, com uma melancolia grave:
- Não me arreceio dela, meu Jorge. Até já fiz construir, sem vacilar, no Alto de S. João, a minha última morada. Modesta, mas decente. É ao entrar, no arruamento à direita, num lugar abrigado, ao pé da choça dos Veríssimos amigos.
- E já compôs o seu epitáfio, senhor conselheiro? - perguntou Julião, do canto, irónico.
- Não o quero, senhor Zuzarte. Na minha sepultura não quero elogios. Se os meus amigos, os meus patrícios entenderem que eu fiz alguns serviços, têm outros meios para os comemorar; já têm a imprensa, o comunicado, o necrológio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero apenas sobre a lápide lisa, em letras negras, o meu nome - com a minha designação de conselheiro - a data do meu nascimento e a data do meu óbito.
..... E com um tom demorado, de reflexão:
- Não me oponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores: Orai por ele!"
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Eça de Queiroz, O Primo Bazílio, 2.ª edição, Livraria Internacional, Porto, Portugal, ano de 1878 (págs. 48-51).
(Actualização ortográfica da responsabilidade da Torre).

sexta-feira, 20 de março de 2015

O Bicho

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Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
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Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
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O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
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O bicho, meu Deus,
era um homem. (*)
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(*) Manuel Bandeira (Brasil)

domingo, 15 de março de 2015

Portugal à Direita - Últimas Notícias do Califado

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“(...) Um dos cancros que hoje rói a humanidade é incompreendido por muitos que se digladiam à sua volta; por isso não cessa de aumentar.

O erro começa na identificação da questão. A degradação da família e a queda da natalidade são os elementos mais influentes, porque mais nucleares, da situação presente (…). As culturas são muitas e os contornos variados, mas a tendência é geral.

Outro erro é tomar a situação presente, com casamentos desfeitos, uniões de facto e ausência de natalidade, como a nova realidade. Isso é tão ingénuo como ter achado sólida a família tradicional. Por muito que se exaltem ou abominem os chamados "novos" tipos de família, eles são voláteis (…).

É verdade que a emancipação da mulher a masculiniza, desprezando as características femininas, no esforço obsessivo de as provar capazes em jogos de homens. É verdade que, em nome da liberdade sexual radical, se abandonam dignidade e equilíbrio, sacrificando essa liberdade no altar do deboche (…).”
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Autor: João César das Neves (foto acima) – Destino Fora de Casa – Diário de Notícias – Lisboa –  Portugal -11-Março-2015

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terça-feira, 10 de março de 2015

Novo Livro - "História da Expansão e do Império Português"

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Obra da autoria de João Paulo Oliveira e Costa (que coordenou), José Damião Rodrigues e Pedro Aires Oliveira.
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Editora: A Esfera dos Livros - Lisboa
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Um livro essencial para perceber o império português, que se estendeu por quase seis séculos, desde a conquista de Ceuta, em 1415, até 1999, ano em que Macau deixou de estar sob administração portuguesa.

Da apresentação:

A Expansão portuguesa confunde-se com a própria História de Portugal.
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Situado na periferia da Europa, Portugal encontrou no mar um espaço favorável para traçar a sua configuração definitiva e para se projectar pelo Mundo, procurando no exterior o que lhe faltava em território peninsular.
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Nos primeiros séculos da expansão, Portugal rasgou o horizonte dos europeus e uniu outros povos a um destino comum, gerando novos negócios, criando novas paisagens, possibilitando a circulação de gentes, objectos, animais, plantas, conhecimentos e ideias, dando início à globalização.
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Ao longo dos séculos, o império alterou-se: se, num primeiro momento, dominou uma perspectiva de imperialismo marítimo, posteriormente o império português tornou-se predominantemente territorial.
Já no último terço do século XX, o fim da soberania portuguesa em África decorreu em circunstâncias dramáticas, num processo de descolonização  que deixou marcas profundas na política e na sociedade portuguesas.
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Os autores traçam um retrato rigoroso e exaustivo deste período, interpretando o correspondente processo histórico à escala mundial.
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Entre outros temas, analisam o comércio, a conquista, a missionação e os povos ultramarinos, com a suas civilizações e as suas organizações políticas, sociais e económicas, a que os Portugueses tiveram que se adaptar.
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LEITURA MUITO RECOMENDADA PELA TORRE
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Angola dos Nossos Corações!

.Sugestão poética e musical: Albina de Castro

Poema: Rumo (de Alda Lara - Angola, 1930-1962)

Música: Do filme Blood Diamond (J. N. Howard)

Responsável técnico: SoundtracksMusic1
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É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
da Terra ...

Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou! 

Vamos, companheiro ...
É tempo.


Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas 
e ao prazer dos teus prazeres.
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras ...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!


Vamos!
que outro oceano nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama ...


É tempo, companheiro!
Caminhemos ...

domingo, 18 de janeiro de 2015

Recado às figurinhas venais que passeiam pelos dias que correm a sua insignificante, efémera - mas muitíssimo bem paga - importância...

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Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerxes, e o Xenofonte, e o Heráclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio.
 
Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?   (*)
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(*) - Poema do Alegre Desespero, António Gedeão, Portugal.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Do fanatismo e da intolerância - O massacre dos judeus de Lisboa (Largo de S. Domingos - Abril de 1506)

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"Era na Primavera de 1506 (...).

Desde Janeiro que a peste redobrava de intensidade em Lisboa, e nos princípios de Abril era tal o progresso da epidemia que a mortalidade subia em alguns dias ao número de cento e trinta indivíduos.

Faziam-se preces públicas, e a 15 do mês ordenou-se uma procissão de penitência, que, saindo da igreja de S. Estêvão, se recolheu na de S. Domingos, seguindo-se a celebração de preces solenes. Durante elas, o povo implorava em gritos a misericórdia divina.

No altar da capela chamada de Jesus havia naquele tempo um crucifixo, e no lado da imagem do Salvador um pequeno receptáculo, que servia de custódia a uma hóstia consagrada.

No excesso da exaltação religiosa houve quem cresse ver aí, e talvez visse, uma luz estranha.
Espalhou-se logo a voz de milagre.
Ou que os dominicanos, aproveitando a ilusão, realizassem artificialmente a suposta maravilha, ou que a credulidade, fortalecida pelos terrores da peste, predispusesse cada vez mais a imaginação do vulgo para ver aquele singular clarão, é certo que ainda nos dias seguintes havia quem afirmasse divisá-lo perfeitamente.
Todavia, o voto mais comum era que essa maravilha não passava de uma fraude, e ainda muitos dos mais crentes suspeitavam que o facto existira nas imaginações escandecidas.

Durante quatro dias a crença no prodígio foi ganhando vigor.
No domingo seguinte, ao meio-dia, celebrados os ofícios divinos, examinava o povo a suposta maravilha, contra cuja autenticidade recresciam suspeitas no espírito de muitos dos espectadores.

Achava-se entre estes um cristão-novo, ao qual escaparam da boca manifestações imprudentes de incredulidade acerca do milagre.
A indignação dos crentes, excitada provavelmente pelos autores da burla, comunicou-se à multidão.
O miserável blasfemo foi arrastado para o adro, assassinado, e queimado o seu cadáver.

O tumulto atraíra maior concurso de povo, cujo fanatismo um frade excitava com violentas declamações. Dois outros frades, um com uma cruz, outro com um crucifixo arvorado, saíram então do mosteiro, bradando heresia, heresia!

O rugido do tigre popular não tardou a reboar por toda a cidade.
As marinhagens de muitos navios estrangeiros fundeados no rio vieram em breve associar-se à plebe amotinada.
Seguiu-se um longo drama de agonia..



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Os cristãos-novos que giravam pelas ruas desprevenidos eram mortos ou malferidos e arrastados, às vezes semivivos, para as fogueiras que rapidamente se tinham armado, tanto no Rossio como nas ribeiras do Tejo.
O juiz do crime, que com os seus oficiais pretendera conter o motim, apedrejado e perseguido, teria sido queimado com a própria habitação se um raio de piedade não houvera momentaneamente tocado o coração do tropel furioso que o perseguia, ao verem as lágrimas da sua esposa, que, desgrenhada, implorava piedade.

Os dois frades enfureciam as turbas com os seus brados e guiavam-nas com actividade infernal naquele tremendo labor.

O grito da revolta era: Queimai-os! Quantos cristãos-novos encontravam arrastavam-nos pelas ruas e iam lançá-los nas fogueiras da Ribeira e do Rossio. Nesta praça foram queimadas nessa tarde trezentas pessoas, e às vezes, num e noutro lugar, ardiam a um tempo grupos de quinze ou vinte indivíduos.

A ebriedade daquele bando de canibais não se desvaneceu com o repouso da noite.
Na segunda-feira as cenas da véspera repetiram-se com maior violência, e a crueldade da plebe, incitada pelos frades, revestiu-se de formas ainda mais hediondas.
Acima de quinhentas pessoas tinham perecido na véspera: neste dia passaram de mil.

Segundo o costume, ao fanatismo tinham vindo associar-se todas as ruins paixões, o ódio, a vingança cobarde, a calúnia, a luxúria, o roubo.
As inimizades profundas achavam no motim popular ensejo favorável para atrozes vinganças, e muitos cristãos-velhos foram levados às fogueiras com os neófitos judeus.
Alguns só obtinham salvar-se mostrando publicamente que não eram circuncidados.

As casas dos cristãos-novos foram acometidas e entradas. Metiam a ferro homens, mulheres e velhos: as crianças arrancavam-nas dos peitos das mães e, pegando-lhes pelos pés, esmagavam-lhes o crânio nas paredes dos aposentos.
Depois saqueavam tudo.
Aqui e acolá, viam-se nas ruas alagadas de sangue pilhas de quarenta e cinquenta cadáveres que esperavam a sua vez nas fogueiras.

Os templos e os altares não serviam de refúgio aos que tinham ido acoitar-se à sombra deles e abraçar-se com os sacrários e as imagens dos santos.
Donzelas e mulheres casadas, expelidas do santuário, eram prostituídas e depois atiradas ás chamas.
Os oficiais públicos que por qualquer modo buscavam pôr diques a esta torrente de atrocidades e infâmias escapavam a custo, pela fuga, ao ímpeto irresistível das turbas concitadas; porque, além da gente dos navios estrangeiros, mais de mil homens da plebe andavam embebidos naquela carnificina.

A noite, que descia, veio, afinal, cobrir com o seu manto este espectáculo medonho, que se renovou no dia seguinte. Mas já as hecatombes eram menos frequentes, porque escasseavam as vítimas.
Os cristãos-velhos que ainda acreditavam em Deus e na humanidade tinham aproveitado o cansaço dos algozes para salvar grande número daqueles desgraçados, escondendo-os ou facilitando-lhes a fuga, inútil até certo ponto, porque ainda alguns deles foram assassinados nas aldeias circunvizinhas.

Até terça-feira à tarde o número dos mortos orçava por dois mil indivíduos.
À medida que faltavam alfaias que roubar, mulheres que prostituir, sangue que verter, a multidão serenava, e os filhos de S. Domingos, recolhendo-se ao seu antro, iam repousar das fadigas daquele dia.

Evocação do massacre (Largo de S. Domingos, Lisboa, Portugal)

Entretanto, o prior do Crato e o barão de Alvito partiam para Lisboa por ordem de el-rei [D. Manuel I], com largos poderes.
Convocando os juízes criminais, os dois comissários régios mandaram proceder a severas investigações.

Não tardou que fossem presos os mais notáveis entre os facinorosos.
Julgados sumariamente, foram logo enforcados de quarenta a cinquenta, sendo decepadas as mãos a alguns, e esquartejados outros.

Presos, também, os dois dominicanos que haviam capitaneado a plebe, levaram-nos a Setúbal, e dali a Évora, onde, privados das ordens, os condenaram a garrote e a serem queimados os seus cadáveres.

Os outros dominicanos de Lisboa foram expulsos do convento, que se entregou à administração de clérigos seculares, sendo inibidos ao mesmo tempo os frades de tornarem à capital, prova que tinham influído directa ou indirectamente no crime.

Uma carta de lei, expedida a 22 de Maio, condenou finalmente Lisboa a perder grande parte dos antigos privilégios, por causa da indiferença ou da cobardia com que os seus habitantes haviam tolerado os atentados da plebe. Os que intervieram de algum modo no motim, dando-lhe favor e ajuda, tiveram por pena o perdimento de todos os seus bens para o fisco, e à Casa dos Vinte e Quatro tirou-se a prerrogativa de intervir pelos seus representantes nas deliberações municipais.

Debalde a câmara enviou a el-rei um dos seus membros a pedir misericórdia para a capital.
D. Manuel I declarou-lhe que era necessário dar ao mundo aquele exemplo de rigor, por um lado contra tantas atrocidades dos maus, por outro lado contra tanta negligência dos que não o eram.
Assim, a lei de 22 de Maio foi dada à execução.

Porém, as manifestações  da indignação do monarca afrouxaram passados cinco meses, e foi justamente naquela providência em que devera mostrar maior inflexibilidade que el-rei principiou a ceder.
Mandou-se restituir o Convento de S. Domingos, em Lisboa, à Ordem dos Pregadores, com a restrição de não voltarem a ele os frades que aí residiam na conjuntura do motim."    (*)

(*) - Alexandre Herculano, História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, Livro VIII.