domingo, 24 de maio de 2015

A gula dos portugueses, o marquês de Pombal e o abade de Alcobaça

.
.
.
.
"Um dia, um colega meu, condiscípulo desde os bancos da Escola Médica e bromatologista distinto, pediu-me que lhe dissesse o que se comeu e como se comeu em Portugal no século XVIII, século que passa, e com razão, por ter sido aquele em que se comeu mais - e pior.
Vou satisfazer o desejo do meu amigo (…).
.
Nós somos, evidentemente, um país de intoxicados.
Não erraria muito quem fosse até ao extremo paradoxal de atribuir aos erros e às exuberâncias da cozinha portuguesa todos os desastres políticos que nos têm afligido.
.
A nossa planturosa cozinha de artríticos, duma abundância monacal, com leitões e vitelas inteiras nadando em molho dentro de bandejas de prata, tem, pelo menos, graves responsabilidades nas grandes catástrofes nacionais.
.
Ainda há-de aparecer um filósofo de bom humor que demonstre, quando finalmente se der valor aos infinitamente pequenos da História, que Tânger e Alcácer-Kibir, por exemplo, foram dois casos vulgares de hiper-intoxicação alimentar.
.
O português comeu sempre muito -, com a agravante de ter comido sempre mal (…).
.

.
.
(…) O marquês de Pombal, mais sóbrio, vendo que no próprio paço se comia desordenadamente, voltou a fazer o que já no século XIII fizera Estêvão Anes, e publicou, em 1765, o regulamento da ucharia e cozinha da casa Real.
.
Mas desse regímen de sobriedade, que ele estabeleceu também na sua economia doméstica, resultou pouco depois um episódio curioso, quando o abade de Alcobaça, que oferecera ao marquês um jantar formidável, foi convidado, por seu turno, para jantar na casa da rua Formosa.
.
 Já no fim do banquete, para que Sebastião José de Carvalho [marquês de Pombal] mandara preparar uma coberta de princípios de copa, outra de potagens, outra de massas, outra de assados e outra de doces e frutas, com dez pratos diferentes cada uma, o marquês notou com estranheza que o gigantesco abade tinha comido devoradoramente de todos os cinquenta pratos sem beber um só gole de vinho, e fez-lho notar, com a maior cortesia, apontando o Xerez, o Porto, o velho Rheno e o Lacrima Christi que o rodeavam em garrafas de vidro doirado:
.
- Vossa Reverência não quis honrar os vinhos da minha frasqueira…
.
O abade acabou de mastigar um bocado de lombo, poisou o garfo de prata sobre a toalha de rendas, e, acostumado aos intermináveis jantares do convento, respondeu, com a maior naturalidade do mundo:
.
- É que eu, senhor marquês, só começo a beber vinho do meio do jantar em diante…
.
Todo o poema da gulodice monástica do século XVIII está nesta ingénua frase do dom abade de Alcobaça.”
..

.
.
Júlio Dantas, Figuras d’Ontem e d’Hoje
(Como se comia em Portugal no século XVIII),
Livraria Chardron, Porto, Portugal, ano de 1914  (págs. 171-178).
.
.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Fim de linha. Sem perdão.

.
.

..
Há qualquer coisa aqui de que não gostam
da terra das pessoas
ou talvez
deles próprios
cortam isto e aquilo e sobretudo
cortam em nós
culpados sem sabermos de quê
transformados em números estatísticas
défices de vida e de sonho
dívida pública dívida de alma
há qualquer coisa em nós de que não gostam
talvez o riso
esse desperdício.
.
Trazem palavras de outra língua
e quando falam a boca não tem lábios
trazem sermões e regras e dias sem futuro
nós pecadores do Sul nos confessamos
amamos a terra o vinho o sol o mar
amamos o amor e não pedimos desculpa.
Por isso podem cortar
punir
tirar a música às vogais
recrutar quem os sirva
não podem cortar o Verão
nem o azul que mora aqui
não podem cortar quem somos.
.
Manuel Alegre, ‘Resgate’, in “Bairro Ocidental”.
Dom Quixote. 2015
.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

David Olère, Judeu, no Inferno dos Alemães

.
.

Auto-retrato de David Olère. No campo de Auschwitz.
 .
David Olère foi um pintor e escultor judeu, nascido na Polónia em 1902 e falecido na França em 1985. Foi prisioneiro dos Alemães, no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, de 1943 a 1945.

Naturalizado francês em 1937, combateu pela nova pátria integrado em forças de infantaria. Após a derrota diante das tropas nazis, viu-se desmobilizado e sem emprego.

Detido pela polícia francesa colaboracionista em Fevereiro de 1943, acabou nas mãos dos Alemães, que o deportaram para Auschwitz com centenas de outros Judeus. Tornou-se o prisioneiro n.º 106 144.

Libertado pelas tropas norte-americanas em princípios de Maio de 1945, empenhar-se-ia depois em testemunhar, através de desenhos e pinturas como estas, a pavorosa experiência que tinha vivido.

.
.

.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
. 
.
.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Desejos

.
.
.
.
Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
.
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
.
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.
.
Carlos Drummond de Andrade (Brasil)
.

domingo, 3 de maio de 2015

Mães...

.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
. 
.
.
.
.
. 
.
.
.
.
. 
.
.
.
.
. 
.
.
.
.
. 

.
.
.
.
.
.
.
.
.
. 
.
.
.
.
. 
.
.
.
.
. 
.
.
.
.
. 
.
.
.
.
. 

.
.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Uemura Shoen (Japão)

.
.
 
.
.
 .
.
.
.

.
.

.
.
.

.
.
.

.
.
.

.
.
.

.
.
.
.
.
.

.
.
.


Uemura Shoen (1875-1949).
.
.

sábado, 25 de abril de 2015

Tempo de Vinícius - O Dia da Criação (Porque hoje é sábado)

.
.
Macho e fêmea os criou.
Bíblia: Gênese, 1, 27
..
I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.


.
II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.

Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.

Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

.
.
III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat
e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas,
e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves
e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.

Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo,
que queres como as plantas,
imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar
durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor
e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na terra.

Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor
nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor
nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil,
imposto sobre a renda
e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terra
e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves 
e dos animais em cópula.

Ao revés, precisamos ser lógicos,
frequentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade
e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou
em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.




Vinícius de Moraes, Rio de Janeiro, Brasil - 1946
.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Quem terá sido "Jack, o Estripador"?

.
.
.
Há quase 130 anos, nos finais do Verão e durante o Outono de 1888, os habitantes da cidade de Londres viveram cerca de três meses de terror, quando uma figura sinistra, surgida das sombras da noite e do nevoeiro, deixou atrás de si um rasto de mulheres assassinadas, uma a uma, da forma mais cruel.
.
Com espantoso sangue frio, o criminoso mutilou a maioria das vítimas e chegou ao ponto de enviar à polícia fragmentos de órgãos humanos acompanhados de mensagens sarcásticas. Escrevendo com tinta vermelha, gabava-se dos seus feitos, garantia que nunca o apanhariam e, autodenominando-se Jack, o Estripador, inscrevia no remetente: Do Inferno.
.

.
Os crimes ocorreram nas ruas, becos e vielas sujas do bairro de Whitechapel, habitado por uma população pobre e fartamente provido de tabernas, bordéis e antros de ópio. Muitas jovens, condenadas à miséria, enveredavam por uma vida de prostituição, calcorreando o bairro, noite após noite, década após década, indefesas e precocemente envelhecidas, até que o misterioso "Jack" chegou para lhes trazer o seu inferno.
.

.
A primeira vítima foi Mary Ann "Polly" Nichols, de 42 anos, esfaqueada por uma lâmina de 25 cm no dia 31 de Agosto.
A segunda foi "Dark Annie" Chapman, de 47 anos, minada pela tuberculose e assassinada de forma idêntica, com o mesmo tipo de arma.
Calhou depois a vez a Elizabeth "Long Liz" Stride, de 45 anos, encontrada no chão com um cacho de uvas numa das mãos e alguns doces na outra.
A seguir, na mesma noite de 30 de Setembro, Catherine Eddowes, de 43 anos...
O último dos ataques atribuído a Jack, o Estripador, aconteceu a 10 de Novembro e vitimou Jane "Black Mary" Kelly, a mais jovem das suas presas - 24 anos. 
.

.
O assassino parecia protegido por artes diabólicas. Surgia repentinamente e desaparecia sem deixar rasto, apesar dos fortes contingentes policiais empenhados no patrulhamento da área. Um dos crimes foi praticado a escassos metros de um agente da autoridade, que não deu por nada...
Comerciantes londrinos, preocupados com os efeitos dos acontecimentos nos seus negócios, instituíram a Comissão de Vigilância de Whitechapel, em que logo se alistaram detectives privados e inúmeros voluntários civis. "Jack" permaneceu, porém, a salvo de todas as diligências.
.

Não obstante, os peritos conseguiram determinar certos padrões dos crimes.

Concluíram, por exemplo, que o assassino era canhoto e que tinha bastantes conhecimentos de anatomia, pois sabia extrair com precisão órgãos humanos. E verificou-se que todos os crimes ocorreram entre as 11 horas da noite e as 4 da madrugada. Isto não foi contudo suficiente para capturar "Jack".

.

.
Desorientada, pressionada pela imprensa e pela opinião pública, a polícia começou a perseguir gente que, não obstante as suas características e antecedentes, se provaria nada ter a ver com as trágicas ocorrências - criminosos de delito comum, agressores sexuais conhecidos, cirurgiões e talhantes com doenças mentais.
.
Espalhavam-se boatos incontroláveis. Um deles atribuía as mortes a um neto da rainha Vitória, o duque de Clarence, filho mais velho do futuro rei Eduardo VII, que sofria de alguma instabilidade mental. Os defensores desta pista faziam notar que ele fora internado num hospital de doentes mentais depois do último crime de "Jack"  e que nunca mais de lá saiu.
No entanto, investigações recentes demonstraram que o duque se encontrava a caçar na Escócia na altura em que pelo menos dois dos crimes foram cometidos...
.
.
 


Montague John Druitt

Poucos dias depois do assassínio de Jane "Black Mary" Kelly (10 de Novembro), a polícia encerrou o caso e a Comissão de Vigilância de Whitechapel recebeu a informação de que o assassino confessara antes de se suicidar, por afogamento, no rio Tamisa. Contudo, a nota de suicídio, se existiu, nunca foi publicamente exibida. Muita gente suspeitou de que as autoridades tinham engendrado um embuste para proteger alguém - ou o duque de Clarence ou um agente da polícia.
.
Quanto à história do homem afogado, fora na verdade retirado do Tamisa o corpo de um suicida depois do derradeiro assassínio de "Jack".
Tratava-se de um advogado, Montague John Druitt, homem de vida difícil, propenso a perturbações do foro psicológico e conhecido pelo seu  ódio às mulheres. Para visitar a mãe, internada numa clínica de doenças mentais, tinha de atravessar o bairro de Whitechapel. Isso bastou para o transformar, até aos dias de hoje, no principal suspeito dos crimes de "Jack". Mas o mistério perdurará, provavelmente, para sempre...
.
Quem terá sido, de facto, "Jack, o Estripador"?
.

.