quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Angola dos Nossos Corações!

.Sugestão poética e musical: Albina de Castro

Poema: Rumo (de Alda Lara - Angola, 1930-1962)

Música: Do filme Blood Diamond (J. N. Howard)

Responsável técnico: SoundtracksMusic1
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É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
da Terra ...

Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou! 

Vamos, companheiro ...
É tempo.


Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas 
e ao prazer dos teus prazeres.
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras ...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!


Vamos!
que outro oceano nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama ...


É tempo, companheiro!
Caminhemos ...

domingo, 18 de janeiro de 2015

Recado às figurinhas venais que passeiam pelos dias que correm a sua insignificante, efémera - mas muitíssimo bem paga - importância...

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Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerxes, e o Xenofonte, e o Heráclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio.
 
Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?   (*)
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(*) - Poema do Alegre Desespero, António Gedeão, Portugal.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Do fanatismo e da intolerância - O massacre dos judeus de Lisboa (Largo de S. Domingos - Abril de 1506)

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"Era na Primavera de 1506 (...).

Desde Janeiro que a peste redobrava de intensidade em Lisboa, e nos princípios de Abril era tal o progresso da epidemia que a mortalidade subia em alguns dias ao número de cento e trinta indivíduos.

Faziam-se preces públicas, e a 15 do mês ordenou-se uma procissão de penitência, que, saindo da igreja de S. Estêvão, se recolheu na de S. Domingos, seguindo-se a celebração de preces solenes. Durante elas, o povo implorava em gritos a misericórdia divina.

No altar da capela chamada de Jesus havia naquele tempo um crucifixo, e no lado da imagem do Salvador um pequeno receptáculo, que servia de custódia a uma hóstia consagrada.

No excesso da exaltação religiosa houve quem cresse ver aí, e talvez visse, uma luz estranha.
Espalhou-se logo a voz de milagre.
Ou que os dominicanos, aproveitando a ilusão, realizassem artificialmente a suposta maravilha, ou que a credulidade, fortalecida pelos terrores da peste, predispusesse cada vez mais a imaginação do vulgo para ver aquele singular clarão, é certo que ainda nos dias seguintes havia quem afirmasse divisá-lo perfeitamente.
Todavia, o voto mais comum era que essa maravilha não passava de uma fraude, e ainda muitos dos mais crentes suspeitavam que o facto existira nas imaginações escandecidas.

Durante quatro dias a crença no prodígio foi ganhando vigor.
No domingo seguinte, ao meio-dia, celebrados os ofícios divinos, examinava o povo a suposta maravilha, contra cuja autenticidade recresciam suspeitas no espírito de muitos dos espectadores.

Achava-se entre estes um cristão-novo, ao qual escaparam da boca manifestações imprudentes de incredulidade acerca do milagre.
A indignação dos crentes, excitada provavelmente pelos autores da burla, comunicou-se à multidão.
O miserável blasfemo foi arrastado para o adro, assassinado, e queimado o seu cadáver.

O tumulto atraíra maior concurso de povo, cujo fanatismo um frade excitava com violentas declamações. Dois outros frades, um com uma cruz, outro com um crucifixo arvorado, saíram então do mosteiro, bradando heresia, heresia!

O rugido do tigre popular não tardou a reboar por toda a cidade.
As marinhagens de muitos navios estrangeiros fundeados no rio vieram em breve associar-se à plebe amotinada.
Seguiu-se um longo drama de agonia..



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Os cristãos-novos que giravam pelas ruas desprevenidos eram mortos ou malferidos e arrastados, às vezes semivivos, para as fogueiras que rapidamente se tinham armado, tanto no Rossio como nas ribeiras do Tejo.
O juiz do crime, que com os seus oficiais pretendera conter o motim, apedrejado e perseguido, teria sido queimado com a própria habitação se um raio de piedade não houvera momentaneamente tocado o coração do tropel furioso que o perseguia, ao verem as lágrimas da sua esposa, que, desgrenhada, implorava piedade.

Os dois frades enfureciam as turbas com os seus brados e guiavam-nas com actividade infernal naquele tremendo labor.

O grito da revolta era: Queimai-os! Quantos cristãos-novos encontravam arrastavam-nos pelas ruas e iam lançá-los nas fogueiras da Ribeira e do Rossio. Nesta praça foram queimadas nessa tarde trezentas pessoas, e às vezes, num e noutro lugar, ardiam a um tempo grupos de quinze ou vinte indivíduos.

A ebriedade daquele bando de canibais não se desvaneceu com o repouso da noite.
Na segunda-feira as cenas da véspera repetiram-se com maior violência, e a crueldade da plebe, incitada pelos frades, revestiu-se de formas ainda mais hediondas.
Acima de quinhentas pessoas tinham perecido na véspera: neste dia passaram de mil.

Segundo o costume, ao fanatismo tinham vindo associar-se todas as ruins paixões, o ódio, a vingança cobarde, a calúnia, a luxúria, o roubo.
As inimizades profundas achavam no motim popular ensejo favorável para atrozes vinganças, e muitos cristãos-velhos foram levados às fogueiras com os neófitos judeus.
Alguns só obtinham salvar-se mostrando publicamente que não eram circuncidados.

As casas dos cristãos-novos foram acometidas e entradas. Metiam a ferro homens, mulheres e velhos: as crianças arrancavam-nas dos peitos das mães e, pegando-lhes pelos pés, esmagavam-lhes o crânio nas paredes dos aposentos.
Depois saqueavam tudo.
Aqui e acolá, viam-se nas ruas alagadas de sangue pilhas de quarenta e cinquenta cadáveres que esperavam a sua vez nas fogueiras.

Os templos e os altares não serviam de refúgio aos que tinham ido acoitar-se à sombra deles e abraçar-se com os sacrários e as imagens dos santos.
Donzelas e mulheres casadas, expelidas do santuário, eram prostituídas e depois atiradas ás chamas.
Os oficiais públicos que por qualquer modo buscavam pôr diques a esta torrente de atrocidades e infâmias escapavam a custo, pela fuga, ao ímpeto irresistível das turbas concitadas; porque, além da gente dos navios estrangeiros, mais de mil homens da plebe andavam embebidos naquela carnificina.

A noite, que descia, veio, afinal, cobrir com o seu manto este espectáculo medonho, que se renovou no dia seguinte. Mas já as hecatombes eram menos frequentes, porque escasseavam as vítimas.
Os cristãos-velhos que ainda acreditavam em Deus e na humanidade tinham aproveitado o cansaço dos algozes para salvar grande número daqueles desgraçados, escondendo-os ou facilitando-lhes a fuga, inútil até certo ponto, porque ainda alguns deles foram assassinados nas aldeias circunvizinhas.

Até terça-feira à tarde o número dos mortos orçava por dois mil indivíduos.
À medida que faltavam alfaias que roubar, mulheres que prostituir, sangue que verter, a multidão serenava, e os filhos de S. Domingos, recolhendo-se ao seu antro, iam repousar das fadigas daquele dia.

Evocação do massacre (Largo de S. Domingos, Lisboa, Portugal)

Entretanto, o prior do Crato e o barão de Alvito partiam para Lisboa por ordem de el-rei [D. Manuel I], com largos poderes.
Convocando os juízes criminais, os dois comissários régios mandaram proceder a severas investigações.

Não tardou que fossem presos os mais notáveis entre os facinorosos.
Julgados sumariamente, foram logo enforcados de quarenta a cinquenta, sendo decepadas as mãos a alguns, e esquartejados outros.

Presos, também, os dois dominicanos que haviam capitaneado a plebe, levaram-nos a Setúbal, e dali a Évora, onde, privados das ordens, os condenaram a garrote e a serem queimados os seus cadáveres.

Os outros dominicanos de Lisboa foram expulsos do convento, que se entregou à administração de clérigos seculares, sendo inibidos ao mesmo tempo os frades de tornarem à capital, prova que tinham influído directa ou indirectamente no crime.

Uma carta de lei, expedida a 22 de Maio, condenou finalmente Lisboa a perder grande parte dos antigos privilégios, por causa da indiferença ou da cobardia com que os seus habitantes haviam tolerado os atentados da plebe. Os que intervieram de algum modo no motim, dando-lhe favor e ajuda, tiveram por pena o perdimento de todos os seus bens para o fisco, e à Casa dos Vinte e Quatro tirou-se a prerrogativa de intervir pelos seus representantes nas deliberações municipais.

Debalde a câmara enviou a el-rei um dos seus membros a pedir misericórdia para a capital.
D. Manuel I declarou-lhe que era necessário dar ao mundo aquele exemplo de rigor, por um lado contra tantas atrocidades dos maus, por outro lado contra tanta negligência dos que não o eram.
Assim, a lei de 22 de Maio foi dada à execução.

Porém, as manifestações  da indignação do monarca afrouxaram passados cinco meses, e foi justamente naquela providência em que devera mostrar maior inflexibilidade que el-rei principiou a ceder.
Mandou-se restituir o Convento de S. Domingos, em Lisboa, à Ordem dos Pregadores, com a restrição de não voltarem a ele os frades que aí residiam na conjuntura do motim."    (*)

(*) - Alexandre Herculano, História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, Livro VIII.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Hilary Hahn, um geniozinho de saias...

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Famosa violinista, mundialmente conhecida, prefere execuções a solo, ainda que se apresente também em espectáculos de música de câmara.

Nasceu em Lexington, Virgínia, EUA, em 27 de Novembro de 1979.

Por iniciativa de sua mãe, Anne Hahn (foto seguinte), cuja orientação e apoio se revelaram determinantes na sua extraordinária carreira, começou os estudos musicais no Instituto Peabody, de Baltimore, aos três anos de idade, sendo admitida no renomado Curtis Institute of Music (Filadélfia) sete anos mais tarde.
A sua estreia orquestral, como solista de violino, ocorreu aos doze anos (1991) na Baltimore Symphony Orchestra.

Executante primorosa e premiadíssima, Hilary tem-se exibido um pouco por todo o mundo, integrada em conjuntos como a Orquestra Sinfónica de Londres, a Filarmónica de Nova Iorque, a Sinfónica da Rádio Stuttgart ou a Sinfónica de Singapura.

Conseguiu uma das suas magistrais exibições na Cidade do Vaticano, em 2007, tocando para o Papa Bento XVI e seus convidados (o concerto está comercialmente disponível).

Jovem simples, de irradiante simpatia, amiga das pessoas e dos animais, Hilary é dotada de bom senso e de sentido de humor, sobretudo quando opina sobre o mundo, frequentemente hermético, da música clássica. Ela gostaria de ver aparecer nos concertos alguns espectadores de jeans e carregados de correntes, porque, segundo diz, é importante que a música chegue e pertença a todas as opções culturais: "certas pessoas esquecem, às vezes, que isto só diz respeito a música, não à forma como se age ou como se veste".

No entanto, ela espera um silêncio absoluto da plateia durante as execuções. Esclarece que isso não tem a ver com eventual snobismo ou com um respeito sagrado pela música, mas apenas com o desejo de que todos - inclusive os que tocam - possam ouvi-la. E, com o humor habitual, remata: "Música boa pode ser muito aconchegante e relaxante. Pode-se até dormir - desde que não se ressone..."

O violino de Hilary Hahn é uma cópia de um exemplar utilizado por Paganini.
Usa arcos do americano Salchow e dos franceses Ouchard, Jombar e Miquel.
Quanto às cordas, utiliza as marcas Dominant (revestidas de alumínio ou de prata) e Pilastro Gold Label (na corda mi).


Hilary e a mãe, Anne, um dos dois pilares da sua carreira, desde os 3 anos. O outro pilar é o fenomenal talento com que veio ao mundo...

A peça abaixo é um impressionante cartão de visita de Hilary Hahn.
Trata-se do Concerto para Violino e Orquestra, Op. 64, de Mendelssohn: 27 minutos de puro deleite e uma espantosa manifestação de virtuosismo da jovem e encantadora solista de violino, que "arrasta" a orquestra, o maestro, a sala e cada um de nós...

Para aqueles que não tenham tempo para seguir a peça inteira ou que pura e simplesmente não apreciem por aí além a chamada "música clássica", recomendamos pelo menos a audição de três curtos momentos:
1.º - os primeiros 2' - 30" de gravação;
2.º - dos 12' aos 13'-20";
3.º - dos 25' aos 27'-22" (o empolgante final)

Quando arranjarem tempo não deixem de ouvir na íntegra.
Hilary merece - e verão que terá valido a pena...
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Recolha e apresentação de Super Theseus. 

sábado, 27 de dezembro de 2014

O QUE FAREI SEM EURÍDICE?

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Ária: "Che farò senza Euridice?"
Duração: 8' 33"
Compositor: Christoph W. Gluck (1714-1787)
Mezzo-soprano: Teresa Berganza (Madrid, Espanha, n. 1935)
Orchestra of the Royal Opera House, Covent Garden
Maestro: Sir Alexander Gibson
Pesquisa e apresentação: Albina de Castro
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A voz plangente e maravilhosa de Teresa Berganza evoca o lamento doloroso de Orfeu, destroçado pela perda da sua muito amada Eurídice.

Eurídice, mordida por uma cobra durante a perseguição do infame Aristeu, perdera a vida e descera às trevas do mundo inferior, o Reino dos Mortos. Aí a procurara Orfeu, tocando a sua lira mágica e enfrentando mil perigos.

Hades, comovido pela agonia daquela música desesperada, permitiu a Orfeu que reconduzisse a sua Eurídice, através de caminhos tenebrosos, até à luz do sol, mas com a condição de nunca olhar para ela até lá chegar.

Orfeu cumpriu a condição quase até ao fim. Quando, porém, se virou, uma única vez, para confirmar se Eurídice o seguia, esta transformou-se de novo num espectro e, lavada em lágrimas, com um grito de agonia, foi outra vez arrastada para o Reino dos Mortos.

Orfeu, trespassado de saudade e de dor, cantou então o hino pungente de todos os grandes amores perdidos nesta vida: Che farò senza Euridice?

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O que farei sem Eurídice?
Aonde irei sem o meu amor?

Eurídice! Eurídice!

Oh Deus!
Responde!
Responde!

Eu continuo puro e teu fiel!

O que farei sem Eurídice?
Aonde irei sem o meu amor?

Eurídice! Eurídice!

Ah! Já não espero
nem socorro, nem esperança
Nem do mundo, nem do céu!

O que farei sem Eurídice?
Aonde irei sem o meu amor?

(Albina)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Novo livro sobre Angola - "Namibe, Terra da Felicidade"

Na capa: a misteriosa welwitschia mirabilis, só encontrável no deserto do Namibe


Deu recentemente entrada na Torre uma nova e imperdível publicação sobre Angola, mais especificamente uma monografia de 215 páginas dedicada à província do Namibe (ex-distrito de Moçâmedes, no tempo português), território que preenche o sudoeste do país.

A obra, patrocinada pelo Governo Provincial do Namibe e empenhadamente apoiada pelo governador Rui Falcão, foi editada pela Chá de Caxinde (Luanda).  Contém ao longo dos textos, em excelente papel, numerosíssimas e belas ilustrações, algumas de grande raridade.

Segundo informa a UCCLA (União das Cidades  Capitais de Língua Portuguesa), este trabalho corporiza a primeira monografia sobre uma província da Angola independente, ficando, também por isso, a constituir um marco histórico.

Foi lançada, pelas autoridades governamentais, na cidade capital do Namibe.

Dama mucubal regalando-se com o seu cachimbo (foto Rurukina)
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Namibe, Terra da Felicidade teve a coordenação de Miguel Anacoreta Correia e Maria Eleutéria Ornelas, e integrou o contributo de diversos investigadores e especialistas das temáticas abordadas, alguns deles nascidos no Namibe.
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A capital Namibe (ex-Moçâmedes), anos 60
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Com um Prefácio do governador do Namibe, Rui Falcão, e uma Introdução de Miguel Anacoreta Correia, o trabalho divide-se em 4 partes:

1.ª PARTE - MEIO FÍSICO, RECURSOS NATURAIS, POPULAÇÃO

2.ª PARTE - HISTÓRIA - DAS ORIGENS À INDEPENDÊNCIA

3.ª PARTE - NAMIBE: UM OLHAR NO PRESENTE

4.ª PARTE - UM OLHAR PARA O FUTURO
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As vaidosas himbas são rainhas de elegância e de beleza (foto Dror Yalon)
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Os textos de Namibe, Terra da Felicidade tiveram as seguintes autorias (com as respectivas págs. entre parêntesis):

1.ª PARTE
Fauna e Flora (25-26) - Prof. Augusto Manuel Correia
Grupos Humanos no Namibe (43-48) - Dr. Ildeberto Madeira
Mbali, Quimbares. Kimbar. Tyimbari (48-49) - Dr. Ildeberto Madeira

2.ª PARTE
Das Origens à Independência (53-102) - Dr. José Bento Duarte
Da Independência à Actualidade (103-104) - Gen. H. Dolbeth e Costa

3.ª PARTE
Urbanismo (121-133) - Arq.º Vasco Morais Soares
O Namibe nas Letras (162-168) - Dr. Manuel Rodrigues Vaz
Centro de Estudos do Deserto (168-170) - Dr. Samuel Aço
Agricultura e Pecuária (174-178) - Prof. Augusto Manuel Correia

4.ª PARTE
Agricultura e Pecuária (188-192) - Prof. Augusto Manuel Correia

(Os textos não referenciados foram elaborados pela equipa de coordenação)

O maravilhoso deserto do Namibe
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Como se diz na Introdução, Namibe, Terra da Felicidade "pode ser particularmente útil aos estudantes dos ensinos secundários e superior e seus professores, para funcionários públicos com responsabilidades de enquadramento e, também, para responsáveis por organizações da sociedade civil da Província; e ainda para todos aqueles que, por esta ou por aquela razão, têm interesse em melhor conhecer o Namibe, nomeadamente empresários ou candidatos a investidores, ou, apenas, turistas ou amigos de viajar pela leitura".

São abundantes os pontos de interesse deste magnífico trabalho, desde o pequeno ao grande facto, da pequena à grande História... Apenas a título de exemplo, ficam apontamentos que nos permitem distinguir o que há muito é confundido (o deserto do Namibe não é o deserto do Kalahari); a província do Namibe (parte integrante de Angola) nada tem a ver com a Namíbia (país independente confinante com o sul de Angola), embora ambas partilhem o imenso deserto do Namibe.

É defendida a sugestiva e consistente tese de que as cavernas e furnas do Namibe terão sido, com outros lugares de África, um dos berços da Humanidade; há ainda as invasões dos povos hereros (mucubais, himbas, etc.) que aqui acharam os primitivos habitantes (cuissis, kuepes); os navegadores portugueses do século XV, com a tese de que a desgraça política de Diogo Cão, o herói português, terá nascido defronte das terras do Namibe; as produções literárias de um surpreendentemente vasto leque de autores nascidos no território; as semelhanças urbanísticas da capital com as urbes portuguesas do Algarve; a arte inesperada e impressiva dos Mbali; os dramas e as glórias das primeiras colonizações e da luta pela independência; e muitos, muitos outros elementos de interesse desta terra fascinante entre as mais fascinantes...


O belo sorriso de um povo bom e inesquecível (foto Malanjino)
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Segundo informações que recolhemos,  os milhares de exemplares de Namibe, Terra da Felicidade destinaram-se essencialmente a Angola.

Em Portugal, os poucos exemplares restantes podem ser ainda encomendados aos balcões da FNAC.

Para entregas mais rápidas (prazo de 1 dia) é recomendado o contacto online com o distribuidor oficial português, Perfil Criativo, bastando escrever no motor de busca: Perfil Criativo. Loja. Namibe.

Se preferir o contacto por correio electrónico, use   info@perfilcriativo.net

Preço de venda ao público: € 20.

Boa e proveitosa leitura!

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Feliz Natal

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(Coros do povo Wagogo, África, num trabalho de Bovenga Na Muduma)
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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Cixi, de Concubina a Imperatriz da China

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A Quetzal lançou recentemente a obra A Imperatriz Viúva - Cixi, a Concubina Que Mudou a China, um texto fascinante de Jung Chang (celebrada autora de Cisnes Selvagens).

Cixi (1835-1908) é considerada por muitos a mulher mais importante da História da China. Proveniente de uma das mais antigas e ilustres famílias manchus, foi seleccionada, com apenas dezasseis anos, para fazer parte do numeroso harém do imperador chinês Xianfeng.

Na corte, o seu nome próprio nem sequer ficou registado na altura, pois era considerada demasiadamente insignificante para justificar tal assento. Figurou, apenas, como "mulher da família Nala". Contudo, em menos de dez anos, esta jovem decidida abriu caminho para se tornar governante da China. Após a morte do imperador, tomou o trono aos regentes nomeados por ele e, durante décadas, até à sua morte (1908) teve nas mãos o destino de um terço da população mundial.
Cixi, também pronunciado Tzu Hsi, foi o seu nome honorífico, significando "amável e alegre".

Cixi reinou em tempos historicamente conturbados, percorridos por grandes crises internas e externas. Mas conseguiu transformar profundamente o país, desenvolvendo todos os sectores e infraestruturas indispensáveis a um Estado moderno: indústria, caminhos-de-ferro, electricidade e comunicações.
Desempenhou também um papel importante em reformas sociais, abolindo, por exemplo, práticas de extrema crueldade, como a morte através dos mil golpes ou a tradição de ligar brutalmente os pés das mulheres.

Sobre esta obra, escreveu The Economist: "A história extraordinária de Cixi tem todos os elementos de um conto de fadas: é bizarra, sinistra, triunfante e terrível".

Por seu turno, o New York Magazine comentou: "Este livro de Jung Chang mergulha numa figura verdadeiramente fascinante: uma ferina consorte imperial que governou por detrás dos tronos de dois e sucessivos imperadores chineses e que conduziu a China até ao século XX. Uma história maquiavélica narrada pela autora da biografia definitiva de Mao".

Leitura altamente recomendada pela Torre.
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JUNG CHANG, A Imperatriz Viúva - Cixi, a Concubina Que Mudou a China, Quetzal Editores, Lisboa, 2014 (520 pgs.).

terça-feira, 8 de julho de 2014

Vai em Frente, Brasil: Levanta, Sacode a Poeira, Dá a Volta por Cima!

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Deixemos de lado a derradeira partida do Brasil, contra a Holanda, pois tratou-se de mero complemento da anterior, daquela que verdadeiramente conta, a do 1-7 frente à Alemanha.
E a primeira ideia a reter é a de que, por mais traumatizante que tenha sido o jogo frente aos germânicos, o Brasil não deixou de ter potencialmente os melhores jogadores e o melhor futebol do mundo! Não existe entre os dois times, de modo nenhum, a diferença de qualidade que o resultado parece reflectir.

Sucedeu ao Brasil, em versão um pouco mais cruel, mas por razões semelhantes, o que havia já ocorrido com Portugal: ambos os times cometeram o suicídio táctico de jogar abertamente com este adversário, concedendo-lhe espaços amplos, autênticas "avenidas", sem os quais a máquina germânica, comprovadamente, enguiça.

Os alemães possuem um futebol eficaz - até demolidor - se lhes oferecerem ensejo para tal. Mas, colocada perante barreiras tácticas inteligentes e disciplinadas, a sua equipa não evidencia grande imaginação e é pouco versátil.
Diante de colectivos compactos, com zonas de meio-campo convenientemente preenchidas, que defendam bem e lancem contra-ofensivas velozes, demonstram enormes dificuldades e caem num futebol recorrente, estereotipado, pobre de ideias e, por isso mesmo, ultrapassável.

Afinal, o que fez de grandioso essa Alemanha tão enaltecida pelo seu futebol?
Para além das goleadas, muitíssimo consentidas, a Portugal e ao Brasil (irmãos até na ingenuidade de seu sistema de jogo), a soberba Alemanha ganhou dificilmente aos Estados Unidos (1-0) e França (1-0) e não conseguiu vencer, dentro dos 90 minutos regulamentares, nem o Gana (empate, 2-2) nem a Argélia (0-0 - o triunfo de 2-1 surgiu apenas no prolongamento)!
Na final, contra a Argentina, de novo um empate (0-0) no tempo regulamentar, e só as oportunidades perdidas e o estoiro físico dos argentinos lhes permitiram um triunfo injusto.
Onde, portanto, a máquina perfeita, demolidora, irresistível?

O Brasil, para além da ausência de Neymar e de Thiago Silva, foi vítima do seu futebol aberto, generoso, alegremente individualista, quer dizer, do futebol que não pode, ou não deve ser jogado contra times frios e calculistas, de sistema geométrico e aproveitador, como têm a Alemanha e a Holanda.
Recordem a Espanha, anterior campeão do Mundo, que resolveu abandonar a segurança do seu sistema táctico "tipo Barcelona" e jogar aberto com a Holanda, terminando esmagada por 1-5.

O Brasil foi ainda vitimado pela pressão emocional decorrente da "obrigação" de ter de ganhar por jogar em sua casa. Só uma quebra desse tipo pode explicar o que se passou na partida fatídica: sofrer 4 tentos em 6 minutos é absolutamente anormal para qualquer equipa, mesmo amadora, quanto mais para uma selecção como a brasileira!

A Argélia, por exemplo, ensinou como se deve jogar contra a Alemanha - e a Argélia não é uma equipa de estrelas, joga inclusive com vários futebolistas de equipas secundárias, nomeadamente de Portugal.
Na partida Alemanha-Argélia (empate de 0-0, em 90 minutos), chegou a ser confrangedora a inépcia dos centro-campistas e atacantes germânicos diante daquela muralha verde, de onde brotavam, de vez em quando, contragolpes venenosos e perigosíssimos que estiveram à beira de provocar o primeiro grande escândalo do Mundial! Valeu aos germânicos, em diversas ocasiões, um goleiro como "São" Neuer...

Na Europa, ainda há bem pouco tempo, o Real Madrid igualmente demonstrou na Champions League, diante do Bayern de Munique, como se deve fazer.
O Bayern integra a maior parte dos titulares desta selecção alemã (a começar por "São" Neuer), mas, confrontado com o denso meio-campo e os contra-ataques madrilenos, acabou humilhado, em sua casa, por um contundente 0-4, que poderia facilmente ter evoluído para números impensáveis caso os espanhóis tivessem concretizado mais algumas das suas numerosas oportunidades.

Não sei se Felipe Scolari teria coragem e margem suficientes, perante a exigente torcida brasileira, para impor, em certos jogos (como esse, diante da Alemanha), um futebol colectivo de contenção, compacto, astucioso, ficando de tocaia para vibrar o golpe - um futebol semelhante, afinal, ao que hoje praticou a Argentina e que transformou a Alemanha, durante a maior parte do tempo, numa equipa repetitiva, enervada, ineficaz e vulgar. Mas não tenham grandes dúvidas de que, no processo de reorganização do futebol brasileiro que decerto se vai seguir, o caminho passará também por aí. O Brasil tem de reaprender a jogar colectivamente para poder de novo impor-se ao "cinismo táctico" dos seus principais rivais.

O golpe sofrido foi tremendo, mas acredito que desta derrota nascerá em breve uma selecção vigorosa e imparável. O Brasil é, pelas suas potencialidades, o país mais capaz de evoluir para um futebol pragmático e eficaz, apto a defrontar os modernos sistemas europeus, ou quaisquer outros, sem abdicar da fantasia e do perfume incomparável do seu maravilhoso futebol.

Por isso, vai em frente, Brasil!
Como disse a Presidente Dilma - e como diz a canção de Beth Carvalho -  "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!".

Para alegria dos Brasileiros, dos Portugueses e de todos os apreciadores do futebol com magia! 

Beth Carvalho - "Volta por Cima"
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